A Terceira Porta... Conto 08/10/2026.




Uma xícara de café de arrumação, uma xícara de café de conversa, com discussão. Uma xícara de café, de olhar o mundo. Uma xícara de café. Uma colher de mexer, doces pensamentos. Uma xícara, quase meia, de solidão. A porta, da casa da minha vó, estava sempre aberta. Para tudo que quisesse, por ela, entrar: meninos, zoada, vento, ventania, redemoinho, senhora alegria, dona tristeza, poeira da estrada. O sol se arriscava. Entrava só um pouquinho, depois se ia.

Era uma casa de taipa. Tudo tão, impregnadamente túrgido de rusticidade. Os caibros roliços, retorcidos, escuros.  Renitência de negritude, de fumo, e fumaça, emanada do fogão a lenha. Tudo ali, tão alucinadamente trôpego. A cozinha era o que se podia chamar, de, o maior cômodo daquele casebre. Panelas de estanho suspensas, pelos seus pegadores, enganchados em pedaços de arame que semelhavam anzóis gigantes, pendidos dos caibros.

Dia, de lavar roupas, dia de duras pedras, de chão - embranquecidas de alvejantes – sob moles pedras de sabão. Palavras quentes fervendo, saídas da boca, com todo ranço de quem revoltada estaria, com o que era feito de todas as coisas. Com a lida, com a vida. Dia de lavar roupas amostrando, que aquilo não era vida de gente. E que nenhum ser vivente merecia - viver - vida daquele jeito. Dia de lavar roupa, era dia de tanger meninos, tanger galinhas do terreiro, tanger burro. Dia de ajuntar tudo, dia de tanger a falta de coragem. E a raiva ia pingando na areia, porque mesmo com tudo aquilo, tinha que ir. Para onde estava indo mesmo? Pra lá.  Lá pro beiço do riacho, se fosse tempo das trovoadas. Ou, danava-se pro açude, que no verão ficava feio. Mas, um dia, bonito novamente estaria. Quem sabe num sábado. Assim, bem de tardezinha.

Deteve-se olhando bem direitinho a rua. Achou que, aos olhos, se apresentava diferente. Não sabia exatamente o que, mas que havia algo, havia. Aquele pé de Velame? Como foi parar lá em cima das eiras, da casa de dona Aída? Foi o vento que levou! Foi não senhor, foi um pardal que cagou a semente lá! E que símbolo era aquele, na fachada da casa de dona Maria? Nunca que houvera percebido aquilo lá. E olha que, naquela rua, morava desde que nascera. As paredes da casa da minha vó. Toda vez que ia lá, sentia como que queriam abraçar. Sentia o calor, seu carinho, parva de saudade perguntando: Por onde andastes? Por que te demorastes tanto, a voltar? A cada vinda, quase não o reconhecia, sempre mais e mais esticado. As paredes da casa da minha vó tinham a cor, e o cheiro dela. À medida que ia, minha vó, envelhecendo, também as paredes da casa iam, adquirindo rugas, as que marcavam seu rosto.

Dia de lavar roupas, achou um talão de luz, não pago, por esquecimento. Achou de ser achado, logo ali no bolso da saia. Com a mão da raiva o amassou. Dia de lavar roupas, sempre, sempre, exigia dose extra de cortisol, nas estradas das veias, no caminho do sangue, quente. O aparelho de telefonia móvel, por si só, fazia um apanhado de tudo. O mundo chegando, na telinha, em todas as suas nuances. Mensagens de amor. Palavras, imagens, e o poder de mudar vontades, opiniões, comportamento, humor. Desejos e vontades ganhavam - e perdiam - forças. Um céu que não era habitado por Deus, e o poder de mudar de azul em lilás. As meninas na praça, debaixo de um sol escaldante. As roupas excessivamente ínfimas. Cheias de carne, de energia, de calor exalado. Não havia vontade suave, não havia desejo originalmente vindo do coração, os impulsos nervosos convergindo para as satisfações pessoais. Vontades exacerbadas. Inexistência de discernimento. Os netos mangavam de vó porque na hora do jornal nacional falava com o homem da televisão. Desculpava-se por cochilar, devolvia o boa noite. Oxente! E vocês não ficam aí, falando com essas televisões pequenininhas? Mas aqui vó, as pessoas conseguem falar com a gente!

Pardais não deviam discutir política. Eles, nada entendiam desse assunto. Mesmo assim, discutiam, e ficavam com raiva, uns dos outros. E tomavam partidos - literalmente - e brigavam. E marcavam território esfregando as penas do rabo nas biqueiras, nas redes de fios. E ai, do filhote de pardal desavisado que se metesse a besta, e ultrapassasse aquele limite. Uma espingarda soca-tempero. Dormia seu fedor de pólvora, entranhada entre caibros e ripas. Um facão embainhado num armador de rede. Uma imagem de Joana D’Arc, - numa moldura almofadada, com frisos de canto - ainda moça, jovem guerreira, na frente de batalha, tão longe de França. Porém, tão familiarizada com tudo aquilo. O piso irregular obrigava a andar, como quem pisava em brasas. E não havia muita diferença entre ali, e tropicar nos amoitados e veredas que compunham o vasto sertão, de em derredor.

As corujas rasga-mortalha tinham consciência da sua importância para sua prole, também pra cidade. As guardiãs dos templos, predadoras de morcegos, devoradoras de pequenas cobras, lagartixas, rãs, insetos, camundongos, gabirus, lacraias, escorpiões. Sobre corujas, meninos só sabiam coisas ruins, que traziam mau agouro. E que eram aves de bruxas, magos e outras criaturas abomináveis. Por isso consideravam-nas inimigas mortais.  As plantas nos caqueiros, elas quase não conversavam Simplesmente por não haver muita coisa, entre elas, pra dizer. Diante de tanta quietude, uma riqueza de sentimentos, de perfumes, de meles, e de cores. A ausência de bons gostos, só se via entre pessoas. Equipados com seus laptops e aparelhos de telefonia móvel. Os humanos pareciam, cada vez mais, desumanizado? Não seriam as plantas que estariam se robotizando, jamais. A mulher conversava com elas. Algo saudável, para ambas. Além da reciprocidade. Sentia que sua fala as alegrava.  Lá da sala vinha vindo uma música de ciranda, do tempo que as crianças, ainda brincavam em frente da televisão.

As paredes e suas reentrâncias, com variada serventia. Pendurava-se nelas touceira de corda, relhos de bater em animais, chapéus de couro, uma lamparina a querosene, uma cesta de cipó contendo folhas de catingueira, com ovos de galinha, uma sacola de pano, com um cordão na boca, cheia de farinha de mandioca. Um embornal encardido. O portão do chiqueiro dos porcos, enferrujado nas pontas, pintura gasta, de cor indefinida. Tinha dia que parecia azul claro, desbotado, noutros parecia um verde desmaiado. Muito viu, muito aprendera, muito ensinara. Crianças montaram nele, se balançaram. E foi tanta dor nas suas dobras, e o lamento viria em forma de assobios que imitava a respiração. Os meninos não sabiam, um dia, se vingaria.

A terceira e última porta, a da despensa de minha vó. Essa era puro mistério. Às vezes luminosos; às vezes dolorosos. Os quartos, não tinham portas, só cortinas. A habitação toda, talvez, não tivesse mais de dez côvados de fora a fora. Por quatro de largura. E menos de três, de altura. Talvez três no seu pé direito. De idade, porém, mais de século. Cada cômodo por menor que fosse, para as crianças, eram vistos como enormes. Aquele era tempo, em que os meninos ainda usavam calças curtas. As meninas, vestidos de chita. Muitos anos se passaram. Porém nunca esqueceria o que vivenciara ali. Minha vó, com uma xícara de café enxergava melhor o mundo. As coisas pareciam mais aceitáveis. Do líquido negro, tênue fumegar subindo embaçando a vista. Inebriando com seu perfume, a alma, os cabelos, as maçãs do rosto, os lábios finos, as pálpebras decaídas por cima dos olhos, de índia, de minha vó.

Os batentes eram feitos pra brincar de subir. E subir trocando rapidamente os pés. Quantas vezes brincamos daquilo. Nem lembrava mais, quantos anos tinha. Quando Francisco caiu, e  quebrou a perna. Depois foi a vez de... De quem mesmo? Não lembrava mais. A porta, da despensa. Sensação estranha invadia qualquer um que a olhasse. Parecia que alguém para além dela, estivesse observando. Olhos e ouvidos invisíveis, vendo, escutando. A porta, parecia um ser dotado de olhos, ouvidos, e uma boca, que quase rindo, sorria. Uma porta com sentimentos, com características humanas. Uma porta, que sentia saudade, que se alegrava com a chegada de pessoas, que ria, e que chorava, e ficava triste quando estava sozinha. Pois lhe batia uma solidão.

Um pedaço de couro de sola, dependurado ao lado espelho, servia para amolar a navalha do meu avô. O pincel de barba, de pelos brancos. O cabo de segurar, esse já era branco. Seria marfim? Talvez osso polido. A tesoura, e sua haste de apoio pro dedo indicador. Como uma vírgula, servindo, exatamente para isso, pra dar uma pausa. A chapeleira aceitava cavalheiramente: bengalas, quepes, boinas, bonés, gorros, e toda variedade de adornos de cabeça. A depender da freguesia que a barbearia recebesse, no diuturno salão azul, do meu avô.

Um balaio com frutas, mangas, mamões, laranja, melancias. Duas jacas num canto. Outro balaio com leguminosas, abóboras, feijão de corda, debulhado. Uma touceira de milho seco na espiga. Tinha dias que as coisas não pareciam reais. Como se tudo tivesse sido criado, como em uma revista em quadrinhos. E quando as pessoas falavam, suas falas iam estupefatamente plasmando sobre suas cabeças, em estapafúrdios balões. Se gritassem, poderiam sofrer grave acidente. Atropelados por grotescas letras desembalonadas caindo, despencando a não suportarem mais, o peso de si mesmas.

Casteado, sobrinho e afilhado da minha vó. Vagabundo, não queria nada com nada, na vida. Fugia de trabalho ou qualquer ocupação. Fugia, como o diabo foge da cruz. Dado a bebedeiras. Quando bêbado, dormia pelas calçadas. Mas o lugar preferido de dormir, a despensa da sua tia-madrinha, minha vó. Foi porém, numa noite de inverno, que o mais estranho dos acontecimentos, até então, percebido naquela casa ocorreu. Lá fora o vento assoprou anunciando um vendaval. E lá do pé da serra, veio um redemoinho que chegaria batendo nas portas igual touro brabo querendo entrar, ou por abaixo a humilde moradia.

Não dava proa distinguir ao certo que cidade era aquela, que dava pra ver através da janela. Talvez fosse apenas uma cidade imaginária. A destruição era amplamente visível. Parecia cena de filme de ficção científica. Daqueles que o mundo, num tempo tão à frente, que o progresso metaforicamente alardeado jamais existisse. Isso a menos de meio século  inexplicavelmente e aceitavelmente, nunca chegara. As ruas e avenidas, as pistas asfálticas cheias de destruição. Como a dizer que a humanidade que teria chegado o armagedom, o apocalipse. O que se via naquele instante, era exatamente o que sobrara.

E o trânsito nas nuvens do céu da cidade, muito mais intenso do que o de lá de baixo: tráfego de automóveis, carroças de burro, carruagens, monociclos, triciclos, motonetas, lambretas, patinetes. Homens, meninos, moças e mulheres, idosos, cegos e seus cães-guias. Ao entrar naquele cubículo, que a minha vó chamava de despensa, era como se entrar num outro mundo. Um universo paralelo. Como se abduzidos fossemos. Tragados para um mundo interplanetário, rico em tecnologias, cibernético. Para muito além daquela velha choupana. A porta entreaberta dava pra ver apenas uma nesga de escuridão profunda, capaz de dar medo, a quem a olhasse. Se acaso minha vó entrasse lá. E de cá alguém a chamasse. Simplesmente ela não conseguia ouvir os chamados. Como se realmente tivesse ido, para um lugar muito distante, dali.

A impressão que se tinha, era, que pra além daquela porta, houvesse um mundo mítico. A visão que se tinha, era de um vasto imaginário. Algo do espaço sideral, naves espaciais transitando numa alucinante conexão. Não se sabia que tipo de controle havia, para que as naves nunca se chocassem, umas com as outras. O tráfego era intenso, eletrizante. Havia excessiva exposição de brilho e cores. Uma tecnologia descomunal imperiosa, para milhões de anos-luz além da capacidade humanóide.

Dias, de tempestade faziam sumir a claridade diurna, dando lugar a uma escuridão palpável, possuidora de volume, cor, temperatura, com capacidade de ocupar cada milímetro cúbico de medo. Nessas ocasiões minha vó ia para debaixo da cama. O ar ficava sufocante, delirante, agonizante. Parecia puxar o único fluxo de oxigênio que ainda restava. Enquanto o vento norte abalava as estruturas daquele casebre. O laptop, o telefone móvel, e a maioria dos minicomputadores não haviam sido inventados ainda, nessa época. Porém, havia momentos que dava pra se ouvir nitidamente ruídos produzidos por jogos eletrônicos, vindo de lá, da dispensa de minha vó.

Na dispensa da minha vó, devia haver um campo magnético. Ali dentro, devia haver uma espécie de portal cósmico que atraía energia do universo. Seres intergaláticos, do nada, vinham parar ali. Talvez por puro acaso. Ou, por desvio de rota interplanetária, por acidente, ou incidente cibernético. Quando isso ocorria, as pessoas da casa nada percebiam. Ou quando percebiam, interpretavam erroneamente. Viam como sendo fenômenos místicos. Associavam a coisas vindas do campo da espiritualidade.  

Meu avô acordou atordoado. Nu, da cintura pra cima se levantou da camarinha. De debaixo da cama pegou um facão e se dirigiu para a porta da cozinha. Uma certeza ele tinha, aqueles baques na porta dizia que do outro lado, não era só o vento que batia. De fato, lá fora uma aeronave planava o terreiro. Pilotado pó um jaguar, isso mesmo um felino metade bicho, metade humano que tinha capacidade, de raciocínio e falava. Possuidor de muito conhecimento histórico e filosófico. De co-piloto, um leopardo arrogante, de espírito aventureiro. Ambos navegavam uma espécie de dirigível, por sobre o nordeste. Tinham acabado de vir do tempo da guerra dos Guararapes. Isso porque eles tinham autonomia pra escolher em que época queria estar, pois navegavam uma máquina do tempo. 

Num canto da casa havia um local de orações, ali era permanentemente mantida aberta, uma bíblia, vários santos da igreja, entre estes o padroeiro da paróquia, santo Antônio de Pádua, que por sinal era representado pelo dito cujo, tendo Jesus, ainda menino, no colo. Isso em si, já seria motivo pra interrogação, como um santo vivido muitos séculos depois que Jesus morreu crucificado, poderia ter ele, o Cristo, nos braços, ainda criança de colo. Seria Francisco um visionário.

Um homúnculo vestido com roupas futuristas, sentado no banco, chamado de péla-porco, de meu avô. Serenamente se estava. Tentou exercer um contato com o velho, balbuciou palavras ininteligíveis. Ao perceber que seu interlocutor nada entendera entregou-lhe um dispositivo, e gesticulando pediu que o introduzisse no ouvido. Meu avô aceitou, e atendeu o que lhe havia solicitado. E daí em diante, passaria a se entender. O que o alienígena queria dizer era que: teria vindo parar ali, porque faltara combustível na sua aeronave. E mostrou uma fórmula de como poderia conseguir o tal adustível. Só que meu avô teria que ajudá-lo a conseguir os componentes químicos.

Na porta da despensa, escrito com giz branco, umas letras, um índio, feito de traços. Na verdade, cinco traços, os dois braços, as duas pernas, o tronco, e a cabeça, um pequeno círculo. Só se sabia que era o desenho de um índio, porque portava arco e flecha, e um pequeno traço sobre a cabeça dando a entender que fosse uma pena, ou um cocar.

E eis que Casteado apareceu. Lá estava, a lapa de xucro. Como sempre, não sabia onde por as mãos. Ficava mastigando com os dedos, as abas do velho chapéu de palha, trazido junto do peito. E ele lá, calado, plantado, na cozinha de minha vó. Não dizia um nada. Ao virar-se, e dar de cara com o afilhado. Minha vó, coitada tomou o maior susto. Afinal aquele lá, fazia anos já, que desaparecera. Até dado como morto, já fora. Bença madrinha! Ô menino! Por onde tu andava?  E me chega assim de madrugada? Como entrou? A porta eu nem abri ainda?

 



MAKE OFF















 É O FIM...

Ficaram as Estações... Conto. 28/09/2026


Fraglante da Lua na Noite de 28/9/2026 Rua Maria Lila Carvalho, São Vicente.



Coronel Manoel Rocha, apareceu andando a cavalo, na Maniçoba. Para ele a estrada continuava a mesma. Uma pequena mudança eram aquelas duas fileiras de casebres de taipa, a maioria, antes, coberta de palha de coqueiro. Agora, de telhas, de barro cozido. Iam emparelhadas brincando feito cavalinho de carrossel, acompanhando o sobe-e-desce do terreno. O velho Zé Rosa, morava na casa cor de rosa. Dona Sinhá, debaixo de um alpendre, ensinando a cartilha do abc e a tabuada, a meia dúzia de alunos. Usava o único mobiliário ali existente, uma moenda, e uns bancos compridos. O sol botava cuidado no mundo. O dia espiava pro céu.  Santana ficava escutando as orações que iam chegando, se dissipando, voando baixo nas bordas do altar. Bem pertinho de Jesus, escondido, quietinho, cochilando no sacrário. Depois as preces subiam, subiam, lá a cima do campanário. Ganhavam o vento, e sumiam. O casarão e o sobrado encostados na matriz, numa pausa, descansavam da labuta de século e meio de se estar ali. O intendente na intendência, no seu gabinete, recebendo gente, que chamavam de indigentes. A fila dobrava o quarteirão. Zé Doidinho passou carregando um ramo de flores. Com destino, a gruta de Nossa Senhora de Lourdes. Ia cumprir uma promessa de dona Cristina. A tarde era uma assim de setembro, prelúdio de estação. Da casa de Seu Cariolano farmacêutico e delegado, pelas frestas das portas, deslizantemente fluia uma Sonata, a de Primavera, de Vivaldi.

Um copo de alumínio com água fria, pra quem tinha sede, que primor. Era como mergulhar numa fonte de delícias, bálsamo para os couros da garganta, debaixo do sol. O suor, a lágrima vertida que o rosto oferecia. Numa vã tentativa de refrigério. O moço que o Coronel Manoel Rodrigues viu enforcado, pendurado num galho da goiabeira, lá na maniçoba, no quintal de comadre Zélia. Era o mesmo que, por ciúme, matara a menina Elisabeth. Uma menina tão trabalhadeira. Magrinha, de dá dó. Olhos verdes, vivos, sagazes. Cara pintada de sardas. Dois bicos de peito apontando na blusa amarela, desbotada. O short jeans tão gasto, mas, tava na moda, apertando as coxas, finas. Menina interesseira que só. Buscando avidamente autonomia. Não depender de ninguém. Bolava planos. Plantava cebolinha, macaxeira e inhame, no terreiro por trás de casa. Esperava as chuvas, olhava pra serra da Camonga, marcava com um lápis os meses no calendário. Pensava, na aula que aprendera sobre os índios que deram o nome aquela elevação fascinante, tão misteriosa. Mais parecia uma noiva, esperando o noivo no altar. Ciço não gostava, porque Beth saía pelas ruas, vendendo suas hortaliças. Se corroía de ciúme, Também achava humilhante o que ela fazia.  Beth não via nada disso, só queria ganhar seu dinheirinho. Importante era poder comprar absorvente, sabonete, desodorante, biscoito recheado e cajuína que tanto gostava. E quando se desocupava corria, e ria feito criança, para a tarde de riacho do bode. As nuvens se embolando umas por dentro das outras. Numa agonia, numa pressa pra verter água. Semelhante gente com a bexiga cheia: Chuá! A cara rajada, de terra de macaxeira, migalhas de biscoito no canto da boca. Não alcançaria chegar ao alpendre do casarão velho, sem ensopar de chuva, pelo menos, a blusa. Em algum lugar muito distante dali, tocava Vivaldi, Sonata de Verão.    

Vigário Bello, seguia pela rua. Alcançou, num só tempo, a capela de Nossa Senhora da Piedade. Leu a placa na quina da bodega de Seu Zé Verçosa. Se admirou que tivesse virado nome de rua. Chapéu de Saturno, batina preta. Sol a pino, abriu o guarda-chuva negro. Na rua trêmula, algo negro ia se movendo. Em meio a isso tudo, os urubus olhavam, e deram de asas. O vigário, só eles viam. A praia dizendo Sal, as ondas dizendo Lina. Ajuntando os cacos dera de ir a Salina. O amontoado de casinhas. Abrigavam tarrafas, bóias de isopor, gererés, puçás e gente, se ajeitava por ali como podia. Na casa de dona Durvalina, o terreiro sempre bem varrido, pontilhado de flores vermelhas de Cássia. Seu Belinho, um dia fora prefeito. Agora só mandava na sua cadeira, preguiçosa. O cabo Jair Fausto, na porta da delegacia, sentado numa cadeira com o respaldo virado pra rua. A servir de apoio pros braços e separar as pernas. A igrejinha de Nossa Senhora da Piedade, desenhada de rococó, avisava que tinha mais de trezentos janeiros. Dali, da porta de onde estava, dava pra ver, eles chegando, corsários, homens maus, que batiam em negros, que matavam soldados da guarda real, saqueavam e roubavam armazéns de suprimentos. Já havia se passado mais de três séculos, e tudo permanecia como antes. O vigário continuou olhando.

O cabo Fausto, nunca tivera atrito com ninguém, Robson, esse sim. O seu amigo era de se meter facilmente em confusão, ao ponto de trocar tiros no meio da rua. Uma vez, chegou a tomar como escudo de proteção, uma mesa do bar de Quineu. Aquele maloqueiro, fumador de maconha, ele estava pensando o que, da vida? Ele não perdia por esperar, ia aprender a respeitar os homens de bem. A boquinha da noite, faltou energia elétrica. A cidade inteira caída, debaixo das asas negras de Guriatã. Criaturas ruins aproveitam a escuridão para colocar seus piores planos em ação.Tipo, aqueles que maturaram, planejaram, e não tiveram coragem de executar. Tudo porque a luz incomodava, a luz revelava, a luz denunciava. Robson sabia exatamente onde Antonio se refugiava, o morador de rua, costumava dormir embaixo das bancas dos mascates. Inclusive, ele, ganhava um trocado nos dias de feira colocando as mesas dos vendilhões no leito da rua. Os mascates os gratificavam. As terças-feiras dia que mais ganhava dinheiro.

Naquele dia arrumou confusão logo com um policial. Rosa amorosa a concubina, pediu-lhe uns trocados pra comprar sardinha, farinha de mandioca e uma garrafa de cachaça. Beberam a manhã toda, na casa abandonada. Acabaram dormindo. O vaqueiro senhor Marcondes, o dono da tapera. Jamais imaginara que seu imóvel estivesse servindo de abrigo pra moradores de rua. Naquela noite de breu, o destino tratou de juntar invasores de imóvel, proprietário, polícia. E desafetos por uma discussão de cachaça, em um bar, em pleno dia de feira. Somente na manhã do outro dia o saldo sombrio. Um cadáver na beira do riacho. O bar de Ciço de Quincas, e sua vitrola de móvel ABC “A voz de Ouro”. No seu acervo de vinil: Roberto Muller, Orlando Silva, Nelson Gonçalves, Altemar Dutra, Núbia Lafaette, Dalva de Oliveira. Ninguém até hoje sabe dizer de onde apareceu. Só se sabia que estava lá. Dentre os demais, um disco de Vivaldi. Um tal de Senhor Smith, assim meio boêmio, meio caubói, estava jogando sinuca com um jogador fino “Agarina” era esse seu apelido. Ninguém nem sabia seu nome, era "Agarina" e pronto. Jogavam e tomavam cerveja. E disseram pra si mesmos: Por que não? Se referiam a botar pra tocar, e a radiola tocou: Sonata de Inverno, de Vivaldi. 

Quem nunca conheceu Ledo Ivo, nunca soube o que era viver. Qualquer cristão vivente, e também morrente, que vagasse pelo lombo da terra, pras bandas do Jaraguá, tinha diariamente oportunidade de vê-lo. Todo dia, ele passava por aquela rua. Belamente trajado na sua camisa, de botões, verde claro, calça de linho, bege. Vaporosos sapatos mocassim, sem meias. O Jornal e a gazeta de Alagoas enrolados na mão, encostados junto ao peito. Caminhava pela calçada da avenida. O tempo todo olhava pro mar, atravessava a rua. Quase sem automóveis àquela hora. E se deixava engolir pela boca antiga da rua dos casarões e armazéns dos estivadores. A mesma que ia dá na alameda do palácio dos comerciários. Ornada com imensas palmeiras, que guarneciam os suntuosos pilares do frontispício. Bem ali próximo ao beco das raparigas. O destino era sempre o mesmo o Bar das Sete Liras. Não fizera ainda uma semana que o estivador Davi, um negro de dois metros, só de músculos. Um titã. Pegara uma briga com o “Séba”, o pescador Sebastião, irmão de dona Augusta, por parte de pai. Ela vendia acarajé, na porta do mercado do artesanato. O brigão do estaleiro foi parar na delegacia, o das docas, no hospital.

Domingos Afonso Vieira de Souza, era o tabelião. O nome, apenas o nome, viera de Portugal. O sangue, e as esquisitices eram genuinamente brasileiras. O cartório tinha uma janela grande, preguiçosa. Dessas que ficavam a tarde inteira bisbilhotando a vida, da Praça Santo Antonio. Na parte da manhã nada de interessante: garis, leiteiro, padeiro, jornaleiro engendravam sua labuta. A tarde, a praça ficava mais atraente: casais namorando, sorveteiro, pipoqueiro, cães e gatos levavam seus donos a passear. E o sol que ali passara, jamais passaria incólume. Deixara sua quentura nos balanços, nos bancos, na areia, na grama, no chão. Agora mesmo, lá ia ela, a esfera de brasa quicando, languidamente, feito bola de festa, por entre os últimos telhados e coqueiros. Ia, com a certeza que no dia seguinte voltaria, vibrante, nascente. Pena que era àquela, hora, de dar adeus ao mundo. Ninguém sabia dizer como uma banca de mascate, foi parar no meio do arroio. A turba foi olhar, um homem amanhecera morto, na encosta do riacho. Não exalava cheiro ruim, ainda, era defunto fresco. Porém formigões, já escalavam o pescoço, a testa. Depois de muitos golpes de faca peixeira. A morte o viera buscar. Três coisas o cadáver apontava pra cima: O bico do nariz, sujo de terra, a ponta do cabo da faca, cuja lâmina jazia, totalmente, enterrada no bucho, e o pênis. A braguilha aberta, o sexo exposto, rijo. O sol amarelara tudo, tão de um jeito que as coisas todas, o mar, os alagados, arroios, céus, chãos, serras, abismos, infernos, purgatório. Tudo, tudo amareladamente da cor da Sonata de Outono, de Vivaldi.  







Rua Maria Lila Carvalho Bairro São Vicente. Santana do Ipanema - Alagoas.




Desenho de Minha Neta AIKA...


O CRISTO DA CAPELA DE SÃO VICENTE DE PAULO AO LADO DO ABRIGO PARA IDOSOS,
 DE MESMO NOME.


NOSSA SENHORA MARIA, SANTÍSSIMA.



SÃO VICENTE, HOJE 28/9 FOI SEU DIA.


 FRAGLANTE tirado de frente ao Santuário de Senhora Sant'Ana e São Joaquim.Algum dia da segunda quinzena do mês de Setembro de 2026.



Por hoje...É Só!

FELIZ VIDA, NINA... Conto 20/09/2026.



Derick acordara tarde. Costumava abandonar as almofadas, entre cinco e meia, e seis da manhã. E ia direto lá pro quintal. Punha-se a dar carreira em pardais e sanguis. Felinos amavam aquilo. Exercício matinal, dos bons. Naquele dia, acordara dez e meia. Fez um alongamento, de couro e ossos. Com o corpo inteiro saudou a primavera. Primavera sem flores, primavera sem o canto da cigarra. Primavera apática, anêmica, sem coragem pra nada. Mal sabia Derick, estaria com as vidas por um fio. As sete, que tinha. Todas, de uma só vez, poderia se esvair.

Thomas precisou usar óculos cedo. Mal vira amadurecera a infância, e os olhos pediram arrego. Um aperreio assim, feito nuvem espessa saindo dos recônditos escuros das cavernas dos pensamentos. Se insinuando, feito coisa que nunca se esperava acontecer acontecia. Os pais se separaram. Ir morar na capital, nunca aquilo, um dia, passara pela sua cabeça. Abundavam novas experiências no meio da sua existência. Sorrateira inquietude indo se enroscar no alvorecer da adolescência. E ter que aceitar como normal, como parte do ser, o que normal não era. O cristalizar das quinas dos alpendres, o condensar dos altos galhos dos pinhãozeiros. O congelar da ponta dos chifres do deus Pan, zeloso cuidador das matas e florestas.

Movido pela curiosidade, o deus mítico, metade gente, metade cabrito escalou o muro que separava a selva da civilização, queria ver o que faziam as pessoas nos quintais àquela hora da matina. A julgar pelo cheiro reinante, Sinhá Inácia, estaria cuidando de uns peixes pra fritar pro almoço. Afinal era uma sexta-feira. Santa como todas as sextas-feiras o são. Em meio a isso, uma discípula de Leviatã, atraída pelo odor do pescado marinho, viera à busca de alimento. Nhá Inácia, imediatamente avisada por Miguel Arauto, deu posse dum machado e desferiu assaz e certeiro golpe, partindo a serpente em duas.   

Derick tivera ligeira impressão que o dia quisera o enganar, propositadamente deixando que dormisse um pouco mais. Acordar tarde fazia as criaturas ficarem enjoadas. De olhos inchados,  cara amassada. Foi olhar a rua, pra ver como estavam às coisas. Quem dera, o leiteiro fosse passando. E, com um pouco de sorte, uma de suas garrafas derramasse. De um salto o gato saiu do sofá pro tapete da sala, e dali pra porta da frente. Qual não foi sua surpresa ao olhar a rua.

Não viu uma única pessoa, lá. Só havia bichos, só animais andando nas calçadas. Espera lá! Animais com corpos humanos? Isso mesmo. O que teria acontecido durante a noite? Pras pessoas amanhecerem transformadas em animais. E eram todos bípedes. Porcos, carneiros, pavões, jumentos. Cabeça de bicho, corpo de gente. 

“Apenas apanhei na beira-mar um táxi pra estação lunar/ Pelos raios desse sol lilás/ Pelo fogo do seu corpo, centelha/ Belos raios desse sol...”

Treze pessoas se estavam sentadas, ao redor de uma mesa. Uma garrafa de vinho, uns bolinhos de trigos num prato, sobre um forro alvíssimo. Uma toalha sobre um banco, uma jarra e uma bacia no chão. Cena estática, porém pulsante. Noutra mesa, tão fisicamente real quanto à primeira, uma natureza-morta: fruteira com palmas de banana, mangas, melão, peras, laranjas da terra. Ali pessoas-animais discutiam destinos, divisão de bens, herança de antepassados. Duzentas horas, não seria suficiente para decidir o que discutiam ali. Atravessariam o dia, a noite e madrugada se preciso fosse. Celebrava-se a instituição da vida eterna, na primeira mesa. Enquanto decidia-se a efemeridade do ser na segunda.

Tico e Teco, assim foram denominados por Thomas. Dois porquinhos-da-índia que ganhara do pai. Chegaram feito filme mudo, sem trilha sonora. Os fones de ouvidos, no menino, faziam com que fossem sentidos, mais pela percepção visual. Os olhos esses eram que faziam a festa. Lá fora, um terral desses, assim, encrenqueiro cutucando charcos e mananciais. Frio, e calafrios queriam entrar a pulso pra dentro dos corpos dos viventes. Obrigando braços, e mãos a dizerem, não. Obrigando-os a encolher a alma, de tanto frio aqui, vindo de lá fora. No aconchego do pequeno apartamento, mais dois inquilinos enjaulados. Agora duplamente engaiolados, recebiam efusivas boas-vindas. Mal sabiam Tico e Teco, suas duas únicas vidas, estavam com os dias contados. E isso seria muito mais breve, do que pudessem imaginar.

Da reunião familiar somente quatro deles, concordariam com o acordo. Corpos animados sairiam dali arranhados, nas almas, nos espíritos. Corpos inanimados, dentro do armário calavam sobre xícaras, de porcelana, canecos de louça, que um dia pertencera a membros da família, que já se foram. Herdado seriam por outros parentes. E que talvez, não os guardassem com o mesmo valor afetivo. Era muito provável que tomassem café, água, e até vinho, cachaça e cerveja com eles. E um dia, se embriagariam, deixariam cair e quebrar. Possibilitando assim, o fechar de um ciclo. Deixando enfim os ex-donos descansarem em paz. Alguém há muito, do outro lado, anseava por aquilo.

Derick através de suas lentes via os Hámsters [ se negava veementemente trocar o nome do seu magnífico almoço asiático, pelo reles nome de porcos indianos]. Afinal pratos bem decorados, e belicosamente nominados enobrecem qualquer cozinha. Bigodes de gato, binóculos cheios de olhos, podia não significar assunto de um mesmo contexto, mas era. Thomas só deu por falta de Tico e Teco quando já estavam sepultados no estômago de Derick. E pra resumir a epopéia gastronômica, assim que o pai do menino soube do duplo “hamstercídio” tratou de comprar uma espingarda. E um só tiro, foi o bastante pra colocar fim a imensurável trajetória físico existencial do ‘desinfeliz’ felino. E que, de bucho cheio - sorria - lá da eternidade.

A cidade estava bonita. Enfeitada para festa. Meio-fio pintado de cal, palanque montado, bocas de som, fitas coloridas balançavam ao vento. Um homem de paletó, chapéu de massa, óculos escuro, de pé, em frente a matriz observava. A torre da igreja pontilhada de bicos de luz até o topo. De tardezinha, início da noite o espetáculo era magnífico. Tudo seria redundamente perfeito, se o homem ao qual citamos não fosse, nada mais nada menos que o prefeito da cidade. E sua descomunal cabeça de touro.

Um porco estava sentado na porta do mercado. Um charuto cubano no canto da boca, os olhos, pro trás dos óculos escuros, eram de quem não conseguira dormir direito naquela noite. Três rapazes conversavam ao pé do balcão da vidraçaria dos irmãos Carvalho: um cavalo, um asno e um mulo. Escusado dizer que os corpos dos eloquentes mancebos era de gente, e as cabeças, essas sim, eram de equinos. Falavam do quanto gostariam de estar na casa de alpendre, lá no sítio Batatal, ou se banhando nas águas do rio Ipanema com os amigos.

Tonho mutuca, nêgo Lila e Tião eram tão amigos que não aceitavam jogarem em times diferentes. Se acabaria a Associação Atlética Ipiranga, mas nunca acabaria a amizade, dentre um bode, um carneiro, e um cabrito. No sábado pela manhã, compromisso certo, passar na casa de Seu Sebastião Amaral, assistir a rinha, apostar nas brigas dos galos, nem que fosse: moedas e balas doce. Dinheiro era igual pé de cobra, quem visse morria.

Negrote, Arquibeiço, Cláudio e Roberto, eram afeiçoados galos de raça. Um dia, nêgo Jorge se desentendera com o melhor amigo de Negrote. E acabariam brigando bem no meio da rua Benedito Melo, com frente a banca de revista de Carlos Jorge. Nêgo Jorge, botou a caixa de picolé na calçada, tirou as chinelas. E partiu pra briga, e bateu, bateu tanto no amigo que talvez, até hoje os zumbidos que ele sente nos ouvidos seja resquício daquela pisa. Pareciam dois cachorros, brigando. Na verdade eram.  

Era assim, quando colocava os óculos, e via animais. Tirava-os e eram seres humanos novamente. Bem no centro, dentre eles, um dia ainda apareceria um cordeiro, de cujos olhos emanava uma luz brilhosa. O tempo inteiro, seguido por um touro que tinha pelagem escura. E seus olhos eram vermelhos sanguineos. E como dizia o livro eterno: “as pessoas continuavam dando-se em casamento.” O bode com a cabra; o carneiro com a ovelha; o mulo com a mula; Pavão com a perua.  

A cidade se enchera deles. Um casal de cassácos, um preá, um tamanduá, um rinoceronte, um elefante. As mulheres que vendiam o corpo tinham cabeça de gazela, duma gata parida, uma cadela no cio. Viviam suas rotinas de fazer compras, de irem a escolas, ao banco, as praças. Tinha tempo até de visitar museu, que lhes exigia equilíbrio espiritual. A muito, não se usava almofada de renda de bilros, máquina de datilografia, máquina Polaroid. A caneta tinteiro de Delmiro Gouveia. O pneu do automóvel, de buzina engraçada. Mais parecia um pneu de motocicleta, de tão fino. A imagem de Nossa Senhora pintada por um nordestino, tão bem acabada, que entristecia, a quem olhasse, bem nos olhos da virgem Maria.

Nina fizera aniversário, por aqueles dias. Quis se sentir feliz, com a data de vida renovada. Seria o bastante sair do apartamento, ir à praia à noite, curtir Geraldo Azevedo. E aquele setembro, antes mal-assombrado, renovara-se desinflamado das vicissitudes, se apresentando com toda sua realeza. Orvalharam-se os olhos do amigo, ao ouvir o cantar tão ao vivo, do poeta. Em plena noite, a beira-mar, doces recordações. Por instantes, se sentiriam as pessoas mais felizes do mundo. E aproveitara pra sairem catando, migalhas de felicidade à beira do precipício da existência. Vivendo coisas, que quase ninguém se dava ao cuidado de viver. Sem se importar com mais nada.

“Quando fevereiro chegar/ saudade já não mata a gente/ A chama continua, no ar/ O fogo vai deixar semente/ A gente rir, a gente chora...”

A pintura emoldurada na parede, dizia: “Ambassadeurs: Aristides Bruant dans son cabaret 1892 – Toulouse – Lautrec.” era uma réplica. O original, só Deus sabia onde estava. A soleira da porta ficou com as marcas de botas. O couro de urso hibernava, em forma de tapete. Era muito provável que dali a pouco, o embaixador fosse ao Bar Comercial. Nada combinado, porém acabavam sempre se encontrando. O professor girafão e o dono do rancho Búfallo Bill. Em conversa iam parar no povoado Mata-burro. E riam - a bandeiras despregadas - recordando velhas aventuras. Um revólver niquelado calibre 38, foi parar em cima da mesa, um maço de cigarros, uma cerveja, das de garrafa. Dois copos americano, com doses de cachaça. O policial rodoviário federal, vendo tudo. Saiu lá do seu posto, e veio tomar satisfação. Acho melhor parar por aqui. Essa história ainda vai dar muito o que contar.

O chão de mato, é assim, tantas vezes pisado recrudesce. Nada mais nele nasce, vira vereda. E até que um dia alguém se invente de contar, guardará seus mistérios.






MAKE OFF



Créditos a música de Geraldo Azevedo "Quando Fevereiro chegar" É citado os primeiros versos no Conto aqui publicado.
Também versos de "Táxi Lunar" de Geraldo Azevedo, Alceu Valença, e Zé Ramalho.




FACHADA da Escola Municipal Iracema Salgueiro da Silva hoje: 19/09/2026.


A LIVRARIA Parque Shoping MACEIÓ - AL.


Eu, e minhas netas: Sofia e Aika.


O Conto "FELIZ VIDA, NINA" Aqui publicado.É homenagem  a minha Querida e Eterna Amada, Mara Rúbia. Parabéns pela júbilo de sua existência terrena.

E...

 É O FIM...

As Cinza do Velho Eon. Conto 11/09/2026.






Uma Máquina. Muitas vezes, uma velha “Maria Fumaça”, conta mais história que o personagem de um romance. Relata de alguém, que ninguém jamais escreveu. E falam de homens que deixaram para trás família, filhos, esposa. A se aventurarem, muito longe de casa. Sem sequer saber se um dia voltariam. A abrirem caminhos a ferro e fogo, mesmos por dentro de rios. Construção de estradas de ferro, estradas de carro. Estradas da vida, de tempos idos. Chegaram a lugares longínquos que jamais pensariam chegar. E se vivos, um dia  sairiam de lá.

O Homem. Nas feições aparentava idade de quem já acabara, pelo menos, uns três daqueles corpos. Assim franzino, desta grossura. Tão tantinho assim que aquilo quando morresse, a terra ia ter muito pouca coisa pra mastigar. Apesar de tudo, o franzinozinho era arrogante, metido a besta, que só. Cabeleira branca, barba e bigode brancos, olhos inquietos. A única coisa que olhava com interesse era a caatinga, o céu, o pôr-do-sol.  A vida do homem era ajeitar coisas do mato, da roça.  Ajeitar uma cerca, tirar um mel dum enxame de abelhas, Curar uma ferida numa vaca, limpar um açude, queimar uma coivara. Rio preto e Rio pardo sua pareia de bois mais querida. De canga, vara de ferrão e facão lá ia, no meio do tempo. Assuntando junto a Deus e Nossa Senhora, entre baforadas de um “braço de Juda”, cigarro picado a faca, enrolado num pedaço quadriculado de palha de milho seca.   

Os chapéus contavam sobre guerras, sobre malas de couro, gastos, mofados, sobre segredos guardados junto com coisas, e cheiros antigos. Ainda moço, enfrentaria noites insones ao voltar aos porões e sofrerem sevícias. E flagelos de tiranos e suas tiranias, de revoltas e revoluções. Olhos tristes lacrimejantes de bombas de gás. Queimaduras e feridas de abertas por cassetete. E de orvalhos que sulcaram feridas nas searas dos seus rostos. Sublimando limo nas pedras e ferrugens nas engrenagens dos trens, que partiam levando amarguras, desilusões. Gente pobre, padecendo de doenças sem cura. Cujas memórias comprometidas pela idade, e tempestuoso cisma de vendaval na alma. Nem bem percebia a violência do tempo, e a brevidade, de século e meio, de segundos. E dali a pouco era pó, varridos da face da terra. E ninguém mais sequer, lembrava de suas existências.

O cachorro. Ficava olhando o mundo, e os modos estranhos com que tratava as criaturas. A  brisa possuía determinado valor. Os cheiros que as narinas conseguiam captar falavam de coisas que aprendera ainda filhote. Dali a muitos quilômetros, Rio pardo agonizava. A seca implacável, o camponês, desumano, preferia perdê-lo para os urubus a ver dependurado por uma pata, pingando sangue no balcão de cimento, na tarimba do mercado, retalhado por ínfimo dinheiro. Uma cobra jibóia deslizando seu ventre frio pelo lastro do mundo, era menos perigoso que o olho do marchante. Um bando de andorinhas se esquivando sobre as copas das árvores teriam sempre mais a ensinar, que cantiga de ninar com intenção de botar medo em gente miúda que demorava a pegar no sono.

Jabuticabas, olhares noturnos, siriguelas, rede gemedeira, coração-da-índia ainda verde, travoso sapoti. Juás apoquentando infames consciências de saguis. Pitiguaris selvagens a bicarem goiabas.  Araras fluíam nuança de plumas, aquecendo os olhos negros com suas cores, dilatando narinas. A seta do dia afiada vencendo a barreira do ar, e do som. O cão, rosnou mostrando os pontudos caninos. Bem de frente pra uma onça, miseravelmente faminta. Desejou nunca estar ali, no meio do aceiro, Gosto de sangue veio-lhe a boca. Pobre Veludo.

As nuvens nunca nascem pelo acúmulo de ideias. A bala que sibila por dentro do ar atmosférico agride tanto e tudo, até alcançar nervos, músculos, tecidos. A morte, e sua mais cruéis particularidades. Em especial, a de ir entrando no ser vivo ainda que não tenha sido chamada. À medida que o sangue se ia esvaindo. O porco-do-mato enlaçado pela Boa contrictor num bailado voluptuoso, excitante, insinuantemente sexual, macabro. A esperança e sua capacidade de nascer à medida que as janelas descerram as trancas. Encerram atrás das portas, versos que nunca foram escritos, nem ninguém jamais declamou. Uma maçã sobre a mesa de forro branco, em toda sua beleza e viscosidade deslumbrantemente desmaiada e desejada. Como os sedosos lábios da virgem. A saudade das coisas que ninguém nunca imaginou, pecados que maculavam as mentes pueris. Traduzia-se em viscosa baba semelhante a de mexilhões. Loucura de colméia de abelhas, mentes atormentadas, impaciência de um vespeiro inquietante.

O branco dos olhos conseguia guardar em suas entranhas. E passaria adiante o lilás, e o amarelo que se insinuava, toda vez que o vermelho carmim vinha com o rosa prosear. Um pilão de socar cuminho, um naco assim de sebo de carneiro capado, pendurado no caibro do alpendre, um bocado assim de semente de abóbora, secando encima dum grajau.  Um recavém a disposição dos grilos, das moscas, dos cupins. Os sinos, estes sabiam perfeitamente dissimular os ventos, as ventanias, as brisas suaves. Sem jamais perderem as estribeiras, nem desembestar feito cavalo desgovernado. Atirando ao solo cavaleiro encolerizado.  As crinas ganhariam campinas indo se misturar a poeira da estrada.

Os familiares, nunca se entenderam. Heranças nunca antes divididas. Moendas que deram tantos lucros, e agora que não mais giravam, não rangiam mais as palhetas. Envelheceram, tanto que criaram lodo nas partes internas. E assim que chegasse o inverno, raposas chocas, fogo-corredor, caipora seriam os habitantes dos charcos. A barragem tomaria tanta água a não suportar mais, tanta. O velho, de tão velho não conseguiria mais sair da cama, gemeria de frio, e sentiria saudade de sua amante. A esposa endureceria o coração, sem mais sentir pena da sua cegueira abandonou-o a sorte. E quando veio a faltar suprimentos. Pra não morrer de fome e sede, bebeu o sangue de um bacurau, que encandeado foi cair-lhe ao pé da cama.

O gato. Já não tinha muito ânimo pra nada. Vivia agora de se lembrar do tempo de jovem. A comida podia passar andando na sua frente – um gabiru  –  não se animava a empreender caçada. O pelo não cumpria mais a função de aplacar o frio. Entristeceu só de lembrar que não brincaria mais correndo atrás das folhas, quando chegasse o outono. No verão reclamaria os telhados avermelhados de quentura boa pra dormir e sonhar. O musgo tomando de conta de tudo, uma tira de couro de veado a cumprir importante função de espantar morcegos. A entrecasca do pé de aroeira. Uma relíquia potente, um chá capaz de curar até tristeza, solidão e de quebra uma constipação.

Se houvesse amanhã, haveria amanhã. E seria para dizer, quão preciosa era a matina. O arvoredo, feito oração de criaturas tementes a Deus. A folhagem, revelando aspecto nunca antes observado pelo olho de um ser não animado. As portas, e o nobilíssimo dom de amadurecer sentimentos. O fluxo de luz que podia trazer paz, aquecendo dentro das veias junto ao sangue. A poeira abaixando, a onça se afastando levando entre as presas, Veludo, morto.

Nos dias de ficar deprimido, aproveitava pra ficar bêbado. Os reflexos comprometidos acabavam causando pequenos acidentes, uma facãozada no dedo polegar. Pucumã de teias de aranha pra aplacar o sangramento. Notou que estava ficando com os pés inchados. O olho direito, operado de catarata, não conseguia enxergar tanto quanto o esquerdo. Por acaso, descobriu a deficiência, no dia do eclipse lunar. Fechou um olho, viu perfeito com o que estava aberto. Fechou, e abriu o outro. Com aquele, não via bem. Uma nuvem embaçava tudo.  Três semanas ficaram  acampados na ribanceira do rio, atalhando o gado pra enchente não levar. Ao voltarem a civilização ficaram sabendo que as milícias haviam passado. Não demoraria, haveria derramamento de sangue. Tropas federais fediam a pólvora, e a cadáveres.

Dona Carmem, fora paixão proibida. A brutalidade do pai teria feito dele, um menino tímido retraído. De poucas conversas. Como foi se apaixonar pela professora, não sabia direito o porquê. Talvez porque fosse a única pessoa que o entendia. O trabalho do campo, cansativo, dia a dia, que sempre o levava a exaustão. Crescera em cima duma montaria. Conhecia as manhas de um por um: jegue, cavalo, égua, mula, mulo. Uma parelha de bois para puxar um arado, era sua especialidade amansar. Pinicar balaios e mais balaios de palma, buscar água no açude pra encher o tanque do banheiro. Quebrar umas espigas de milho seco no aceiro da roça. Moer os grãos no moinho. Colocar pra quarar.

A verdade muitas vezes é muito mais cruel do que se possa imaginar. E doía como ferida feita com lâmina afiada. Tinha medo. Medo de dormir e não acordar, medo de ficar sem respirar, medo de olhar pra lua, medo do olho negro do pato. O olhar do cavalo era perturbador, se lhe olhasse fixamente ficava suando, verdadeiro pavor, sentia calafrios, vontade de sair correndo até se cansar. Vontade de sumir, desaparecer. A raiva era sentimento ruim. Temia que esse sentimento fosse percebido. E acabasse tendo a fama de maricas. De cabra mole. Descontava na cachaça.

As roupas. As que costumava usar quando era menino. Eram simples Camisa de mangas curtas, uma carreira de botões, calção, suspensórios, botinas nos pés. Quando fez treze anos, descobriu o sexo. Curioso, observara galos e galinhas, namorando no meio do terreiro. Ficaria excitado ao ver o cavalo com a égua, o jegue com a jumenta, os cães com as cadelas. Por diversas vezes melou os calções. Naqueles momentos lhes vinha ao pensamento a sua grande paixão, dona Carmem, a professora do primário.

O gato às vezes, nem tinha noção do perigo, que corria. A ideia de ter sete vidas, ia muito além do que o pensamento era capaz de conceber. Achava aquilo bobagem, lenda contada nas calçadas pra entreter meninos. Odiava meninos, eles eram inconsequentes, precisavam ter melhor noção das coisas. E o que significava ter que carregar botijões de água de um açude até a casa. A bela senhora andava como quem desfilava. Senhora dama, cuja pele enrugara, a mocidade deixada para trás, antes mesmo de ficar velha. Criara os filhos dos outros. Filhos dos seus irmãos que partiram em busca de destinos e de ganhar dinheiro. Dona moça, só não dera de mamar aos sobrinhos por não ter leite nas mamas. Improvisava uma mamadeira com farinha láctea. E a tia-mãe os educaria na fé cristã. É pena que Deus não entrava nas pessoas pelas mamadeiras.  

As maritacas, atacavam o amanhecer, o desenrolar e o descer das horas. A retidão da estrada repleta de solidão, e amargor das almas largadas à beira do caminho, sem ter o que fazer. Meninos que deixaram cedo essa vida, presos a um destino de infinitas horas que os relógios nem contavam mais.  Se desdobravam, repetindo a mesma coisa, todo santo dia. Pegava a carroça, nem sabia a quem pertencia. Tomava-a pelos punhos, e ninguém se inventasse de reclamar, pois ia assim mesmo.

Cachorro não fazem amizade com anum. O negro do pelo não se dava com o negro das penas. Voar compreendia o poder de ir até os altos muros da penitenciária. Homens encarcerados gastando suas miseráveis vidas dentro de cubículos mal-cheirosos. Pagariam por décadas seus crimes, que iam de furto de pequenos objetos agrícolas, suínos, ovos, galináceos. Nos dias de visitas procuravam fazer amizade com as moças da igreja, que lhes garantiriam sabonetes, toalhas novas, lâminas de barbear, cigarros, fósforos.

Os aldeões tiravam retratos a porta de casa. Ao lado do barbeiro, e do anão. Uma bruxa que ia passando na hora foi pega, em pleno voo pelo flagrante. O mago a reconheceria, porém nada disse. O chapéu do mago ficou triste, suas cores desbotaram, mas na saiu do lugar onde estava. Começou a murchar, tanto que encolheu sobre si, em poucos instantes ressacou totalmente.

As aves, elas são, espirituosas, e cheias de humor, bastam descobrirem que são aladas, que poderosamente possuem a capacidade de voar, pra desfrutarem abusivamente desse benefício, proporcionado pela natureza. Defecam sobre as cabeças dos pobres andantes aqui de baixo. Se fosse a cólera, a raiva e a ira sentimentos nobre, a grande parte das aves canoras, e de rapina que migraram pras urbes seria dizimada. As que se salvassem seriam devolvidas aos alagadiços, aos mangues. Ali muito bem viveriam, e se alimentariam de pequenos momentos. E velha locomotiva, passaria apitando, bufando tufos de fumaça, levando para a eternidade, as cinzas do velho Eon.








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