ONDE ESTÁ MONALISA? [Walking around...] Conto 09/05/2026.



 

Uma capela, branquinha, de uma torre só, lateral. Um ícone de São Francisco de Assis no frontispício. A rua, desembestada de calor, abafada de solidão. Nuvens atarefadas d’água, acinzentava, de canto a canto. Vasto céu, cansado de não ter o que fazer, nem mais pra onde ir. Uma salinha exígua ao fundo da igrejinha. A porta, um retângulo negro na vertical, era o que, de cá de fora, se via. Lá dentro, cadeiras dispostas em círculo, algumas ocupadas por jovens, largados, preguiçosos. Nas paredes, cartazes motivacionais. Tinha um que dizia: Deus está aqui neste momento. Talvez, houvesse quem lesse, e dissesse: Bom, muito bom saber. De tal informação.  

Monalisa. Cabelo negro. calça jeans customizada, camiseta preta. Uma nossa Senhora no peito. A moça fazia vez de professora. Dava aula de catecismo, a jovens, que não estavam nem aí, para o que ela dizia. De repente, parou. E bem de lá, do fundo do coração, se perguntou: O que mesmo, estava fazendo ali? Aquilo chegou com força. Incômodo, desconcertante.  Ponderou não fazer, o menor sentido continuar ali. Resolvida, saiu caminhando pela rua. As pedras, de cada paralelo que pisava, agora faziam todo sentido: dava chão para uma dissidente. Lastro pra uma revolucionária, solitária, sem aparente causa. Sua luta, travava contra si mesma.

O cenário, do nada, se modificou. As casas desapareceram, a estrada desapareceu. O céu era outro, estapafurdiamente azul, camuflado de bolotas brancas de nuvens, e um solzão suspenso no ar, igual rodela de comprimido efervescente, fervilhando o ar escaldante. O relevo, no entanto, continuava o mesmo. Monalisa entendera que, tinha sido tele transportada para outro tempo. Sendo que lá, era o mesmo lugar.  Onde antes havia as casas, as ruas, a capela de São Francisco de Assis. Tudo desaparecera, agora só mato.

Os pupilos aproveitaram pra irem pra porta. Teve um que perguntou: Aonde a professora vai? Embora preferisse que não houvesse resposta. E não havia. Nem mesmo Monalisa sabia aonde ia. Sentiu a necessidade de ir, e foi. Precisava sair. No momento, era só o que importava. Ir, sem rumo. Precisava desparecer, refrescar as ideias. Iria, até ficar satisfeita. Até encontrar paz. Nada mais importava. Tudo que queria, dali se afastar. Caminharia, até se cansar. E quando se cansasse, pararia pra descansar.

Monalisa percebeu que tudo o que via a sua frente, não passava de uma propriedade rural. Havia um curral e uma cancela em ruínas. Um casebre de telhado baixo. Naquele espaço, até aonde a vista podia alcançar, dava pra ver quatro personagens: Jonas, João I, João II, Virgulino II, Joãozinho, Justino. Sim, são seis. Depois vai entender. O ar que se havia, tinha cara de ser da década de setenta. A constatação que as cercas de arame farpado, as estacas rústicas, a vegetação abundante, as veredas e estradas de terra batida eram coisas de meio século para trás, não vinha de Monalisa. Não podia ser conclusão sua. Isso, ela não vivera.

Que dia era aquele? Uma melancólica tarde, de um sábado qualquer, do período pascoal, do ano 26, do novo milênio. A que horas resolvera partir? Isso, para aquele momento, parecia algo sem a menor importância. Queria ir, sem pensar em nada. Lembrou dos catequizando, seus alunos. Era um grupo pequeno, uns 20. E naquele dia, só nove, teriam ido para o salão paroquial. Pré adolescentes, entre 12 e 16 anos. Monalisa sentiu as costas os olhares deles enquanto se afastava. Para onde estaria indo? Andou, andou, foi ficando cada vez mais, pequena, pequena... Até desaparecer por trás do lombo da estrada. Sumiu de vista. Da rua, do bairro, da vila, da igrejinha, de São Francisco de Assis.  

Jonas, não se trata aqui, do profeta. Aquele de Nínive, que na bíblia foi engolido pela baleia. Muito embora o nosso Jonas, alguma afinidade tem com outra baleia, uma cadela. Parte do que os olhos de Monalisa conseguiam alcançar pertencia a Jonas. Parte daquelas terras era dele. Seu Jonas era fiscal da prefeitura municipal. Era sua, a função de taxar as bancas dos feirantes, aos sábados ia, de tolda em tolda. Do seu talão previamente preenchido, tirava o bilhete com a tarifa pelo uso do espaço público, entregava ao mascate que lhe pagava. Jonas possuía algumas cabeças de gado. E os seus dez filhos homens, se revezavam na função de manejar o pequeno rebanho bovino. Todos os dias, com o auxílio da cachorra baleia, os rapazes, recolhiam o gado que pastava, apartavam os bezerros das vacas leiteiras.

Monalisa resolveu que iria em direção ao pôr-do-sol. Isso mesmo, iria ao encontro do sol. Se um objetivo faltava a sua causa, agora havia uma. A meta era chegar ao sol. E foi. Se fosse esta história descrita na bíblia, diria que era perto da hora nona, a hora que saíra. Assim diria o evangelista João, de Monalisa. Andou, andou, e percebeu que em breve o sol iria se por. Desapareceria o astro-rei no horizonte. Não importava iria naquela direção, mesmo assim.

João I, jamais fora monarca. Na verdade, afinidade nenhuma tinha o moço com a realeza. Nunca gostara muito dos livros, nem de estudos. Seguiu a profissão do pai, ferreiro. João entra aqui na história, porque fora contratado para fazer um portão de ferro para o abrigo dos idosos São Vicente de Paulo. Uma das poucas construções que aparecia naquele cenário, protagonizado por nossa catequista. O abrigo continuava no mesmo lugar de sempre. A moça percebeu que a edificação mudanças significativas, não teria ocorrido do tempo atual para os dias que retrocedera a jovem jesuíta.

Já duas horas de caminhada Monalisa havia caminhado. Sentiu sede. Uma casa de alpendre, logo ali a frente, a margem da estrada, um velho sentado num banco. O cumprimento, e a dúvida: Boa noite! Ou boa tarde? A resposta do preto velho: Louvado seja nosso senhor Jesus Cristo! O pedido de água. Uma quartinha de barro, o líquido friinho, revigorante. O caneco de estanho, azul por fora, escuro por dentro, estrelado de pontinhos branco. Do jeito que estava ficando o céu.

João II, era filho de Seu Arlindo, comerciante, proprietário da lanchonete “A Toca”. João II, e Virgulino II, os únicos que entram nessa história, que não estão no campo de visão de Monalisa. Isso porque o episódio ocorrido entre eles ocorrera além da propriedade do senhor Jonas. Eles se encontravam a porta do Grupo Escolar Padre Francisco Correia, se desentenderam e protagonizaram um briga. João II levou um murro e o olho roxo teve que explicar, em casa. Virgulino II, era menino de rua, seu pai Virgulino I era estivador, trabalhava duro, na carga e descarga de caminhões que chegavam no setor do comércio atacadista, e de armazenamento da vila.

E “minha filha”, está fazendo caminhada? A pergunta pronta, vinda do preto velho. Tantas vezes usada, para outras moças, em ocasiões e hora semelhantes. Estava. Agradecida, revigorada nas forças, e se fez a despedida. O chão as vezes também faz pergunta. E responde ele mesmo aceitando humilde, pisadas, suor e lágrimas. Pássaros cantando, nuvens sumindo no negrume da noite. De repente, Monalisa percebeu uma menina, ao seu lado. Oi? Oi! Pra onde você vai menina? Pra lá. E apontou para adiante, sem que o gesto definisse exatamente o lugar. E você? Também estou indo pra lá. Só então percebeu que a menina falava sem abrir a boca. Tudo o que dizia Monalisa ouvia, a voz, dentro da sua cabeça. A menina acabou se apresentando: Já que você não perguntou. Vou dizer quem sou eu. Eu sou você. Não está me reconhecendo? Realmente não havia percebido. A menina era idêntica a ela, quando tinha sete anos. Do nada, a estrada que iam virou uma loja. Estavam agora, as duas, dentro de uma loja de cosméticos. 

Monalisa criança, estava na companhia da mãe. A menina furtivamente pegou um baton que estava sobre o balcão e colocou dentro da bolsa de sua mãe. A moça lembrava perfeitamente daquele dia, vinte anos se passara. Nunca teve coragem de contar ao padre da sua paróquia, aquele pecado, nas confissões que fizera, até então.

Caiu a noite. Breu cá em baixo, céu estrelado, lá em cima, não dava pra enxergar muito, adiante. Pra piorar, veio um vento frio. Nada ruim, que não pudesse piorar: uma chuvinha fina começou a cair. Se passava um carro, clareava a moça, sozinha, na estrada. O relógio da igreja acusou sete badaladas, e se estava ouvindo o sino significava que pouco havia se afastado da vila. Quatro horas de caminhada.

De repente percebeu uma mulher caminhando a sua frente. A sua versão menina havia sumido. Emparelhou com a mulher. Para onde a senhora vai? Estou indo para lá. E acenou, com o queixo, o horizonte, logo adiante. Tudo o que estava a frente era destino. Escuro, desconhecido como naturalmente é, todo destino e todo futuro. Não vá me dizer que você, sou eu no futuro? Afirmou com um aceno de cabeça. Bela senhora de seus quarenta anos. Não se preocupe, no futuro não comestes nenhum crime sério. Mas o companheiro que escolherás para viver, mudará muito, e pra pior, depois da fase de namoro.

Justino, morava naquela tapera que Monalisa tinha visto, no alto do lajedo, caminho pra lagoa dos bodes, além das terras de Seu Jonas. A Barba enorme, as crianças o apelidariam de “Barba azul”, tinham medo de sua cara feia, fechada. Acabariam inventando histórias que misturava fatos reais e fantasia. Criaram uma lenda que em noite de lua cheia, virava lobisomem. Justino se protegia se isolando, o que só aumentava esse lado místico. Preferia a escuridão das madrugadas, pra andar pelas ruas. Um bando de cães, de companhia.  

O dia raiou. A caminhada chegava ao ponto em que o cansaço ia minando as forças. E as coisas todas precisavam urgentemente ser resolvidas. As montanhas, lá longe, fumavam, nuvens frias roçando o topo, para os mais velhos que, era sinal que dias como aquele, que traziam o inverno. Um carro esporte, verde e branco, muito bonito parado a alguns mil metros a frente. O capô levantado indicava  problemas. Um homem branco, bem afeiçoado, em trajes de executivo, praguejava ao telefone móvel com um pobre coitado, do outro lado da linha. Olhou-o rapidamente, teve certeza, era ele o seu futuro marido. Enquanto falava, ele a observava, num misto de estranheza e familiaridade.    

Havia um menino a beira do caminho. O pretinho chamou-a de mãe. Pediu-lhe a benção. Pare com isso, não sou sua mãe! Eu sei que não é. A minha mãe já morreu... É que sinto tanto a falta dela. Posso chamá-la de mãe? Onde você mora, menino? Quando chegar lá, eu lhe mostro. É logo ali a frente. Alguns metros uma santa cruz, uma casinha de oração. Ao lançar um olhar ao interior do oratório gelou o coração de Monalisa. Lá dentro envolto em fitinhas coloridas uma foto do menino com quem falava. Instintivamente buscou-o, o garoto sumira.

Sorriso enigmático. Alguém algum dia, parou pra pensar, o que levaria um ladrão, a planejar, por meses, e até anos, o roubo da pintura de Da Vinci. Chegara porém, o momento tão esperado. A longa caminhada, tudo valera a pena. Acabara toda angústia, todo cansaço. Finalmente, lá estava. A menina não tirava os olhos da parede, vazia. Um espaço onde antes havia, a pintura, Monalisa.

O delegado parou a viatura, manteve o motor ligado. Desceu, contornou o veículo, e perguntou, Aonde a moça estava indo? Respondeu que ia adiante, sem rumo certo. Sobre o peito abraçava um pacote, algo fino, retangular. Impossível, ninguém podia transgredir, de forma tão impactante, a natureza das coisas, assim. Estar indo, a lugar algum? Como podia alguém ir a lugar nenhum? Isso ia de encontro a todo, e qualquer princípio da lei. Pior, incorria numa bruta transgressão. Passível de punição. Infelizmente. Teria que levá-la presa.

 

 

 


Sunemoon Conto 01/05/2026.


 

Um ônibus, na madrugada. Gigante azul, deslizando lento e calmo. Lembrava, nas formas, antigas geladeiras, da década de cinquenta, arredondado nas pontas. Molhado de chuva, semelhava um caubói, com imenso Ray-ban. Depois de noitada de farra, guiando, embriagado, sua Harley-davidson pela Rota 66. Lentamente foi se encostando a calçada. Parou. O som característico do balão de freio, se esvaziando sibilou noturnamente. A porta se abriu, para um passageiro subir.

Sunemoon, olhar sonolento, mesmo sem dizer nada, se despediu do poste, e da rua escura. Apanhando a mochila embarcou. Solidão, o seguiu, jamais a deixaria para trás. Alguns poucos passageiros dormitavam em suas poltronas. Foi assentar-se, numa, do lado da janela, na quarta fileira. Uma mulher, que acabara de subir passou, no corredor. Uma criança ao colo, e um menino de seus 16 anos a seguia. De onde aparecera aquela mulher? Tinha certeza, não havia ninguém, além dele, na rua. O coletivo, novamente em movimento.  Instintivamente afastou a cortina, encontrou vidro negro e frio. O interior do veículo, antes iluminado, voltou ao breu. Monstro de aço engolindo a faixa negra, sob os faróis. Lá encima uma lua raquítica, boiando no piche granulado. Valor nenhum dava ao que acontecia cá embaixo. Cavalos do cão, mariposas, libélulas, camicases noturnos, estouravam seus miolos, nos imensos óculos do trovão azul, comedor de estrada.

O corredor do hospital estava cheio. Macas encostadas nas paredes ocupadas por pacientes nas mais diversas situações. Acidentados, ladeados de pacientes infectados, uma mulher entrando em trabalho de parto, um vaqueiro com o braço quebrado, uma vítima de arma de fogo. Ali, tudo junto. Cenário de guerra, um campo de concentração. Uma moça atirou-se ao chão gritando. Dois enfermeiros tentaram segurá-la. Qualquer um diria que aquilo, não era coisa apenas da área clínica. Uma força descomunal, parecia possuída.    

Sunemoon estava no topo da colina. Uma altura considerável. Contemplava o vale que se descortinava ali a baixo, coberto por um verde exuberante. Esfumaçado o topo das montanhas, lá no horizonte. O céu azul, povoado de capuchos de nuvens brancas. Observando ao redor, viu que havia mais pessoas lá, além dele. Jovens conversavam animados, riam alto, enquanto faziam fotos. Um rapaz se aproximou, um gorro vermelho na cabeça cobria-lhe até as orelhas, o cabelo liso e negro, se sobressaía. Olhou para um lado, olhou para o outro, fechando os olhos, se atirou no abismo. Sunemoon, atônito, apenas observava. Ainda deu pra ver o corpo sumindo entre a vegetação.

A serra tinha nome e formato de barriga. Casas rústicas ali foram erguidas. Uma espécie de aldeia indígena, um enorme totem no centro representava os ancestrais da tribo que ali um dia habitara. Nativos vestiam roupas com estampas coloridas, homens e mulheres negras realizavam ritos tribais. Sentados em círculos apreciavam as danças, que eram também golpes de ataque e defesa pessoal. Um cigarro artesanal, feito de palha de milho e ervas aromáticas, sendo compartilhado. Na base do totem oferendas eram colocadas, garrafas de aguardente, vinhos, pratos com farofa, e pequenas caças assadas. O som de agogôs, atabaques e guizos feitos com couros de animais e cipós. Vozes bem ritmadas, e se transportavam em espírito a longínquas ilhas de Madagascar. 

Paulaner descobrira que o moço que tentara puxar conversa, se chamava Sunemoon. Disse-lhe, sem o menor receio, que estava em tratamento psiquiátrico e que achava que estar ali não passava de mais uma de suas alucinações. E que tudo aquilo talvez fosse apenas efeito de medicamentos. E que sempre acontecia, logo após tomar as drogas que precisava tomar. Uma pra manter a calma, outra pra relaxar, outra pra dormir, e outra pra não ter pensamentos ruins. E lhe confidenciava: Parece que a única que fizera efeito tinha sido a de dormir. E esperava muito, que tudo aquilo não passasse de sonho.

Sunemoon, viu que seu aparelho móvel de telefonia só 5%, tinha de carga. Aquela lata velha, tamanho gigante, não dispunha de entrada pra cabo de carregador. Se seu telefone celular descarregasse, ficaria sem comunicação com o mundo. Pior, não teria como pagar a passagem. Estaria, completamente, isolado do mundo. Mas, e não era isso o que mais queria? O seu maior propósito, não teria sido alcançado? Não, até chegar ao destino ao qual pretendia. Um lugar ao qual havia sonhado. Certeza tinha, chegaria lá. Saíra de casa sem saber ao certo pra onde ia. O destino, é que iria ao seu encontro.  

Sunemoon tocou-a levemente no braço dela dizendo, sinto muito dizer, mas, tudo aqui não apenas parece, mas é muito real. Caminhando foram até uma espécie de mirante, se despojaram de suas mochilas. Resolveram aproveitar a paisagem, que se oferecia. Encontraram, como que meio escondida, uma escadaria que dava acesso ao sopé da montanha. Lá embaixo, um formigueiro humano. Mulheres e crianças com rostos e pele queimados pelo sol, ofereciam lembrancinhas feitas de madeira e pedras encontradas ali mesmo, e que retratavam o local. De mãos dadas empreenderam a descida. Lá embaixo, esperavam encontrar Kleiner.

A médica do plantão tentando organizar aquela aparente desordem explodiu num forte brado. Alguém precisava dizer-lhe que, gritar em meio a uma balbúrdia apenas potencializava o caos. Nada havia de errado ali. De repente, pelos corredores, feito rastro de pólvora, se espalhou a boca miúda que o filho de um rico fazendeiro da região, teria dado entrada naquela unidade, com um objeto estranho, introduzido no ânus. O pai do moço apareceu bêbado, ameaçando todo mundo. A tão desconcertante notícia jamais devia ir, além dos corredores daquele hospital. Alguém iria pagar com a própria vida, caso isso acontecesse. Não sabia ele, que em Tóquio no Japão, os parentes da enfermeira Sakura, já estavam sabendo.

Uma pergunta tinha, a fazer, um ao outro. A respeito dos seus nomes. Sabiam não era nada comum, e a origem? Sunemoon quis explicar primeiro. O seu. era americano, seus bisavós teriam vindo para estas terras em busca de aventura fugindo da 2ª Guerra Mundial. Eram ourives e fundaram aqui uma relojoaria a qual poriam o nome de Sun & Moon. Seus pais quiseram que esse marca jamais sumisse, e deram assim, o nome ao primeiro filho.

Rindo Paulaner, disse, se você for a Alemanha vai me encontrar em todos os bares. É que meu pai é muito fã de cerveja. E quis que sua filha do meio tivesse o nome de uma marca de cerveja, que meus bisavós tanto consumiram em Munique, terra natal dos meus ancestrais.   

O celular de Sunemoon descarregara completamente. Sentado na sala de espera do hospital, viu o menino do gorro vermelho entrar, o mesmo que saltara pra morte, no alto da montanha. Vinha caminhando enquanto puxava a rédea do seu cavalo. Sentou ao seu lado, passando a mão na fronte do animal, disse que se chamava Kleinerferd, e que era irmão de Paulaner. Só tinha um pedido a lhe fazer, queria que ele cuidasse bem de sua irmã.

A moça histérica que havia sido medicada a força, agora balbuciava calmamente olhando seu celular. O vaqueiro bêbado que quebrara o braço, numa queda de cavalo, parara de gritar de dor, agora dormia. A parturiente dera a luz uma criança do sexo feminino. Prometeu, ali mesmo, colocaria o nome da filhinha, de Vitória, em homenagem a médica que a assistira. O cara que levara um tiro, estava em coma, induzido. E tudo o que ele mais queria, era saber o que aquele cavalo estava fazendo ali, cheirando suas cobertas, ao lado, do seu leito de hospital.

Analuz Conto 21/04/2026.



O nome do dia era manhã. A luz não viera, não viera ainda, a luz. Pássaros invisíveis anunciavam o que estaria pra vir. Uma casa, uma sala de sofá, iluminada por um abajur, a janela, Analuz. As trevas, deitada sobre as coisas, dormia. Tudo que se estava da luz afastado, o escuro engolia. A silhueta da serra projetada num denso azul, do céu noturno. Acordar de madrugada fazia Analuz pensar que era outra pessoa. Despertar numa hora não costumeira dava-lhe essa sensação. A imaginar que as preocupações de sempre nunca foram suas. Um desprendimento. Como se velhas obrigações, pertencessem a outra pessoa.

 Aquela hora, os pensamentos sobre o que teria pra fazer, parecia não ter nada a ver consigo. Fechou os olhos, um fundo amarelo surgiu, um imenso olho negro ao centro, que mais parecia um caroço de manga. Veio junto a vontade de saborear essa fruta. Tanto, que sentiu o cheiro. O monitor do aparelho deu sinal que a bateria, em breve, descarregaria. Um menino negro, debaixo duma chuva, que acabara de acabar, ia pela rua. Fora só uma nuvem, passageira. O menino tinha um buque de flores, parou, próximo a escadaria do santuário. Olhou lá para o alto. O dia agora, se fazia cinzento, pesado, tristonho, assim como o menino.

Resto de sonho retido na retina, de Analuz. Havia uma casa de taipa, lá dentro ainda era noite. Era um árido lugar. A luz que alumiava as coisas era de um candeeiro. As coisas tremeluziam, sob o luzeiro de cor alaranjada. As personagens preenchiam todo o espaço, de um rústico e curto corredor. Todos se tocavam, de tão próximos. Pareciam participar de um ritual. Os rostos morenos traziam uma serenidade indizível. Um clima de festa e celebração, no ar. Aquilo poderia ser um velório. As pessoas tinham uma necessidade de se tocar. Talvez isso, os tornasse limpos de algum mal, ou compartilhassem algo. Isso, não era assim tão explícito. Uma vara de incenso, que mal se via, ia sendo passada de mão em mão. Os que sentiam o odor que lhes entrava pelas narinas, e iam, em uma espécie de transe, alucinados, sob o efeito da droga liberada da pequena haste.

Os olhos pareciam molhados, negros, vítreos, sanguíneos. Não se sabia ao certo se entoavam um cântico. As lembranças não permitiam dizer, se o que lhes vinha aos ouvidos era uma oração, ou um tipo de canção. Um homem trajado de gravata e paletó, chapéu de massa, sapatos impecáveis. Projetou a sua sombra na calçada noturna. Era Ycaro, o coração cheio de ódio, planejava tirar a vida de Paul. Analuz estaria o traindo, com o seu melhor amigo. Vez em quando, apalpava o cabo do revólver que trazia preso ao cinto. Iria a roda de amigos, no lugar de sempre. Enquanto brindavam a vida, ele queria comemorar a morte. Espaço pra harmonia inexistia, caso abundasse contenda. Intrometia-se leviatã na trajetória de vida do casal. Abrindo oportunidade pra um, ou mais, assassinatos. E mataria, pelo vil prazer propiciado pelo ódio.

Os automóveis circulavam na pista de betume, nos dois sentidos. A chuva fina de há pouco, e tudo ficara indubitavelmente úmido, molhado. Os carros cobertos de gotículas, e as latarias vermelhas semelhavam morangos. Analuz, tinha um desses frutos boiando dentro de uma taça com gim. Submerso na bebida incolor o fruto rubro. Das coisas emanava um brilho incomum. Os negros pneus dos automóveis, incrivelmente novos, alucinadamente giravam com suas tiras brancas. Sequer tocavam a faixa negra do asfalto, simplesmente flutuavam. Apesar de movimento intenso do transito os carros pareciam não produzirem barulho dos motores. Analuz, nada conseguia ouvir, nada que viesse de lá fora. Nada externo ao seu ser.

O céu um imenso oceano, as águas suspensas se conservavam no firmamento. Uma atmosfera aquática, puramente hidráulica. Pregada lá no alto, poderosamente se mantinha, uma força gravitacional inversa que a retinha. Assim se continha, num balanço incrível, uma calmaria, inaldível, quase inacreditável. O homem de chapéu Panamá, metido a Indiana Jones se embrenhara numa biblioteca de casas. Ruas feito prateleiras enfileiradas. Achava que podia fazer o que quisesse, por mais que fizesse, sairia ileso. Fizesse o que fizesse, da selva de casas de vidro incolúme sairia. Tardiamente descobriria que não seria tão fácil assim. O que faria daria um conto, muito provável daria. Ajuntar fragmentos, pedaços de sonhos, pesadelos, lembranças de episódios vividos, outros inventados, seria o bastante. Misturaria ficção, e realidade. Seria seu álibi. Em meio a tudo isso, um assassinato estava sendo articulado. O do seu melhor amigo.

O santuário, era de concreto armado. A magnífica estrutura não possuía nenhum artifício incomum. Toda a beleza ali contida era obra da arte humana. Não havia diafaneidade, nenhum resquício de algo vindo de outra dimensão, nada que evocasse algo místico, espiritual.  Talvez fosse a única coisa real em todo aquele cenário incomum. Analuz, foi se encontrar encima de um barranco, vestida como se fosse, ou tivesse voltando, de uma festa, de um estupendo corpo de baile. O vestido vaporoso deixava suas costas desnuda. Era um vestido longo, de tonalidade rosa, nos detalhes. A maior parte era vermelho púrpura. Havia tirado os calçados. Um cálice com gim num apoio de copo, um longo cigarro branco e fino, com piteira, entre o indicador e o anular da esquerda. Lá em baixo, a margem de um rio calmo, sobre as águas negras embarcações pintadas de branco refletiam uma nesga de luminosidade. Uma tocha fincada no barranco tremia, efemeridade de línguas de fogo. Carnal, carnaval.

Analuz, queria entender o que significava a saudade que sentia.  Um homem de meia idade vestido com roupas de árabe, fantasia de carnaval, surgira puxando pelo braço um menino negro, de seus quinze anos. O homem estava bêbado, abaixou suas calças, em seguida, a do menino. E o violentou, ali mesmo. Depois arrastou o garoto para dentro d’água, e o afogou.  O rio, Analuz o conhecia. Tomou banho quando criança naquelas águas. Analuz não entendia, presenciava um crime acontecendo bem a sua frente. E, sequer isso lhes causava o menor constrangimento. Sentimento, nenhum brotava do seu coração. O assassino parecia com alguém que ela conhecia. Talvez seu pai, quando era mais novo. Esse comportamento a assustava, a surpreendia, simplesmente não se reconhecia, na sua ausencia de empatia. Nem um músculo de seu corpo, estremeceu. Ante, ato tão atroz. Ela ali, feito estátua. O gim, o ópio embotara seus sentimentos. Seria aquilo só um sonho, um pesadelo.  

A alça do vestido folgou, e um seio seu ficou exposto, a luz. A pele mais alva próximo ao mamilo. A auréola intumescida. O seio da “Liberdade guiando o povo”, feito quadro do pintor francês Eugene Delacroix . O mancebo que a vigiava, a mando do seu marido a tudo via, teve um alumbramento, uma languidez, o invadira. Paul apareceu, do nada apareceu. Tinha ido a uns arbustos aliviar a bexiga. Os amigos o aguardavam a mesa, na calçada do botequim. Nada de importante conversavam, ali. Além do que uma turma de homens entregues a embriaguês poderiam discutir. Certames, campeonatos de futebol, abjeta discussão sobre política, nacional e internacional. Uma briga se concretizaria, iam as vias de fatos. Murros, garrafas quebradas. Alguém acabaria derramando seu sangue naquele chão. Ycaro aproveitaria a ocasião para atirar no amigo traidor. Algo incomum, no entanto aconteceria, um cão de rua ali aparecera, o dono do boteco resolvera o enxotar, tacando-lhe um chute nas definhadas costelas.   

Foi assim, que tudo começou, um cão negro surgido da escuridão. O pelo molhado brilhava um brilho azulado. Olhos abaixados pro chão, a procurar comida. Ninguém percebeu, mas eram olhos como duas brasas. Talvez fosse só o reflexo das luzes que causasse essa impressão. Dos dentes saliva viscosa escorria. O dono da taberna fez menção de enxotá-lo. Deu-lhe um chute, que não o atingiu. O animal reagiu instintivamente mordendo a panturrilha do velho, que soltou um urro. Paul que estava na mesa empunhou um machado de cortar lenha. O aço desceu sobre o crânio do cão, se encravou macio entre os seus olhos. Ao penetrar o osso craniano, o animal voou em direção a jugular do seu agressor estraçalhando-lhe o pescoço. O boteco desse dia, melhor dizendo, dessa noite em diante ficaria conhecido com o bar do lobisomem. Paul foi pro hospital, e dali pro cemitério. O cão se embrenhou no mato com o machado encravado na testa. Ycaro vingado estava, sem sequer manchar as mãos de sangue.

Pouco a pouco o cenário começou a se modificar. Analuz, os corpos, as paredes, o teto como que explodido em luz. Era impacto bom, tudo, lentamente, passando a emitir feixes de luz. Uma luz serena, incandescente sobre as coisas. De todos os seres emanava luz, de todas as coisas luz. E o que, até então, era noite virou dia. Os automóveis circulavam. A chuva fina cessara, e tudo que estava úmido e frio agora, era sol. Os carros, lataria vermelha, feito cerejas. Um brilho incomum, negros pneus, flutuavam. O movimento intenso, os carros voltaram a produzir o normalíssimo barulho dos motores. O céu era um mar de paz, e de luz.

O nome de tudo que dava pra ver da janela, era dia. A luz que abundava era chamada manhã, lentamente se impondo. O clarão que vinha de detrás das montanhas, devagar avançava. Clarão que afastava os medos. Medo que não deixara Analuz dormir naquela noite. Pássaros saídos dos galhos das árvores em revoada anunciavam um novo dia. Analuz, inesperadamente despertou. Cambaleante andou pela casa, doce penumbra. A sala de sofá, o abajur, a janela. As coisas que a luz agora alcançara, as trevas desengoliu. A serra, embora distante, fazia-lhe companhia. O azul claro, do céu afagava-lhe.

Se imaginou sendo outra pessoa. Pensava nela, como alguém de quem era apenas amiga. Achou interessante pensar que ela, era outra pessoa, outro ser. Alguém a que, naquele instante, poderia aconselhar. Conversar quem sabe ajudar. Um pertencimento, as avessas. Queria entender porque as coisas do dia a dia, que tanto a preocupava, era que na madrugada todos os problemas eram  potencializados. Bastava amanhecer, e tudo aquilo parecia tão minúsculo.

Fechou os olhos, um fundo azulado surgiu-lhe na retina. Um imenso olho negro ao centro, que mais parecia um topázio. Uma taça de absinto, o suave gosto de anis. O monitor do aparelho deu sinal que a bateria estava completamente carregada. Um menino negro, se aproximou da escadaria do santuário.  Um buquê de flores encostado ao peito. Segurava-o com imenso cuidado. Aquele ramalhete tinha para ele, mais valor que sua própria vida. Uma mulher vestida de branco, o aguardava, no alto do lance de degraus. O menino, rosto molhado, de lágrimas de chuva. A mulher, apenas o menino a via. Olhar voltado para o alto. O belo rosto resplandecente, sorria.

     

 

A Procissão [Parte 2] Conto 26/03/2026.


 Letícia estava na cama. Não tinha a menor ideia de quanto tempo havia dormido. O corpo parecia não querer obedecer aos impulsos, ou as ordens das sinapses dos neurônios enviadas do cérebro: abrir os olhos - tão pesadas as pálpebras, se recusam atender-lhe. Sentar-se – nem um músculo se movia - Ir até o banheiro - nada. Tentou coisa mais simples, virar de bruços - em vão. Só duas funções, nela, estavam em ação: respiração e batimentos cardíacos. Tentou tirar o braço da posição incômoda que se encontrava. Os braços, nem pareciam lhes pertencer, custava acreditar que eram parte do seu corpo. Mais de uma vez tentara se mover, nada. Esse estado vegetativo nem um pouco a incomodava. Algo inusitado simples assim vivia-o. Um fio de baba, descera-lhe pelo rosto. Fria agora, molhara um pouco o travesseiro. Seria dia, ou já anoitecera? O quarto todo era penumbra.

Um menino árabe sentou-se bem ali, ao seu lado. Tinha, entre as mãos em concha, uma pedra azul turquesa que emitia uma luz encantadora. Teve vontade de pegar naquela pedra. O menino, porém, com um olhar carregado, crispado de angústia, olhava fixamente para ela, sem nada dizer. Seu olhar, de muita tristeza, era como se dissesse, nada daquilo adiantava mais. Pra que possuir algo tão bonito e valioso? Se a guerra havia tirado-lhe o que mais prezava, sua família. Aquele menino seria real, ou parte das alucinações causadas pelos psicotrópicos que ingerira em grande quantidade?

Para onde foram todas as coisas? A sua vida, sua rotina de cada dia. Tudo era inexoravelmente estranho, porém plausivelmente aceitável. O que aquela praia estava fazendo no final da rua? O céu escuro pronunciava tempestade. Aquele céu já o tinha visto outra vez, em outro sonho. E tanto, e tão grande terror lhe causara. Um sonho pavoroso, um tanto apocalíptico. As estrelas caiam do céu sobre as águas do mar. Ao chocar-se com as ondas gigantes, como bolas de fogo, as estrelas provocavam enormes deslocamentos de água, e o mar avançava para a terra. Aquelas ondas tenebrosas, elas, indubitavelmente iriam inundar o continente.

Onde estaria sua irmã naquele momento? Esperava desesperadamente que estivesse num lugar seguro. Num abrigo do governo, construídos exclusivamente para aquelas ocasiões, de uma terceira guerra mundial, ou de uma catástrofe natural. Não saberia explicar, se alguém lhe perguntasse, por que num momento de aflição como aquele lembrava primeiro da irmã mais velha. Dos outros irmãos, e os pais não pensava neles. Por quê?

Do jeito que estava, sem coragem pra se levantar, talvez fosse melhor voltar a dormir e continuar o sonho de onde parara. O leito da rua tinha uma cratera. Aberta por um míssil, que acabara de cair, a terra ainda quente e fumegante liberava cheiro forte de enxofre. Gente morta, destruição. Curiosos vieram ver o estrago provocado pela explosão da ogiva. Lá longe outras explosões, e mais estragos. Alarido, correria, gente chorando, gritos de lamento. As pessoas se atiravam ao chão desesperadas ao verem familiares mortos. Elas vestiam roupas como no oriente médio. Os homens eram morenos e barbudos, usavam turbantes. Estaria em algum povoado do Irã? Estaria no centro de Teerã?

Letícia, achava todo aquele papo de quaresma, e de semana santa um saco. Daquilo só curtia as novidades surgidas na mesa. A principal refeição do dia, no almoço, arroz no coco. Curtiu a beça. Bem que podia, de vez em quando, haver aquelas variações de prato, aquelas iguarias: bacalhoada, feijão com coco, peixe frito. Não somente naquela época do ano. Não entendia. O excesso de vinho, causara-lhe uma dor de cabeça daquelas. Vinho tinto, gelado, o fim da picada. Letícia pretendia abolir bebida alcoólica de sua vida, as ressacas a deixavam-na deprimida. Ficaria só com os psicotrópicos. E os baseados, nas festinhas, e finais de semana.

O pai, não gostava dele, nenhum pouco. Achava-o artificial demais. Não parecia uma pessoa normal. Parecia que atuava. Os seus gestos, comedidos, pareciam ensaiados. A fala empolada, como se quisesse impressionar. Como se quisesse ser lembrado um dia, por aquilo que dizia. Era como se tivesse decorado cada palavra. E se dizia algo de improviso, se recriminava. Como se reconhecesse o erro que acabara de cometer. Será que seu pai fora um filósofo em outras vidas? De certo jamais esqueceria nele o ser excêntrico que era as muitas manias feias que tinha, de querer tirar proveito de tudo. Não admitia, por exemplo, ir olhar um pôr-do-sol, lá no alto da serra tinha que voltar com uma plantinha que serviria pra um chá. Se fizesse uma caminhada pelo quarteirão, tinha que aproveitar pra fazer outra coisa, passar na padaria, no mercado ou na quitanda.  

Na infância odiava-o pelo destrato com sua mãe. Chegava a passar de semana, sem aparecer em casa. Levava vida boêmia, frequentava os cabarés, e era alcoólatra. Aposentara-se por invalidez, por problemas mentais. Sua mãe tanto sofrera na companhia dele. Deixava faltar alimento dentro de casa, até fome a pobre mãe passara. Um único ovo frito, um pouco de arroz e farinha certa vez dividira entre os quatro filhos. Um dia ao vê-la chorando, Letícia ouviu-a dizendo baixinho: -Um dia, ainda me livro dessa praga. Se vier me bater de novo, quando arriar na cama, boto água quente no ouvido desse infeliz.

O pai de Letícia, mesmo quando ficara uma moça, ainda ela o odiava. Achava que, mesmo sendo seu pai, a olhava com olhar de cobiça. Avaliava seu corpo como um homem qualquer, sequioso por sexo. Sem tentar disfarçar, sem o menor pudor observava seus seios, suas nádegas, seu sexo. Ela jamais saía do quarto de baby doll, se ele estivesse em casa. Entendera que tinha um pai psicopata. Entendia que não deviam, nem ela nem a irmã deixarem peças íntimas suas no banheiro. Já o flagrara se masturbando altas horas da noite, assistindo filmes pornôs. O sentimento que tinha dele era um misto de asco, e nojo. Algumas amigas já haviam percebido isso também, e o evitavam.     

Agora mesmo pensava na sua irmã. Imaginava como realmente ela era. Aquela paciência de Jó. Aceitava passivamente os acontecimentos, até mesmos as catástrofes, naturais ou provocadas pelos homens. Como se tudo, que estava pra acontecer já fosse esperado, e que era tudo pra ser daquele jeito mesmo. Peremptoriamente previsível. Olhar de resignação, abraçada aos seus dois filhos Rômulo e Alex, o primeiro de dezesseis, e o outro de sete anos. Ela ajeitava o longo cabelo, de modo tão natural, como se dali a pouco, aquele pesadelo fosse acabar. E sua doce vidinha voltaria ao normal. Pegaria seu laptop e reiniciaria seu trabalho “home Office”. Rômulo na cozinha enchendo um copo de Coca-Cola, tomaria e forçaria um arroto só pra sentir o gás do refrigerante saindo pelas narinas. E fazia sanduíches com pães seda, aberto ao meio, e lá dentro poria, em cada um, uma fatia de fiambre e outra de queijo mussarela.

Aquela ressaca, parecia que ia abrir-lhe a cabeça ao meio. Saiu da cama pra ir ao banheiro vomitar. Só então Letícia percebeu que estava nua. Cambaleou até o vaso sanitário, a visão da louça branca, o forte cheiro de água sanitária, não deu pra segurar o vômito. O jato de vinho tingiu tudo de cor púrpura, lembrava sangue. Lembrava morte, lembrava coisas tristes, lembrava suicídio. Lembrava as lições de moral do pai. A mãe ralhando, porém brigava como quem afagava. Foi pra debaixo do chuveiro. No espelho, um diabo, com cara do Coringa, mesma maquiagem, mesmo sorriso asqueroso, mesmos olhos sanguíneos, rodeados de tinta preta, que se derretia em lágrimas negras.

A flor do deserto, e o deserto. Era noite, a escuridão tinha cheiro de vinho. Uma lua parecida com um pedaço de unha reluzente, boiava no gás negro, noturno, a alguns metros à cima do areal. Parecia que se estendesse a mão conseguiria pegá-la. Não tinha interesse em tê-la. Alguém tocava um piano de calda, acompanhado por um negro escravo, vestido apenas com uma calça de linho branco, que soprava numa gaita uma melodia triste. Teria chegado ao inferno? Não havendo fogo nem demônio, ali. Então presumiu que poderia estar no purgatório.

Percebeu-se deitada num imenso areal. Grãos de areia aderidos ao rosto. Havia areia por todo o corpo seminu, beijado pelo vento leste. O capim, o cheiro adocicado da maconha chegava as suas narinas. Quisera agora somente viessem lembranças boas. Os olhos se abrindo e conseguindo enxergar os pneus da moto do amigo, estacionada a poucos metros. O amigo que Letícia chamava de “Miga” estava sentado na areia, só conseguia ver suas costas nuas. Fumava. A noite calma, já ia alta.

O pai estava na cozinha quando ela passou pro banheiro. O sermão começou, enquanto sua mãe preparava o almoço. Ódio por viver aquele tipo de situação. As coisas, quando fogem do controle parece que tudo vai desabar. Era sempre assim, Letícia achava que não devia satisfação nenhuma da sua vida. Apesar de viver na casa dos pais. A tevê, infelizmente não conseguia entreter seu pensamento de morte. Donald Trump que fosse logo pro inferno. E levasse junto com ele, os Aiatolás todos do oriente médio, que se danassem também a guerra da Ucrânia com Zelensky, com Putin, e todos os líderes comunistas, que fossem todos pro inferno, que eles mesmos haviam criado.

A mãe, chegara do trabalho, naquele instante, reclamava de dores nas articulações, na coluna vertebral, e na região cervical. De tanto fazer exames e consultas, já estava se acostumando a falar igual aos médicos. De remédios, desde os de farmácia, aos chás caseiros, quem ainda entendia era ela. A ladainha do pai, reclamava sobre a única filha, que mesmo adulta e emancipada financeiramente, pois tinha um trabalho de técnica em Enfermagem, ainda assim vivia dentro de casa. Letícia aprendera a filtrar aquele tipo de discurso, olhava pro pai e mentalmente apertava o botão “Mute”. E simplesmente tudo ao seu redor passava a ser só imagem, sem som nenhum. E se acaso ele fazia uma pergunta. Respondia com outra já engatilhada: “-Não entendi.”  

A moça não era batava, era albina mesmo. Imaginou-a se estaria realmente de biquíni? Achou bonito o caminho pros seus pêlos pubianos, a fila de cabelos descoloridos. Ela percebeu seu olhar cobiçoso, mesmo por trás do rayban. Perguntou se tinha isqueiro ou fósforo. Não tinha, nenhum nem outro. Detestou não poder ajudá-la naquele momento. Era pra acender um baseado. Letícia se prontificou a conseguir. Foi até a conveniência comprou um isqueiro, uma lata de Coca-Cola sem açúcar, e uma goma de mascar Trident. Quando voltou a ruiva já havia acendido o baseado, conversava com um homem negro, de cabelo rastafári e longa barba com trancinhas nas pontas. Ficaram em três, se curtindo. Conversas, fumo dividido,  sorrisos.

Letícia havia meses, talvez anos, tentava por fim a sua vida. Não via motivo plausível pra viver aquela vida que vivia. Considerava-a sem sentido, e que não a levaria a objetivo algum. Na sua concepção, por assim dizer, sua vida inutilmente era vivida. O motivo pelo qual ainda não o fizera, eram vários. Em setembro, porque achava que precisava pegar um bronze. Não convinha se tornar uma defunta descorada. Além da palidez natural, cadavérica, que iria adquirir.  Também precisava subir a serra pela milésima vez. Fazer fumaça. Se despedir da amiga natureza, uma das melhores companhias que tivera até agora, à altura dos seus vinte e sete anos. Imaginou-se deitada no caixão, e as amigas comentando, como estava legal, a sua cor de pele, as tatuagens, ainda bem vivas.    

O sino tocando renitente, pessoas cantando, um canto penitente alvoroçava a rua. A frente um mancebo todo de branco erguendo uma cruz preta, envolta numa faixa de pano, também branco. Matracas, canto de lamento, de almas arrependidas, pedidos de perdão, pelos pecados. Letícia não tinha ânimo sequer pra levantar a cabeça. Alguém disse: “-Parece que ela está morta...”. O moço da moto, deu a entender que estava com ela. E que ninguém precisava se preocupar.

Letícia, agora, sentada no banco dos réus, o olhar no nada. Nem parecia estar ali, sendo julgada em uma sessão do tribunal da justiça. A assembléia muda, apenas ouvia, O silêncio quebrado somente pelas falas dos magistrados. A moça era acusada de “crime fútil, com resquício de crueldade”. Por ter tirado cruelmente a vida dos pais. Os corpos, pela polícia, foram encontrados em casa. A mãe, sentada no sofá, lavada em sangue, degolada enquanto assistia televisão. O pai, encontrado no quarto deitado na cama, tinha uma perfuração de bala no pescoço que saía na nuca.

O júri em andamento. A fala agora era da defensora pública, que tentava convencer ao corpo de jurado, a inocência da ré. Letícia havia ligado o modo: “Mute”. Porém, lá no fundo, bem no fundo do seu cérebro, um cântico ecoava. Um, que a multidão de povo entoava, ao passar em sua rua o cortejo quaresmal: “A morrer crucificado. Teu Jesus é condenado/ Por teus crimes pecador, por teus crimes pecador.”