NÃO MORRA ALANA! Conto 28/08/26


Os avós, de tempos atrás tinham mãos brutas. Ainda assim, jamais desvendariam segredos trancafiados nos objetos dos dias atuais. Cheios de surpresa, ficavam, ao verem que, de dentro deles, seus netos conseguiam fazer coisas incríveis. Um clique, um toque. E folhas de livro se transformavam em aliens, folhas de mato viravam seres da pré-história. Alana lia, num sussurro, trechos de poesia. Difícil era, conter as tempestades que vinha dos olhos.

Seu avô, ficou pensativo. Estava lá. Porém ninguém o via, numa outra região inatingível pelos que estavam aqui. Não se angustiava, não ficava apreensivo, em nada interferia. Tudo admirava, com muita paciência e resignação. A mazorrona calejada planando o cume da cabeça. O vento gélido vindo das bandas dos céus das piscinas dos Wanderleys teimava esvoaçar sua vasta cabeleira, de cabelos brancos.

As flores e suas singularidades. Se tocadas se abriam solícitas. O pote de doce de mamão cristalizado. Cubos imersos em calda d’ouro metálico. A língua doce, falaria de coisas menos amenas. Quando tocadas, o discurso era áspero. Se compadecia das crianças que não tinham o que comer. Do nada, se lembrava delas. Embora, sem saber exatamente em que lugar estavam naquele momento. Porém uma necessidade infinita de ir até lá, nascia. Atacada por todos os lados, de desgosto padecia. Meninas que já um dia sofreram, tinham olhos tristes.

Caderno apoiado nas coxas, pernas cruzadas, sentada no chão da calçada. Isso, não fazia tempo, fora ainda ontem. Escrevia: Eu e minha vó fomos dormir com fome. Um bombom que ganhei da amiga Célia, na escola, foi minha janta. Tiveram apresentações. Alana dançou. O tema da sua turma: folclore. Apresentaram uma dança quilombola. Som de atabaques, sons da longínqua África encheu o pátio. Vestiu o traje de época, colocou a peruca branca, estilo Luiz XV. Alguns professores disseram que ficara parecida com a Chica da Silva. Ficou interessada em saber quem era, a tal. Era uma negra escravizada que alcançara lugar de destaque na sociedade mineira, no período do Brasil colonial.

A lua, lá em cima caminhando seu caminho, bem devagarzinho. Fluidamente desenhando sua interplanetária órbita. Diluir-se-ia assim que o sol saísse, assim que o dia viesse. Alana, negra, cá embaixo. A lua, branca, lá em cima. De repente, a bola cor de prata começaria a ser desengolida pelas trevas. Aquilo era capaz de dar medo, ao mundo que nada entendia. A lua sumindo, sumindo. O dia vindo, vindo, enquanto a noite a ir-se. Alana submersa, na imensa escuridão de sua alma. O que menos queria era pensar. Era o que minimamente interessava para aquele momento. Sendo, no entanto, a única coisa sensata que havia pra fazer.

Para que pressa. Não havia pressa. E não havia vontade de ir, onde se estava indo? Vontade alguma de pensar. Fosse lá o que fosse. Algumas vezes, pensou em ir embora, desaparecer. Sumir para um lugar que ninguém soubesse. Lugar que nem ela sabia aonde iria. Talvez,  procurasse padrinho. A lhe pedir ajuda. Porém, a vergonha a impedia. Mandava mensagem no aplicativo do telefone móvel: “Bença padrinho...” Pronto. Não passava disso Ele, como resposta a abençoava. E aguardava. Se ao menos ele perguntasse: E aí? Está tudo bem?...

Tudo parecia noite. A plena luz do dia, uma nuvem escura pairada sobre as ideias. Tornando turvo, o olhar. Queria entender o significado de tudo que estava sentindo. Vozes, dentro da cabeça. Muitas vezes dizendo, fuja, de certas coisas. Afaste-se, de certas pessoas. Sua presença provocava inquietação. Aquela manhã inteira ficou debaixo do viaduto, conversando com os meninos órfãos, sapateiros. Achava suas situações parecidas. Eles perderam o pai, pra cachaça. Ela perdera a mãe, pras drogas.

O aparelho de telefonia móvel chamando, insistentemente chamando. Estava no modo silencioso, nada escutava. Se tivesse atendido, teria falado com André. E ele a chamaria para irem, de moto até o riacho do bode. Queria aquela tarde tranquila, só pra os dois, em plena quarta-feira. De vez em quando iam lá, pra transar e curtir um baseado. Propositadamente escolhiam o dia bem no meio da semana. Pra aguentar o trampo. Tinha que dar aquela escapulida. A fuga necessária, pra segurar a barra. Doce vida, dura de viver. Enquanto as pessoas normais se ocupavam com seus afazeres. Eles iam, e riam à beira do lago. E ouviriam um fantasioso imaginário concerto de Mozart, o número 21. Escalariam a montanha da Camonga, se agarrando em sustenidos e bemóis. A preencherem todos os espaços visíveis e imagináveis. E brincavam criando, em cima de sonatas violinísticas medievais, versões tresloucadas com musiquinhas infantis: “Pirulito que bate-bate, pirulito que já bateu.”

O dia, naquela manhã, tinha vindo pra cima com cara de brabo. Os cabelos revoltos, os olhos vermelhos, de sono, e de muito choro. As sobrancelhas arqueadas. Choro de raiva, por não conseguir se superar. Nem superar os vícios, da bebedeira, do uso da diamba. Objetos de vidro davam-lhe nos nervos. A taça, o copo longo cheio de insinuações, de implicâncias. Nunca iria esquecer, o dia que a mãe morreu. Mataram sua mãe dentro de casa, Alana vira tudo. Jamais esqueceria. Aquela cena a acompanharia pro resto da vida, para sempre. Aquele seria, na sua vida, um dia inesquecível. Só que pelo avesso. Inesquecível de forma ruim.

Ao passar em frente à creche, dava para ouvir as vozes das cuidadoras das crianças ecoando transpassando o côncavo acinzentado telhado de amianto. Em frente ao posto de saúde, mães e seus filhos de colo, aguardavam médicos, consultas, vacinação. Lembrou de sua mãe. Lembrou que marcara com o dentista. Só iria, no dia que não conseguisse dormir com dor de dente. Se a mãe soubesse que depois que partira, havia ficado assim desleixada consigo mesma. Viria lá do céu, pederia um à parte a São Pedro, falaria com Jesus e vinha cá embaixo dar-lhes boas chineladas. Imaginou o chinelo voltando pro pé, sublinhado com sua mais autêntica frase: “Você ta pensando o quê, da sua vida?”

Como sentia falta dela. Outra vez, chorou lembrando da sua mãe. Um imenso vazio ficara, que nada no mundo preenchia. Poderia passar o tempo que fosse. Seis longos anos, já se haviam passado. Nunca jamais imaginara que um dia a perderia. E daquela forma pior ainda. Gostava de tomar café com ela. Para matar a saudade, agora tomava café, sozinha. Sentada na calçada. Ficava pensando, no tempo em que fazia aquilo com ela. E como era bom tomar café, as duas, juntas. Tinha café que era só alegria, descontração. Tinha café com sabor de recordações de infância. Dona Aurelina, sua mãe levando-a pra escola, do jardim infantil. E tinha café da zoeira, as duas discutindo por bobagens. E iam cada uma pra um lado. Emburradas.

A beira do riacho, tinha tudo que queriam. Muito verde, muita água, muito céu azul, galinhas d’angola voando rente ao mar d’água, salubre. Pássaros de fogo, um céu rabiscado de lilás nas ombreiras, e amarelo queimado nas barras do dia. Uma serra encaliçada de verde coentro, abrindo seus braços de granito. O arvoredo se agigantando indo tocar o infinito. Como na história, de João e o pé de feijão. O som de um violão, as andorinhas imitando aves canoras. Num coral longínquo que se desescondia, despetalando das frias reentrâncias das cavernas onde habitava morcegos, corujas, e seres inimagináveis. Frutas terçãs que nunca ninguém encontraria nas bancas da feira. Daquelas que os curandeiros diziam trazerem de lugares que nunca existiram, nem nos mapas.

Alana e André se embrenhavam totalmente nus por entre a vegetação arbustiva que circundava, o riacho do bode. Aproveitavam pra fumar. A se deliciarem na presença do deus Epícuro de Samos nos arredores dos palácios gregos, onde habitava as deusas Apônia, da ausência da dor física e mental, e Ataraxia do não excesso da gula. Plantas se apresentavam com visco, e deliciosa aparência de morangos vermelhos, que lembravam falos pontilhados de brotoejas. Bananas verdosas arqueadas, cheias de sinuosas insinuações. Coração da índia, onde os olhos vagavam, sem nunca encontrar o que procuravam. Narinas que aspiravam com tanta volúpia. Dilatavam e se contraiam com sofreguidão, amantes beirando a loucura, ao pressentirem o orgasmo.

Alana, tinha um conceito de si mesma, ninguém a compreendia. Se sentia um pouco rebelde por isso. Ninguém melhor que ela mesma sabia o que passara. Nunca superara a morte da mãe. Ainda mais da forma como partira. Assassinada covardemente, dentro de casa. Bem ali, na sua frente. Os dois caras que a executara, ela os conhecia. Teria sido um acerto de contas.

Banhavam-se nas águas frias, da cintura para baixo, mornas próximo ao espelho reluzente. Sonhavam encontrar um tesouro de pedras preciosas, colares de puro ouro, coroas de reis, rubis, safiras, diamantes. Largados na pequena enseada aguardaram recuperar as forças. Muitos outros frequentadores daquele pequeno paraíso. Bem ali, esquecido por outros banhistas uma caixa de papelão contendo alguns livros. Livros com aroma de passado: “O Pequeno Príncipe” de A. Saint-Exúpery. Outro, de apurado gosto: Deuses do Mandacaru, de C. B. Chagas.” E um, de visão futurista: “Admirável Mundo Novo de A. Huxley.”

Alana se inscrevera para participar da Corrida pela Emancipação. O percurso, uma longa volta no entorno da cidade. Com largada na Praça do Monumento, com frente a igrejinha de Nossa Senhora da Assunção. Estendia pelo acesso ao lago da represa: João Gomes. Seguia pelo alto do conjunto Marinho. Descambava até o abatedouro público de bovinos, e retornava ao centro da cidade pela pista asfáltica, passando pela ponte da barragem, e pelo largo do Maracanã. Dois rapazes numa moto a aguardavam Alana para uma emboscada, justo no trecho do matadouro. Algo sabiam, que Alana largara com o número 66 pregado, no peito e nas costas. Grampeado num pedaço de pano branco na camiseta vermelha. Boné branco na cabeça, short azul e tênis nos pés. Os rapazes ficaram amoitados por trás duns pés de catingueira. Com um monóculo acoplado ao rifle localizaram a vítima. Um único tiro, certeiro, no peito, e nossa atleta foi ao chão, abatida. A mãe já havia sido morta. Chegara a vez da filha. 

O moinho, moía os grãos de milho, as fendas vertiam o leitoso caldo, com gosto e cheiro do rei dos cereais, coberto de ouro. Dali a pouco aquela massa viraria um gostoso alimento. Revigorante, que fazia esquecer as agonias, os sofrimentos as desventuras. Os desentendimentos, as discórdias. Todas as tristezas do mundo se encerravam, num prato de cuscuz.

Aqueles dois eram da boca de fumo. Matavam por dívidas com drogas. E aquilo não fazia o menor sentido. Se eles tivessem lhe dito, tua mãe tem dívida com a gente. Ela tem até dia tal, pra quitar, ou vai morrer, Teria dado um jeito, de arrumar o dinheiro. Talvez ainda pudesse contar com ela, bem ali na sua frente. O talão de água enganchado nuns galhos de cróton no minúsculo jardim da sua vó. O cachorro mordendo as pulgas na calçada. O portão e uma dobradiça solta precisando de reparos. A ventania tangia o portão, fazendo-o dançar um só passo: um pra lá, um pra cá, ao tempo que criava sonora melodia.  

Na sexta-feira Alana foi pra casa de uma amiga, ouviria música, só reggae da Jamaica, e Edson Gomes,  a manhã inteira. Foram pra bodega de Seu Dedé jogar sinuca a tarde inteira. Tomaram duas latinhas de cana, com cajuína, e de tira-gosto pipoca isopor, uns salgadinhos. Mônica, naquele dia morrera no lugar da amiga. Alana, escapara tão somente por conta do número pregado na camiseta. 66, o número na camiseta de Alana. 99 o número de Mônica , se desprendeu, ficou dependurado, de ponta cabeça. 


MAKE OFF






É O FIM...

 


 

O Café de Seu Lira. Conto 22/08/2026.









Uma estrada. Três homens iam caminhando. Debaixo de um sol de agosto. Há cinquenta anos, havia partido, estava de volta. Vinha a pé. Do mesmo jeito que se fora.  Sem que ninguém se desse conta, haviam desaparecido. E agora voltavam. Alguém, em algum lugar, em determinado momento, de suas vidas. Na certa, deva ter se perguntado: onde andará? Perceber que voltavam, era perfeitamente normal. No entanto, com a mesma aparência de cinquenta anos antes. Era, de certa forma, estranho.

As mesmas vestes de quando partira, ainda trajavam. Dominício, chapéu de palha na cabeça, camisa de botões, daquelas bem antigas que tem um bolso no lado do coração. Calça de tecido, embainhada até as panturrilhas. Chinela de dedo. Uma estrovenga na mão. Firmino, chapéu de massa, de cor cinza, surrado. Daqueles que possuem uma fita preta, no encontro da aba com a copa, e uma pequena pena no lado direito. Camisa e calça de tecido branco. Nos pés, alpercatas franciscanas. Zezinho da Divisão, e sua inseparável viola às costas. Enfiada numa capa de napa preta. Também usava chapéu de massa, preto, proporcionalmente pequeno para sua cabeçorra. Camisa de mangas compridas, calça de linho, e sapatos passo Double nos pés.

Era um daqueles dias, que precisam dizer pra que viera. Por que nascera. Dias que não nasciam assim, apenas para ser entendido. Neles, sempre coisas boas estavam por acontecer. O sol esticando os longos braços sobre as montanhas. Executando magnífico salto, em câmera lenta por sobre a cidade. E tudo, era tão belo de se admirar. Porém, faltas ocorriam. E ocorriam por pura necessidade de ser. Elíptica trajetória sobre os caminhos, por sobre as vidas, por cima do lago, das casas, vagava. 

O cuscuz no cuscuzeiro. Lindamente cor de ouro. Cheirosamente intumescido. O botijão de gás achando de secar, justamente a quebrar aquela aura fluída. Amplamente formada. E tudo, permanecia perfeitamente normal. Pois imprescindível mesmo era o ar que se precisava para respirar, e continuar vivo. Melhor seria se não fosse aquele, dia, um feriado. Aconselhavam os mais velhos, que já mais, se deve dizer, caso algo esteja dando errado, “Pior não poderia ficar.”, porque podia sim piorar. Em muitas vezes. Ou não.

José Maria nascera de Antônia. Assim nascera. O menino gostava de música. Não apenas de ouvir música. Amava qualquer coisa relacionada à sonoridade. O quarto de José tinha um retrato de Bethoven na porta pelo lado de dentro. Um birimbau, uma cuíca, um “cajón”, um violino, uma cítara, um tamborim, um surdo, um pandeiro. Uma prancheta com partituras e vários programas relacionados a composições. Colecionava embalagens vazias de cigarros, meiões velhos, de jogador de futebol enfeitavam a planta. Sua pequena instante continha alguns livros. A bíblia, “O Velho e o Mar”, “Dom Casmurro”, “Os Sertões”. A borracha de apagar, a régua, os lápis de cor. Intensa jornada viveria para vencer intrigante batalha da dispersão. Num futuro sempterno e longínquo até, um dia conquistariam a vitória, e o fim do caos entre seus pertences.   

O dia inteiro, lá fora um belíssimo sol, se arrebentando por cima dos telhados. Amornando lençóis e calcinhas nos varais. Escalavam as sacadas das palafitas, dos subúrbios, fazendo três meninos sapecar suas pipas, nos calcanhares das nuvens brincalhonas. Zé Maria filho de uma cabocla lavadeira de roupas, de ganho; Firmino não gostava de ir pra escola, se criou solto na rua, criança foi carroceiro. Carroçava as compras das madames, pra ganhar uns trocados na feira. E depois de adulto, foi barbeiro. Filho de dona Corina, uma ex-prostituta, que com o avançar da idade, viraria mascate, a vender mangaios numa tolda na feira. Dominício filho da negra Celina. Neto de escrava, sua vó foi criada na senzala, tempos depois dos quilombos migraria para os mocambos litorâneos. Vivendo nas imediações do cais do porto, e das usinas de açúcar. 

Domino Dio, esse era seu nome de batismo. Na língua da negrada virou Dominício, filho da velha Celina, que por uma vida inteira trabalhou de cozinheira, na casa do padre José Bulhões. Na hora de batizar, nem nome tinha. Se dependesse da mãe se chamaria Cícero, que era a graça do santo do Juazeiro do Norte. O padre foi que interveio mudando para Domino Dio “Dia de Deus”, numa mistura de latim e italiano. 

O menino gostava de jogar bola. Colecionava camisetas velhas de clubes de futebol de campeonatos de várzea. Possuía algumas bolas e chuteiras descartadas pelos jogadores na sede da equipe de sua paixão, o Ipanema Atlético Clube. Quando não estava na escola, estava no campinho jogando bola, com os amigos. Podia estar fazendo o sol de meio dia, lá estava ele. Bastava ter mais um com a mesma disposição. E os dois passaria a tarde inteira, e nem se lembraria de ir pra casa comer alguma coisa.

O bairro vivia a festa da padroeira. A imagem da santa, todos os anos, o mesmo ritual, entrava triunfante, trazida pelos cavaleiros que teriam passado três dias na estrada. Enfrentaram frio, calor, tempestades. Repetiam a façanha dos desbravadores, lá do início dos tempos. O povo todo ia para a estrada na entrada da cidade, receber o cortejo. Bandeiras, fogos de artifício, uma filarmônica.

Muitas cores, sol amarelo, céu azul, límpido. As turmas das escolas todos perfilados em frente à capela de Senhora da Assunção. O padre com sua batina preta, a carapinha branquinha. As rezas, as janelas das casas, estatuetas, forros bordados, jarros com flores.

Seu Firmino, o barbeiro, estava indo abrir a barbearia. Achou interessante a movimentação dos cavaleiros, e damas. Acabou por pressentir algo no ar. Se dando conta finalmente que aquela quarta-feira era um feriado. Era dia da padroeira do bairro, Nossa Senhora da Assunção. Achava muito parecida com Nossa Senhora da Imaculada Conceição.

Mesmo assim continuou sua jornada, indo abrir a barbearia. Logo, chegaria, Dorival de Nésio, Quincas sapateiro, Tarde Fria, Zé Panta, Izaías Rêgo, Lulu Félix. Depois de ficar a manhã inteira ouvindo os colegas, a contar causos e lorotas das quais riam muito. Lulu Felix gozador, contaria uma mentira cabeluda. Dizia que teria visto na capital de São Paulo, um prédio de mais de duzentos andares, na cobertura, uma pista de pouso para avião. E caso alguém duvidasse, arrematava: Vocês não viajam, não conhece o mundo, não lê jornal!

A biblioteca Breno Accioly ficava no pavimento superior, aos fundos da cooperativa agrícola. Naquela manhã ficara abarrotada de agricultores. O presidente do sindicato dos trabalhadores rural aproveitara a ocasião, havia convocado a todos para uma reunião. O assunto principal, os empréstimos bancários, a que pé estaria às negociações. E o calendário do recebimento do seguro safra, por conta da estiagem prolongada daquele ano, muitos haviam perdido a lavoura.

Dominício ficou assim, olhando, por trás da multidão. Um pouco afastado do povo, observava a movimentação, dos cavaleiros com suas bandeiras, a banda filarmônica, a procissão. A euforia envolvente, a alegria das crianças, o olhar atento das autoridades no palanque oficial. As bandeirinhas e suas cores simbolizando as entidades, os poderes constituídos, os ritos, ali ocorridos. Festa de Nossa de Senhora, no bairro Monumento, na cidade de Santana, sertão de Alagoas. 

Dominício observou que ao lado do palanque havia um grupo de homens. Aqueles homens sérios, nos seus trajes a rigor, terno gravata, cabelos alinhados, sapatos engraxados. Olhavam com respeito, amor abnegado, abterno, e entusiasmado, a procissão, os missionário, a filarmônica, e o passar imponente do andor com a santa.

Dr Adelson Isaac de Miranda, dr. Valter Guimarães, dr João Ioiô Filho, major Darcy, o entendente Firmino Falcão, o padre Manuel Capitulino, o padre Fernando Medeiros, o padre Luiz Cirilo, Pastor Bonfim, Coronel Manuel Rodrigues da Rocha, Coronel Lucena Maranhão, major Estevam, dr Arsênio Moreira, dr. Isnaldo Bulhões, dr. Henaldo Bulhões, comerciante Bartolomeu Barros, os farmacêuticos Alberto Agra, Seu Caroula, Seu Moreninho, Seu Zeca Ricardo e Seu Aleixo. O prefeito Adeildo Nepomuceno Marques, Genival Tenório, Martinho Vieira Rêgo, o empresário Paulo Ferreira. O padre Francisco Correia de Albuquerque. Tudo registrado pela câmara fotográfica do senhor Darras Nóya, funcionário dos Correios e Telégrafos.

Cada criança trazia um cartaz representando os vultos históricos da cidade. Meninos traziam gravuras dos bustos dos homens de destaque no cenário político, civil e eclesiástico da época de quando a cidade fora fundada. Meninas traziam retratos de mulheres ilustres: professora Marinita Peixoto Noya, professora Narair, Terezinha Carvalho e Terezinha Amaral, Belmira Brandão, Albertina Agra a “Dama do teatro”. Sinhá Rodrigues, dona Penina, professora Josefa Leite, professora Helena Braga das Chagas, dona Flora, professora Déa Wanderley Tenório, artesã Maria Laranjeiras. Irmã Letícia, e irmã Leôntia. Missionárias vindas da Holanda.

Dominício, o agricultor, Firmino, o barbeiro e Zezinho da Divisão, o violeiro repentista.  Acabavam de se darem conta, do quanto a Vila de Sant’Ana havia mudado. Tanto, ao ponto de  ser elevada ao título de cidade.  Dominício observou o Abrigo dos idosos São Vicente de Paulo, permanecia praticamente intacto, na sua fachada e arquitetura. Firmino e Zezinho da Divisão reconheceram, a capela Sagrada Família, a agência do banco do Brasil e o prédio dos Correios. Além desses, tudo o mais havia mudado. Até o solo que pisavam. Antes ladrilhado de paralelepípedos. Ostentava betuminosa pista de asfalto.

E lá, no mais alto das paragens celestes. Por sobre radiantes, alvas e obesas nuvens. Os discípulos de deuses enfadonhos debruçados nas sacadas e pérgola dos grandes terraços do jardim nubiloso observavam. As três Moiras, as três deusas responsáveis por traçar e controlar os destinos de pobres mortais aqui da terra. Por um instante se distraíram, causando grande confusão. Por conta disso, nossos incautos sertanejos, os três, sem nada entender, compareceram ao solene Hall de entrada do palácio Nuvioso, à antessala do céu.  aguardaram pacientemente no jardim das acácias. Logo ali, ao lado, ninfas, fadas, dríades e elfos descansavam banhando-se nas fontes e piscinas. Entorno dos famosos duendes arquétipos: Inocêncio, Explorer, Sapientio,  Hero, Ribeld, Mago, Comunis Homus, Eros, o Bobo da Corte, Governator, e o Criador.

A deusa Cloto responsável pelo fuso, e pela fiação das vidas de todos os humanos aqui na terra. A deusa Láquesis responsável por medir o cumprimento do fio da vida, que determinava quanto tempo, cada vivente viveria, aqui em baixo. E a deusa Átropos, a inexorável controladora da vida dos homens, com sua tesoura afiada, responsável, para por fim a vida dos homens, os que deveriam subir. As três, tiveram uma breve discussão, e equivocadamente, acabaram arrebatando os três sertanejos até os salões celestiais.

A permanência do trio de bravos sertanejos, aguardando o que lhes aconteceria, nas alamedas e átrios celestes. Não duraria mais que cinco minutos. Logo, as deusas desfizeram o erro, devolvendo-os a terra. Dominício, Firmino e José Maria do sítio Divisão. Acontece que, o tempo nas cortes celestinas não durava igual aqui nas plagas terrestres. Os cinco minutos que passaram lá. Aqui, foram exatos cinquenta anos.

Zezinho da Divisão queria saber se no comércio ainda existia o Café de Seu Lira. Qual não foi sua decepção, ao ver que onde um dia, fora o famoso Café do amigo Lira. Agora funcionava uma loja de tecidos. Pertencente a um outro Lira, a Casa dos Retalhos. Pegou sua viola e dedilhando versejou: “Nunca pensei que um dia, fosse lá pro firmamento/ Quase fui falar com Deus, isso eu quase me arrebento/ Ao voltar, cá pra Santana/ Encontrei tudo bacana/ Quero saber se é mentira/ Se mudaram o Café de Lira/ E a praça do jumento?”

Firmino, pensativo se lembrava da sua barbearia, via que agora nem existia mais. Um imponente centro comercial estava erguido no lugar. Sentado num banco relembrou de um pitoresco diálogo entre Tarde Fria e Macarrão. Sentados, nos bancos altos do Bar Comercial, conversavam. Saboreando de manhãzinha um cafezinho. Seu Sebastião Pacífico, ali ao lado, sentado escutava tudo. Esse foi o colóquio. Macarrão disse: Tarde Fria. Sabe aquela mulher que você arrumou, na última noite de festa de senhora Sant’Ana? Aquela dona já é furada! Tarde Fria calmamente respondeu: E daí? Eu não quero mulher, pra carregar água.

A procissão marcava o bicentenário da paróquia de Sant’Ana. Mulheres em fila, com seus brancos véus sobre a cabeça. Os vestidos azuis fechado, contrastando com as fitas vermelhas da Legião de Maria, que faziam um “v”, nas costas, onde ia o escapulário do devocional Sagrado Coração de Jesus. A vela acesa, pingos de luz amarelada, chorando, recrudescendo, os caminhos daquele entardecer solene. 

Crianças levavam emoldurados, os retratos dos padres, que passaram por aquela paróquia. Desde quando tinha sido fundada. Um moço bonito, alto, feições serenas. De pele, cabelos e olhos claros. Trajado de batina preta, de chapéu saturno. Assim chamado porque, a proteção pra cabeça, parecia com o planeta.  Curvando-se próximo a um dos meninos sussurrando, disse-lhe ao pé do ouvido. Esse que está aí na moldura que você leva, não sou eu. Eu sou o padre Francisco Correia. Esse daí, é o padre José de Anchieta. Sorriu, e ficou apreciando a procissão. O menino continuou inalterado, seguindo o cortejo. Agora, ainda mais sério, do que antes da revelação do jovem religioso.     

 

 

 
































 

Era Você, Além das Outras Três... Conto 13/08/2026





Eram três mulheres. Uma mãe, uma filha, que também era mãe, e uma neta. Três vidas compartilhadas, numa mesma natureza. Mesma origem, mesma genética. Debaixo do mesmo teto, dividindo sonhos, problemas, preocupações. Das seis da manhã as vinte e tantas da noite, vivenciavam juntas. Unidas, degustavam realidades.

A casa era modesta. Os pássaros redefiniam prioridades a cada alvorecer. Os telhados, agradecidos, liberavam flores de orvalho. Janelas semelhavam olhos de bonecas que não conseguiam nunca fechar. Portas que sorriam faceiras às brisas agostinianas.  O tempo, ali, nunca, jamais passaria alucinadamente. Feito fita rebobinada como em películas de cinema, ou antigos gravadores. A imensa tela panorâmica chamada, tudo que os olhos viam. Ligada toda vez que, as pálpebras se abriam. E se davam a assistir ao lento pingar das horas, ao gotejamento dos dias.

Era sentar numa daquelas cadeiras de balanço, e, através da janela, apreciar magnífico espetáculo. O sol nascendo, as horas recrudescendo, à tarde envelhecendo, o dia morrendo. O que realmente dava pra ver dali? As folhas do pé de cróton em um bailado, diáfano, caindo lentamente no jardim. A dança das folhas, devagar cobrindo os ladrilhos da passarela. Criando esplêndido tapete, de imensos losangos esverdeados, salpicados de amarelo. Grilos negros escondidos entre a ramagem, friccionando as patas a produzirem repetido cri-cri. A sinfônica harmonia das cigarras, cantando e cantando anunciando a primavera. Mariposas, escaravelhos, a morrerem de velhos, e a viverem, eternamente.

Sob o móvel da sala, poeira acumulada, possibilitando Aika, a filha e neta, a desenhar um coração. Pensativa, ao ponto de sentir pena do cachorro da vizinha. Pobre cão, cujos ancestrais viviam na terra do gelo. Latia e latia tanto, incomodado com o nosso clima. Jamais entenderia o porquê do quão distante estava dos seus parentes, e da sua terra natal. O cantar do galo às dez da manhã. Faria Rubia, a matriarca da tríade, dizer que aquilo era um mau presságio. Algo como, um aviso. E que naquela noite, os pais de família ficassem atentos. Pois, em algum lugar, ali por perto, uma moça iria fugir. Lisa, a filha, parecia distante, o fone de ouvido, a levá-la para muito longe dali. Para um, outro mundo. Caleidoscópico, onde acordes de guitarra se materializavam. A flutuar na fumaça do cigarro. Cigarro fumado meio que escondido, vício aprendido com a mãe, que, embora já soubesse, não aprovava. Nem desaprovava, pois era fumante também. As manhãs de sábado curtia as melodias sabor cafeína, misturado a nicotina. Injetando nas veias doses extras de dopamina. Viajando sobre um skate imaginário, que traziam ternas lembranças que nunca se apagaram, da infância, de menina. 

O dia, em sua cordialidade a cumprimentar o sol. A rua, agradecida pela manhã, sorria, ao vendedor de leite, ao moço do carro que vendia ovos, ao padeiro com seu gracioso triciclo. O saco de papel pondo ainda mais cheiro aos pães. O menino sentado na calçada conversava com o gato. Os jardins conversavam com as abelhas e as borboletas. O pé de avenca, sentindo-se sufocado, necessitado de ver o amigo sol escalara o muro. Empurraria o caqueiro com a samambaia, até derrubá-lo, e se arrebentar no chão. Sol bisbilhoteiro, a conversar com todo mundo, até com quem sonolento, ia. Sem fazer conta de sua companhia.

As nuvens, não dariam a dizer que estariam tristes. Até por que isso, era só um ponto de vista. As nuvens, elas desmontavam esquemas armados. O roceiro que vieira pra cidade. Pra ter o que fazer cultivou uma roça de feijão e milho no terreno baldio. Muito provável que o dono do lote, quando viesse o tempo da colheita, iria cobrar sua parte. Da janela, cada uma das três mulheres, notaram e se impressionaram com cada fase do preparo da seara. Aika, achou interessante o rude instrumento, movido a tração animal, que o homem usou para revirar a terra, tornando-a de uma cor marrom escuro. Não se sabe exato quanto tempo se passou. Até que senhora Rubia tivesse um déjà-vu, ao ver a vegetação verdinha, alinhada, enfileirada brotando, no campo. Viu-se menina ainda, na roça do pai. Lisa, não conteve as lágrimas ao ver a chuva molhando o milharal, enquanto um homúnculo vestido de branco, de chapéu de palha, acenava aos céus agradecido. Era só um espantalho.

As coisas desimportantes, e o poder de fazer esquecer pano sujo, balde com água. Flor entediada, fruta magricela, no pé. Pardais precisando ir ao psicólogo. Ventos decepcionados com a falta de chuva. Serras enrugadas, montanhas desesperadas, aflitas de silêncio. E tudo, pelos homens, amplamente desprezado. Córrego indiferente no seu destino gemedor, inconformado com a situação, tremia-se todo. Se esticando, esticar-se-ia até ir chorar junto ao lombo do riacho. O capim verdinho alteava-se escondendo em suas entranhas, sapos, jias, cobras, formigueiros. Agonia dos vivos, que nunca, jamais alcançariam os mortos. E os sepultados amargavam suas falas. Abundância de silêncio, colocando distante dali as falsas atitudes.

A rotina da menina: escola, todo dia, tudo era novo, de novo. Oito planetas, uma galáxia inteira girava em torno de si, e suas ideias. A bolsa escolar pesada de coisas. Seu mundo, cabia ali. Brigara com a melhor amiga. Isso, porém, não tinha a menor importância. Dali alguns dias ririam daquilo. O trabalho que a professora passara, alguns dias levaria para concluir. Com o telefone móvel pedia um pote de sorvete de açaí. O pai, do outro lado da linha, a abençoava e com moeda virtual, chamada Pix, pagava o serviço de delivery. Perguntaria se, estava tudo bem? Tudo certo. Ela diria. Confirmaria que no próximo final de semana estariam juntos. Em mais um piquenique às margens do rio. Era num trecho bastante preservado. Seria bom. Manter contato com a natureza, água límpida, peixinhos, conchinhas, pedrinhas, cachorrinho d’água. Naquela época do ano, valia a pena. Tudo tão verde. O pai alertava: cuidado com as plantas. E lembrava daquele ano, que, sem perceber tocara num pé de urtiga. Ficou toda encalombada.

Lisa, profissão: professora. Rotina super desgastante. Já, quase no limite, de estresse. O dia do aniversário da filha Aika, se aproximando. Orçamento apertado. E mais uma vez não daria pra fazer a festinha, do jeito que ela queria. Apelaria chantageando a mãe, avó da menina, para que bancasse o bolo. Decoração, refrigerantes, doces, petiscos daria um jeito, poria no cartão de crédito. O presente, quem todo ano dava, era o avô paterno. A vida não estava nada fácil. O desgaste emocional, os alunos, a discussão com o diretor, a falta de empatia, entre os colegas de trabalho. As contas se acumulando.

Pela nonagésima vez subiria a serra, só naquele semestre. Fugia da cidade, fugia da família, fugia do emprego, fuga de si mesma. Ainda bem que tinha o amigo Berto para desabafar. Saíam, as sextas-feiras iam a uns barzinhos, curtir música. Lembrar das baladas, de quando ia a show de rock, drinks a base de Gin, morango limão siciliano, e água tônica. Ali os problemas, literalmente, viravam fumaça. No sábado, mesmo de ressaca, era dia de limpar a casa. Dia de fazer uma faxina mental, ouvir Elis Regina, cantando Belchior, a dizer verdades, molhadas, com cerveja “long neck” Beats Sense.

Trabalhos escolares para corrigir, cadernetas para colocar em dia. Intermináveis relatórios de cada turma. O psicólogo, era a tábua de salvação. Só ele, tinha saco suficiente para ouvir, e ouvir, suas frustrações, suas carências, suas loucuras. Tudo dito na terceira pessoa, como se ela fosse, um outro alguém, com quem convivia, e tinha que suportar. E as coisas mais banais que todos nós temos vontade de fazer, dizia.  A eterna vontade de matar a mãe. Inclusive, naqueles momentos de raiva quando ela vinha remoer e apontar seus erros, defeitos. Contrariando o que rezava a lei, diria, num rompante de rábula, ao matar a mãe cometeria um homicídio doloso, porém com intensão e vontade de matar.

E, caso isso viesse a se concretizar, fatalmente se transformaria numa Serial killer .  Pois a lista dos que tinha vontade de matar, era enorme. E, aqui pra nós, depois de matar a mãe, os demais seriam fichinhas! O diretor, a sua pior inimiga, as aulas, a coordenadora, a semana inteira, a secretária escolar, as horas, as palavras, a fome, a raiva. Matar nunca fizera tanto sentido.

“Viver é melhor que sonhar/ Eu sei que o amor é uma coisa boa/ Mas também sei que qualquer canto/ É menor do que a vida de qualquer pessoa/ Por isso cuidado, meu bem/ Há perigo na esquina.”

Os versos da música, a voz de Elis Regina, ainda mais, a fazer sentido. Os pais nunca entenderiam os filhos. Filhas, mães, neta nunca foram feitas para serem entendidas. Nem para se entenderem. Mais fácil ficarem entediadas, que entendidas. A vida passando, e sua complexidade fazendo-as se afastar delas mesmas. A rotina desgastante da mãe. O emprego, a casa, lembranças do passado. A mãe?... Melhor usar o plural. As mães, sempre se sentindo, as menos compreendidas. Haveria de convir que eram, também, as menos compreensivas.

Valia muito a pena lembrar algumas frases que sempre ouviram, de quando, elas mesmas eram pequenas. E que continuavam valendo até aquela data. Se abusavam da sua autoridade soltava essa: “Você me respeita que eu sou sua mãe!”. Se viesse com história que podia fazer o que quisesse e bem entendesse, tacava essa na cara: “Enquanto morar debaixo do meu teto, vai fazer o que eu mando.”; Se a neta chegasse toda contente, por ter obtido boas notas na escola: “Não fez mais que sua obrigação!”; Se a filha reclamasse do sumiço de algo:  “Agora deu. Tudo sou eu nessa casa.”; Caso pedisse a filha pra ir buscar algo, e, por pura preguiça, alegasse não estar encontrando: “Se eu for aí e achar, eu esfrego na tua cara.”; Se estivessem na rua e lhe pedisse, o que quer que fosse, pra ela comprar: “Na volta a gente compra.”; E tinha a clássica: “Um dia você vai ser mãe e vai entender.”

Rubia, Aika, Lisa, nascidas em épocas diferentes, experiências vivenciadas, diferentes, a cada fase das suas vidas. A avó e mãe, Rubia, nascera e fora criada na roça. A urbanidade só entraria na sua vida depois do casamento. Desde cedo, dificuldades enfrentadas, com elas aprendera a dar valor ao trabalho, ao dinheiro ganho com sacrifício, e muito suor do rosto. O pai alcoólatra, a mãe uma penca de filhos. Verdadeira escadinha, do mais novo ao mais velho. Tivera que ajudar a mãe a criar os irmãos mais novos. Desde cedo entendera o que era amor materno. Oportunidade de estudar, de ter uma formatura nunca tivera. O serviço de roça ocupava todo o tempo.  Conseguira, com muito esforço, concluir o curso primário. Depois de casada, um trabalho de serviços gerais, numa repartição pública. Assim dera para sobreviver, constituir uma família.

Lisa, de um relacionamento que não deu certo, muito nova ainda, teve Aika. Com a ajuda da mãe criou a filha. Morar com a mãe e a filha, sempre fora grande desafio. Mãe solteira, a filha para criar, dentro da casa da mãe. Mundos e realidades diferentes. Conflitos sempre fariam parte. Rubia, sempre gostou de privacidade. Detestava se alguém mexesse nas suas coisas. E era o que a filha, e a neta mais faziam. Desde roupas, estojos de maquiagem a bijuterias, pegavam emprestado, sem compromisso de devolver. Ficava tiririca, virava uma fera. Era muito de curtir na vitrola, discos de vinil. Músicas dos anos setenta, oitenta. “Astronauta de mármore” dizia: era minha música.  No tempo que morava na roça, quando era de tardezinha vinha a pé, para a cidade, assistir a Telenovela: “Roque Santeiro”, na casa da irmã. Gostava da série de tevê: “Chaves”. Na última festa para os avós, promovida pela escola da neta. Amou ter que ir caracterizada com vestes dos anos sessenta.

Lisa, em seu computador portátil, um laptop, conectava um fone de ouvido e ficava curtindo músicas de rock dos anos oitenta e noventa, de quando ainda era moça. Teve um tempo que gostava do seriado de tevê: “Todo Mundo Odeia o Chris”. Apesar de branquela, se identificava com o negrinho. Com certa saudade, lembrava do tempo bom que ia nas baladas, aos bailes funk. Vestia preto pra ir a encontros de roqueiros e motoqueiros. Eles, que não gostavam de serem chamados assim, preferiam: motociclistas. Agora a pouco cantarolava: “Dominique nique nique/ Sempre alegre a cantar/ Alguém que possa amar/ O seu príncipe encantado, seu eterno namorado/ Que não cansa de esperar”. Nem sabia ela, que essa música, era de 1963. O pai, só três anos tinha, quando foi lançada. 

Aika, passava horas curtindo desenhos e séries de Mangás, e Cosplay, na tevê. Ainda a pouco assistia a série: “Spy Vs Family”, com seus personagens de cabeçorras, e enormes olhos. Divertindo-se pacas, nas redes sociais, vendo postagens, curtindo o que chamava de “memes”, na internet. Seus heróis? Influenciadores digitais. Os assuntos, os mais aleatórios: tipos de corte de cabelo, maquiagem, receitas caseiras, fast food, entre outros. Perguntada pela avó o que ia querer ser na vida futuramente, respondeu: Ainda não sei. Teria coragem de fazer um monte de tatuagens, assim como a mãe? Não. Ôxe?... O que achava do pai? Resumiu-o em uma palavra: Legal. E da mãe com quem convivia? O dedo polegar hirto, foi a resposta. E sobre ela, a avó? Um sorriso amarelo e cheio de arames, debaixo do nariz, foi resposta. Ficou corada de vergonha, quando, naquela tarde de sessão de Netflix, a avó comentaria que Aika, havia menstruado pela primeira vez. Desconcertada, tentaria quebrar o silêncio que se seguiu, cantarolando a música que vinha do seu aparelho de telefonia móvel: “Agora eu era o herói/ E o meu cavalo só falava inglês/ A noiva do cowboy/ Era você além das outras três."









MAKE  OFF
















 

A ARMA Conto. 09 de Agosto de 2026.









Flagrante de um belo sair da lua Cheia no Sítio Calango Verde. Zona rural de Senador Rui Palmeira-AL.


A lua cheia. Translucidamente vagando sobre uma tarde entre brancas nuvens, de céu azul, tendo logo a baixo o frenesi de um dia de feira. Um sábado do tamanho da cidade. Em suas vias, suas praças, igreja, bares, especificamente nesses dias simplesmente a urbe implodia. Turbilhão de gestos, profusão de vozes. Titânica massa cheia de intenções, algumas boas, outras más. As mentes cheias de vontades, de fazeres, de afazeres, de buscas, de ganhos, de achados, e de perdidos.

E parecia que tudo o que menos importava era um bando de pardais discutindo relação. Pior, acabando indo as vias de fatos. Dois deles se engalfinharam, e se esqueceram que estavam a metros do chão. Do alto do beiral do mercado caíram embolados, foram se esborrachar na via pública. Por pouco não foram trucidados por um automóvel que velozmente seguia seu trajeto. As andorinhas mais parcimoniosas preferiam a tranquilidade dos quintais, a companhia dos saguis. A disponibilidade de mamoeiros, goiabeiras, mangueiras. Não esperariam a assembléia das garças, nem tampouco se incomodariam com os tratados inventados pelas aves de rapina que tentavam ditar regras. Gaviões, abutres, detestavam o “modus operandis” de seus parentes equidistante, os urubus. Para eles, pouco importava a arrogância, a empáfia, sabiam da lei que vigorava tanto na selva, quanto na cidade: a lei de que os mais forte sobreviveriam.       

 O homem, sabia exatamente o que iria fazer, naquela manhã de sábado. Acostumara a trazer tudo meticulosamente anotado, numa pequena caderneta anotava. Uma prática trazida da juventude, de quando vendia carvão, na carvoaria do pai. A lápis grafite, grafava, com letras que pareciam caroços de milho, de tão feias. Em ordem cronológica escrevia sucintamente o que ia fazer, ao longo do dia, a cada dia. No alto da folha colocava a data com números: dois dígitos para o dia; uma barra; um dígito para o mês, mais uma barra; e com dois dígitos fazia o ano. Com fé em Deus, dizia, cumpriria sua missão cotidiana. Primeiro compromisso para o turno da manhã. Anotava: Manhã: comprar bananas, café torrado, fumo picado; segundo compromisso para o turno vespertino. E escrevia a palavra, Tarde: Logo a frente fizera o desenho de um pequeno círculo, com um xis sobrepondo-o. E a frente desse símbolo, o nome de uma mulher: Esmeralda. Era um código, que só ele entendia. O que significava? “Matar Esmeralda”.   

A rua, cheia de gente, indo e vindo. A rua, nem se incomodava mais com o burburinho provocado pelo povo, na feira. Acostumara-se com o sufoco dos prédios, das construções terminadas, de outras tantas em andamento. O tráfego intenso, a disputa dentre carroças de burro, carregadores de estivas, meninos e homens que faziam frete de feira. Espaçosa, vadia, vagabunda, assim se dizia a rua: Meretriz. Se entregaria a quem pagasse melhor. Uma vez negociado o valor, seria usada, lambuzada, abusada, ao bel-prazer de quem pagasse. Às vezes se submetendo aos caprichos de seres sádicos, psicopatas, possessos, perturbados mentais. Feirantes, compradores, viajantes, forasteiros, aventureiros, salteadores, gente da melhor e da pior espécie. Tudo aturdidamente mesclado, sem o menor remorso faziam, sem o menor pudor usavam, e depois se iam. Simples assim. Depois, iam embora, Deixando para trás um rastro de nojeira, fezes, urina, mau cheiro, lixo. Garrafas quebradas, uma orelha, um olho humano, sangue. Rua, depois da feira, esgoto a céu aberto. Rua, aberta ao céu, o tempo todo jamais tirara os olhos de lá. A prestar atenção. Afinal, era para lá que se dirigia.

A placa de latão, pintada de branco, com letras azuis: “Rua do Sol”, afixada bem na quina do museu. O sol, entediado, resvalava por cima dos toldos. Mexia e remexia com quem estava inquieto, coçava o pelo do cachorro, afobava as orelhas dos jumentos. Os bichinhos,  cansados acabavam se deitando no cimento quente das calçadas, aquecido. Enxadrezado, acinzentado, rude paralelepípedo. Ali mesmo urinava, vomitava línguas de fogo em brasa. Tomaria toda água que seu ventre suportasse. Lá ia o astro-mor se intrometer nas cores da sobrinha, da moça que ia, desenhando disformes e invisíveis figuras. Enormes rabos de perfumes captados pelos olfatos aguçados. O deus Osíris apontava sua lança para o alto da torre, os menos desavisados chamavam aquilo de pára-raio. A deusa Minerva vigiava do alto de um sobrado o que restaria ao final daquela batalha: inumanos e humanos sem vencedores, só derrotados. Amornava as asas dos pombos que catavam migalhas, pelas calçadas. Ao tempo que marchavam, defendiam suas fêmeas. Arrulhavam, arrulhavam, só para impressionar. E quando fosse bem de tardezinha, ia indo, ia indo, até sumir no horizonte.

A moça via-se por inteiro, refletida no espelho do quarto. Olhos grandes. Analisava o rosto, e todo o corpo. Enquanto alisava os cabelos. O frescor do banho que havia tomado avivara-lhe o espírito, abrira-lhe os poros, ativara a circulação. Doce perfume a embalar a mente. Toque cítrico ativando os pensamentos. Estava decidida, outra vez se encontraria com seu namorado. Entregar-se-ia ao prazer com ele. Decidida, a mudar de vida naquele sábado. Seria naquele. Daquele não passaria. Escolhera aquele final de semana, para acabar com a vida de sua mãe. A idosa de noventa e seis anos, muito já vivera Na sua concepção tinha que morrer. Prostrada em cima de uma cama, com demência, pelo mal de Alzheimer.  Afinal, já havia dez anos que cuidava dela. Não suportava mais, quem já estava ficando doente, propriamente, era ela.

Ir pela rua, fazia de cada um, parte de algo grandioso, místico. Andar a rua e a vida pareceria mais leve, mais intrigante, interessante. Avivando o branco do terno e do chapéu de massa dos citadinos. Andar pela rua renovava a alma dos viventes e dos manequins nas vitrinas. Zé Pilintra só andava assim, bem elegante, terno gravata, chapéu e sapatos envernizados. O preto velho cutucava o saci que doidamente passou rodopiando e derrubando, por pirraça, as bugigangas dos mascates, que se valiam dos santos do sertão: Valei-me meu padinho Ciço e padim Frei Damião! E tudo isso se revertia em fé. E ajudava a enternecer os problemas da gente humilde, que os cartões postais procuravam esconder. O prédio do correio parvo de secularidade, o jardineiro absorto em suas tesouradas na relva, o pipoqueiro pipocando, em manteiga derretendo-se de calor, o menino jornaleiro quase virando ao avesso, em gritaria. Enquanto o negro engraxate, era, pura calmaria. Tárcila do Amaral aqui, material suficiente para centenas de telas teria. E o que parecia diáfano concretamente se materializaria. Está sentindo? Cheiro de tinta.  

O moço, encostado no poste da esquina. Um livreto de poesia a ocupar-lhe os olhos. Letras refletidas no translúcido par de óculos. Absorto em pensamentos. A poesia ia, e vinha, e esperaria pacientemente que virasse um cadáver. Ou arranjasse um. E se diluiria por entre suas preocupações e desejos. Assim, feito oração rezada sem fervor. Quem sabe virasse frase de sua lápide. O ônibus, amarelo e preto dizendo com sua carga e seu letreiro que escola era destino. Os pardais displicentemente pousados sobre os fios. Desconheciam o perigo que os rondava, a poderosíssima corrente elétrica fluída sob suas frágeis garras. Aviões enormemente pesados, desafiando a gravidade levantavam vôo, carregados de sonhos, encomendas, embaladas para presente, transportando doenças e doentes incuráveis, disseminando dúvidas, incertezas pelo mundo a fora. Indo, em missões importantes, sabia-se lá pra onde.

Célebre encontro semanal, a que todos se propunham participar. Belo encontro social. Junção quase perfeita, de seres vivos, e entes mortos. Gente almada e desalmadas, tudo junto. Assim era a feira. Caldeirão fervente de sentimentos, desejos, provocações, realizações, frustrações. Uma salada de frutos incomuns, frutas temporãs, exóticas, legumes, verduras, cereais vindos de lugares distantes, que ninguém jamais saberia o trabalho que dera pra chegar até ali. Negros teriam sido explorados, mulheres teriam perdido filhos, e suas filhas tiveram que se prostituir para não morrer de fome. Mercadorias embaladas na surdina, às pressas. Ensacados sem a menor higiene, para viajarem na escuridão da madrugada, e evitarem passar nas alfândegas, e nos postos fiscais.  Bolachas, barras de doce, pastéis, caldo-de-cana, fubá. Mulheres benzedeiras e suas ervas medicinais, tudo meticulosamente ensaiado para funcionar bem, para vender, para obter algum lucro. 

Gastaram suas vidas anos a fio naquela lida. Guardas que perseguiam, e caçadores de aves e pequenos animais que fugiam, defendendo cada um, seus interesses. Passarinhos engaiolados, apinhados em ínfimas combucas de dois olhos. De onde agora viam o mundo por outro ângulo. Através de portinholas, do tipo guilhotina. Redes de pesca pendidas debaixo de um pé de algaroba. Cena surreal. Semelhava ninhos de alienígenas, teias de aranhas gigantes. Quebra-queixo, tapioca, bolo de massa puba, pé-de-moleque, bolo na palha de milho, bolo na palha de bananeira. Um extraterrestre passou pela feira do rato. Observou tudo detalhadamente. A verdade é que ninguém, ninguém sequer o percebeu. Provou beju, água de coco e tapioca. Rapazes tiraram fotos ao lado de sua moto, que ficou estacionada com frente ao bar de Seu Nelinho.

Um menino, seria sempre um menino. No sertão nordestino, na Arábia, na Turquia, na índia, ou na Palestina. Naturalmente qualquer ser em tamanho reduzido com as características de um humano, se não fosse uma menina, indubitavelmente seria um menino. Bermuda, surrada e suja, camiseta, idem.  Nos pés empoeirados, chinela de dedo. Na cabeça um boné, a lhes servir de proteção, contrapeso, para os causticantes e implacáveis raios de sol. Boné, formidável adereço de cabeça. Alívio para os pensamentos cabeludos, que nenhum pente conseguiria pentear. Na hora da confissão o padre o desencorajou a fazer aquilo, e com veemência diria que aquilo seria pecado grave. Se sua mãe soubesse, certamente lhe daria uma surra. Mas estava decidido para o que se propunha fazer. Naquele sábado estava exatamente com uma semana que fora fretado, com seu carrinho de mão para levar a feira, da casa da moça bonita, a filha da velhinha. Entrou pela garagem, na volta, na hora que ia saindo achou de remexer num baú que estava ali largado, empoeirado. Dentro, entre outras coisas, havia uma pistola, uma quarenta e cinco milímetros, toda municiada, na cartucheira. Foi paixão a primeira vista. Estava fazendo, exatamente naquele sábado, uma semana que sonhava todos os dias em pegar aquela pistola. Ficaria ali, aguardando a moça bonita. E ela viria.

Cães, eles sabem exatamente onde precisam estar, aonde devem ir, dia de feira. É questão de sobrevivência. Uma turba de cães, à porta do mercado da carne. Disputariam cada osso jogado pelos marchantes, os vendilhões de carne. Os interesses não são exclusividades dos humanos. Cães vivem em sociedade, dividem espaços, disputam parceiras sexuais. Rosnam, latem e mostram os dentes. Fazem caras e bocas dependendo da necessidade. Entre um bando de cães existem os mais afoitos, os que se aventuram, os que se arriscam numa empreitada pelo pedaço de carne. Ainda que isso lhe custasse uma cacetada, de olho de machado, uma lapada de facão nos espinhaços. E uma briga podia acontecer a qualquer momento, entre homem e cães, e mesmo entre os próprios cães. Fatalmente alguém sairia ganhando ou perdendo. Um olho, uns dentes, um pedaço de orelha, uma nesga de couro das costas.         

Cachaça no balcão, homens novos, velhos meninos, boi-de-barro, jarros de argila, moinho de milho caçuá, cangalha, esteiras de piri-piri, balaio, embornal, carrinho de mão, carrinho feito de lata de óleo, pirulito de mel de açúcar. Broa, tão branquinhas daquelas que derretiam na boca. A moça pôs uma flor no cabelo, virou tema de uma tela, um retrato de Di Cavalcanti. A porta do cabaré raparigas, cafetões, soldado de polícia, pirangueiros, jogadores de pôquer, boêmios, trajados de roupa branca, de suspensório. Zé Torreiro, e Ciço Mouco passaram a madrugada abatendo suínos, fazendo linguiça de porco no açougue de Seu João Soares. Agora era hora de se divertir, no cabaré de dona Brejão.

Um menino, um homem, uma mulher. Três viventes, três criaturas no mundo de humanos, desumanamente  impelidas a abomináveis planos.  Anjos do mal as acompanhavam. Convencera-os a realizarem maquiavélicos projetos. Arvorados no pretexto de realizações pessoais. Diante das situações em que se encontravam. Levados a acreditarem que o que fariam, poderia trazer-lhes alguma realização pessoal. Ledo engano.

Um pé de castanhola na porta da prefeitura, forrava o chão com suas enormes folhas, em tons sanguineos, e seus frutos cor de vinho. O rio, as canoas, a areia fofa, molhada. O consultório do dentista, o palhaço mambembe. As marionetes, as bandeirolas que sobejaram do são João. Os meninos que alugavam bicicletas a Cosme e Damião. Sapato envernizado. Velocípedes, patinetes, carrinhos de tábuas de descer ladeiras. A fazerem riscos, e versos no calçamento, cimentado. Bola de gude, ferro de finca, arraias, piões. A igrejinha de Nossa Senhora da Piedade, ou seria Nossa Senhora da Soledade? O mercado do peixe, a bodega de Seu Ozéias. A casa de esquina de Seu Artur e dona Mirian. Tudo ia, aos poucos se ajeitando.

O pior já passara. Belzebu palitava os dentes. Com seu tridente aproveitou-o para coçar o couro cabeludo. Pensativo, desanimado com o saldo nada animador do final daquele sábado. Sentado sobre o espinhaço de um bêbado arriado, a porta do bar de Seu Lira. Olhou prum lado, olhou pro outro, cuspiu. De raiva, deu uma fungada tão forte que tapou o mundo com uma nuvem cinza, fedorenta a enxofre. E foi dizendo: Arre égua! Nada de interessante acontece nesse fim de mundo! E sumiu.