Era manhã, outra vez manhã. O sol invadia a casa, tornando liquefeitas as coisas todas. Uma estrada de paralelepípedos. Um céu azul, locupletado de luz, e calor. Chamuscando nuvens brancas, capazes de queimar a pele se fosse tocada, por um considerável período de tempo. Um prédio novo, de linhas retas, um portão calado. Grades pra proteger, os que estavam fora, dos que estavam dentro.
“Todos eles traziam sacolas, que pareciam muito pesadas. Amarraram bem
seus cavalos e um deles adiantou-se e indo em direção a uma rocha gritou: “abre-te
cérebro!”*
A entrada lhes foi permitida. Sala
de espera. Os dias nunca foram iguais. E dali por diante, jamais seria os
mesmos. Cesto com revistas, balcão de recepção, bebedouro com água refrigerada,
sem copos descartáveis. Napoleão, conversando com Bin Laden. Kunta-Kintê o
jovem negro africano, num canto, arredio. Hebe Camargo pernas cruzadas
calmamente se olhava no espelho do aparelho móvel de telefonia. Zé Crispim
andara solto, aprontara novamente, discutiu com um rapaz. O moço só queira se
divertir. Deu três tiros, depois largou o revólver sobre a mesa. Pobre moço, da
mesa de bar, pro hospital, do hospital pro cemitério. E Zé Crispim dentro de
outra pessoa, evadiu-se do local. Para, sessenta anos depois, não mais ser
encontrado.
“As pedras são muito mais lentas do que os animais. As plantas exalam mais cheiro quando a chuva cai.”*
Hitler acreditava que ainda poderia recrutar seus aliados. Desta vez mobilizaria mais da metade, da população. Aboliu seu bigodinho, mantendo, porém, o mesmo estilo de cabelo. Outra vez, se candidatara a presidente. As vacas holandesas pastavam entre os velhos moinhos. E sua pelagem branca com manchas negras, a perpetuarem a enganosa ideia de paz, saúde, e leite branquinho na mesa dos camponeses, na mais pacata das vidas campesinas. Num longínquo mundo irreal. Meninos galegos de cabelos escorridos corriam em direção ao riacho. Bando de pardais descansava nos galhos da frondosa craibeira, barulhentamente.
“As andorinhas quando chega o inverno voam até o verão. Os pombos
gostam de milho e de migalhas de pão.”*
A água aparentemente não era possuidora de sabor. Molhava melhor por fora, que por dentro. Um pote rachado lacrimejante ensopava a rodilha, e vertia-se pelo rosto resplandecentemente resfriando-o. Refrigério era olhar pra casa e ver, lá dentro sua alma. E lembrar do quão prazeroso era estar sobre aquele teto. Tomar os medicamentos era necessário antes que viesse a sensação de não ser.
E chegou uma família. Um pai, um
senhor de meia idade, com um filho e uma filha, adolescentes. O pai portava: a
chave do carro, e seus cabelos grisalhos; o filho: pequenas tatuagens nos braços;
e uma camiseta, de quem curte: sol, praia e rock. A moça de longo vestido, e
cabelo negro entrançado. Aproximaram do balcão. Solícita a recepcionista quis
saber: internação? Sim, respondeu a jovem. Quem? O pai.
“Os homens quando vêm de longe trazem malas[...] As máquinas de fazer
nada não estão quebradas.”*
André, o apóstolo, seria o quinto a ser atendido. Precisava tomar o anti-ansiolítico, o analgésico pra dor de cabeça, e o anti-epilético, contra as convulsões. A moça do balcão conseguiu-lhe um copo descartável, contendo água potável. Araras discutiam nos galhos da goiabeira, ali ao lado. Dava pra ver suas sombras refletidas, no vidro do quadro de avisos que havia. Sublinhava-lhe, em uma folha de almaço, o desenho de uma boca sorrindo, sobreposta com os sinais de interrogação e exclamação, respectivamente, pintados com esmero. O paciente interno que pintara, era provável que teria assinado sua obra. Vista e gravada para sempre, na mente de quem sentara naquela sala de espera.
“Os sábios ficam em silêncio quando os outros falam.[...] As páginas
foram escritas para serem lidas[...] Cabelos quando ficam velhos ficam
brancos.”*
O senhor bebe? Claro que bebia!
Preferiu responder com um clássico adjetivo: “Socialmente”. Pensou: E viva o
socialismo, tão permissivo até para quem bebe. Entendera que a pergunta era
específica para o consumo de álcool. O doutor especialista em cabeça, que
jamais tirara os olhos de seu laptop, nada mais questionou a respeito da sua
resposta. Então, fez questão de complementar: Minha religião não admite, porém,
tolera. Vivia, no entanto, abominando os preceitos religiosos: pensou. Calculou
mentalmente que conseguira a proeza de: seis meses, quatro dias e treze horas,
sem ingestão de substância que contivesse etanol.
“Crianças gostam de fazer perguntas sobre tudo. Nem todas as respostas cabem num adulto.”*
Admoestados no espírito, pacientes, pacientemente, porém não muito, jogavam. Preenchiam o tempo jogando dominó. E caso se cansasse daquilo, um tabuleiro de damas os aguardava encostado serenamente. Um maço de cartas dormitaria até um quarteto de gente as ocupasse. Sobreviventes de suicídios, vítimas de estupros, escapados de atentados, de grupos de extermínio, usuários de drogas, dependentes químicos, alcoólicos. Compartilhavam da mesma dor. Das mesmas dores, e comprimidos servidos entre controlados intervalos os sustinham lúcidos. Não discutiam sobre o que os levara até ali. Se vinham as crises, dois brutamontes vestidos em jalecos brancos os imobilizaria, aplicava um “sossega leão”. O quarto do isolamento. E a tranquilidade dantes, voltava a reinar.
Vincent Van Gogh apareceu, literalmente. Cabelos e barba ruiva em desalinho. A orelha cortada, ainda envolta num trapo encardido. Achei-o parecido com um amigo de infância, que se chamava Samuel. Morava na rua São Vicente, o pai era fotógrafo. A mãe evangélica. Dar-lhes-ia um nome bíblico assim como aos demais irmãos, José Maria, Maria, e Davi.
“O corpo existe e pode ser pego. É suficientemente opaco para que se
possa vê-lo. Se ficar olhando anos você pode ver crescer o cabelo.[...]*
A conversa foi curta, porém, proveitosa. Vagou pela beira do rio, do riacho, das montanhas que circundavam a cidade. Voltaram ao campinho atrás da casa de Seu Evilásio, subiram o alto do Cruzeiro. Colocaram o joelho, na covinha na rocha, onde Jesus se ajoelhou. São Miguel, o arcanjo, o anjo da guarda, não suportando mais ouvir tantas reminiscências dentre os amigos, de infância. E que, cinquenta anos depois, se reencontravam, numa sala de espera, de um centro psiquiátrico, afastou-se deles. Ficou na porta olhando o movimento. Os legionários de leviatã, ao vê-lo, passavam de largo.
Uma mãe, olhando assim meio que
assustada, disse: Você viu? Achou melhor concordar: concordou com um aceno de
cabeça. E Ela: É minha filha! Na verdade, ele não tinha visto nada. Concordou
na esperança de não dar vazão a qualquer assunto com alguém que não conhecia.
Mas é sempre assim, aquilo que mais tentamos evitar, indubitavelmente vem-nos
com veemência. Estava tão bonita com aquele vestido. Continuou a mãe. Tinha
oito anos quando morreu... Atropelada.
“O corpo tem alguém como recheio.”*
Duas moças entraram no recinto. Dirigiram-se ao balcão de recepção. Estavam de mãos dadas. Não largavam a mão, uma da outra. Eram muito parecidas. Dada a semelhança, só podiam ser gêmeas. Os cabelos longos e negros traziam-nos escondidos sob lenços coloridos, amarrados com vistosos cordões que lhes desciam sobre os ombros. Suas vestes era como a de mulheres do mundo árabe, talvez mulçumanas. Não queriam serem internadas, apenas marcar consulta, com o psicólogo.
“Para passar de um lugar a outro existem as portas.[...] Os meios de
transporte chegam ou vão embora. As portas são meios de transporte que ficam no
mesmo lugar.”*
*As citações, entre aspas, em itálico, são do livro: “As Coisas”, de Autoria do cantor, poeta e intérprete Arnaldo Antunes [2/9/1960] ex-“Grupo Titãs”. Foram tiradas das páginas: 11, 13, 21, e 23.Editora: Iluminuras. 2006.
John Gabriel Caetano Medeiros [aos seis anos, talvez]
















































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