PÉ DE CÃO Conto 03/03/2026


Lá ia o mundo, bolando, pelo infinito a fora. Mundo girando, vagabundo. E na casca, levando um tanto de gente. Gente, que as vezes, nem um muquifo, onde se amparar tem. Um buraco, pra chamar de “lar doce lar”, não tem. Gente que acaba fazendo da cidade sua casa. Pé de cão é um desses. Habitante desse planeta, e sua casa, o mundo.  

José Luiz Ferreira Santos, esse foi o nome que lhe deram na pia batismal. Seus pais viviam de roça, eram agricultores. Não tiveram muito a lhe oferecer, quanto a educação. Oportunidade de trabalho, só a do roçado. Ainda menino, Zé Luiz, chegou a ir a escola, parou na terceira série do fundamental. Aprendeu ler e escrever, achou que era o suficiente. Empolgou-se com os jogos de futebol, nos times da periferia. Pena, que só ele achava que tinha talento com a bola. Dos campos rurais, pros campinhos de várzea. Daí pra os bares, pras farras com cachaça, foi um pulo. E a bola do mundo debaixo dos seus pés lhe deu muitos dribles. Voltar pra roça não quis mais. Os pais, idosos, não demorariam muito, partiram pra junto de Deus. E vagou pelas casas de alguns poucos amigos. Depois só restariam as ruas.

As ruas foi o que restou pra chamar de casa. A marquise de uma loja, a calçada da igreja, um ponto de parada de ônibus, uma construção inacabada, um prédio abandonado. Anoitecia, em qualquer lugar, onde estivesse, estava em casa. Seu quarto de dormir, um canto para recostar a cabeça. O colchão, um pedaço de papelão.

Ruas, praças e avenidas viraram sua sala de estar. Uma torneira com água, podia proporcionar um breve alívio, lavar o rosto. O cafezinho gratuito, dava pra conseguir, na recepção da prefeitura. E partia pra mais um dia de vida concedido por Deus. Se oferecia a lavar os carros dos grã-finos, estacionados nas portas dos hotéis. Ao meio-dia, o estômago dizia, que precisava de algo pra digerir. Opções havia, pra conseguir comida. E a busca faria considerando a um doador que a mais tempo fizera uma visita. Restaurantes, hotéis, lanchonetes, padarias.

Pé de cão, dizia que não tinha amigos, apenas colegas: “Só tive um amigo na vida, meu pai. E agora só Jesus!” Criara um itinerário, que cumpria diariamente, ao perambular pela sua “casa”. Primeiro o Bar de Zé de Quineu, o destino de toda manhã. Ponto de encontro dos pingunços. Os chamados: Pé-inchados, ou Pé-na-cova. Alguns frequentadores, eram colegas do tempo que fora jogador de futebol. Alguns idosos, rebeldes, viciados, que fugiam de casa pra beber, sem serem importunados pela família. Aposentados, ex-funcionários públicos, que nunca conseguiram se livrar do vício da embriaguez.

Pé de cão, não negava serviço. Tinha vez que se oferecia, e outros que era chamado. Serviços que sujavam apenas o corpo, e outros que maculavam a alma. Alguns que carregaria a mancha na alma. Já participara dos dois tipos. Lavava pocilga, limpava vísceras de bois, no matadouro, desviscerava peixe no mercado, esgotava fossas. Já fora preso, por arrombar um armazém. Repassara drogas das “bocas” pra estudantes em porta de escola. Outros que terminado, bastaria tomar um banho no rio, e ficava limpo. Nada que um pedaço de sabão, água a vontade, num local mais afastado, não limpasse. O banho de rio, e a capacidade que tinha de revigorar as forças. O rio, também, faz a pessoa voltar no tempo, relembrar coisas de infância. Dar saltos mortais, sapatadas, descer na correnteza, nadar cachorrinho, se lambuzar no barro da encosta. Uma brincadeira que nem lembrava mais, fazer carrinhos com varas de mamoeiro.  

Mercado da feira, lugar, aonde opostos, se encontram. Os que buscam algo, e os que necessitam desfazer de coisas. Um eterno se encontrar, e se perder. Ulular de vozes, diálogos, ora sussurrados, ou xingamentos exaltados. Uma babel, onde todos se entendem. Pé de cão, faria qualquer coisa, desde que lhe rendesse algum dinheiro. Arrumou uma empreitada. Era serviço pesado. Carregar, até o lastro de um caminhão, cinco sacas de feijão.

Cada saca pesava sessenta quilos, quase o dobro do peso do estivador improvisado. O pobre homem, de estatura minguada, era só ossos. O uso excessivo de álcool minara suas forças. A primeira saca, e a cabeça ficou leve, igual uma pena. Parecia que não havia nada sobre os ombros e o pescoço. Mais duas sacas, e o coração, deu pulos, ameaçando sair pela boca. Das duas últimas, sufoco. Só uma, conseguiu manter a consciência. E o desmaio.

Pé de cão, nunca gostou de mendigar. Até que tentara, algumas vezes, porém, achava  humilhante demais. Além do que sua aparência de boêmio, aliado ao ar de quem não tinha cara de necessitado rendia-lhes impropérios de quem abordava. Engolia seco, e as poucas e boas, que ouvira faria definitivamente desistir da mendicância.

Bar Comercial, Pé de cão sabia, ali tinha que respeitar. Pedia uma cachaça, pagava e saía. As frases filosóficas, tipo: “Se nada tens a fazer. Não o faça aqui.”; “Um domingo sem missa, é uma semana sem Deus.” Pregadas na parede, dizia tudo.  O bar era frequentado por muitos colegas de Pé de cão: “Cara de Jegue”, “Fedor”, “Dorme sujo”, “Zebedeu”, “Profeta”, “Capiá”, “Tarde Fria”, “Saco do cão”, “Fofão”, “Ciço Mouco”, “Papa-figo de Abidôn”, “Chupa péda”, “Macaco”, “Instalação trocada”, “Zé Gago”, “Colimério”, “Miau”, “Branca-de-Neve”, “Mão-de-Onça”, “Lopreu”, “Calhambeque”, “Ivaldo Cui-ui-ui”. Era uma seleta freguesia, ali se encontrando: comerciantes, artistas, locutores de rádio, funcionários, também poetas, cordelistas, repentistas, ambulantes, moradores de rua.

Um morador de rua, como qualquer pessoa, precisa fazer suas necessidades fisiológicas. As opções, no transcorrer do dia pode variar. O mercado público, as repartições do governo, e particulares, bares e restaurantes. A coisa só se complica, com o avançar da noite. Quando começa a escassear algum ponto aberto. Cabe aqui a improvisação, um terreno baldio, um lugar ermo, uma capoeira. No último caso, evacuar em um saco plástico e se desvencilhar a plena via pública.

Vida de rua, exige cuidado. Quando a escuridão envolve todos os cômodos dessa casa, chamada cidade.  A lei que vigora, é a lei da selva. Os cães de rua, de dia, são parceiros, e até brincam de andar com os vagabundos, como se esses fossem seus donos. A noite, rosnam, mostram os dentes, e latem com fúria pra tudo que se move. Tudo vira ameaça, chuva, trovões, ratos, gatos, cassacos. O terror fica por conta da falta de energia elétrica. Nada é mais assustador.

O namoro. Pé de cão, tinha uma namorada, Ritinha. Ela também vivia perambulando pelas ruas. Embora tivesse onde e com quem morar, numa casa de verdade. Maria Rita de Cássia, já tivera uma família, até os vinte anos morou com seus pais. Seus pais morreram, vitimas de uma cheia do riacho Camoxinga Teve um ano que desceu da serra uma tromba d’água que atingiu sua casa. Naquele ano, foram muitos desabrigados. A defesa civil, o corpo de bombeiros, e o Serviço de resgate muito trabalho teve para encontrar os corpos , pra resgatar sobreviventes.

Pé de cão, conheceu Ritinha, na madrugada do domingo de carnaval, os dois catavam latinhas vazias, de cerveja e refrigerante, pra reciclagem. Sentados na calçada conversaram, fumaram um baseado. E daí a pouco estavam transando num terreno baldio, na saída da cidade.  As ruas, aos poucos vão se tornando a única opção de morada, de gatos e cães abandonados, de animais silvestres com hábitos noturnos, cassacos, cobras, raposas, ratos, gabirus, corujas, gaviões, papa-mel, sapos, gafanhotos, enxames de abelhas, morcegos, saguis, e gente. Arriscando a vida, em nome da sobrevivência. A lei da selva, acaba, migrando pra cidade: vence o mais forte.

 O apelido Pé de cão, vem de uma história pra lá de estranha. Primeiro que, qualquer um que olhasse para seu pé esquerdo via que algo diferente existia. Era totalmente de uma pele mais escura que o resto do corpo, e coberta de pelos negros, de um aspecto capaz de causar repulsa. E se completa com a história de um encontro que nosso herói, teve com uma figura folclórica, um lobisomem. Ele fazia questão de contar, com riqueza de detalhes. “Lá ia eu, bem tranquilo pela rua da Praia. Passava da meia noite,  era uma sexta-feira, do mês de agosto. A rua estava escura, a única luz existente a dum poste, mesmo assim coberta por uma neblina fina. Pretendia chegar a casa do amigo Carlinhos Índio, conhecido de todos nós, homossexual declarado. Eu estava com muita fome. Sabia que chegando no “apê” do meu amigo. Se tivesse, ele não me negaria algo pra eu comer.”

De repente ao dobrar a esquina Zé Luiz se depara com uma cena dantesca. Um lobisomem, vinha saindo de uma bueira de esgoto, bem ali, na sarjeta. Zé, vinha na calçada alta, que fica bem de frente a igreja de Nossa Senhora de Fátima. Calçada da associação dos moradores daquele bairro. O ser horripilante tinha cabeça de lobo, e corpo de homem, totalmente coberto de pêlos, vestia uma calça jeans. Os olhos de fogo. A voz como que de mil demônios, disse assim pra Zé: “-Eu venho do mundo das trevas, vim lhe buscar. Porém, você só poderá ir, depois que virar bicho, assim como eu. Pra isso, eu preciso lhe morder, numa perna, ou num braço.” Ao dizer isto o lobisomem partiu pra cima do rapaz, que se esquivou. E empurrou o homem lobo de cima da calçada. A fera caiu, mas conseguiu agarrar o tornozelo do Zé. Isso foi suficiente para iniciar o processo de transformação. Então, Zé Luiz deu um estrondoso grito que ecoou por toda rua: “-Valei-me! Meu Padrinho Ciço do Juazeiro!” Exclamou, ao tempo que olhava pra um casulo de vidro fincado na parede da igreja, com a imagem do santo milagroso do Cariri. Na mesma hora o lobisomem, soltou seu pé, e sumiu na boca negra, bueira a dentro.

Naquele sábado, de boca em boca, a notícia se alastrou. Não se falava de outra coisa: A fantástica história do morador de rua que se encontrou com um lobisomem, na rua da praia. E no Bar Comercial, sentado a uma mesa, o poeta Mário Pacífico, deu o mote: “Assim diz o povo, acredite Você ou Não/ Homem vira Lobisomem, isso é lá com Pé de Cão.”

      

 

BEM ALI, A FRENTE... [RIGTH THERE AHEAD] 23/02/2026.

FOTO RIACHO CAMOXINGA EM 22/02/2026
 

Uma estrada pavimentada, quase deserta, cheia de curvas sinuosas. Um céu exuberantemente azul, mesclado de brancas nuvens, até o horizonte. Um carro, a cem por hora, surgiu. No interior do automóvel, aparente calmaria. A única coisa que quebrava o silêncio, lá dentro, um rock balada vindo do rádio. Som meloso de guitarra eletrônica. Do lado de fora, ronco de motor no asfalto. Semblante fechado, o moço que dirigia, parecia irritado. Chapéu de caubói, óculos raiban. Teria aí seus trinta e poucos anos, fazia o tipo, americano, Ao seu lado, uma moça, de longo cabelo negro, olhos castanhos, longos cílios. Escondia-os nuns óculos de armação estilizada. A julgar pela cor da pele, uma nativa.

Terra seca, aridez de deserto, cactos. Era a paisagem que se refletia nos vidros. Escassez de gente, escassez de casas, escassez de sombra. Abundância de sol, abundância de tristeza e solidão. Adrenalina, entre outras coisas, tem poder de fazer o coração bater com mais intensidade. O daqueles dois acompanhava o ritmo do asfalto. A aparente tranquilidade, era só aparência.

Tem coisas para as quais não existe explicação. para Sidnei, tudo a sua volta podia parecer normal, mas não era. Lorena, mascava chiclete. A calma de araque da moça, só contribuía para aumentar a irritabilidade de Sidnei. Num relampejo de lucidez, pensou: se acaso se envolvessem num acidente? Naquelas circunstâncias. Seria fatal.

Os pensamentos, tentava organizar. A velocidade com que as imagens se sucediam, curvas, placas de sinais, um animal morto a margem da pista, urubus. Qualquer coisa tirava a concentração. Mesmo com os vidros fechados, a sensação era que tudo o que pensava saía voando, lá pra fora. Pelo vento era levado. E pensar que uma discussão boba, poderia levá-los a morte. Uma força estranha, talvez isso, os permitia continuarem vivos. Só tinham que aproveitar. E relembrar como tudo começara. Tempo havia de sobra. A longa estrada a frente. Poderia levá-los a onde queriam ir. Ou, aonde nunca imaginariam chegar.

Enquanto o carro avançava, lembranças vinham. Sidnei lembrava de uma tarde de domingo. Um sol reluzente brilhava na imensidão do azul celeste. Era outono. Estavam no alpendre da velha cabana dos Silva. Acomodados sobre um banco comprido, de madeira. Trajado numa camiseta vermelha com uma estampa amarela no centro do peito. Não lembrava se era um desenho duma ave, ou um coração. Seria um pato, de bico alaranjado? Ela, vestida num vestido verde claro, adornado de detalhes na barra e nas mangas, sianinha branca e fitilho vermelho. O cabelo, tinha-o preso próximo a nuca, por um lenço estampado.

Sidnei tinha uma xícara branca com café. Lorena acendera um cigarro. A fumaça azulada brincava com seus cabelos, e subia, a cima do telhado. Conversavam quase sem dizer nada. O olhar cheio de montanhas. O horizonte, de longe, só assistia, sem nada dizer. Ela disse: -Estou com dor de cabeça. Ele sacou uma piada pronta, cheia de malícia: -Abra as pernas que a cabeça passa... Ingenuamente ela obedeceu. Sidnei não conteve a gargalhada. Aquele instante cheio de ternura, marcava um dos primeiros, de muitos momentos que passariam juntos. Uma vida inteira teria, pela frente. E nem sabiam o que o esperavam. Bem ali, logo a frente.

-Acho que estamos perdidos. Disse ela. Ao tempo que via, do seu lado da estrada, um imenso portal de entrada, de uma fazenda. -Assim que avistar alguém, eu paro, e peço informação. Retrucou. Nem bem fechou a boca, duas motocicletas, surgiram no retrovisor, vinham no mesmo sentido do carro. Baixou o vidro da janela do motorista, com o braço para fora, tentou fazer sinal para pararem. Os motociclistas emparelharam com eles, mas passaram direto.

Oito quilômetros depois, avistaram um posto de combustível. Tentaria informação com o frentista. O magricela, de macacão sujo de graxas e óleo, era de poucas conversas. Ao menos, ficou sabendo que estava no caminho certo. E que andaria ainda uns quarenta quilômetros até chegar ao destino. Isto é um assalto! Imediatamente veio a sua mente o dia em que o pai de Lorena Seu Antonio, havia uma semana que estava sumido teve uma de suas crises de esquizofrenia. Armado com uma velha faca peixeira enferrujada, tentou assaltar o posto de combustível de Vila Santa. O frentista sacou uma pistola calibre doze e explodiu o peito do velho Antonio. Encerrava ali a trajetória do velho sogro de Sidnei, cuja vida conturbada, era de clínica em clínica, de hospitais, e hospitais psiquiátricos.

Sidnei foi até a conveniência, comprou, biscoitos, chicletes, batatas fritas, água, e cigarros. O barbudo atrás do balcão lembrava, fisicamente, o seu primo Artur. Nitidamente recordou aquela manhã que fora com ele, levar o gado pra beber água no açude, que ficava por trás da casa da vó Emília. De volta, chegaram pelos fundos, aos gritos, chamaram pela avó várias vezes sem obterem resposta. Quis entrar pela cozinha, porém desistiu. Contornaram a velha casa pelo oitão. Ao chegarem a frente, novamente chamaram pela avó. Sinal nenhum que houvesse alguém ali. Entraram pela frente. A porta estava só encostada. A casa parecia abandonada.

Lorena, lembrava de outras brigas, por motivo ainda mais fútil que aquele. No primeiro ano de namoro quando fizera aniversário, ganhou de Sidnei um relógio de pulso, que era o desejo da maioria das mocinhas de sua idade, a época. Junto a caixa do presente, um cartão de parabéns. Nele, havia um desenho de um casal de namorados envolto em uma densa neblina. Encimados de letras brilhantes, que dizia: “Feliz Aniversário! Te Amo.” Lá dentro, Sidnei escrevera, de próprio punho, alguma coisa. Ao vê-la abrir, pediu: -Leia. E fechando o cartão ela disse: -Depois. -Quero que leia agora! Disse ele taxativo. E a discussão começou. O rosto banhado em lágrimas, ela acabou confessando: -Eu não sei ler!  

Os meninos, vasculharam todos os cômodos. Não havia ninguém ali. Na cozinha, uma chaleira de café no fogão à lenha. Era comum, nas casas de sítio, uma panela no fogo, somente pra aproveitar as brasas. Os meninos avançaram nos quitutes da velha avó, comeram coalhada com açúcar, doce de leite de pelotas. E saborearam a famosa torta de frango da vó Emília, que ela guardava a sete chaves. E não gostava quando comiam sem sua permissão. Na sala aproveitaram pra mexer nas antigas armas do vovô Pedro, exposta sobre uma enorme cômoda de cedro. Vo Pedro morrera de câncer no estomago, fazia anos. Seu semblante severo na moldura da parede, parecia, repreender os meninos pelo que faziam. Um bacamarte, uma pistola Luger P08, alemã, da segunda guerra mundial. E uma pistola de cano duplo, apelidada de “Dois tiros e uma carreira.”

De fato, Sidnei esquecera a origem humilde da namorada. E que após a morte do pai, quando ela ainda era criança. Pra sobreviver teve que trabalhar duro nas plantações, nos roçados. O pai bruto, não permitia que estudasse. As mãos eram calejadas na palma e nos nós dos dedos. Só tinha direito a comprar uma roupa nova, próximo as festas do padroeiro, com o dinheiro ganho com a venda dos cereais. As vezes ganhava roupas usadas, das primas ricas que moravam na capital.

O dia, calmo e ensolarado até aquele início de tarde. De repente, mudou. O mundo escureceu, parecia noite. O trovão roncou seu ronco de meter medo nas almas penadas, e nos seres  vivente que perambulavam pelas brenhas do sertão. Ainda mais em menino medroso, que estaria fazendo o que não devia. E já imaginava que o castigo chegara, só que chegara rápido demais. Os raios cortavam o céu como se metade do firmamento fosse cair bem ali, no terreiro da velha vó Emília. Uma ventania arrastou as roupas do varal pra uma plantação de palma que tinha ao lado do terreiro. Agora tinha palma vestida de camisola, uma com touca de calçola e até uma enrolada de toalha como se fosse cachecol. Galinhas, guinés, perus, pavões, patos e gansos buscaram abrigo. A chuva, de pingos grossos produzia, na calha, um barulho ensurdecedor. De dar nos nervos. A água descia pela bica, corria cano a baixo, caindo direto na cisterna.

Sidnei e Lorena, se casaram num final de ano. O último dia, num 31 de dezembro pra ser mais exato. O moço resolvera fazer, naquele mesmo dia, sua despedida de solteiro. Ficou após a cerimônia, a tarde toda bebendo com os amigos, pelas ruas, bares e botecos. A festa foi na casa dos pais dela. Um almoço foi servido aos presentes. Uma vitrola se alternava com um violonista, que bebia muito, só executava uma música a pedido, depois de tomar várias doses de cachaça. Acabou bêbado, arriou lá no quintal, próximo a uma goiabeira, onde ia aliviar a bexiga. A algazarra era por conta das crianças, a maioria sobrinhos da noiva. A mãe de Sidnei, dona Clotilde, era viúva e se fez presente ao casamento sozinha. Parecia tão pensativa. Como se tivesse com um sentimento de perda. Com aquele semblante só se vira no dia do sepultamento do finado Arnobio. E já, uns vinte anos havia desde que seu esposo se fora.

Naquele baile do final de ano Lorena fugiu de casa. Depois que todos dormiram saiu pela janela pra ir encontrar Sidnei. Ele a esperava na praça, fazia horas, isso o deixara nervoso. Lorena prendeu um riso com a mão ao vê-lo. Achou ridícula a gravata azul que usava. Infelizmente ele percebeu, a reprovação dela. Aquele não seria nunca a melhor noite de final de ano. A discussão foi inevitável. O pretexto: a demora. Isso a fez ir embora. Talvez Lorena se arrependera de ter fugido, e assim tentasse evitar levar uma surra do seu irmão Jorge, o mais velho. E que não aprovava o namoro da irmã com aquele ofice boy da empresas dos Correios. Enquanto que seu pai, nunca saberia. Na noite de ano novo ficava tão bêbado que acabava perdendo o melhor da última noite do ano: a queima dos fogos de artifício.

Os meninos, no sofá. Cobriram-se com uma manta, que tinha um tigre de bengala estampado. Com a tempestade, o tigre do desenho parecia também temer o que lá fora acontecia.  Artur jurou que viu um vulto passando pela vidraça da janela lateral. Do oitão a oriente da casa.  Segundo ele, era a silhueta da vó Emília refletida ao clarão de um raio. Mas o que a vó deles estaria fazendo, andando em torno da casa, debaixo daquele violento temporal. Será que a velha queria meter medo nos meninos?

O revellion na praia tinha tudo pra ser o melhor de suas vidas. Já eram adultos. A falta de experiência ficara pra trás, fazia anos. Motivos tinham muitos pra comemorar, a vida, a estabilidade financeira. Enfim a paz, não a do mundo, mas a existente entre os dois. O champanhe estourando, as taças tilintaram várias vezes. As fotografias, os flashes, a alegria contagiante sendo registrada para a posteridade. A queima de fogos, explodiu enchendo de luzes o manto negro sobre o mar. Lorena era puro êxtase, frenesi de felicidade, o álcool a fez mergulhar no mar. Ao emergir parecia uma deusa seminua. Seu vestido branco sutilmente fino colou ao corpo. Nitidamente dava pra ver seus pêlos pubianos, negros sob o translúcido tecido. Ao vê-la assim Sidnei teve um acesso de fúria. Pegando-a pelo braço, puxou-a para a penumbra, dizendo-lhe palavras duras. Despiu sua camisa e a envolveu por sobre a cintura, cobrindo-lhe o ventre. Mais um fiasco, numa noite de virada de ano.

Alguém batia com força na porta da frente. Os meninos trêmulos, paralisados pelo medo, num quase num sussurro perguntaram: -Quem é? Era Seu Antonio. Aos gritos tentava dizer algo ocorrido a sua velha mãe, dona Emília. Uma lufada de vento apagou todas as velas. Aquela noite tempestuosa, trouxe medo, trouxe dor. Dona Emília fora encontrada morta boiando nas águas turvas do açude, o balde que levava, boiava  junto ao corpo.

O carro avançava. A imensidão do infinito escurecera. A escuridão dizia: é noite. Noite nos pensamentos, noite nas mentes de tormentas, tenebrosa noite nos corações, vacilantes. Raios, trovões. A anunciar: dali pra frente, a jornada se tornaria mais difícil. Onde há discórdia, as chances de dar certo diminuem, e  de dar errado só aumentam. Uma ponte, semi destruída logo a frente. a força das águas, facilmente consegue engolir um frondoso carvalho, uma cerca, de arame farpado, uma cancela de cedro seminova. Sem hesitar engoliria sonhos, planos, engoliria projetos, as esperanças de chegar a um lugar. Abismo no peito, cratera, aberta na alma. Tão fria, capaz de encerrar sonhos, trajetórias. Entrelaçar história de vidas. A cem por hora. No rádio, a música dizia: “Nós fomos feitos um pra o outro...”

 


ERA DIA DE CARNAVAL 14/02/2026


   As ruas, as casas, tudo dava a entender que aquele, era um dia de carnaval. Os altos falantes jogavam frevo no ar. O tapete acinzentado de paralelepípedos pontilhado de confete e serpentina, estendia-se pela avenida. Nuvens de pó branco, no ar, nas cabeças, no chão. O bloco do Sujo, àquela hora da manhã, ainda estava limpo. Limpo, nas vestes, nas mentes, aturdidas de frevo, ávidas de éteres. Lanças perfumes, buzinas barulhentas, frevo, samba, uísque, e agogô. Blocos surgiam nas esquinas. Na mesma proporção que sumiam, pra tudo quanto era lado. Sem saber ao certo pra onde iam, perambulavam. Vagavam, pra lugar nenhum. Inconscientemente, convergiam em direção a praça.

Esmeraldina acabara de sair da quitanda. Um pouco desnorteada. O estardalhaço dos blocos punha frenesi nas coisas, nas almas dos viventes, nos espíritos que vagavam, também nos bichos. Segurando firme a sacola com as compras, seguiu caminho. A mão direita fechada, como se fosse esmurrar alguém. Na palma, bem escondida, uma cédula de dinheiro, amassada, amarrotada. O troco da quitanda, que dali a pouco viraria um litro de leite. Toda manhã, junto com o sol, na lombada da estrada de barro, lá vinha ele, Seu Fernando Catingueira. A jumenta com um chocalho, a anunciar sua chegada. O líquido lácteo, branquinho, recém tirado da vaca, vinha pra cidade, dentro de baldes, nos caçuás da jumenta. O cheiro abusado, atraía insetos, gente, gatos famintos.

Seu Audálio, de manhã cedo, já estava na bodega de Seu Oséias. A primeira lapada de cana, sem ter botado um nada na barriga, botou pra dentro. Na última, das quatro portas botou meio corpo para fora. Nos dois sentidos da rua, olhou, quem ia, quem vinha. Saiu pra calçada acendeu um cigarro, o primeiro jato de fumo soprou para cima. Aproveitou para explorar o céu. Havia nuvens se concentrando por sobre a urbe. A chuva prometia, brincaria carnaval, junto à corja barulhenta. A turba desvairada, aqui em baixo, teria chuva por companhia. Um grupo de meninos trajados de bobos passou correndo, estalando relhos, assoprando apitos, o silvo imitava pássaros noturnos. Esguichavam indiscriminadamente água de lanças coloridas.  

A bagunça reinante cá embaixo, parecia refletir-se lá em cima. A cima das cabeças, das casas, e dos telhados. Nuvens obesas, insistentemente avisavam que não suportariam por muito tempo. Um desmame previamente avisado. Em breve uma ordenha pluvial ocorreria. Não apenas um espetáculo, mas dois. Prontos para acontecerem, o início do tríduo dos dias frívolos, e a chuva. Chuva e foliões, uma combinação mais que perfeita. Chuva benfazeja, chuva pra lavar a alma, lavar corações, chuva pra arrastar a tristeza para a sarjeta. Chuva pra lavar as faces, maquiadas, enganadoras faces. Efusivas, coloridas, de falsos sorrisos, da falsa alegria, de momo, meladas de pó. Chuva de pingos oblongos, demasiadamente esticados, pingos feitos projéteis derretidos, que rapidamente transformavam ruas em rios, becos, vielas em canais. Arrastavam terra dos terrenos baldios, ajuntavam lama nas bueiras, nas bocas de lobo. Chuva que revelavam grotescas faces escondidas, debaixo de pierrôs, de colombinas. Palhaços e fadas, tudo de mentira.

 A casa de Seu Audálio, continuava no mesmo lugar. Tetricamente estática, como que se negando entrar na folia. A rua toda era alegria, saltitante. Portas escancaradas, gente entrando, gente saindo. Cimentado perigosamente molhado. E gente, a dar escorregões e tombos, os que desafiavam a lei da gravidade, e que teimavam em passar correndo. Aquela casa acanhada, encolhida entre outras mais bem cuidadas, se negava a ser alegre, ainda que fossem aqueles, dias de folia. Alegria falsa, falsa euforia. O ano inteiro sofrimento, o ano todo, o que sobejava dentro daquele casebre, tristeza.

A música, ora uma modinha, ora esfuziante valsa, ao transpor os umbrais daquela casa semelhava marcha fúnebre. A melancolia, da porta pra dentro, ali reinante, desbotava os mais sonoros acordes. A rudez da carência, o parco e velho mobiliário. Numa salinha um centro adornado de um jarro com flores empoeiradas. Um sofá, e uma poltrona resistiam, competiam pra ver quem primeiro sucumbiria às revezes do tempo. O quarto dos filhos de Seu Audálio, e dona Esmeraldina, André e Carlos de 15 e 16 anos. Lúcia e Eulália, de 8 e 13 anos. Num ínfimo cubículo, se apertavam dois beliches, que subiam pelas paredes laterais. De um lado dormiam os meninos, do outro, as meninas.

Seu Audálio, era vaqueiro. A vida toda vivera na caatinga. Nas brenhas do sertão se criara. Se inventara de vir pra vila, em busca de vida melhor. E, até então, tudo o que conseguira, miséria, humilhação. E arrependimento, pelo mal fadado exílio. Quando conseguia alguma coisa, pra ganhar algo, era, limpar um quintal da casa de um comerciante, de um funcionário público, ou trabalho de servente de pedreiro. Dona Esmeraldina vivia amargurada de saudade, da vida na roça. É certo, que lá, as coisas não eram nada fácil. Porém, nunca faltara o de comer. E a si mesmo dizia: “Se arrependimento matasse, eu já estava mortinha.”

O mundo pra Seu Audálio rapidamente se modificara. A cachaça, tornada refúgio. Entornada no estômago vazio, sorrateira subia-lhe à cabeça. Ali chegando tudo fazia virar um alucinante carrossel de sonhos. O frevo, o álcool, ocasional, fazia-o flutuar. O chão amolecera, parecia esterco quente, pastoso, cheiroso. Como se saído de dentro do boi agora a pouco. Aquele cheiro bom, fazia tempo que não sentia. Vindo lá de um curral imaginário, guardado na memória. Não sabia como, mais era de lá, de tão longe viera. A sensação de tranquilidade, a aquecer-lhe o coração. Sob o véu do etanol, a rua parecia mais cordial, mais amiga. As casas pareciam sorrir-lhe, como se tivessem bocas, e enormes dentes, alvinhos a sorrir-lhe. O frevo tão convidativo. As árvores pareciam possuidoras de enormes olhos, com imensos cílios postiços. As nuvens como se maquiadas, dotadas de bochechas rosáceas. Os ouvidos de Seu Audálio pareciam, de bom grado, engolir as notas musicais que materializadas, eram pintadas de cores vivas. Eram fofas, cheiravam a hortelã, orvalhado. Brilhantes, vistosas como frutos de Melão-de-São-Caetano.

O ex-vaqueiro, veio vindo pela rua. Vestia uma calça preta que ganhara do ex-patrão. No seu corpo, agora franzino, pelas necessidades passadas, a calça de linho sobejava de tecido, precisara de um arrocho maior do cinto. O chapéu de couro, roto, amassado, o andar trôpego, deu-lhe a aparência dum “Carlitos” mambembe. Algo estranho de se ver, nosso protagonista, todo em preto e branco. E, a sua volta, efusão de cores, euforia.

Seu Audálio envolto pela alegria. Arrastado por explosiva magia reinante, esfuziante momice. Alimentada de trejeitos, fricotes, gargalhadas. Risos soltos. Afoitos arroubos nascidos de rum, vinho e outros destilados, ou fermentados, a todos endoidando. Foliões, com seus frascos claudicavam como se dançassem, ou dançavam como se claudicassem. Pelas ruas e ladeiras, iam. Por um instante, o pobre Audálio se esqueceu que tinha família, mulher e filhos. Enquanto estes, como sempre, o esperariam. Na esperança que trouxesse algo para comer, que viesse, para casa, perto do meio-dia. Mulher e filhos, a vida toda uma eterna espera. Mais uma vez esperavam. E esperariam deitados, pois em pé, cansa. Como sempre, a fome chegava, primeiro que Seu Audálio. Enquanto isso, casa era varrida, camas forradas, louças e roupas lavadas, terreiros e quintal eram limpos, sonos dormidos. Aguardariam pacientemente, até que o esteio da casa, o supridor das necessidades, chegasse. A fome que não podia esperar, esperava.  Na casa onde abundava a carência carnal, carnaval nem se atrevesse a entrar. O frevo, o batuque, o maracatu, os estrondos dos clarins, passavam pela porta, mas nem se animava entrar. Casa de pobre, se conhece de longe.

De repente, um carro enorme, um Cadilac preto, parou à porta da casa de Seu Audálio. O chofer desceu, bateu palmas. Eulália veio ver quem era, em seguida chegou sua mãe. Seu Geraldo, o chofer, trazia um recado do senhor Diocleciano seu patrão, o dono da usina de algodão, proprietário da fazenda Bom Jardim, na qual Seu Audálio, por muitos anos trabalhara. Um convite trazia, para o vaqueiro voltar a trabalhar pra ele. Dona Esmeraldina sorriu por dentro, mas conteve-se ao notar o olhar de cobiça do chofer pra sua filha, insiste mente olhava para os pequenos seios da menina, que agora tinha 14 anos. Falou pro moço que seu marido tinha saído cedo, e até àquela hora, passava de meio-dia, não havia voltado.

A tarde ia. Ia muito além da misericórdia. O sol, deu uma vacilada, e sequestrado foi, por um tufo de nuvens que desde cedo lhe empurrava para os abismos do vale das sombras. E a intenção, todos sabiam, era que a tempestade reinasse, do céu à terra. E ela reinou. A tromba d’água pegou alguns de surpresa. A torrente forte levou confetes, serpentinas, fantasias,  danificou ornamentações dos postes. O bloco “Arrastão”, arrastado ladeira a baixo. Água descia aos rolos, levando com força tudo que encontrava pela frente. Tambores, tamborins, estandartes, alegorias, alegria, cachorros, gente bêbada. Água e folia.

E veio a noite. Uma chuvinha fina, insistentemente, caía sob o calçamento, sob as ruas escuras, do subúrbio. Dava pra ouvir, muito longe, um instrumento metálico, de sopro. Desafinado, notas cortadas. Suspiros últimos, como de um sobrevivente de um naufrágio, que tentava, num último esforço, comemorar o fato de estar vivo. Aqui e acolá, reflexo de lanternas, como se procurasse algo. Alguém, perdera alguma coisa. Sabe-se lá o quê. Um relógio, os sapatos, a chave de casa, a vergonha, a vontade que tinha de brincar carnaval. Muito longe, um murmúrio. No final do quarteirão uma discussão de bêbados. A ambulância passou, lá longe, gemendo a sirene, em direção ao centro da cidade. Um gato, pulou da marquise até o muro, do muro até o contêiner de lixo, e dali, ao chão. Aproximou-se do batente da loja de ferragens. Jazia um homem ali. Vencido pelo cansaço, pelo álcool, pela fome. Palhaço sem graça, mambembe sem troça, espantalho de roça. No primeiro dia de carnaval, no chão largado, dormia. Seu Audálio.    

 

SOMBRAS DE UM SOBRADO. Conto 24/01/2026.



Lá estava, um rapaz, sentado no banco da praça, da sua cidade. Cidadezinha interiorana. Parecia cenário pitorescamente tirado de romance vivido no sertão. De um tempo, tão lá para atrás, que os homens ainda trajavam ternos, gravatas e usavam chapéu coco. E as mulheres desfilavam sua feminilidade, nos seus longos vestidos cheios de babados. Uma praça, rodeada de bancos, um coreto pintado com esmero. Enfeitado com bancos, encimado de ferro, madeira e telhas de cerâmica, com eira e beiras. Rodeado de jardins arejados e floridos. Uma igreja de única torre lateral, um campanário. A escada de acesso, carecendo de reforma. Tudo assim, tão envelhecido. As cores, parecia que haviam fugido, depois, de tanto sol, que tantos e tantos anos, as castigaram. O sol daquela manhã, algo em si havia, um gatilho, um disparo, um estouro. Para todo mundo, uma bola de fogo que dizia: levanta-se, vai que a vida te espera. Vem, vem beber um pouco dessa energia, permita-me que entre pelos poros, pura vitamina, gratuita.

João, esse era o nome dele. Para ele, o sol, não era assim. Nunca fora, jamais algo animador. O astro-rei deixava-o desnorteado, causava-lhe confusão de pensamentos. As casas pareciam dançar. Um bailado gutural. Sob a sinfonia do dia, que avançava. As flores do canteiro, gotejavam sangue, as vermelhas. E um mel viscoso, as amarelas. Borboletas gigantes esvoaçavam sobre sua cabeça. Farfalhavam suas enormes asas, e zumbiam um zumbido, que lhes atordoavam as ideias. Algo que, em instantes, lhes explodiriam os tímpanos. O céu ficara violáceo. Teve náuseas, ânsia de vômito. De repente, viu-se caído, na grama do jardim.

Cambaleante, dirigiu-se para casa. Um apartamento acanhado, imprensado entre o sobrado e a igreja. O portão antes da escadaria, ao ser aberto, rangeu sob as ferrugens de suas dobradiças. Se escorando nas velhas paredes, arfando, galgou os mais de vinte degraus que o separava da calçada ao interior do cômodo.

Lá dentro, parecia ainda menor. O apartamento se compunha de um único vão. Ocupado por um sofá, uma mesa, três cadeiras, uma pequena estante com alguns poucos livros. Uma meia parede dividia a cozinha. Ao lado ficava o banheiro. No fundo, havia uma janela que arejava, e iluminava o ambiente. O que mais havia ali eram gatos. No tapete, sobre as almofadas. No sofá, no umbral da janela. Eram sete ao todo. João concebera um a um. Conversava o tempo todo com eles. E os adotara à medida que foram aparecendo. Eram como se fossem filhos, melhor dizendo, como se fosse sua família. Sua única família.

Alexandra, era uma gata, a única que gostava de banho, e o acompanhava toda tarde na hora do asseio. Júlia, outra gata, fazia-lhe companhia nos momentos de preparar as refeições. Breno ajudava na hora da limpeza. Carlos lhe acompanhava na hora de leitura. Roberto, era o vigia, aquele que cuidava da segurança da casa, insetos, ratos, morcegos, serpentes, anfíbios, ou qualquer outro elemento invasor, era ele que cuidava de enxotar, ou eliminar. Miguel, o místico, para os momentos de oração. Antônio a companhia na hora de dormir.

João entendia os gatos, e os gatos o entendiam. Mas isso não aconteceu assim, da noite para o dia. João, um dia, tivera uma família de verdade. Os pais de João moravam naquela casa, ao lado. Todos haviam morrido em um trágico incêndio, numa noite de festa de final de ano. Morrera naquela fatídica noite de revellion, seus pais e seus cinco irmãos. O velho sobrado, que guardava os traços arquitetônicos, do início do século vinte. As oito janelas encerradas com madeira, tiradas da mata, de quando tudo ali era rodeado de mata fechada. O povoado foi crescendo em torno daquele casarão, e da igreja. Daquela família o único que escapou do trágico incêndio fora João, porque morava na capital da província. Aonde tinha ido morar pra estudar Direito. Para nunca esquecer de seus familiares, João dera o nome aos seus gatos, dos seus pais e irmãos, perecidos no trágico sinistro. Antônio era seu pai, Júlia sua mãe, e os outros seus quatro irmãos, e uma irmã, Alexandra.

Escravos foram mortos naquela pracinha do coreto. Os gatos de João, de lá de dentro do apartamento, eles tinham visões. Os gatos, eles conseguiam ver cenas do passado acontecendo, em tempo real, no paço municipal. Naquela manhã o Entendente Municipal tinha ordenado a divulgação de uma execução. Dali a pouco a morte de um escravo iria acontecer, em pleno dia de feira livre. Os ambulantes, as senhorinhas, os comerciantes todos. As pessoas parariam seus afazeres, até as crianças que brincavam na praça. Todos parariam para presenciar o macabro espetáculo, o enforcamento de escravos na pracinha do vilarejo era acontecimento cívico. Naquela ocasião, havia entre os apenados um que era muito velho. Enquanto o algoz era um homem descomunal. E este, fora tão violento com o puxão na corda, que a cabeça do infeliz se desprendeu do corpo. Caiu e rolou até a via pública. A cabeça parou justamente com os dois olhos esbugalhados como estavam agora, olhando em direção ao apartamento de João. Miguel arregalou os olhos, eriçou os pelos desde a cabeça até a calda, levantando a cabeça soltou um grotesco miado que encheu de pavor os demais gatos.

A tarde se pronunciou com chuva. Aquela noite de meados de janeiro, tinha muitas coisas para rememorar. Festas natalinas passadas, confraternização de ano novo, pra recordar. Alguns muito bons entre família, outros, não tão bom assim. João, abriu uma garrafa de vinho. Aquela vaporosa noite de janeiro, tão convidativa, merecia um brinde, a vida. Também a morte.

Os gatos estavam todos ao seu redor. Após várias taças de vinho, João resolveu que chegara a hora, de confidenciar, as suas mais importantes companhias, os seus gatos, um segredo que guardava há anos. O incêndio, que motivara a morte de seus entes queridos, pais e irmãos, não fora acidental. Havia sido encomendado por ele, a um capataz da fazenda do seu pai. A ele o gratificou muito bem, e fez com que sumisse dali.

A embriaguez do vinho, a música alta do gramofone, não permitiram a João perceber, muito menos se defender, do ataque mortal de sete gatos, que dilaceraram sua jugular, a aorta, arrancaram seus olhos, desfiguraram seu rosto. O som de um violino tocava muito longe. Naquela noite, o que se via, era a lua projetando na rua as sombras, de um sobrado.