ERA DIA DE CARNAVAL 14/02/2026


   As ruas, as casas, tudo dava a entender que aquele, era um dia de carnaval. Os altos falantes jogavam frevo no ar. O tapete acinzentado de paralelepípedos pontilhado de confete e serpentina, estendia-se pela avenida. Nuvens de pó branco, no ar, nas cabeças, no chão. O bloco do Sujo, àquela hora da manhã, ainda estava limpo. Limpo, nas vestes, nas mentes, aturdidas de frevo, ávidas de éteres. Lanças perfumes, buzinas barulhentas, frevo, samba, uísque, e agogô. Blocos surgiam nas esquinas. Na mesma proporção que sumiam, pra tudo quanto era lado. Sem saber ao certo pra onde iam, perambulavam. Vagavam, pra lugar nenhum. Inconscientemente, convergiam em direção a praça.

Esmeraldina acabara de sair da quitanda. Um pouco desnorteada. O estardalhaço dos blocos punha frenesi nas coisas, nas almas dos viventes, nos espíritos que vagavam, também nos bichos. Segurando firme a sacola com as compras, seguiu caminho. A mão direita fechada, como se fosse esmurrar alguém. Na palma, bem escondida, uma cédula de dinheiro, amassada, amarrotada. O troco da quitanda, que dali a pouco viraria um litro de leite. Toda manhã, junto com o sol, na lombada da estrada de barro, lá vinha ele, Seu Fernando Catingueira. A jumenta com um chocalho, a anunciar sua chegada. O líquido lácteo, branquinho, recém tirado da vaca, vinha pra cidade, dentro de baldes, nos caçuás da jumenta. O cheiro abusado, atraía insetos, gente, gatos famintos.

Seu Audálio, de manhã cedo, já estava na bodega de Seu Oséias. A primeira lapada de cana, sem ter botado um nada na barriga, botou pra dentro. Na última, das quatro portas botou meio corpo para fora. Nos dois sentidos da rua, olhou, quem ia, quem vinha. Saiu pra calçada acendeu um cigarro, o primeiro jato de fumo soprou para cima. Aproveitou para explorar o céu. Havia nuvens se concentrando por sobre a urbe. A chuva prometia, brincaria carnaval, junto à corja barulhenta. A turba desvairada, aqui em baixo, teria chuva por companhia. Um grupo de meninos trajados de bobos passou correndo, estalando relhos, assoprando apitos, o silvo imitava pássaros noturnos. Esguichavam indiscriminadamente água de lanças coloridas.  

A bagunça reinante cá embaixo, parecia refletir-se lá em cima. A cima das cabeças, das casas, e dos telhados. Nuvens obesas, insistentemente avisavam que não suportariam por muito tempo. Um desmame previamente avisado. Em breve uma ordenha pluvial ocorreria. Não apenas um espetáculo, mas dois. Prontos para acontecerem, o início do tríduo dos dias frívolos, e a chuva. Chuva e foliões, uma combinação mais que perfeita. Chuva benfazeja, chuva pra lavar a alma, lavar corações, chuva pra arrastar a tristeza para a sarjeta. Chuva pra lavar as faces, maquiadas, enganadoras faces. Efusivas, coloridas, de falsos sorrisos, da falsa alegria, de momo, meladas de pó. Chuva de pingos oblongos, demasiadamente esticados, pingos feitos projéteis derretidos, que rapidamente transformavam ruas em rios, becos, vielas em canais. Arrastavam terra dos terrenos baldios, ajuntavam lama nas bueiras, nas bocas de lobo. Chuva que revelavam grotescas faces escondidas, debaixo de pierrôs, de colombinas. Palhaços e fadas, tudo de mentira.

 A casa de Seu Audálio, continuava no mesmo lugar. Tetricamente estática, como que se negando entrar na folia. A rua toda era alegria, saltitante. Portas escancaradas, gente entrando, gente saindo. Cimentado perigosamente molhado. E gente, a dar escorregões e tombos, os que desafiavam a lei da gravidade, e que teimavam em passar correndo. Aquela casa acanhada, encolhida entre outras mais bem cuidadas, se negava a ser alegre, ainda que fossem aqueles, dias de folia. Alegria falsa, falsa euforia. O ano inteiro sofrimento, o ano todo, o que sobejava dentro daquele casebre, tristeza.

A música, ora uma modinha, ora esfuziante valsa, ao transpor os umbrais daquela casa semelhava marcha fúnebre. A melancolia, da porta pra dentro, ali reinante, desbotava os mais sonoros acordes. A rudez da carência, o parco e velho mobiliário. Numa salinha um centro adornado de um jarro com flores empoeiradas. Um sofá, e uma poltrona resistiam, competiam pra ver quem primeiro sucumbiria às revezes do tempo. O quarto dos filhos de Seu Audálio, e dona Esmeraldina, André e Carlos de 15 e 16 anos. Lúcia e Eulália, de 8 e 13 anos. Num ínfimo cubículo, se apertavam dois beliches, que subiam pelas paredes laterais. De um lado dormiam os meninos, do outro, as meninas.

Seu Audálio, era vaqueiro. A vida toda vivera na caatinga. Nas brenhas do sertão se criara. Se inventara de vir pra vila, em busca de vida melhor. E, até então, tudo o que conseguira, miséria, humilhação. E arrependimento, pelo mal fadado exílio. Quando conseguia alguma coisa, pra ganhar algo, era, limpar um quintal da casa de um comerciante, de um funcionário público, ou trabalho de servente de pedreiro. Dona Esmeraldina vivia amargurada de saudade, da vida na roça. É certo, que lá, as coisas não eram nada fácil. Porém, nunca faltara o de comer. E a si mesmo dizia: “Se arrependimento matasse, eu já estava mortinha.”

O mundo pra Seu Audálio rapidamente se modificara. A cachaça, tornada refúgio. Entornada no estômago vazio, sorrateira subia-lhe à cabeça. Ali chegando tudo fazia virar um alucinante carrossel de sonhos. O frevo, o álcool, ocasional, fazia-o flutuar. O chão amolecera, parecia esterco quente, pastoso, cheiroso. Como se saído de dentro do boi agora a pouco. Aquele cheiro bom, fazia tempo que não sentia. Vindo lá de um curral imaginário, guardado na memória. Não sabia como, mais era de lá, de tão longe viera. A sensação de tranquilidade, a aquecer-lhe o coração. Sob o véu do etanol, a rua parecia mais cordial, mais amiga. As casas pareciam sorrir-lhe, como se tivessem bocas, e enormes dentes, alvinhos a sorrir-lhe. O frevo tão convidativo. As árvores pareciam possuidoras de enormes olhos, com imensos cílios postiços. As nuvens como se maquiadas, dotadas de bochechas rosáceas. Os ouvidos de Seu Audálio pareciam, de bom grado, engolir as notas musicais que materializadas, eram pintadas de cores vivas. Eram fofas, cheiravam a hortelã, orvalhado. Brilhantes, vistosas como frutos de Melão-de-São-Caetano.

O ex-vaqueiro, veio vindo pela rua. Vestia uma calça preta que ganhara do ex-patrão. No seu corpo, agora franzino, pelas necessidades passadas, a calça de linho sobejava de tecido, precisara de um arrocho maior do cinto. O chapéu de couro, roto, amassado, o andar trôpego, deu-lhe a aparência dum “Carlitos” mambembe. Algo estranho de se ver, nosso protagonista, todo em preto e branco. E, a sua volta, efusão de cores, euforia.

Seu Audálio envolto pela alegria. Arrastado por explosiva magia reinante, esfuziante momice. Alimentada de trejeitos, fricotes, gargalhadas. Risos soltos. Afoitos arroubos nascidos de rum, vinho e outros destilados, ou fermentados, a todos endoidando. Foliões, com seus frascos claudicavam como se dançassem, ou dançavam como se claudicassem. Pelas ruas e ladeiras, iam. Por um instante, o pobre Audálio se esqueceu que tinha família, mulher e filhos. Enquanto estes, como sempre, o esperariam. Na esperança que trouxesse algo para comer, que viesse, para casa, perto do meio-dia. Mulher e filhos, a vida toda uma eterna espera. Mais uma vez esperavam. E esperariam deitados, pois em pé, cansa. Como sempre, a fome chegava, primeiro que Seu Audálio. Enquanto isso, casa era varrida, camas forradas, louças e roupas lavadas, terreiros e quintal eram limpos, sonos dormidos. Aguardariam pacientemente, até que o esteio da casa, o supridor das necessidades, chegasse. A fome que não podia esperar, esperava.  Na casa onde abundava a carência carnal, carnaval nem se atrevesse a entrar. O frevo, o batuque, o maracatu, os estrondos dos clarins, passavam pela porta, mas nem se animava entrar. Casa de pobre, se conhece de longe.

De repente, um carro enorme, um Cadilac preto, parou à porta da casa de Seu Audálio. O chofer desceu, bateu palmas. Eulália veio ver quem era, em seguida chegou sua mãe. Seu Geraldo, o chofer, trazia um recado do senhor Diocleciano seu patrão, o dono da usina de algodão, proprietário da fazenda Bom Jardim, na qual Seu Audálio, por muitos anos trabalhara. Um convite trazia, para o vaqueiro voltar a trabalhar pra ele. Dona Esmeraldina sorriu por dentro, mas conteve-se ao notar o olhar de cobiça do chofer pra sua filha, insiste mente olhava para os pequenos seios da menina, que agora tinha 14 anos. Falou pro moço que seu marido tinha saído cedo, e até àquela hora, passava de meio-dia, não havia voltado.

A tarde ia. Ia muito além da misericórdia. O sol, deu uma vacilada, e sequestrado foi, por um tufo de nuvens que desde cedo lhe empurrava para os abismos do vale das sombras. E a intenção, todos sabiam, era que a tempestade reinasse, do céu à terra. E ela reinou. A tromba d’água pegou alguns de surpresa. A torrente forte levou confetes, serpentinas, fantasias,  danificou ornamentações dos postes. O bloco “Arrastão”, arrastado ladeira a baixo. Água descia aos rolos, levando com força tudo que encontrava pela frente. Tambores, tamborins, estandartes, alegorias, alegria, cachorros, gente bêbada. Água e folia.

E veio a noite. Uma chuvinha fina, insistentemente, caía sob o calçamento, sob as ruas escuras, do subúrbio. Dava pra ouvir, muito longe, um instrumento metálico, de sopro. Desafinado, notas cortadas. Suspiros últimos, como de um sobrevivente de um naufrágio, que tentava, num último esforço, comemorar o fato de estar vivo. Aqui e acolá, reflexo de lanternas, como se procurasse algo. Alguém, perdera alguma coisa. Sabe-se lá o quê. Um relógio, os sapatos, a chave de casa, a vergonha, a vontade que tinha de brincar carnaval. Muito longe, um murmúrio. No final do quarteirão uma discussão de bêbados. A ambulância passou, lá longe, gemendo a sirene, em direção ao centro da cidade. Um gato, pulou da marquise até o muro, do muro até o contêiner de lixo, e dali, ao chão. Aproximou-se do batente da loja de ferragens. Jazia um homem ali. Vencido pelo cansaço, pelo álcool, pela fome. Palhaço sem graça, mambembe sem troça, espantalho de roça. No primeiro dia de carnaval, no chão largado, dormia. Seu Audálio.    

 

SOMBRAS DE UM SOBRADO. Conto 24/01/2026.



Lá estava, um rapaz, sentado no banco da praça, da sua cidade. Cidadezinha interiorana. Parecia cenário pitorescamente tirado de romance vivido no sertão. De um tempo, tão lá para atrás, que os homens ainda trajavam ternos, gravatas e usavam chapéu coco. E as mulheres desfilavam sua feminilidade, nos seus longos vestidos cheios de babados. Uma praça, rodeada de bancos, um coreto pintado com esmero. Enfeitado com bancos, encimado de ferro, madeira e telhas de cerâmica, com eira e beiras. Rodeado de jardins arejados e floridos. Uma igreja de única torre lateral, um campanário. A escada de acesso, carecendo de reforma. Tudo assim, tão envelhecido. As cores, parecia que haviam fugido, depois, de tanto sol, que tantos e tantos anos, as castigaram. O sol daquela manhã, algo em si havia, um gatilho, um disparo, um estouro. Para todo mundo, uma bola de fogo que dizia: levanta-se, vai que a vida te espera. Vem, vem beber um pouco dessa energia, permita-me que entre pelos poros, pura vitamina, gratuita.

João, esse era o nome dele. Para ele, o sol, não era assim. Nunca fora, jamais algo animador. O astro-rei deixava-o desnorteado, causava-lhe confusão de pensamentos. As casas pareciam dançar. Um bailado gutural. Sob a sinfonia do dia, que avançava. As flores do canteiro, gotejavam sangue, as vermelhas. E um mel viscoso, as amarelas. Borboletas gigantes esvoaçavam sobre sua cabeça. Farfalhavam suas enormes asas, e zumbiam um zumbido, que lhes atordoavam as ideias. Algo que, em instantes, lhes explodiriam os tímpanos. O céu ficara violáceo. Teve náuseas, ânsia de vômito. De repente, viu-se caído, na grama do jardim.

Cambaleante, dirigiu-se para casa. Um apartamento acanhado, imprensado entre o sobrado e a igreja. O portão antes da escadaria, ao ser aberto, rangeu sob as ferrugens de suas dobradiças. Se escorando nas velhas paredes, arfando, galgou os mais de vinte degraus que o separava da calçada ao interior do cômodo.

Lá dentro, parecia ainda menor. O apartamento se compunha de um único vão. Ocupado por um sofá, uma mesa, três cadeiras, uma pequena estante com alguns poucos livros. Uma meia parede dividia a cozinha. Ao lado ficava o banheiro. No fundo, havia uma janela que arejava, e iluminava o ambiente. O que mais havia ali eram gatos. No tapete, sobre as almofadas. No sofá, no umbral da janela. Eram sete ao todo. João concebera um a um. Conversava o tempo todo com eles. E os adotara à medida que foram aparecendo. Eram como se fossem filhos, melhor dizendo, como se fosse sua família. Sua única família.

Alexandra, era uma gata, a única que gostava de banho, e o acompanhava toda tarde na hora do asseio. Júlia, outra gata, fazia-lhe companhia nos momentos de preparar as refeições. Breno ajudava na hora da limpeza. Carlos lhe acompanhava na hora de leitura. Roberto, era o vigia, aquele que cuidava da segurança da casa, insetos, ratos, morcegos, serpentes, anfíbios, ou qualquer outro elemento invasor, era ele que cuidava de enxotar, ou eliminar. Miguel, o místico, para os momentos de oração. Antônio a companhia na hora de dormir.

João entendia os gatos, e os gatos o entendiam. Mas isso não aconteceu assim, da noite para o dia. João, um dia, tivera uma família de verdade. Os pais de João moravam naquela casa, ao lado. Todos haviam morrido em um trágico incêndio, numa noite de festa de final de ano. Morrera naquela fatídica noite de revellion, seus pais e seus cinco irmãos. O velho sobrado, que guardava os traços arquitetônicos, do início do século vinte. As oito janelas encerradas com madeira, tiradas da mata, de quando tudo ali era rodeado de mata fechada. O povoado foi crescendo em torno daquele casarão, e da igreja. Daquela família o único que escapou do trágico incêndio fora João, porque morava na capital da província. Aonde tinha ido morar pra estudar Direito. Para nunca esquecer de seus familiares, João dera o nome aos seus gatos, dos seus pais e irmãos, perecidos no trágico sinistro. Antônio era seu pai, Júlia sua mãe, e os outros seus quatro irmãos, e uma irmã, Alexandra.

Escravos foram mortos naquela pracinha do coreto. Os gatos de João, de lá de dentro do apartamento, eles tinham visões. Os gatos, eles conseguiam ver cenas do passado acontecendo, em tempo real, no paço municipal. Naquela manhã o Entendente Municipal tinha ordenado a divulgação de uma execução. Dali a pouco a morte de um escravo iria acontecer, em pleno dia de feira livre. Os ambulantes, as senhorinhas, os comerciantes todos. As pessoas parariam seus afazeres, até as crianças que brincavam na praça. Todos parariam para presenciar o macabro espetáculo, o enforcamento de escravos na pracinha do vilarejo era acontecimento cívico. Naquela ocasião, havia entre os apenados um que era muito velho. Enquanto o algoz era um homem descomunal. E este, fora tão violento com o puxão na corda, que a cabeça do infeliz se desprendeu do corpo. Caiu e rolou até a via pública. A cabeça parou justamente com os dois olhos esbugalhados como estavam agora, olhando em direção ao apartamento de João. Miguel arregalou os olhos, eriçou os pelos desde a cabeça até a calda, levantando a cabeça soltou um grotesco miado que encheu de pavor os demais gatos.

A tarde se pronunciou com chuva. Aquela noite de meados de janeiro, tinha muitas coisas para rememorar. Festas natalinas passadas, confraternização de ano novo, pra recordar. Alguns muito bons entre família, outros, não tão bom assim. João, abriu uma garrafa de vinho. Aquela vaporosa noite de janeiro, tão convidativa, merecia um brinde, a vida. Também a morte.

Os gatos estavam todos ao seu redor. Após várias taças de vinho, João resolveu que chegara a hora, de confidenciar, as suas mais importantes companhias, os seus gatos, um segredo que guardava há anos. O incêndio, que motivara a morte de seus entes queridos, pais e irmãos, não fora acidental. Havia sido encomendado por ele, a um capataz da fazenda do seu pai. A ele o gratificou muito bem, e fez com que sumisse dali.

A embriaguez do vinho, a música alta do gramofone, não permitiram a João perceber, muito menos se defender, do ataque mortal de sete gatos, que dilaceraram sua jugular, a aorta, arrancaram seus olhos, desfiguraram seu rosto. O som de um violino tocava muito longe. Naquela noite, o que se via, era a lua projetando na rua as sombras, de um sobrado.

 


 

VERSOS NEGROS 19 JANEIRO 2026




TEM DIA

QUE VOCÊ AMANHECE 
NO ESCURO
E PARECE QUE NÃO QUER SAIR DALI.
TEM DIA...
QUE MESMO ESTANDO TUDO TÃO CLARO
PARECE TÃO ESCURO...
TEM DIA
QUE AS COISAS PARECEM
ESTAR APODRECENDO
TEM DIA
QUE A GENTE
TEM MEDO
DA LUZ.

TEM DIA
QUE FUGIMOS DA LUZ.
FOTO
FOBIA.
AS PAREDES DO MUNDO
PARECEM QUERER 
NOS SUFOCAR
OS OLHOS QUEIMAM 
A ESCURIDÃO
SE TORNA 
REFÚGIO
A RESPIRAÇÃO
LAVA VULCÂNICA
CORRENDO PELAS VEIAS
O TRAVESSEIRO
UM GUILHOTINA
O COLCHÃO
O CHÃO DA MASMORRA
O SER EM FUSÃO
DE SENTIMENTOS
DE SENTIDOS.
O ESTAR
PROFUSÃO OSMÓTICA 
A MATÉRIA SE DECOMPONDO
O ESTADO SÓLIDO
SE LIQUIDIFICANDO.

ESCREVENDO UMA HISTÓRIA
DE SANGUE, ESCORRENDO PELO NARIZ
SUOR PELOS POROS
DOR
NAS CAVERNAS
CARDÍACAS
"UM OLHO CEGO VAGUEIA PROCURANDO
POR UM"


FAbio CAMpos 19 de janeiro 2026  





POBREZA

 ÀS VEZES..
VEM PENSAMENTOS
PODRES
COMO QUE
FÉTIDOS
E JULGAMOS
QUE APODRECEMOS
EXALAMOS
MAU CHEIRO.
AQUILO
NO QUE PENSAMOS
DO QUE VIVEMOS,
DO QUE SOMOS,
DO QUE
JULGAMOS SER.

NADA.

SERES VIS,
RASTEJANTES,
IGNÓBEIS,
CHULOS,
RASOS.
ESTAPAFÚRDIOS
IGNORANTES
CAVERNOSOS
TROGLODITAS
VIS.

DESPROVIDOS
DE SENSATEZ.
SUNTUOSAMENTE 
BÊBADOS
DE 
ORGULHO PRÓPRIO
ENSIMESMADOS
LOCUPLETADO
DE PIEGUICES.

ESTUPEFATOS
DE IGNORÂNCIA
SOBERBOS DE
EMPODERAMENTO 


AQUINHOADOS
ABARROTADOS
GRÁVIDOS
DE ESTUPIDEZES.



DESTITUÍDOS
DE LUCIDEZ
UFANADOS
DE IGNOMÍNIA 

BELICOSAMENTE
FURIBUNDO
DE EMPÁFIA
INEXORAVELMENTE
DELITUOSOS
DE SEVÍCIAS.

DESFIGURADAMENTE
ABOMINAVELMENTE
REPUGNANTEMENTE
EXECRAVELMENTE
VIL.

ASSIM, VIL.

 FABIO CAMPOS, XIX JANO DEVIL E 26 




COLIFORMES FECAIS

DEU-ME
 UMA IMENSA VONTADE
DE FAZER
VERSOS PODRES
ÚMIDOS
MOFADOS
EMPOEIRADOS
ENLAMEADOS
REPUGNANTES.
VERSO DE ESGOTO
CARCOMIDOS
QUE DE TANTO AZEDUME
NINGUÉM QUISESSE
SEQUER
PASSAR OS OLHOS.
COM RECEIO
DE  SE CONTAMINAR,
QUE COISAS
DESSE TIPO
IMPREGNA
SUFOCA
PENETRA-NOS
AS ENTRANHAS.

INVADE-NOS
OSSOS CORROÍDOS
ARTROSES
LORDOSE
ESCOLIOSE
FIBROSE
BRUCELOSE

VEIAS ENTUPIDAS
HEMORROIDAS
CONDILOMA
HEMATOMAS
MIOMAS
AXIOMAS

ARTÉRIAS COMPROMETIDAS
FIBRILAS
VARÍOLAS
VARICOCELE

PULMÃO SEM PULSAÇÃO
PNEUMOTÓRAX 
CORAÇÃO
SEM COMOÇÃO
CORDAS VOCAIS
SEM DIAPASÃO.
PORQUE O QUE OS OLHOS
 NÃO ESCREVEM,
O CORAÇÃO
NÃO SE ENSOBERBECE.
FABIO TODO SUJO DI CAMPOS DEZ E NOVE DE JANUARY DE 2.000 E 26.








EU QUERIA

FAZER UMA POESIA
SEM PÉ SEM MÃO
SEM CABEÇA,
QUE
ESQUEÇA.

EU QUERIA
FAZER VERSOS 
MALTRAPILHOS,
VICIADOS 
VERSOS QUIMIODEPENDENTES
VERSUS
DEPENDENTES QUÍMICOS.
DEPENDENTE
CARENTE
DOENTE,
QUE NÃO TEM O QUE COMER.

SEM ENDEUSAMENTO
SEM DISCERNIMENTO
NEM HEROÍNA
QUE CONTAMINA
SEM VITAMINA
VERSOS DESNUDOS
DESNUTRIDOS.

ASSIM,
MARGARINA
SEM SEROTONINA
SEM CASEÍNA
CAFEÍNA
PRETA
DOCE CAJUÍNA
OU COCA
NEGRA, BRANCA
FINA
PARAFINA
ESTRICNINA.

NINA
SEM DIREITO A ILUSÃO
SEM EMOÇÃO
SÓ LIXO, E CHÃO
SÓ RATOS, E CHÃO
FEZES, E CHÃO
SANGUE, E CHÃO
SERINGA E COLCHÃO,
ALUCINAÇÃO.

SUOR CALOR
ALTA PRESSÃO.


FA     BIO      CAM  PUS 19 DI JAN DI VINTE VINTE E 6



A PIOR COISA

É ESTAR PRESO,
AO PASSADO.
A PIOR COISA, 
NUNCA É A PIOR COISA.
AINDA EXISTIRÁ, SEMPRE,
UMA PIOR COISA, QUE A PIOR COISA.


PENSE NUMA DOR DE DENTE,
CONSTANTE, INSISTENTE
AGORA MULTIPLIQUE-A
POR MIL.
UMA DOR, EM TODOS OS DENTES,
PENSE
NUMA DOR
INSUPORTAVELMENTE
POSSÍVEL.
PENSE
NUMA PREGADA, BEM NA BOLA DO OLHO
COM UM LÁPIS 
GRAFITE.

ARREBITE! 

AINDA NÃO É ESSA,
A PIOR DOR.
PENSE NUMA DOR
LHES
ARRANCAR UMA UNHA
NO CRU,
RECRUDESCENDO
UMA A UMA
UNHA.

AINDA NÃO É ESSA,
A PIOR DOR,
IMAGINE
UMA SERRA ELÉTRICA.
SERIA
O "UP GRADE"
DA DOR,
QUE SENTE.

FA SO CAM 19 01 2026






MUITO TRISTE

UM HOMEM, NUMA CADEIRA 
DE RODAS,
TETRAPLÉGICO.
NÃO VÊ
NÃO FALA
NÃO MOVE UM DEDO.

MESMO ASSIM...
VIVE
SENTE O PERFUME DAS FLORES
OUVE O CANTO DOS PÁSSAROS
SENTE O VENTO QUE TOCA SUA PELE
QUE AFAGA SEUS CABELOS
SE PUDESSE 
DIGITARIA UMA POESIA
NO TECLADO
DO NOTEBOOK.

NÃO PRECISA ,HOMEM
DA CADEIRA DE RODAS

A LÁGRIMA
QUE ESCORRE SOLITÁRIA
NO SEU ROSTO,
ESTA 
É SUA POESIA.

  FABIO CAMPOS. 19 JAN 2026.








QUERIA EU...

TER TODOS OS ÓDIOS DO MUNDO

TER TODAS AS RAIVAS DO MUNDO

TER TODAS AS INTRIGAS DO MUNDO

TER TODAS AS DROGAS DO MUNDO

TER TODAS AS ARMAS DO MUNDO

TER TODAS AS ALGEMAS DO MUNDO

TER TODAS AS BOMBAS DO MUNDO

TER TODAS AS DOENÇAS DO MUNDO

TER TODAS AS INVEJAS DO MUNDO

TER TODAS AS MENTIRAS DO MUNDO

TER TODAS AS DORES DO MUNDO

TER TODAS AS ANGÚSTIAS DO MUNDO

TER TODAS AS MALDADES DO MUNDO

TER TODOS OS SOFRIMENTOS DO MUNDO

TER TODA A FOME DO MUNDO

TER TODA A SEDE DO MUNDO.

PRAZER, MEU NOME É MORTE!


THE END...






 

PARECE-QUE.. FOI-ONTEM 16/01/2026



PARECE

DA JANELA EU Via
O CÉU QUE UM DIA foRA AZUL
E O MANTO DA MÃE ME ENVOLVEU
NOUTRO DIA AMANHECEU, VERMELHO
 O SANGUE DE CRISTO
LAVOU MINHA ALMA.

A SERRA, NUM DIA SE FEZ VERDE
NOUTRO DIA DE CINZA
 SE REVESTIU
TRÊS PALMEIRAS VIGIAM
O HORIZONTE,
 FAZ TEMPO.
DEUS QUIS ISSO ASSIM,
APENAS ACEITEI
E GRATO SOU
ao SENHOR,
PELO SANTUÁRIO,
PELA FORMAÇÃO,
PELA VIDA.
A SALA DA ÚLTIMA CEIA,
A IMAGEM DA COROAÇÃO
DE ESPINHOS.
A SALA DE ORAÇÃO.
QUEM SABE UM DIA ENTENDEREI.
OS PLANOS, 
NUNCA FORAM MEUS.
A ORAÇÃO QUE MINHA MÃE ME DEU,
POR MUITOS ANOS FICOU DENTRO DA CARTEIRA.
MAIS VALIOSA QUE DINHEIRO.
E TEVE TEMPO QUE APENAS
ELA RESTAVA ALI.
O ÔNIBUS SE AFASTANDO,
PELA JANELA EU VIA,
A CAPELA,
NOSSA SENHORA DIZENDO:
VAI COM DEUS MEU FILHO.
 
FABIUS campus nome CIENTÍFICO cientificamente falando. Espécie descoberta, em 17/05/60.
 




PARECE-QUE

A GENTE NÃO É AGENTE,
A GENTE SEMPRE QUIS
SER 
SEMPRE
SEGUIR 
EM FRENTE
DIGA 33!
DIGO 66!
PODE SER?
PODE CRER!
PODE TER
PODE ENDOIDECER
OS DIAS PARECEM
OS MESMOS
E NUNCA FORAM
QUEM SABE UM DIA
ENTENDEREI,
O SILÊNCIO, 

A SOLIDÃO,
DAS MÃOS,
A DUREZA DOS OLHOS,
SECARAM AS LÁGRIMAS.
E O CORAÇÃO DE CRISTO
INCENDIADO
QUEIMAVA EM MEU PEITO,
SEU MANTO VERMELHO,
DE SANGUE.
O OLHAR SERENO,
A ÁRVORE
DIZENDO:
ESTOU TRISTE,
ESTOU SECA, ESTOU SÓ.

AS MÃOS DE DEDOS LONGOS,
MAGROS.
AS MÃOS MAGRAS
AS VEIAS ESVERDEADAS, GROSSAS.
COMO FOI QUE CONSEGUIU AMASSAR
ESSA ALIANÇA?
NÃO É A ALIANÇA,
QUE ESTÁ AMASSADA,
É O ANEL DE FORMATURA.
É ASSIM MESMO
O CORAÇÃO APANHA
SE AMASSA, SE AMARGURA
SE ENTRISTECE, 
VERTE DOR,
SE ANGUSTIA,
QUANTO MAIS, UM SIMPLES ANEL.

FABIO Campus, 16 de JANEIRO DE 2026.






FOI-ONTEM

ONTEM, OLHEI PRO CÉU
E VI DEUS,

ELE FALOU COMIGO
NAQUELA BRISA SUAVE QUE 
AFAGOU-ME O ROSTO

DEUS FALOU COMIGO
NAQUELE ASFALTO MOLHADO
DEUS SORRIU PRA MIM
NAQUELE BESOURO QUE ZUMBIU A CIMA
DA MINHA CABEÇA
DEUS ME PERGUNTOU
COMO EU ESTAVA NAQUELES 
POUCOS PINGOS DE CHUVA
QUE VERTEU 
PELA VIDRAÇA
DA JANELA.
ELE ME PERGUNTOU
SOBRE COMO EU ESTAVA
NAQUELE PARDAL QUE FICOU
UM TEMPÃO
EQUILIBRANDO-SE NO FIO 
DA REDE ELÉTRICA.
DEUS ME ABENÇOOU
QUANDO AQUELE GATO
ATRAVESSOU A RUA CALMAMENTE
PRA IR BRINCAR 
SUBINDO
NO PÉ DE CÁSSIA
DA VIZINHA QUE MORA EM FRENTE.
DEUS DERRAMOU BENÇÃOS
SOBRE OS MORADORES DE
MINHA RUA
QUANDO UM VENTO FORTE
ASSOBIOU FOLHAS SECAS
LEVANTOU POEIRA.

DEUS ME DISSE ADEUS
LÁ NAQUELE VOO
RASANTE
QUE O PÁSSARO
DEU EM DIREÇÃO
AO VALE.

DEUS DISSE ESTAREI
SEMPRE
CONTIGO
A ONDE FORES
CHAME SEMPRE POR MIM.
ELE DISSE ISSO
NAQUELA LUMINÁRIA ACESA
EM CIMA DO POSTE,
QUE POSSUI UM DISPOSITIVO
QUE ACENDE 
QUANDO VEM A ESCURIDÃO,
E SE APAGA,
QUANDO DEUS
APARECE
POR TRÁS DOS MONTES,
LÁ LONGE.
NOS VEM
EM FORMA DE
LUZ E CALOR
COMO IMENSA BOLA DE FOGO
TÃO DISTANTE TÃO LONGE ESTÁ
E ME TOCA E AQUECE-ME
A PELE, O CORAÇÃO.
MEU DEUS!
QUE APRENDEMOS,
DESDE PEQUENINO,
A CHAMAR DE SOL.

FABIUS CAMPIUS, DIZES SEIS DE JANUARYO DI DOIS MILE E VINTE E SEIS

 









FOI ONTEM 

QUE VI -ME NA RUA
LÁ ESTAVA EU,
NA DECORAÇÃO DO NATAL
NO CANTEIRO QUE DIVIDE
A VIA PÚBLICA
LÁ ESTAVA EU
NO LUMINOSO QUE ANUNCIAVA

AS CASAS COMERCIAIS
OS BANCOS
DE DESCANSAR
OS BANCOS
DE TRANSAÇÕES FINANCEIRAS
LÁ ESTAVA EU NA ÁRVORE
UM POUCO DE NATUREZA
EM MEIO AO CONCRETO
E AO CIMENTO ARMADO
LÁ ESTAVA EU.
OLHANDO PRA RUA
OLHANDO PRA VIDA.

OLHANDO PRA MIM MESMO
E LÁ FUI EU...
DOIDO PRA ME PERDER
QUERENDO ME
ENCONTRAR
ME DESENCONTRAR.
PRA QUEM SABE UM DIA ME 
REENCONTRAR
NOVAMENTE...

FABIO CAMPO, DE 01 A 16 DI JANEIRO DI 2006 A 2026.



MÃE SANTÍSSIMA DE GUADALUPE

HOJE O FREI
PEDIU QUE OLHÁSSEMOS
EM SEUS OLHOS
PROFUNDAMENTE
NA CERTEZA QUE VÓS
NOS OLHÁVAMOS.

SENTI-ME MAIS
TEU FILHO
TEU SERVO
TEU ABENÇOADO
E VI JESUS
NA TUA ÍRIS
NOS TEUS OLHOS
NO TEU CORAÇÃO

MÃEZINHA!
DE GUADALUPE. 16/01/2026.



















THOMAS KAEL PROVANDO O NOVO ÓCULOS


MINHA MÃE...




MINHA MÃE DO CÉU...
VEIO ME VISITAR














THE END