Lá estava, um rapaz, sentado no banco da praça, da sua cidade. Cidadezinha interiorana. Parecia cenário pitorescamente tirado de romance vivido no sertão. De um tempo, tão lá para atrás, que os homens ainda trajavam ternos, gravatas e usavam chapéu coco. E as mulheres desfilavam sua feminilidade, nos seus longos vestidos cheios de babados. Uma praça, rodeada de bancos, um coreto pintado com esmero. Enfeitado com bancos, encimado de ferro, madeira e telhas de cerâmica, com eira e beiras. Rodeado de jardins arejados e floridos. Uma igreja de única torre lateral, um campanário. A escada de acesso, carecendo de reforma. Tudo assim, tão envelhecido. As cores, parecia que haviam fugido, depois, de tanto sol, que tantos e tantos anos, as castigaram. O sol daquela manhã, algo em si havia, um gatilho, um disparo, um estouro. Para todo mundo, uma bola de fogo que dizia: levanta-se, vai que a vida te espera. Vem, vem beber um pouco dessa energia, permita-me que entre pelos poros, pura vitamina, gratuita.
João, esse era o nome dele. Para ele, o sol, não era assim. Nunca fora, jamais algo animador. O astro-rei deixava-o desnorteado, causava-lhe confusão de pensamentos. As casas pareciam dançar. Um bailado gutural. Sob a sinfonia do dia, que avançava. As flores do canteiro, gotejavam sangue, as vermelhas. E um mel viscoso, as amarelas. Borboletas gigantes esvoaçavam sobre sua cabeça. Farfalhavam suas enormes asas, e zumbiam um zumbido, que lhes atordoavam as ideias. Algo que, em instantes, lhes explodiriam os tímpanos. O céu ficara violáceo. Teve náuseas, ânsia de vômito. De repente, viu-se caído, na grama do jardim.
Cambaleante, dirigiu-se para casa. Um apartamento acanhado, imprensado entre o sobrado e a igreja. O portão antes da escadaria, ao ser aberto, rangeu sob as ferrugens de suas dobradiças. Se escorando nas velhas paredes, arfando, galgou os mais de vinte degraus que o separava da calçada ao interior do cômodo.
Lá dentro, parecia ainda menor. O apartamento se compunha de um único vão. Ocupado por um sofá, uma mesa, três cadeiras, uma pequena estante com alguns poucos livros. Uma meia parede dividia a cozinha. Ao lado ficava o banheiro. No fundo, havia uma janela que arejava, e iluminava o ambiente. O que mais havia ali eram gatos. No tapete, sobre as almofadas. No sofá, no umbral da janela. Eram sete ao todo. João concebera um a um. Conversava o tempo todo com eles. E os adotara à medida que foram aparecendo. Eram como se fossem filhos, melhor dizendo, como se fosse sua família. Sua única família.
Alexandra, era uma gata, a única que gostava de banho, e o acompanhava toda tarde na hora do asseio. Júlia, outra gata, fazia-lhe companhia nos momentos de preparar as refeições. Breno ajudava na hora da limpeza. Carlos lhe acompanhava na hora de leitura. Roberto, era o vigia, aquele que cuidava da segurança da casa, insetos, ratos, morcegos, serpentes, anfíbios, ou qualquer outro elemento invasor, era ele que cuidava de enxotar, ou eliminar. Miguel, o místico, para os momentos de oração. Antônio a companhia na hora de dormir.
João entendia os gatos, e os gatos o entendiam. Mas isso não aconteceu assim, da noite para o dia. João, um dia, tivera uma família de verdade. Os pais de João moravam naquela casa, ao lado. Todos haviam morrido em um trágico incêndio, numa noite de festa de final de ano. Morrera naquela fatídica noite de revellion, seus pais e seus cinco irmãos. O velho sobrado, que guardava os traços arquitetônicos, do início do século vinte. As oito janelas encerradas com madeira, tiradas da mata, de quando tudo ali era rodeado de mata fechada. O povoado foi crescendo em torno daquele casarão, e da igreja. Daquela família o único que escapou do trágico incêndio fora João, porque morava na capital da província. Aonde tinha ido morar pra estudar Direito. Para nunca esquecer de seus familiares, João dera o nome aos seus gatos, dos seus pais e irmãos, perecidos no trágico sinistro. Antônio era seu pai, Júlia sua mãe, e os outros seus quatro irmãos, e uma irmã, Alexandra.
Escravos foram mortos naquela pracinha do coreto. Os gatos de João, de lá de dentro do apartamento, eles tinham visões. Os gatos, eles conseguiam ver cenas do passado acontecendo, em tempo real, no paço municipal. Naquela manhã o Entendente Municipal tinha ordenado a divulgação de uma execução. Dali a pouco a morte de um escravo iria acontecer, em pleno dia de feira livre. Os ambulantes, as senhorinhas, os comerciantes todos. As pessoas parariam seus afazeres, até as crianças que brincavam na praça. Todos parariam para presenciar o macabro espetáculo, o enforcamento de escravos na pracinha do vilarejo era acontecimento cívico. Naquela ocasião, havia entre os apenados um que era muito velho. Enquanto o algoz era um homem descomunal. E este, fora tão violento com o puxão na corda, que a cabeça do infeliz se desprendeu do corpo. Caiu e rolou até a via pública. A cabeça parou justamente com os dois olhos esbugalhados como estavam agora, olhando em direção ao apartamento de João. Miguel arregalou os olhos, eriçou os pelos desde a cabeça até a calda, levantando a cabeça soltou um grotesco miado que encheu de pavor os demais gatos.
A tarde se pronunciou com chuva. Aquela noite de meados de janeiro, tinha muitas coisas para rememorar. Festas natalinas passadas, confraternização de ano novo, pra recordar. Alguns muito bons entre família, outros, não tão bom assim. João, abriu uma garrafa de vinho. Aquela vaporosa noite de janeiro, tão convidativa, merecia um brinde, a vida. Também a morte.
Os gatos estavam todos ao seu redor. Após várias taças de vinho, João resolveu que chegara a hora, de confidenciar, as suas mais importantes companhias, os seus gatos, um segredo que guardava há anos. O incêndio, que motivara a morte de seus entes queridos, pais e irmãos, não fora acidental. Havia sido encomendado por ele, a um capataz da fazenda do seu pai. A ele o gratificou muito bem, e fez com que sumisse dali.
A embriaguez do vinho, a música alta do gramofone, não permitiram a João perceber, muito menos se defender, do ataque mortal de sete gatos, que dilaceraram sua jugular, a aorta, arrancaram seus olhos, desfiguraram seu rosto. O som de um violino tocava muito longe. Naquela noite, o que se via, era a lua projetando na rua as sombras, de um sobrado.

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