A ARMA Conto. 09 de Agosto de 2026.









Flagrante de um belo sair da lua Cheia no Sítio Calango Verde. Zona rural de Senador Rui Palmeira-AL.


A lua cheia. Translucidamente vagando sobre uma tarde entre brancas nuvens, de céu azul, tendo logo a baixo o frenesi de um dia de feira. Um sábado do tamanho da cidade. Em suas vias, suas praças, igreja, bares, especificamente nesses dias simplesmente a urbe implodia. Turbilhão de gestos, profusão de vozes. Titânica massa cheia de intenções, algumas boas, outras más. As mentes cheias de vontades, de fazeres, de afazeres, de buscas, de ganhos, de achados, e de perdidos.

E parecia que tudo o que menos importava era um bando de pardais discutindo relação. Pior, acabando indo as vias de fatos. Dois deles se engalfinharam, e se esqueceram que estavam a metros do chão. Do alto do beiral do mercado caíram embolados, foram se esborrachar na via pública. Por pouco não foram trucidados por um automóvel que velozmente seguia seu trajeto. As andorinhas mais parcimoniosas preferiam a tranquilidade dos quintais, a companhia dos saguis. A disponibilidade de mamoeiros, goiabeiras, mangueiras. Não esperariam a assembléia das garças, nem tampouco se incomodariam com os tratados inventados pelas aves de rapina que tentavam ditar regras. Gaviões, abutres detestavam o “modus operandis” de seus parentes equidistante os urubus. Para eles, pouco importava a arrogância, a empáfia, sabiam da lei que vigorava tanto na selva, quanto na cidade: a lei de que só os mais forte sobreviveriam.       

 O homem, sabia exatamente o que iria fazer, naquela manhã de sábado. Acostumara a trazer tudo meticulosamente anotado, numa pequena caderneta anotava. Uma prática trazida da juventude, de quando vendia carvão, na carvoaria do pai. A lápis grafite, grafava, com letras que pareciam caroços de milho, de tão feias. Em ordem cronológica escrevia sucintamente o que ia fazer, ao longo do dia, a cada dia. No alto da folha colocava a data com números: dois dígitos para o dia; uma barra; um dígito para o mês, mais uma barra; e com dois dígitos fazia o ano. Com fé em Deus, dizia, cumpriria sua missão cotidiana. Primeiro compromisso para o turno da manhã. Anotava: Manhã: comprar bananas, café torrado, fumo picado; segundo compromisso para o turno vespertino. E escrevia a palavra, Tarde: Logo a frente fizera o desenho de um pequeno círculo, com um xis sobrepondo-o. E a frente desse símbolo, o nome de uma mulher: Esmeralda. Era um código, que só ele entendia. O que significava? “Matar Esmeralda”.   

A rua, cheia de gente, indo e vindo. A rua, nem se incomodava mais com o burburinho provocado pelo povo, na feira. Acostumara-se com o sufoco dos prédios, das construções terminadas, de outras tantas em andamento. O tráfego intenso, a disputa dentre carroças de burro, carregadores de estivas, meninos e homens que faziam frete de feira. Espaçosa, vadia, vagabunda, assim se dizia a rua: Meretriz. Se entregaria a quem pagasse melhor. Uma vez negociado o valor, seria usada, lambuzada, abusada, ao bel-prazer de quem pagasse. Às vezes se submetendo aos caprichos de seres sádicos, psicopatas, possessos, perturbados mentais. Feirantes, compradores, viajantes, forasteiros, aventureiros, salteadores, gente da melhor e da pior espécie. Tudo aturdidamente mesclado, sem o menor remorso faziam, sem o menor pudor usavam, e depois se iam. Simples assim. Depois, iam embora, Deixando para trás um rastro de nojeira, fezes, urina, mau cheiro, lixo. Garrafas quebradas, uma orelha, um olho humano, sangue. Rua, depois da feira, esgoto a céu aberto. Rua, aberta ao céu, o tempo todo jamais tirara os olhos de lá. A prestar atenção. Afinal, era para lá que se dirigia.

A placa de latão, pintada de branco, com letras azuis: “Rua do Sol”, afixada bem na quina do museu. O sol, entediado, resvalava por cima dos toldos. Mexia e remexia com quem estava inquieto, coçava o pelo do cachorro, afobava as orelhas dos jumentos, cansados. Os bichinhos, tão cansados acabavam se deitando no cimento quente das calçadas, aquecido. Enxadrezado, acinzentado, rude paralelepípedo. Ali mesmo urinava, vomitava suas línguas de fogo em brasa. Tomaria toda água que seu ventre suportasse. Lá ia o astro-mor se intrometer nas cores da sobrinha, da moça que ia, desenhando disformes e invisíveis figuras. Enormes rabos de perfumes captados pelos olfatos aguçados. O deus Osíris apontava sua lança para o alto da torre, os menos desavisados chamavam aquilo de pára-raio. A deusa Minerva vigiava do alto de um sobrado o que restaria ao final daquela batalha: inumanos e humanos sem vencedores, só derrotados. Amornava as asas dos pombos que catavam migalhas, pelas calçadas. Ao tempo que marchavam, defendiam suas fêmeas. Arrulhavam, arrulhavam, só para impressionar. E quando fosse bem de tardezinha, ia indo, ia indo, até sumir no horizonte.

A moça via-se por inteiro, refletida no espelho do quarto. Olhos grandes. Analisava o rosto, e todo o corpo. Enquanto alisava os cabelos. O frescor do banho que havia tomado avivara-lhe o espírito, abrira-lhe os poros, ativara a circulação. Doce perfume a embalar a mente. Toque cítrico ativando os pensamentos. Estava decidida, outra vez se encontraria com seu namorado. Entregar-se-ia ao prazer com ele. Decidida, a mudar de vida naquele sábado. Seria naquele. Daquele não passaria. Escolhera aquele final de semana, para acabar com a vida de sua mãe. A idosa de noventa e seis anos, muito já vivera Na sua concepção tinha que morrer. Prostrada em cima de uma cama, com demência, pelo mal de Alzheimer.  Afinal, já havia dez anos que cuidava dela. Não suportava mais, quem já estava ficando doente, propriamente, era ela.

Ir pela rua, fazia de cada um, parte de algo grandioso, místico. Andar a rua e a vida pareceria mais leve, mais intrigante, interessante. Avivando o branco do terno e do chapéu de massa dos citadinos. Andar pela rua renovava a alma dos viventes e dos manequins nas vitrinas. Zé Pilintra só andava assim, bem elegante, terno gravata, chapéu e sapatos envernizados. O preto velho cutucava o saci que doidamente passou rodopiando e derrubando, por pirraça, as bugigangas dos mascates, que se valiam dos santos do sertão: Valei-me meu padinho Ciço e padim Frei Damião! E tudo isso se revertia em fé. E ajudava a enternecer os problemas da gente humilde, que os cartões postais procuravam esconder. O prédio do correio parvo de secularidade, o jardineiro absorto em suas tesouradas na relva, o pipoqueiro pipocando, em manteiga derretendo-se de calor, o menino jornaleiro quase virando ao avesso, em gritaria. Enquanto o negro engraxate, era, pura calmaria. Tárcila do Amaral aqui, material suficiente para centenas de telas teria. E o que parecia diáfano concretamente se materializaria. Está sentindo? Cheiro de tinta.  

O moço, encostado no poste da esquina. Um livreto de poesia a ocupar-lhe os olhos. Letras refletidas no translúcido par de óculos. Absorto em pensamentos. A poesia ia, e vinha, e esperaria pacientemente que virasse um cadáver. Ou arranjasse um. E se diluiria por entre suas preocupações e desejos. Assim, feito oração rezada sem fervor. Quem sabe virasse frase de sua lápide. O ônibus, amarelo e preto dizendo com sua carga e seu letreiro que escola era destino. Os pardais displicentemente pousados sobre os fios. Desconheciam o perigo que os rondava, a poderosíssima corrente elétrica fluía sob suas frágeis garras. Aviões enormemente pesados, desafiando a gravidade levantavam vôo, carregados de sonhos, encomendas, embaladas para presente, transportando doenças e doentes incuráveis, disseminando dúvidas, incertezas pelo mundo a fora. Indo, em missões importantes, sabia-se lá pra onde.

Célebre encontro semanal, a que todos se propunham participar. Belo encontro social. Junção quase perfeita, de seres vivos, e entes mortos. Gente almada e desalmadas, tudo junto. Assim era a feira. Caldeirão fervente de sentimentos, desejos, provocações, realizações, frustrações. Uma salada de frutos incomuns, frutas temporãs, exóticas, legumes, verduras, cereais vindos de lugares distantes, que ninguém jamais saberia o trabalho que dera pra chegar até ali. Negros teriam sido explorados, mulheres teriam perdido filhos, e suas filhas tiveram que se prostituir para não morrer de fome. Mercadorias embaladas na surdina, às pressas. Ensacados sem a menor higiene, para viajarem na escuridão da madrugada, e evitarem passar nas alfândegas, e nos postos fiscais.  Bolachas, barras de doce, pastéis, caldo-de-cana, fubá. Mulheres benzedeiras e suas ervas medicinais, tudo meticulosamente ensaiado para funcionar bem, para vender, para obter algum lucro. 

Gastaram suas vidas anos a fio naquela lida. Guardas que perseguiam, e caçadores de aves e pequenos animais que fugiam, defendendo cada um, seus interesses. Passarinhos engaiolados, apinhados em ínfimas combucas de dois olhos. De onde agora viam o mundo por outro ângulo. Através de portinholas, do tipo guilhotina. Redes de pesca pendidas debaixo de um pé de algaroba. Cena surreal. Semelhava ninhos de alienígenas, teias de aranhas gigantes. Quebra-queixo, tapioca, bolo de massa puba, pé-de-moleque, bolo na palha de milho, bolo na palha de bananeira. Um extraterrestre passou pela feira do rato. Observou tudo detalhadamente. A verdade é que ninguém, ninguém sequer o percebeu. Provou beju, água de coco e tapioca. Rapazes tiraram fotos ao lado de sua moto, que ficou estacionada com frente ao bar de Seu Nelinho.

Um menino, seria sempre um menino. No sertão nordestino, na Arábia, na Turquia, na índia, ou na Palestina. Naturalmente qualquer ser em tamanho reduzido com as características de um humano, se não fosse uma menina, indubitavelmente seria um menino. Bermuda, surrada e suja, camiseta, idem.  Nos pés empoeirados, chinela de dedo. Na cabeça um boné, a lhes servir de proteção, contrapeso, para os causticantes e implacáveis raios de sol. Boné, formidável adereço de cabeça. Alívio para os pensamentos cabeludos, que nenhum pente conseguiria pentear. Na hora da confissão o padre o desencorajou a fazer aquilo, e com veemência diria que aquilo seria pecado grave. Se sua mãe soubesse, certamente lhe daria uma surra. Mas estava decidido para o que se propunha fazer. Naquele sábado estava exatamente com uma semana que fora fretado, com seu carrinho de mão para levar a feira, da casa da moça bonita, a filha da velhinha. Entrou pela garagem, na volta, na hora que ia saindo achou de remexer num baú que estava ali largado, empoeirado. Dentro, entre outras coisas, havia uma pistola, uma quarenta e cinco milímetros, toda municiada, na cartucheira. Foi paixão a primeira vista. Estava fazendo, exatamente naquele sábado, uma semana que sonhava todos os dias em pegar aquela pistola. Ficaria ali, aguardando a moça bonita. E ela viria.

Cães, eles sabem exatamente onde precisam estar, aonde devem ir, dia de feira. É questão de sobrevivência. Uma turba de cães, à porta do mercado da carne. Disputariam cada osso jogado pelos marchantes, os vendilhões de carne. Os interesses não são exclusividades dos humanos. Cães vivem em sociedade, dividem espaços, disputam parceiras sexuais. Rosnam, latem e mostram os dentes. Fazem caras e bocas dependendo da necessidade. Entre um bando de cães existem os mais afoitos, os que se aventuram, os que se arriscam numa empreitada pelo pedaço de carne. Ainda que isso lhe custasse uma cacetada, de olho de machado, uma lapada de facão nos espinhaços. E uma briga podia acontecer a qualquer momento, entre homem e cães, e mesmo entre os próprios cães. Fatalmente alguém sairia ganhando ou perdendo. Um olho, uns dentes, um pedaço de orelha, uma nesga de couro das costas.         

Cachaça no balcão, homens novos, velhos meninos, boi-de-barro, jarros de argila, moinho de milho caçuá, cangalha, esteiras de piri-piri, balaio, embornal, carrinho de mão, carrinho feito de lata de óleo, pirulito de mel de açúcar. Broa, tão branquinhas daquelas que derretiam na boca. A moça pôs uma flor no cabelo, virou tema de uma tela, um retrato de Di Cavalcanti. A porta do cabaré raparigas, cafetões, soldado de polícia, pirangueiros, jogadores de pôquer, boêmios, trajados de roupa branca, de suspensório. Zé Torreiro, e Ciço Mouco passaram a madrugada abatendo suínos, fazendo linguiça de porco no açougue de Seu João Soares. Agora era hora de se divertir, no cabaré de dona Brejão.

Um menino, um homem, uma mulher. Três viventes, três criaturas no mundo de humanos, desumanamente  impelidas a abomináveis planos.  Anjos do mal as acompanhavam. Convencera-os a realizarem maquiavélicos projetos. Arvorados no pretexto de realizações pessoais. Diante das situações em que se encontravam. Levados a acreditarem que o que fariam, poderia trazer-lhes alguma realização pessoal. Ledo engano.

Um pé de castanhola na porta da prefeitura, forrava o chão com suas enormes folhas, em tons sanguineos, e seus frutos cor de vinho. O rio, as canoas, a areia fofa, molhada. O consultório do dentista, o palhaço mambembe. As marionetes, as bandeirolas que sobejaram do são João. Os meninos que alugavam bicicletas a Cosme e Damião. Sapato envernizado. Velocípedes, patinetes, carrinhos de tábuas de descer ladeiras. A fazerem riscos, e versos no calçamento, cimentado. Bola de gude, ferro de finca, arraias, piões. A igrejinha de Nossa Senhora da Piedade, ou seria Nossa Senhora da Soledade? O mercado do peixe, a bodega de Seu Ozéias. A casa de esquina de Seu Artur e dona Mirian. Tudo ia, aos poucos se ajeitando.

O pior já passara. Belzebu palitava os dentes. Com seu tridente aproveitou-o para coçar o couro cabeludo. Pensativo, desanimado com o saldo nada animador do final daquele sábado. Sentado sobre o espinhaço de um bêbado arriado, a porta do bar de Seu Lira. Olhou prum lado, olhou pro outro, cuspiu. De raiva, deu uma fungada tão forte que tapou o mundo com uma nuvem cinza, fedorenta a enxofre. E foi dizendo: Arre égua! Nada de interessante acontece nesse fim de mundo! E sumiu. 





 




 

“E si tu n’existais pás/ Dis-moi pourquoi j’existerais?" Conto 29/07/2026.

Imagem obtida da ponte do Riacho Camoxinga . Ao fundo Serrote do Gonçalo.


Uma casa rústica, uma beira do cais. Um alpendre, um ser havia de ser. Um ser haveria de estar àquela cadeira de balanço. Uma bela mulher. Um ser haveria de estar, naquela rede, um belo rapaz. Ambos, sentindo o sabor do vento que vinha do mar. Também naquela cena, uma caneca de cerveja. Caneca branca, de louça, louçã. Perdendo frieza, ganhando calor, sobre um tamborete. A rua, de pedras largas, devagarmente afundando, ficando toda desigual. A se ver tão triste, ainda mais triste que antes do padecer do sol. A empatia da rua, o humor da praia, a depender de que lado batia à salina. Na casa dos passarinhos, gaiolas no jardim, tudo tão educadamente falante. Dizedores de coisas, que acabavam virando cousas. E Deus via que tudo, tudo era muito bom. Melhor era, não pensar em mais nada.

Tudo ali, nunca mais seria igual, ao carnaval do ano passado. Ainda que aparentemente parecesse. Não era. Jamais seria. Mesmo, no exato momento em que a orquestra ia passando. Poderia passar, o tempo que fosse. Nunca, jamais esqueceria, daqueles dias. O sol pendurando suas asas, pra aquelas bandas do mundo. A lavar a calçada de dona Dulce, banhando de ouro o portão, o muro branquinho. Ricamente quente de arrancar fogo. E paixão. A banda de pífano endoidecendo o entardecer, rabiscado bandeirolas brincalhonas. A meninada, enquanto existisse mundo existiria meninos, e meninada. Eles viravam as coisas às avessas. Esfregavam as cores nos olhos das meninas-moças, com tanta força, a deixarem o baton e o rouge desgovernadamente borrados. Feito beijo a força. Beijo roubado, sabor de pecado. Gosto de milho assado.

A garrafa de café, não participava da conversa. Taciturna, livre de qualquer opinião. Muito embora precisasse, em algum momento, tomar partido. O papagaio, de todas as tardes aproveitava pra refletir, se valia a pena, compenetradamente se intrometer. Mesmo sem ser chamado.  O dia, de longe, opinava sobre panos estendidos que não dera tempo enxugar. Pois se esqueceram deles, veio a chuva e molhou. O sol, desde cedo, frio, acabrunhado, sem quentura. Auspiciosamente cálido no agir. O colóquio a que estamos no referindo era algo muito simples: Uma casa de praia, um casal enamorado, talvez em lua-de-mel. Um menino e um camelo que esperavam, sabe lá Deus o que. 

Um anjo perdido, cansado de procurar seu protegido sentou-se, bem na ponta da calçada alta. Ficou ali balançando as pernas. A auréola dizendo, sim, sim. A borda do manto, dizendo... vem, vem... a ninguém.  A mão direita fechada, em punho, sobre a coxa. A esquerda aberta, exibia um anel dourado no anular, como se acenasse pro mar. Anjo negro. A pior coisa para um anjo, era ficar sem ter o que fazer. Porque sempre aparecia alguém pra criticar, pra dar opinião. Se não estiver fazendo nada, um conselho, fique fazendo de conta que está ocupado. Faça igual aos poetas, que tão bem disfarçam, fazendo de conta que estão pintando flores, quando na verdade elas já estavam pintadas. E Exalavam perfume sobre os terríveis pensamentos dos que planejam a morte de alguém. O menino que olhava pro alto mar, parecia que sabia disso. Menino e mar, efeméride esquálida, fortemente fatal.

Segundo mistério, o gato gordo e branco com as íris dos olhos fechadas. Incomodado com a luminosidade diurna. Era muito provável que pensasse nuns óculos, do tipo gatinha, que vira numa revista. Precisava de um daqueles. Telhado preguiçoso, coragem pra nada, criando musgo nas extremidades. A calha tocada de oxidação, bem ali, onde a maresia e as águas da chuva faziam curva. Um enorme tigre de Bengala surgiu sobre as nuvens. Tinha tudo pra meter medo na gente, mas ninguém se animou a mexer um dedo. A boca do bichano fez, Oh! Só isso. E não conseguiu mais, por a língua pra dentro. E ficou assim desse jeito. Assim, assim mesmo. E os que viram, passava de cem mil. Contando os viventes, os descorados e os colorificados. O vestido de cetim sabiamente deslizou sobre a pele e perfeitamente foi cair languido no sofá, e do sofá devagarzinho escorregou pro chão. Joe Dassin, na vitrola, insistentemente orando: “E se você não existisse? Eu te inventaria.”

O camelo, considerado pelos beduínos o animal, dentre os que tinham casco bipartido, o mais adaptado àquela região, de clima desértico. Mas, o que fazia mesmo ali? Tão distante da sua paisagem mediterrânea. Olhava o mar, só isso. E tão tranquilamente como quem mascava chiclete. Se fosse realmente chiclete, seria sabor capim. Enormes cílios como se fossem postiços. Babando, ruminando, e nem aí pra tudo isso. Imitava em gestos e na aparência o jovem, que também aguardava um acontecimento iminente. Este, realmente mascava chiclete. A goma de mascar de hortelã, já perdera o sabor, de tão mastigado. Os olhos, ora pra casa de alpendre, ora no alto mar. Olhos, boca, queixo e pescoço, só isso o que se movia. Enquanto que as ondas iam e vinham, regurgitando uma espuma cor de caramelo. O céu, a praia, o menino, as nuvens, os pelicanos, as fezes dos albatrozes, os peixes do fundo do mar que nunca foram pescados, tudo ali aguardava. E se aguardavam devia ser algo extremamente importante que estaria para acontecer. Algo do tipo, um velho e um burro com dois caçuás, um contendo enormes palmas de bananas verdes, outro contendo peixes, recém pescados do mar. Mas ninguém, nem Deus, sabia exatamente o que estava pra acontecer, algo que talvez nem acontecesse. E isso, era motivo suficiente para martelar qualquer cabeça, prestes a implodir.

Terceiro mistério. A roupa alvinha do marinheiro, tão em combinação com o branco das penas dos albatrozes, encimados nos dormentes e nos travessões das embarcações atracadas. As nuvens confabulavam, qual o sentido daquilo tudo, que a tarde oferecia. E pior, sem nada a pedir em troca. Um barrete de madeira alvo, cheio de fezes de albatrozes, incrustadas. Assim ficava, de certo modo, difícil de viver. De um lado, só mar que as almas vivas se cansaram de ver. E quando bem distantes estivessem, pensariam: que saudade sentimos agora, do mar. E pensar, que tantos anos vivera, tendo ele bem ali, ao alcance das mãos, dos olhos, da alma. Já os desobrigados de viver ficavam contemplando dia e noite. Esses não se cansavam. E acabava fazendo as coisas valerem a pena. O salgado do sal, o salgado do suor, do pescador, o salgado das lágrimas, das mães que perderam seus filhos, para o mar, para o mundo.

Primeiro mistério. O canivete, o cachimbo, a vara de pescar, com molinete prateado, prateando, o entardecer. O sol, severamente gasto de tanto uso. Cansado, se deitara, indubitavelmente exausto, por cima das redes de pesca, severamente. Ressequidamente, ressacado de maré, e de peixes. Aroma de crustáceo. Uma garrafa de rum, uma gaita de boca sublinhando, alucinantemente o pernoite, quase  doentiamente. A luneta, desocupada do serviço de olhar, e de trazer até a praia o que estava lá no alto mar, dormia. O menino que continuava esperando, ao sentir um vento frio açanhando-lhe o cabelo, esfriando os dedos e a ponta do nariz. Isso levaria a ponderar que, àquela era hora de retornar a casa. Só então, percebera que não existia, não naquele plano. Aquele menino nunca estivera lá. Pelo menos não, na época em que estamos falando. Devia ser mais um, dos que havia esquecido, de subir.

O dia, a dizer coisas que lhes pertencia. Homem velho indo ao mercado do peixe. Todo homem velho, da beira mar, ia ao mercado do peixe. Menino, e sua bicicleta amarela, de aro empenado, corrente folgada, daqui pra ali saltando do encaixe, dos dentes da coroa. Fatalmente sujaria as mãos e a roupa, de graxa, ao tentar reengatar a engrenagem. Mulher de avental estampado, com flores enormes, sujas de sangue de peixe, exalando perfume de mar, os dedos turgidos de tanto sumo de limão cristalino. Toda mulher da beira mar sabia cantar, como quem tratava peixe. Toda mulher da beira mar criava menino pro mar. Toda mulher criava filhos como quem sevava caranguejo guaiamum.  Alimentando-os à base de coco ralado, alface e farinha de milho pré-cozida.

O céu limpo, quase desanuviado, No entanto, uma nuvem morena trouxe vendaval, desaguou sobre o casebre. Obrigando o papagaio procurar melhor abrigo. O menino com sua bicicleta se amparou na marquise da biblioteca. A bela senhora da casa dos livros se apressou a fechar as janelas. O balde cor de piche foi parar debaixo da pingueira. O pano na soleira da porta, pra reter a água que tentaria, e fatalmente entraria pelas frestas.

O florista, depois da chuva, passou derramando suave odor de suas flores pela praia. Aproveitando a nesga de amor flutuante no ar, displicentemente, largada pela transpiração do casal enamorado. Eles haviam saído da casa de alpendre, a passear. Calçados nas mãos, iam pela beira, da beira do mar. Tão cheios de vigor, inflamando de ternura o ar. Salgados, leves de pensar em nada, só queriam sentir o que estavam sentindo, naquele exato momento. A esperar que fosse para sempre. Iam pela faixa que as ondas invadiam e recuavam, e que deixavam pra trás espumas. Feito um lábio molhado. Incrustado de ouriços, estrelas-do-mar, caramujos, unhas-de-velho, águas-vivas. Tudo tão aturdidamente rico, de felicidade. Uma conchinha alvinha foi parar na estante de casa, era uma forma de guardar tudo aquilo, eternamente vivo.

O homem, virara poeta, escrevia, com seus olhos, versos que iam soltos pelo vento. Só os mais pesados acabaram caindo na areia. E logo, devorados eram pelas ondas mais atrevidas. O pintor decidira reter na sua tela, o sol, que Deus tinha acabado de fazer, ainda quentinho, recém saído de suas divinas mãos. Ele, na sua infinita bondade, jamais esperaria pra ver o que a tela, fraca, humana, cheia de pecados e defeitos revelaria. A moça, sem perceber, deixou cair do cabelo, a flor. Oportunista, o homem em sua infinda maledicência a raptou. Nem preciso dizer, que ele a deflorou. Devorou-a, com sofreguidão.  Ela, se entregou, não oferecera a menor resistência. Jamais. Aquilo era mais forte que suas forças. A taça de vinho derramada, de areia, molhada. Toda manchada, marcada de batom, vermelho sangue.

O homem, a sua ínfima cozinha, a preparar um fruto do mar. Na parede o capitão dos mares, era ele. Em seu traje azul fechado, com três faixas brancas nos punhos e os galardões a ombreira. O porta-retrato na cômoda, a fotografia de uma mulher, de seus trinta e poucos anos, sorridente. Parecia feliz.  Na vitrola, um disco, reluzentemente negro, alucinadamente rodopiando.

“E si tu n’existais pás/  Dis-moi pourquoi j’existerais?/ Pour trainer dans um monde sans toi/ Sans espoir Et sans regret/ Et si tu n’existais pás/  J’essayerai d’inventer l’amour/ Comme um peintre qui voit sous sés doigts/ Naitre lês couleurs Du jour/ Et qui n’em revient pás.

 





           Textura da nova camada de asfalto colocada na Br-316.



Riacho Camoxinga visto da ponte. Em: 29/07/2026.

É o Fim...

This is the End...







 

FRANCISCO SOARES, POESIA E BIOGRAFIA CORDEL 09/07/2026.


















BIOGRAFIA DE FRANCISCO SOARES. 

 NASCIMENTO: Francisco Soares Campos nasceu no dia 07 de novembro de 1945. Em Santana do Ipanema. Em uma casa de residência. No início da Rua Barão do Rio Branco (onde atualmente é o Bar de Zé de Pedro). Morou ali, até por volta dos cinco anos. SEUS PAIS: É filho de Dineusa Bezerra Campos (hoje com 84 anos de idade), dona de casa, e João Soares Campos, comerciante (in memorian). Naquele mesmo ano, em 02 de setembro, acabava a 2ª Guerra Mundial. INFÂNCIA: Ao completar os cinco anos, da rua do comércio, seus pais mudaram-se para a Rua Benedito Melo (antiga Rua Nova), onde passou parte de sua infância. Por essa época, costumava escapulir para os primeiros banhos no rio Ipanema. Tão pequeno era, que os vendedores de água do Ipanema. Botava-o entre as ancoretas (pipas d’água), na cangalha do jumento, e trazia-o de volta pra casa. 

A PRIMEIRA COMUNHÃO: A fez na Matriz de Nossa Senhora Santana, com o Cônego Fernando Medeiros. Eram seus padrinhos: (in memoriam) Dona Deolinda e Seu Sebastião (este de cá, tio da sua mãe). O GRUPO ESCOLAR: Por volta dos sete aos dez anos, estudou no Grupo Escolar Padre Francisco Correia. COLEGAS DE ESCOLA: Foram colegas de sala: Newton Ricardo dos Correios, Remi Bastos, filho de Seu Plácido, Carlos Soares (primo), Crizeuda Soares (prima), Jorge e Lucinha de Seu Leuzinger, Carlos Sabão, Erisvaldo Aquino, Luiz Capiá, filho de Seu Zeca, e muitos outros.

FORAM SUAS PROFESSORAS: Dona Helena Braga, Marinita Peixoto Noya, Narair entre outras. JUVENTUDE: Viveu sua juventude em Santana do Ipanema. Início dos anos sessenta. No auge do iê-iê-iê e da Jovem Guarda, embora preferisse seguir a linha dos apreciadores da Bossa Nova e da Boemia. Era colega de farra, Gilvan de Dona Mariquinha, Afrânio do Tênis, Carlos Soares (primo), Remi Bastos, os filhos de Seu Leôu, Zé Gomes (eletrotécnico), "Caçador", Hélio, filho de doutor Arsênio, Zé Cuinha, Custelêta, Denancy, Gilson Alfaiate, Juca Alfaiate, entre outros. 

O CASAMENTO: Casou-se em 1967. Com Marleny Aquino Santos, filha de Breno Aquino e Celina Francelino Santos. O casal teve quatro filhos: Flávio Henrique, Cristiane, Flávia e Cristiano. Todos, com exceção do caçula Cristiano, já casaram. Os casados já deram ao vovô Chico seis netos. A esposa sempre foi uma grande incentivadora do trabalho do esposo. Durante muito tempo, cabeleireira e manicure. Trabalhou com D. Maria Aleixo, e depois montaria seu próprio salão de beleza. 

 A DESCOBERTA DA VOCAÇÃO DE LOCUTOR: Na época de sua juventude, anos 60, o rádio estava muito em voga. Os grandes locutores da Rádio Nacional de Brasília e da Rádio Globo do Rio de Janeiro, tais como Blota Jr., Flávio Cavalcante, Mário Vianna e tantos outros. Eram reverenciados como celebridades. Espelhando-se nesses grandes nomes, Francisco quis abraçar a profissão de locutor, pois sentia que levava jeito para a arte da oratória e de bom comunicador. Descobriu a vocação, ao fazer divulgação da propaganda dos filmes do antigo Cine Glória (localizado onde hoje é a Loja Insinuante) em carro de som improvisado, com as cornetas de alto falante sobre o teto do carro e um microfone adaptado, tudo muito improvisado. Fazia propagandas de lojas do comércio de Santana do Ipanema. Fez, a pedido de amigos gerentes de loja, a função de locutor-animador, em porta de lojas. A exemplo das Lojas Paulistas, Casas Lima, Center Fabril, Casas GG, entre outras. Antes disso, havia no comércio um serviço de som de caixas amplificadas nos postes, onde ficava passando música em discos de vinil, o dia todo, e o locutor informava a hora. Nessa época, ainda havia os velhos sobrados do meio da rua. Isso também serviu de incentivo para Francisco gostar da profissão. Depois daí, foi um pulo para assumir, quase sem remuneração, a título de experiência, locução na primeira rádio de Santana. A antiga Rádio Candeeiro (nas imediações do comércio). No sobrado próximo a casa dos Retalhos.

 A LOCUÇÃO COMO PROFISSÃO E VOCAÇÃO: Uma vez conseguida a carteira de radialista e locutor profissional, anos mais tarde, passou a ser reconhecido profissionalmente pela categoria. O reconhecimento do público, desse profissional talentoso, veio muito antes, por sempre atuar com ética, profissionalismo e o dinamismo com que sempre exerceu o ofício de locução. Fez locução oficial de eventos de várias administrações municipais em Santana.

 EXERCÍCIO DA PROFISSÃO NA TERRA NATAL: Iniciando com Adeildo Nepomuceno Marques (o prefeito mais antigo: 1965) e encerrando com Marcos Davi (o mais recente: 2000), prestaria serviços também a Henaldo Bulhões Barros, Isnaldo Bulhões Barros, Paulo Ferreira e Nenoi Pinto. EM PALMEIRA DOS ÍNDIOS: Trabalhou para o Grupo Gileno Sampaio, para o prefeito Helenildo Ribeiro, para o então deputado estadual Gervásio Raimundo. Para todo comércio, para diversos empresários e profissionais liberais. NO ESTADO DE PERNAMBUCO: Trabalhou como locutor do Parque de Diversões Lima, que excursionava por todo o estado, e estados vizinhos, na década de 70. Trabalhou também na Emissora Rural “A Voz do São Francisco” em Petrolina-PE. Chegou a fixar residência naquela cidade. Até por volta de 1985. 

 FRANCISCO E O SERVIÇO PÚBLICO: Na administração do prefeito Adeildo Nepomuceno Marques, Francisco chegou a assumir, por uns tempos a função de Fiscal de Arrecadação de Taxas pelo uso de Via Pública, em dia de Feira Livre; Foi também lotado na Assembléia Legislativa Estadual, como Assessor de imprensa do então Deputado Nenoi Pinto; CARGOS DE COMANDOS: Foi Diretor do clube futebolístico Ipanema Atlético Clube; foi Diretor Geral da Rádios Correio do Sertão, Santana FM; E Diretor de Comunicação da Rádio Sampaio.

 FRANCISCO O EMPRESÁRIO: Tornou-se profissional liberal, iniciando com carro de praça, fretado, no início dos anos setenta. Anos depois, compraria, com a ajuda do pai, uma Rural. Tempos mais tarde, já equilibrado, passou a utilizar um Veraneio. Fazia propaganda para o comércio, para os órgãos públicos, empresários, profissionais liberais e particulares. OS IRMÃOS: Francisco tem cinco irmãos. Sendo ele, o primeiro de uma geração de seis: Fernando Soares Campos, atualmente residindo no Rio de Janeiro; Maria Selma Oliveira Campos, atualmente chefe da Agência da Previdência Social (APS do INSS) agência: Santana do Ipanema; Fabio Campos, é professor, escritor, poeta; Sérgio Soares de Campos, é Servidor Estadual, lotado na Secretaria da Fazenda; Maria Simone Bezerra Campos, a irmã caçula do locutor, é Professora das redes Municipal e estadual, em União dos Palmares -AL. 

 PIONEIRISMO: Francisco Soares foi o primeiro a divulgar com Carro de Som em Santana do Ipanema; o primeiro a usar o modelo padrão de Nota de Falecimento-Convite, muito difundido atualmente; o primeiro a organizar Carreatas por conta própria quando o seu time, Flamengo, ganhava. Prática atualmente muito utilizada em campanhas eleitorais. Fez estilo, para marcar o encerramento da noite musical, da cabine de som do Parque de Diversões Lima. 

ALÔÔÔ! MAESTRO! Com esse jargão, Francisco iniciava as Maratonas Carnavalescas no QG (Quartel Geral do Frevo), animando os carnavais em Santana do Ipanema, capitaneado pelo saudoso maestro Miguel Bulhões e sua banda. Foi assim por mais de quatro décadas. A forma de anunciar O Ângelus (A Ave Maria) na rádio. Depois seria copiado pela maioria dos colegas locutores. Estilo próprio, voz inconfundível, nas apresentações dos eventos oficiais do município, e dos Programas de Auditório nas tardes de domingo, no cine Alvorada.

 CONTRIBUIÇÃO PARA SUA TERRA: Sempre teve orgulho de sua terra natal e levou o nome de Santana do Ipanema aos mais longínquos rincões, como locutor radialista, locutor de festas e eventos, chefe de cerimônia, mediador de debates políticos e comentarista em debates esportivos. Foi puxador de samba-enredo das duas Escolas de Samba que existiram em Santana do Ipanema: Unidos do Monumento e Juventude no Ritmo. Foi responsável pela parte de divulgação e comunicação em diversas administrações municipais, e em campanhas eleitorais de vários prefeitos em Santana do Ipanema: Adeildo Nepomuceno Marques, Henaldo Bulhões Barros, Isnaldo Bulhões Barros, Paulo Ferreira, Genival Tenório, Nenoi Pinto, Helenildo Ribeiro e Gervásio Raimundo (Palmeira dos Índios); José Afonso Vieira de Souza e Mário Cesar Vieira (Senador Rui Palmeira). Esteve no programa televisivo da tevê GAZETA DE ALAGOAS, Organizações Arnon de Mello (Maceió), “Cidade contra Cidade”, do apresentador Pell Marques, com uma equipe representando Santana do Ipanema por duas vezes, em 1978. PAIXÕES: Sua esposa Marleny, seus filhos: Flávio, Cristiane, Flávia e Cristiano, e o Clube de Regatas Flamengo (do Rio de Janeiro). Em sua terra natal, é torcedor do Ipanema. Apaixonado por sua terra natal, criou o Bloco Carnavalesco “Eu Só”. No qual saía pelas ruas de Santana com um cantil de bambu, contendo aguardente, e sozinho curtia o carnaval. E à noite abrilhantava com seu dinamismo e competência as maratonas no QG (Quartel Geral) do Frevo.

 HOMENAGENS: O cantor e compositor santanense Ciço Grilo compôs, em 2001, uma marchinha carnavalesca, na verdade um samba-enredo, homenageando Francisco Soares. Foi também homenageado em desfile cívico em sete de setembro de 2003: Entre os vários vultos históricos do município, um aluno da Escola Senhora Santana desfilou representando o locutor Francisco Soares. Recebeu uma Menção Honrosa, por ocasião da entrega do troféu Mandacaru, idealizado pelo jornalista Fernando Valões, na categoria locutor/radialista, no Tênis Club Santanense em 2000. Aguarda, por parte dos poderes públicos, o reconhecimento, em vida, pela contribuição dada, na elevação e no progresso de sua terra. Precisou, talvez, por isso, deixar sua terra, indo morar em Palmeira dos Índios, na esperança do reconhecimento, ainda que tardio.

 RECONHECIMENTO DE SEU TRABALHO POR ARTISTAS, COLEGAS DE PROFISSÃO E AMIGOS: São inúmeras as pessoas que citam seu nome como exemplo e referência de bom profissional. Aqui, citaremos alguns nomes, a título de referencial, mas todos os amigos, colegas, ex-companheiros de trabalho, sintam-se contemplados: Zé de Almeida, Zenilde Batista, Dimas Fernandes, Arly Cardoso, Ferreira e Ferreirinha, Edgar Lima, Valdo Santana e seu irmão Genivaldo, Zé Arnaldo, Dênis Marques, Givaldo Campos, Cheiroso, Aguinaldo do Hotel, Miguel Lopes, Paulinho dos Teclados, Cristiano (cantor e policial), Zé de Mariá, Roberto Becker, Petrúcio Melo, França Moura, Jarbas Lúcio, Rânio Costa, Dogival Rocha, Fernando Valões, Hermes SOM, Cícero Domingos, Jota Mendonça, Zé Gomes eletrotécnico, Emílio Souza, Titio Guerrera, Luiz Carlos Mariano, Edilson Costa, Aderval Rocha, Coronel Ludrú, Graça Gominho, Madame Marinita, Francisco Coelho, Jota Arlindo, José Malta Neto (maltanet.com.br), Flávio Henrique (Rádio Milenium), Alves correia (Rádio Novo Nordeste), Marcelino e muitos outros. E os saudosos (in memoriam): Adeilson Dantas, Álvaro Tojal, Wiliame Viter (Pelé), Welligton Costa, Caçador, Rafael Paraibano, Maestro Miguel Bulhões e filhos, o amigo Pinheiro, Jorge Santos e muitos outros. 

 RECONHECIMENTO ESPECIAL: Remi Bastos reconhece que foi com a contribuição do amigo, Chico Soares, sempre fazendo questão de divulgar suas músicas nos eventos municipais, que suas composições alcançariam o sucesso e a notoriedade obtidos nos dias de hoje. Sendo inclusive Francisco o idealizador do Pout-Pourri, com as músicas do cantor, compositor e poeta Remi Bastos: Santana dos Meus Amores, Pau D’arco e A noiva. 

 O FRANCISCO PRAGMÁTICO, CARISMÁTICO E POLÊMICO: Francisco, pela educação que recebeu dos pais, sempre foi um cara do Sim, sim! E, Não, não! Para ele, não tem meio termo. Com ele não tem essa de agradar a “A” e “B” ao mesmo tempo. Quando  contratado para trabalhar, mergulhava de cabeça na conquista do objetivo almejado. Todos o queriam para seus trabalhos por saberem disso. Por sempre defender suas convicções, pautadas na retidão de caráter. Muitas vezes não foi compreendido, ou considerado cabeça-dura. Na verdade, uma pessoa cuja idoneidade moral sempre esteve acima de qualquer suspeita. Seguindo a linha dos seus pais e familiares da geração anterior a ele. Como ele próprio diz, “não troca a educação que teve, por faculdade nenhuma”. 

 FATOS PITORESCOS: Se conversarmos com um amigo de Francisco, qualquer um, primeiro vai querer saber como ele está de saúde, se está bem, etc. Depois, com certeza, ouviremos um caso acontecido ou presenciado com aquela pessoa, que nos remeterá à descontração e até ao riso. Um grande amigo, Petrúcio (que trabalha de motorista no hospital), contava-nos, que os dois encontravam-se na Estação Rodoviária conversando e, de repente, chega uma terceira pessoa, um colega, que o aborda: -Fala Chico! Chico, me dá aí, um cigarro dos teus! –Dou não! –Ôxente, Chico! Tá me estranhando! –Não. Não é estranhamento, não. É que eu prometi a mim mesmo. Não dou, nem peço cigarro a ninguém! Fumar é luxo! Fuma quem pode! 

 FRANCISCO E AS AMIZADES COM FAMOSOS. Francisco apresentou para a população santanense, vários artistas de renome nacional: João do Pife, Zé Castor, Marinez, Zenilton, Luiz Gonzaga, Trio Nordestino. Isso em praça pública, em cima de lastros de caminhão servindo de palco. Um fato engraçado ocorreu na apresentação do Trio Nordestino, o vocalista Lindu, ao reconhecer o amigo, perguntou: “Oxente! Chico! Está perdido?” Ao vê-lo tão longe de Serra Talhada, Pesqueira, Belo Jardim, Petrolina. Ao que Francisco respondeu: “Perdido? Eu não. Quem está é você. Eu sou daqui.” Lindu botaria todos que estavam no palco para dançar xaxado, mas Francisco, meio que sem graça, nem se mexeu. 

 A ENFERMIDADE: em 22 de setembro de 2002, Francisco sofreu um aneurisma cerebral, que o impossibilitou para o exercício da profissão: Calou-se o microfone de Francisco Soares. Estaria assim aposentado do microfone. Mas não calou a voz. Continua o mesmo Francisco, proseador. Francisco da boa conversa. Gosta de conversar com amigos, colegas ou novas amizades que sempre estar a construir. Conversa sobre qualquer assunto: futebol, economia, política, violência, segurança, educação, saúde, catástrofes climáticas, etc. De tudo sabe um pouco. A informação e a cultura são seus únicos vícios. Acordar cedo é um hábito antigo, não demora muito em casa, vai pra rua. Segundo nossa mãe, Dineusa, isso é desde pequeno. Vai ao encontro dos amigos. Fazer o que mais gosta: conversar. Seja nos bares, nas praças e na rua, com novas pessoas, colegas e amigos. Sua casa está sempre de portas abertas para receber a todos que queiram visitá-lo para um bom papo. 


A CONVERSÃO À RELIGIÃO DE BATISMO: Francisco Soares só teria ido à igreja, que não fosse por trabalho, por duas ocasiões: na primeira comunhão e no dia do casamento. Nem para os batizados dos filhos gostava de ir. Hoje em dia, se assume católico praticante, várias vezes por mês, participa de encontros bíblicos em família. Gosta de ser lembrado pela música de padre Zezinho: A Família. 

FRANCISCO SOARES E SEU LEGADO HOJE: Podemos ver seu trabalho em diversos formatos. Em produções de quando esteve atuando como locutor: Em CD: Na última administração de Paulo Ferreira, foi produzido um CD intitulado: "Emancipação Política de Santana do Ipanema: 126 anos", Francisco emprestaria sua voz para narrar o histórico da nossa cidade, naquele trabalho em 2000; EM DVD: Foi o locutor e narrador de uma Encenação da Paixão de Cristo. Na última administração de Mário Cesar Vieira, no município de Senador Rui Palmeira, em 2001; EM FILME SUPER 8: Protagonizou diversas reportagens: Nas festas do Feijão, Nos Carnavais, nas Maratonas Carnavalescas, em Escolas de Samba, Nos Desfiles Cívicos, de 1965 a 2000. Este acervo, com certeza deve estar em poder dos administradores à época; EM FOTOS: É muito provável que milhares de santanenses tenham fotos nas quais ele aparece, nos eventos já mencionados. Como chefe de cerimônia de formaturas. NA INTERNET: Recentemente, os amigos, jovens, estudantes e crianças, de Senador Rui Palmeira, onde realizou alguns de seus últimos trabalhos, inclusive gincanas de rua, sugeriram a criação da COMUNIDADE no Orkut: “Eu sou amigo de Francisco Soares.” Assim como criamos também com a ajuda de seu sobrinho Joaddan Campos, o blog também intitulado “Eu Sou Amigo de Francisco Soares”. Esperamos que, naqueles espaços, os internautas possam postar mensagens, opiniões, sugestões, recados, depoimentos e fotos. E com ele, compartilhar lembranças. Com o auxílio do filho Cristiano, do sobrinho Joaddan e desse irmão autor dessa biografia, procuraremos fazer este intercâmbio entre seus amigos e o locutor Chico Soares. Biografia feita por Fabio Campos, em 2010. Publicada no Blog: “Eu Sou Amigo de Francisco Soares.”

 HOMENAGENS ESPECIAIS Francisco Soares, receba nesta ocasião o Abraço Mais que Especial dos irmãos: Fabio, Sérgio, Fernando, Simone e Selma. 
Do cantor Chico Santos, do radialista e policial Elisiário, do cantor e compositor Manuel Forrozeiro, do radialista Marcos Costa (irmão do saudoso Welington Costa), do radialista Emílio Souza, do coronel Cavalcante, do poeta Mário Pacífico, do sanfoneiro João Sarapião, de Benício Guimarães do Acordeon, de Lira da Casa dos Retalhos. Do querido primo José Antonio (XOGOIÓ), de seu tio Dorival Bezerra, de toda família Bezerra; da sua sobrinha Fernanda Minelli, de Denancy, de Custeleta e de Seu Hélio, filho de Doutor Arsênio Moreira(+). Santana do Ipanema, 08 de julho de 2026.



POESIA: UMA DÉCIMA PARA HOMENAGEAR FRANCISCO SOARES 

FRANCISCO SOARES, O LOCUTOR/
 RADIALISTA DOS BONS/   
COM O SEU CARRO DE SOM/  
  PELAS RUAS PROPAGOU/ 
 TRABALHANDO COM AMOR/ 
NO CARNAVAL, PURA ENERGIA / 
 A TURMA TODA SÓ OUVIA/ 
 NO “Q.G.” DO FREVO CONTAGIANTE/ 
 CHICO SOARES NO AUTO-FALANTE/ 
ALÔ, MAESTRO! QUE ALEGRIA!

SEMPRE ASSIM... ATÉ QUANDO. 24/06/2026. ODI ODIUM Da Série Psikeé


 

 Sentado a praça. Sozinho, e consigo mesmo. Como as pessoas faziam antigamente. Assim se encontrava. Estava tão antigamente, que se sentiu meio que invisível. As pessoas não o notavam. Considerava-se um cara um tanto esquisito pra sua época, excêntrico na verdade. Sempre metido num blazer, ainda que os dias fossem os mais triviais. Destacava-se na multidão, de iguais. Parecia um espantalho, isso lá parecia. Os pássaros, no fio de energia, viram, comentaram. E rindo, voaram, aos beijos.

 Acariciou o céu, cumprimentou o dia-sol-nuvem-céu-azul. Chamou de bom, tudo que suas vistas alcançavam. Parecia estar tão de boa. Arriscaria até desejar um bom dia, a outro ser humano. Afinal muito havia a comemorar. Comemorava o que mesmo? O fato de estar vivo, respirando, enxergando, pensando, e com certa lucidez. Escolheria alguém da sua idade. Um senhor, dos seus setenta, vinha pela calçada, meio trôpego. Estaria ainda sonolento, ou quem sabe, tivesse sequela de um acidente vascular cerebral. O certo era que havia vida ali, e estava muito agradecido por isso, independente do que sentia. A rua, a calçada, o cumprimento ao estranho, que nada respondeu. Para aquele nada daquilo tinha a menor graça. Poderia ponderar, outro que encontrara com os mesmos sentimentos seus. Aquilo, porém, o enchera de indignação. Não era nada animador ser assim, tratado com desprezo, e indiferença. Péssimo jeito de iniciar o dia. Aquele que vinha, deixou cair um pouco do ódio que tinha, acabou respingando sobre ele, sentado a praça.

O dia acidificou. Um azedume brotando áspero da ramagem. As nuvens quedaram, através de frestas purulentas, gosmentas, asquerosas.  As pessoas indo pro trabalho, pais levando os filhos pra escola. Os automóveis estupidamente aos gritos, atrasados, um nervosismo uníssono. O sol, sozinho, ele e Deus, subindo a serra e esquentando as orelhas, a testa e outras extremidades dos mortais viventes, seus míseros corpos expostos, a céu aberto. Gatos, cachorros de rua, de tanto usarem as vias públicas pensavam que lhes pertenciam. E acabavam entrando em conflito com os demais usuários, dos logradouros. E era ainda a parte da manhã, tão turbulenta, quanto não devia, trazer paz.

As bicicletas pareciam mais felizes que os ciclistas. Isso porque aqueles pensam. Enquanto que o ferro e a engrenagem, simplesmente iam. Pensar, era fator preponderante para o deus Fobos agir. Logo mais seria uma tarde. E que, por mais parecida que fosse, com a anterior, sempre teria algo de diferente. O gari da semana passada morrera, por um motociclista atropelado. O vendedor de mungunzá adoeceu, hospitalizado, o filho faltaria a escola, pra cobrir o trabalho do pai durante aqueles dias. Afinal o que levava uma pessoa a pensar, o que tanto a motivava? Acordar todos os dias as seis. Pensar, que dia era aquele? Pouco importava. Certeza tinha que não seria um sábado, nem tampouco domingo.

A escadaria, do prédio de apartamentos, o eco das vozes rebatendo nas paredes. Alguém esquecera alguma coisa. Era sempre assim, a pressa, inimiga dos pequenos objetos. Chaves, telefones móveis, carteiras de dinheiro, documentos, cartões, bolsas, chapéus, jornais, cadernetas, agenda, isqueiro, caixa de fósforos, dinheiro pro táxi. O cheiro de ovos fritos e pão fresquinho. Os óculos, sério ficaram olhando. O livro aproveitou a brisa, e caiu na gargalhada.

A escadaria, ela odeia bicicletas. O blazer, esquecera, ia precisar de um. O momento solene exigia. A formatura do jardim infantil da neta. Os cheiros. Cigarro aceso. Aquele fumante devia estar há pelo menos uns vinte metros, em algum lugar do terraço. Óculos de grau, um livro com um dedo marcando uma determinada página. Os olhos vagavam pela folhagem do pé de... De que mesmo é esse pé? É uma azinheira. Quem falou? Ninguém, por perto. Estaria ficando louco. Ouviu nitidamente, alguém disse: “É uma azinheira.” Na próxima reunião do condomínio colocaria como assunto de pauta: O fumante, as bitucas de cigarro que o cachorro do vizinho engoliu e quase morreu engasgado. Um atirador de elite, a lente de aproximação procurando uma vítima.

A rua. O leito da rua, um rio de metal. Rio de automóveis, bicicletas, carroças, pedestres, cães. Manter-se na calçada, questão de sobrevivência. Pensar era viver, andar sobreviver. O que havia pra fazer faria. O candeeiro de pavio virou prioridade. Quanto custa? Ficaria para o próximo mês. Estourara o orçamento. A queda de energia na noite passada. O medo de escuro. Desejou ardentemente a chegada da aurora. A noite, com sua plasticidade de trevas, cercando os nervos por todos os lados. Sua mente uma ilha solitária de aflição. E se um morcego caísse pelos cobertores. De onde concebera aquela ideia. Um sonho, um pesadelo.

Morcegos, eles se reproduzem enormemente. Então, onde estariam os milhares de irmãos daquele que teria matado no banheiro? A cena do filme “A Múmia”, veio-lhe, e milhares deles saindo de dentro da boca. Escolheram a parte interna do forro da casa para lhes servir de morada. Dizem que eles possuem uma espécie de radar para auxiliar no voo. Pois sua visão é ruim, então recompensam essa deficiência emitindo um som não captado pelos ouvidos humanos. Acordara em pânico, havia sonhado com um daqueles vampirinhos voadores mordendo-lhe a jugular. Instintivamente passou a mão no pescoço. Um gosto de sangue veio-lhe a boca.

Abriu o pão com uma faca, com certo sadismo, a manteiga passou com sevícia. Feito alguém que se delicia antes de destruir, um ser vivente. Pelo simples, e puro, prazer de o fazer. Descuidou na hora de colocar a faca sobre o balcão da pia, e metade do pão foi ao chão. Seguindo lei, de não sei lá quem. Só sei que caiu pra baixo, foi o da parte untada. Uma rede de punhos, um facão, um retrato de padre Cícero na moldura cor vinho. O tédio rindo-lhe na cara. Cuspiu-lhe manteiga na lapela do blazer, que ódio.  

Café com pão, engolido com oração. Pedidos de perdão. Pedidos sujos, de outros novos pecados. O banheiro, as revistas amareladas, sob o lastro da cama, mulheres despidas, amassadas, achatadas pelo peso do colchão. A menina negra, o abuso incontido. Rezaria com raiva, com pressa, com agonia. Pedido de perdão atrasado. Tudo valia, menos o desprezo, o ódio. Aquela cena, por décadas, ficara guardadinha no lado escuro da alma. Hibernara pra agora acordar, e vir apoquentar-lhe o espírito de suicida. Só não consumando o ato, por pura preguiça. Salvo pelo gongo. Na verdade escapara por um descuido proposital, de leviatã. A buscar água, no chafariz, com um carrinho de mão. As meninas ficaram olhando pela fresta do portão. O banho de cuia no oitão de casa. Certeza, que alguém o observava. Excitação, masturbação exibicionista. A timidez, reflexo de uma cobrança exagerada, ou de um valor para menos, desprezo com relação aos demais. Uma má avaliação dos pares.

A empregada a porta com um pano de prato na mão, um lenço na cabeça, o ventre quase exposto, olhando a rua. O tocador de pífano, o zabumbeiro, o triangulista, a tarde de bandeirolas, o santinho sorrindo feliz, pelos que, de alma generosa, abriam suas carteiras a doações. A noite, andando sozinho. O restaurante aberto sem ninguém as mesas. O porta guardanapo, o paliteiro, o pote de farofa. A lua, de uma noite triste, e voltar pra casa com uma só certeza, a de um aperto no coração. Nenhum dinheiro no bolso. A lua, única companhia, amiga solitária. Apareceu-lhe um moleque, um pretinho. Disse: Oi. Mediu-lhe com os olhos. Tentou adivinhar suas intenções, quase se animou a pedir um trocado. Ao ver-lhe a cara trancada desistiu.

As bicicletas pareciam mais tristes que os ciclistas. Isso porque aquelas pensam. E pensar, era fator fundamental para o deus Cronos agir. A escadaria, o eco das vozes rebatendo nas paredes. O cheiro de ovos fritos, e pão fresquinho. Uma noite, calma. Calma, igual uma xícara de café. Aguardaria com paciência a manhã de passarinhos tagarelas, de céu contemplativo, céu que vigia os viventes, e as reles tendência aos erros contumazes. Sempre a se desculparem, e odiosamente voltarem solícitos aos mesmos enganos. Um dia acordaria daquela letargia. Acordaria alguns dias, as seis, outros as quatro. E sempre com a mesma certeza. Certeza tinha que não era um sábado, muito menos um domingo. Pois, exclusivamente, esses dias amanheciam com uma cara diferente. Cara de fim de mundo. E olhava pro céu esperando um míssil, vindo com sua ogiva destruidora. Pondo um ponto final a tudo. O armagedon, tão pertubadoramente aguardado.

A escadaria, elas amavam bicicletas. A gravata, esquecera que ia precisar de uma. O momento solene exigia. A filha, terminara o curso de radiologista. Os cheiros, misturados, um champanhe sendo aberto. Adocicado aroma de abacaxi, vindo da cozinha. Devia haver alguém tomando cerveja ali perto, há pelo menos uns dois metros, em algum lugar do terraço. Som de pagode. Chapéu Prada, óculos raiban, alguém tentava acender uma churrasqueira. Os olhos vagavam pela folhagem do pé de...De que mesmo era aquele pé? Um trapiazeiro. Quem falou isso? Não havia ninguém, ali. Estaria ficando louco. Ouviu nitidamente, alguém dizendo: “É um pé de trapiá.” Uma certeza, estaria ficando louco.

A avenida. Uma efusão de cores, e sentimentos, coisas pra fazer, destinos a serem desencontrados. Vidas destroçadas, vícios. Rio de sentimentos, energia desnecessariamente gasta. Carcaças e mais carcaças, de almas rolando rua a baixo. Espíritos fluindo, alguns lentos, outros rapidamente, descendo e subindo a rua. Manter-se lúcido, questão de sobrevivência. O que tinha pra fazer faria. A vela de sete dias virada prioridade. A queda de energia noite passada, apavorante noite. Era um escuro palpável, tão intenso, como do Egito, e o faraó arrogante, coração de pedra. O medo de escuro. Desejou ardentemente o amanhecer. A noite, com suas trevas alucinantes, cercando a mente por todos os lados. A alma, ilha solitária de aflição. E se as almas penadas dos parentes viessem pedir justiça?

Escorpiões, eles se reproduzem aos milhares. Haveria milhares de irmãos daquele que havia matado no banheiro? Imaginou a cena do filme “A Múmia”, milhares deles subindo na cama entrando pela sua boca, ouvidos, narinas. Dizem que a escorpião mãe carrega os filhotes no dorso. E, se escassear alimento para a prole, os filhotes devoram a própria mãe. É da sua natureza. Na lenda da travessia do rio, ele vai preferir picar o jabuti, mesmo, sendo aquele garantia de travessia segura.

Abriu o pão, passou maionese. O descuido na hora de retornar a faca sobre o balcão da pia, e metade do pão foi ao chão. Algo aqui esperado, segundo a lei do capitão ianque Edward Murphy: a probabilidade, da parte untada cair, para baixo, dependia do peso da maionese , da altura da queda, e da força gravitacional. Esses fatores aumentavam em oitenta e um por cento as chances da fatia de pão cair emborcado. O que realmente se concretizaria, o lado untado caiu para baixo.

Outro ditado popular entrou na história, vindo lá da infância, caso ninguém estivesse olhando, apanharia. E lá dentro da cabeça, uma voz diria: “não dê gosto ao cão!”. Alguém teria criado, sem embasamento científico nenhum, a lei dos cinco segundos, que defende: “até cinco segundos, tempo de tolerância para se apanhar um alimento que tenha caído ao chão.” Uma rede de mentiras, não é igual a uma rede de intrigas. Muito menos uma rede de internet, consegue o que uma rede de punhos, armada debaixo dum telhado, é capaz de realizar. Um facão embainhado, um retrato de padre Cícero, uma moldura cor vinho pendurado numa parede de taipa, enrugada.

Café com pão, não rima com resignação. Pedidos de perdão, emporcalhados de outros pecados. O pequeníssimo furo na porta do banheiro, produzido exclusivamente para brechar  a empregada quando fosse tomar banho. A menina do longo cabelo negro, de seios volumosos, o abuso. Lembrança que afundara sob os lençóis. Lavados pelo tempo, voltariam, meio mundo de anos depois, a assustarem ameaçadores como as fendas do inferno. Parecia  reflexo de cobrança de valor para menos, desprezo com relação aos demais, irmãos.

Uma tarde, uma noite, uma manhã. O que levava, o que o motivava? Acordar, alguns dias as seis, ou as quatro. Pensar, que dia seria aquele? Pouco importava. Sabia, não era sábado, nem domingo. As bicicletas, muito mais felizes que ciclistas. Pensar, era fator essencial para o deus Eros agir. A escadaria, o eco das vozes rebatendo nas paredes. Os cheiros, perfume de gardênia. Lacívia.

A empregada, sentada num banco, roendo as unhas. Pensando em nada. Pele morena, branco dos olhos. O tocador de pífano, e suas vestes azuis. O chapéu de dançar guerreiro multicor, a maquete de igrejinha na cabeça. O rosto, borrado de carvão. Lágrimas de suor. As noites solitárias, andando a esmo. O restaurante aberto, ninguém as mesas. O paliteiro, o porta-guardanapos, o frasco de azeite de oliva. Uma caravela, e um pôr-do-sol, no biombo. Altemar Dutra a vitrola, bem ao fundo. A lua, a noite triste, voltar pra casa. Uma certeza, um aperto no coração.