OLHOS VERMELHOS


A moça precisava casar, pelo menos era o que pretendia. Os padrinhos pacientemente aguardavam na calçada da igreja. Coisas rememorava de quando ainda era menina. De quando naquela mesma igreja batizaram-na, mesmo altar, mesmo padre. Mais velho estava agora. O noivo ainda em casa trocava-se, no quarto. Os tanques de guerra lentos avançavam. Não entendia porque não produziam som algum. Apenas avançavam esmagando um céu, que um dia fora preto e branco, agora cinzento. Uma falta de ar, a encher-lhe os pulmões sufocando. Isso chegava a arder-lhe os olhos. Olhos vermelhos. À boca, gosto de nada, como se mastigasse cortiça. Gosto de vinho velho que vinha, inebriar o pensar. De longe àquela tarde antiga, de mais de quarenta. Tarde amarela de sol, voando fugindo, na velocidade que passava. E ter que descarregar tijolos de um velho caminhão. A carroceria tinha lastro quebrado. Dava pra ver pelo buraco a estrada passando ligeira. O pó da argila nas narinas, na pele, no cabelo. Só quando tomasse banho no açude se livraria da fantasia aborígene.

O pai estava na sala. A luz intensa quase cegava. Agora ia ficando cada vez mais sem visão, cada vez mais, a ver cada vez menos. Caso piorasse, e sabia que ia piorar, pediria a filha que o levasse, assim mesmo, pra feira. Se contentaria em sentir o cheiro dos bagos de jaca. O bambão leitoso, por certo jogado, ali por perto, na sarjeta. O cheiro de tempero moído, o fumo de rolo picado, os gritos do vendedor de picolé, a algazarra, uma alegria, de tantos outros significados. A carta que foi para a emissora de rádio, entre linhas de folhas de caderno, e caneta de tinta que azulava incertezas e desertos de almas e medos. Declaração magra, de amor, fraca de desejos. O maio que ficou pregado no tempo voltou, sujando o céu com suas nuvens cor de chumbo, pela manhã. E feito carneirinhos de Deus na vespertina. À nona, hora da oração da misericórdia. A igreja quase deserta. Vento nos ombros, soprando atrás das orelhas. Eu estou aqui. Não se esqueça de mim. Estarei contigo todos os dias. Te vigiando, para te guardar do mal. O mal que sempre estará em você mesmo. Guardado, grudado a sua alma, dormindo. 

Quando era criança, menina ainda, não pensava em nada disso. O pai, sentado na primeira fila de bancas da igreja. A cara de Madalena arrependida. Olhava fixo pro piso. O padre dava-lhes conselhos, que estavam pelo menos dez anos atrasados. O padre disse bem assim: Não, não é que agora seja tarde. Sempre, é tempo pra se arrepender. Ele também se confessara. Não havia sentido no que pensava. O que contara na confissão não devia ter contado ao noivo. Sem a menor intenção de fazer sentido. O noivo ficou indiferente a tudo, desde que ouviu a confissão. 

O sangue na louça branca, no apoio da pia. O espelho do toucador também ficou tinto, a torneira pingando metalicamente, bem dentro do ralo, produzindo um ruído que era como dissesse: “Foi”, “Foi”! Foi o quê? A mão direita - o corpo estirado no chão – estático, ainda segurava a navalha. O fio inoxidável calado, mesmo assim dizendo que quase não tinha sangue. Tudo parecia dizer: não sinto-me culpado de nada. Se havia culpa era somente de ser. O caminho para a serra cheio de buracos, fendas provocadas pelas chuvas. O homem da capa preta, chapéu preto, andar preto, como quem provocava poesia, ao cair da tarde. E ia sentar-se no banco de ferro e madeira, a praça dali a pouco escuro, tudo ficaria. Quase indiferente as nuvens carregadas de sofrimento, e angústia indo pra bem longe. Enquanto um balão vermelho vinha voltando quarenta e poucos anos depois, como se tivesse acabado de escapulir das cordas mal amarradas, ainda agora mesmo. A desenhar uma trajetória que dava um frio na coluna. E descia até o final da espinha dorsal. Um sentimento de leveza, de quase não existência. De apenas ficar pensado. Como se também quisesse alçar voo junto com o balão imaginário. Mas que fora de verdade fora, um dia. Os pés e a gravidade impunham sua dura lei. Agora somente os sonhos conseguiam voar, com a promessa que um dia voltaria. Sem sequer saber se um dia voltaria. E não é que voltou? 

Com ele trouxe homens, de chapéus engraçados, chapéu coco, cartolas, e mulheres de vestidos longos e sombrinhas deliciosamente delicadas. Diziam-se convidados para o casamento. As prostitutas maquiadas, com certa extravagância, de perfumes muito afetados. Os homens do departamento de saúde vistoriavam seus convites, pediam os cartões de vacina, e faziam anotações. Atestando para todas que, após a cerimônia, poderiam vender amor para quem quisesse. Um homem de baixa estatura, gorducho, de nariz redondo e bochechas avermelhadas, num canto do salão produzia uma pintura à óleo, retratava aquele momento, solene. Vez outra, fazia algumas exigências. Um copo de conhaque que nunca estava vazio. Um cinzeiro fumava e fumava. A vitrola cantava uma canção que falava de um homem perdidamente apaixonado por Dolores Sierra lá de Barcelona à beira do cais. 

Ao cair da tarde o menino foi à casa da vó. No caminho levou uns pingos de chuva. Adoeceu. Foi ficando cansado, cansado. Seu peito subia e descia descompassado. A tosse seca. A face em fogo. Os olhos vermelhos. E teve sonho com cavalos que disparavam num prado instigante. A oração apressada de quase noite, assoprava o candeeiro. O telhado chorando lacrimosamente, nostálgico. Choro de chuva, e frio. Onde estaria o gato àquela hora? Talvez no cesto de roupas sujas, se esquivando da noite molhada. O soldado, rosto de bronze e lama não podia demonstrar que sentia medo. A mãe dormia um sono leve subitamente interrompido pela chuva. Os cavalos bravios endoidecidos invadiram o cemitério. De repente uma granada explodiu quase no rosto do rapaz, atirando pra longe os dois braços que continuava segurando o fuzil. 

Não haveria casamento, o noivo travara uma luta insana, uma guerra, contra ele mesmo, e perdeu. Perdeu para a morte. O tio do menino, não mais casaria, suicidara-se. Como alguém escolhe tirar a própria vida às vésperas do casamento? As flores na jarra se cansaram de esperar. Enfadados os quitutes, o ponche. A moça vestida de noiva, uma bailarina de porcelana. Mas como isso foi acontecer? As coisas não carecem de explicação pra acontecer. Independente de agradar a uns e desagradar outros. Nem só de borboletas de asas vistosas vivem os jardins, mas também de lodo, espinhos e lama. E ficaram debruçados sobre os comentários. O gato não se animava perseguir o cassaco que viera revirar o lixo a cata de comida. A água descia pela calha levando pra sarjeta uma terra preta trazidas das telhas. Quem dera levasse os pensamentos maus. O menino sonhava que o criado mudo transformara-se num grande peixe. E mesmo virado em peixe continuava o móvel da cabeceira de sua cama. E falava pra ele ficar calmo, que tudo aquilo ia passar. O tio estava bem, apenas dormia. 

Os óculos do senhor feitor vencidos, ou seriam os seus pobres olhos? O pior é que mal conseguia enxergar as letras do grande livro. Palavras, letras, frases se desaprumavam da página amarelada. Ameaçavam desabar, vertiginosamente sobre seus sapatos bolorentos. Letras, ora obesas, ora desnutridas iam e vinham cirandeando nas folhas alvas avançando pra sua face. Um baile dantesco de grafos zumbis zumbindo. Olhos vermelhos. Fechava o olho esquerdo, e tinha a impressão de melhorar, mas não muito. Não haveria casamento. 

Os convivas se puseram a servir-se por conta própria. Quando se fartassem iriam embora. As prostitutas sorriam sorrisos líquidos, cintilantes, de baton e ruge carmim, de lábios lânguidos a beijar e marcar, tulipas de champanhe, cálices de vinho. O pó de arroz, o espelho do toalete. A mão enorme, tapou-lhe a boca. Enquanto a outra buscava seu sexo. Tornando púrpura a flor de menina. Não tinha forças para reagir a seu pai, um monte de músculos, o sexo rijo. O homem tão familiar, entrando com força dentro de seu corpo virginal, infante. Por certo não seria um homem mau. O pai não é homem mau. 

Não mais haveria casamento. Pobre rapaz, duro demais suportar tal confissão, vinte anos depois. Quem sabe uma missa, um velório. Qualquer coisa que precisasse daquelas flores brancas. Rosas, cegas de sono amparadas pela luz das velas. Bêbadas do cheiro náuseo de alfazema, e cítrico de casca de laranja. O choro arrendado as carpideiras, pagamento antecipado. As ruínas causadas pela guerra, além dos campos de batalha. Verdades escondidas por muito tempo, destruíam lares que sequer começaram, destroçavam almas de gente que ninguém, nunca, jamais falaria. O carro preto parado na porta. O menino não iria ao sepultamento do tio, ainda estava muito debilitado pela asma.

O gato ficou olhando de longe. O movimento demasiado nos cômodos da casa acabaria por expulsá-lo da rotina, de brincar com o novelo de lã, de deitar no sofá, espreguiçando-se nas almofadas que esquentavam ao sol da janela. A barricada de sacos de areia continuava lá. Intrépida, inexorável, cruel. Os soldados de ferro e fogo. Bom seria se nada daquilo fosse real. Ao invés disso preferia o muro de arrimo, da praça alegre. As muretas amorcegadas de meninos. Encostadas suas bicicletas velhas, descoloridas, de selim e pneus estragados. A rua descia com sua algazarra. Os soldados que retornaram desfilariam garbosamente levantariam a bandeira, bem alto ao mastro. Tocariam com orgulho os clarins, as fanfarras, garbo hino estatal. 

O menino sentado no sofá, vindo de um domingo diferente, que ficaria pra sempre, amarrando os cadarços dos sapatos gastos, eternamente gastos. A fotografia em preto e branco, de calças curtas. As pernas nem alcançavam o chão. O quadro do sagrado coração de Jesus, na parede da sala, que ia ficando cada vez mais estreita, desagigantando-se, amofinando, na velhice, do menino velho. Empurrando os sonhos pra bem longe. Pra onde o dirigível pudesse levar E que só daria pra alcançar se voasse no balão vermelho. 

As cartas que foram lidas na rádio. Como conseguiram sobreviver tanto tempo? Cartas a desmorrer gente e sentimentos de outros tempos. As cidades subterrâneas Emergidas das profundas, para onde a guerra haviam-nas empurrado, que julgavam perdidas para sempre. O choro contido da noiva do soldado. Olhos vermelhos. O retrato da amada, amarrotado ficou na carteira, resquício de humano no meio da guerra. O menino, se sabia, não demonstrava o quão achava bom ir pelo caminho de criança. E sonhava. Enquanto não vinha o sono de pedra, a acabar com o sonho.


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