A Maldição do 13



Cadeia Pública de Santana do Ipanema. Uma velha gaiola, de mil e trezentos metros quadrados, de barro de massapé, cimento e ferro. Construída em meados do século vinte. Agonizante miniatura de Carandiru. Na década de setenta ganhou pavimento superior para alojamento da guarnição. Adentrar a seu interior é o mesmo que descer aos recônditos dos velhos grilhões do tempo da inconfidência no Brasil imperial. 

As oitenta e quatro vidas desumanamente enclausuradas naquelas masmorras, pelos mais variados casos. Desde assassinatos, tráfico de drogas, roubos e furtos a outros tantos pequenos delitos. Na manhã do dia 02 de fevereiro de 2007 chegou o octogésimo quinto preso, João dos Santos. 

A viatura chegou levantando poeira. Ainda algemado foi tirado às pressas de dentro do camburão e conduzido ao primeiro andar, para ser interrogado pelo delegado. Foi colocado dentro de uma pequena sala mal arejada por um ventilador de teto e iluminada apenas pela luz natural que vinha da janela. Sentado a uma cadeira em frente ao birô do delegado, João aguardava. Pouco precisou esperar, não demorou a chegar. 

-Bom dia! Por favor queira responder as perguntas que eu lhes fizer. É um procedimento de rotina, mas que fique claro, constará dos autos do processo. Tudo que for declarado aqui pode ser usado contra, ou a seu favor no julgamento. O senhor pode ainda, se recusar a responder, caso entenda que poderá prejudicá-lo. Se não puder arcar com as despesas, o estado lhe providenciará, um advogado. O senhor já tem um? 

-Não tenho não senhor. 

-O senhor chama-se João dos Santos? É casado, alagoano, agricultor tem quarenta e nove anos, nasceu no dia 11 de janeiro de 1958? 

-Sim senhor. 

-O senhor foi preso esta manhã no Sítio Queimada do Rio, zona rural deste município, depois de empreender fuga ontem à noite, de sua própria residência no Povoado Quandu, zona rural de Poço das Trincheiras, local onde aconteceu o crime. Foi pego por nosso efetivo policiamento, pelo flagrante delito de assassinato do senhor Antonio Vieira, homem branco, viúvo, aposentado, aparentando 67 anos. Para cometer o homicídio o senhor usou arma branca, uma faca peixeira. E para consumar o ato o senhor desferiu treze facadas na vítima. O senhor confirma tudo isso? 

-Sim. 

- O senhor sabe ler e escrever? 

-Não senhor. Malmente assino o nome. 

-E contar? 

-Uma conta, sei tirar. E cubar terra, aprendi com meu pai. 

-Seu João. Estive cá comigo, analisando os números que envolvem este caso. Não que eu seja muito ligado a números. Mas o senhor haverá de concordar que há muita coincidência aqui, veja: O senhor deu no homem, treze facadas pra assassiná-lo. Tanto o seu nome João dos Santos, quanto o da vítima Antonio Vieira, possuem treze letras. A sua idade 49 somando dá treze A idade da vítima 67 anos, também treze. Na data de seu nascimento temos treze duas vezes. Tanto o lugar onde aconteceu o crime, como também aonde o senhor foi preso, treze letras. Até o dia de hoje, dia da sua prisão 02 de fevereiro de 2007 a soma, treze. Você acaba de dá entrada aqui como o preso número oitenta e cinco; oito mais cinco, treze. E a cela que você vai ocupar, por ser, a que temos menos detentos, claro, será a de número treze. Aqui pra nós, o senhor não concorda que o número treze parece que lhe persegue? 

-Não tinha reparado nisso não... 

O soldado que fazia a guarda e se mantivera calado até então, pedindo permissão fez esta observação: 

-Quando pegamos o foragido doutor, era 6:25 da manhã! 

- Até eu, José Hugo Lessa, delegado que ora faço este interrogatório e decreto oficialmente sua prisão Seu João, também 13 letras no nome... Antes de despachá-lo para o cárcere, quero que saiba, sua permanência nesta cadeia será por poucos dias, logo o senhor será transferido pra penitenciária Estadual Dr. Ciridião Durval na capital. É lá que aguardará o dia do julgamento em júri popular. Dependendo de quem lhe faça a defesa, pode pegar de dez a treze anos de reclusão em regime fechado, porque foi um crime com requintes de crueldade. Como o senhor é réu primário, ao cumprir um terço da pena, de acordo com seu comportamento, será solto em seis ou sete anos. Gostaria que me respondesse ainda duas perguntas: 

-Que motivo o levou a tirar a vida de Seu Antonio? E o que o senhor estaria fazendo na Queimada do Rio? 

- Seu doutor delegado, Seu Tonho Vieira era meu sogro. Ele veio me afrontar dentro da minha casa! Disse na minha cara que a própria filha dele que vive comigo me corneava! Me chamou de corno! O velho não gostava de mim porque eu tirei de dentro da casa dele, a filha que ele mais gostava. Eu não aguentei o que ele disse, e fiz o que fiz... Agora, fui pra Queimada do Rio pra casa do meu pai, arranjar um dinheiro pra ir embora pro sul. E o resto o senhor já sabe. 

-A sua esposa, presumo que seja mais nova que o senhor? 

-Tem treze anos. 

No dia 10 de março, João foi transferido pra capital. Às 9:40h. deu entrada no Ciridião Durval, onde passou a ocupar junto com outros detentos a cela 013A do pavilhão 12-01B E no lugar de pessoa, passou a ser números: 12.37. Tinha uma esperança que viu realizar-se, chegar a Maceió pelo litoral, e assim pode ver o mar pela primeira vez. Achou tão bonito o mar, o cheiro da maresia veio pelas frestas do gradil de aço da viatura. Entrou na penitenciária ainda com o mar na pele, nos olhos, boca e narinas, por isso não sentiu de cara a terrível presença das masmorras estadual. Isso ele só iria digerir aos poucos. 

O primeiro contato com os colegas de cela, ocorreu de forma muito natural. Eram todos homens marcados por um único desígnio. Forçados a permanecer ali, por um tempo imensurável, pelos crimes que cometeram. Assemelhavam-se a viageiros duma nave cujo destino fantasticamente os espreitavam: A sobrevivência. Condenados a um mundo vertiginosamente inferior ao externo. Submundo. Os que lá se encontravam, avaliavam o novo tripulante, a cima de tudo respeitavam-no. João notou que ali não era muito diferente da cadeia de Santana do Ipanema. Existiam regras a serem seguidas. O líder do grupo procurou-o pra colocar-lhe a par destas. Ganhou o apelido de “sertão”, era o único do grupo vindo dessa região. Aprendeu novas gírias. As camas, folhas de concretos chumbadas na parede, eram apelidadas de jumenta. Se dotadas de colchão jumentas com sela. Não havia nenhuma desocupada, claro. Mas algumas estavam à venda. João comprou uma com sela, por R$ 50. Quem não podia adquirir uma, dormia “na praia”, era a dormida no chão. Um encarcerado, por assalto a mão armada, perguntou a João se ele era um “Maria da Penha”. Ele não sabia o que era isso. Explicou, tratava-se de quem “pegou cadeia” por agredir mulher. Fosse a própria, ou qualquer outra, por espancamento, estupro, etc. Não era. Os dias foram se sucedendo e muita coisa João, aprenderia, diferente do seu mundo. Aquele que deixou lá no sertão, onde podia andar pela caatinga, ouvir os passarinhos cantando com o nascer do sol, o cheiro bom de mato molhado. Lidar com a roça e com o gado, tudo isso ia ficando cada vez mais distante. Seu mundo, antes tão real, agora só em sonho podia ver. Ao despertar, acordava pra aquele pesadelo que parecia não ter tempo pra acabar. 

“Almas sebosas” era gente do mal, eles próprios consideravam irrecuperáveis, pra vida do outro lado. No outro mundo. Através deles, João conheceria o crack. A maconha já conhecia. Fazia rir a todos, com seu jeito desengonçado, a contar histórias vividas no sertão. De quando experimentou maconha pela primeira vez. Tinha dezesseis anos. Seu pai, o obrigara, a ele e a um irmão, a roçar o mato de duas tarefas de palmas. O irmão antes de iniciar o serviço acendeu um cigarro da diamba dizendo que depois de uns bons tragos, faria o serviço tão rápido que nem notaria. Ele resolveu experimentar, mas ficou tão alucinado que do serviço nada fez e acabou levando uma baita surra de chicote. 

“A Mula” da prisão, muito diferente daquela que João conhecia lá no sertão. Ali, eram os que traziam drogas pra dentro do presídio. No sertão fazia serviço pesado. Tantas vezes sonhara cavalgando, e acordava sentindo o cheiro de gado, capim e do seu cavalo que tanto amava. Considerava o cavalo o mais belo animal que Deus pos no mundo. Outro dia João ficou profundamente chocado, muito embora, fez o possível pra que os demais não percebessem. Chegou à cela um estuprador, que tinha vitimado e feito morta uma criança de apenas quatro anos. Fizeram-no vestir uma saia, maquiaram-no como a uma mulher, e teve que desfilar entre eles. Depois, um a um, praticaram-lhe sevícias assustadoras. Até uma garrafa lhe introduziram, até que sangrasse. Sem direito a contestação passaria aquele, a ser o que supria as necessidades sexuais de todos. 

Havia entre eles, um plano de fuga. Cavavam secretamente um túnel. No dia que conseguiram chegar a parte externa, a informação “vazou”, houve um motim. Várias celas foram incendiadas. Um esboço de inferno fez-se ali. Gritos, tiros, bombas de gás, correria. João resolvera que não iria tentar a fuga. Não via vantagem nisso. Melhor pagar pelo que fizera, queria ficar quites ao menos com a lei dos homens. Nesse dia três morreram e outros dez ficaram feridos entre os detentos. 

Achava ruim os dias de visitação pública. Quase todos recebiam parentes e amigos. Pra visitá-lo ninguém. Uma vez uma evangélica, bonita moça conversou horas com ele, e antes de ir-se, lhe deu um exemplar dos evangelhos, de nada lhes serviria. Acabou pros colegas as páginas se prestariam perfeitamente, pra fazer cigarro de maconha. Num dia desses, um advogado a ele se apresentou, como sendo Rogivaldo Reis, baixinho e mal encarado, que falava muito rápido, lhe procurou pra dizer sobre o andamento do seu caso. Ficou sabendo sobre a data seu julgamento. 13 de março de 2008. 

E naquele dia aprazado João foi julgado perante treze jurados. Revelado o escrutínio, dez condenando, e apenas três lhe inocentavam. Exatamente às 13:00h. Perante a assembléia de pé, ladeado por dois policiais, cabisbaixo ele ouviu o veredicto, pronunciado pelo doutor juiz de direito Abelardo Souto: 

“O réu, senhor João dos Santos, foi julgado pelo presente jurado e declarado culpado pelo crime de assassinato do senhor Antonio Vieira, no dia primeiro de fevereiro de 2007. Está condenado a cumprir, desde esta data, a treze anos de reclusão em regime fechado!” 

Seu João dos Santos ficará preso até 03 de maio de 2021. A depender de um bom comportamento poderá adquirir liberdade em 2013. Provavelmente no dia 01 de outubro, claro. 


Nota do Autor: 

O Conto é baseado em fatos reais. Surpreso ficamos ao ver a data que concluímos o conto! Pura coincidência! Acredite se quiser! 


Fabio Campos 13 de outubro de 2010. S. do Ipanema – AL.

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