FELIZ VIDA, NINA... Conto 20/09/2026.



Derick acordara tarde. Costumava abandonar as almofadas, entre cinco e meia, e seis da manhã. E ia direto lá pro quintal. Punha-se a dar carreira em pardais e sanguis. Felinos amavam aquilo. Exercício matinal, dos bons. Naquele dia, acordara dez e meia. Fez um alongamento, de couro e ossos. Com o corpo inteiro saudou a primavera. Primavera sem flores, primavera sem o canto da cigarra. Primavera apática, anêmica, sem coragem pra nada. Mal sabia Derick, estaria com as vidas por um fio. As sete, que tinha. Todas, de uma só vez, poderia se esvair.

Thomas precisou usar óculos cedo. Mal vira amadurecera a infância, e os olhos pediram arrego. Um aperreio assim, feito nuvem espessa saindo dos recônditos escuros das cavernas dos pensamentos. Se insinuando, feito coisa que nunca se esperava acontecer acontecia. Os pais se separaram. Ir morar na capital, nunca aquilo, um dia, passara pela sua cabeça. Abundavam novas experiências no meio da sua existência. Sorrateira inquietude indo se enroscar no alvorecer da adolescência. E ter que aceitar como normal, como parte do ser, o que normal não era. O cristalizar das quinas dos alpendres, o condensar dos altos galhos dos pinhãozeiros. O congelar da ponta dos chifres do deus Pan, zeloso cuidador das matas e florestas.

Movido pela curiosidade, o deus mítico, metade gente, metade cabrito escalou o muro que separava a selva da civilização, queria ver o que faziam as pessoas nos quintais àquela hora da matina. A julgar pelo cheiro reinante, Sinhá Inácia, estaria cuidando de uns peixes pra fritar pro almoço. Afinal era uma sexta-feira. Santa como todas as sextas-feiras o são. Em meio a isso, uma discípula de Leviatã, atraída pelo odor do pescado marinho, viera à busca de alimento. Nhá Inácia, imediatamente avisada por Miguel Arauto, deu posse dum machado e desferiu assaz e certeiro golpe, partindo a serpente em duas.   

Derick tivera ligeira impressão que o dia quisera o enganar, propositadamente deixando que dormisse um pouco mais. Acordar tarde fazia as criaturas ficarem enjoadas. De olhos inchados,  cara amassada. Foi olhar a rua, pra ver como estavam às coisas. Quem dera, o leiteiro fosse passando. E, com um pouco de sorte, uma de suas garrafas derramasse. De um salto o gato saiu do sofá pro tapete da sala, e dali pra porta da frente. Qual não foi sua surpresa ao olhar a rua.

Não viu uma única pessoa, lá. Só havia bichos, só animais andando nas calçadas. Espera lá! Animais com corpos humanos? Isso mesmo. O que teria acontecido durante a noite? Pras pessoas amanhecerem transformadas em animais. E eram todos bípedes. Porcos, carneiros, pavões, jumentos. Cabeça de bicho, corpo de gente. 

“Apenas apanhei na beira-mar um táxi pra estação lunar/ Pelos raios desse sol lilás/ Pelo fogo do seu corpo, centelha/ Belos raios desse sol...”

Treze pessoas se estavam sentadas, ao redor de uma mesa. Uma garrafa de vinho, uns bolinhos de trigos num prato, sobre um forro alvíssimo. Uma toalha sobre um banco, uma jarra e uma bacia no chão. Cena estática, porém pulsante. Noutra mesa, tão fisicamente real quanto à primeira, uma natureza-morta: fruteira com palmas de banana, mangas, melão, peras, laranjas da terra. Ali pessoas-animais discutiam destinos, divisão de bens, herança de antepassados. Duzentas horas, não seria suficiente para decidir o que discutiam ali. Atravessariam o dia, a noite e madrugada se preciso fosse. Celebrava-se a instituição da vida eterna, na primeira mesa. Enquanto decidia-se a efemeridade do ser na segunda.

Tico e Teco, assim foram denominados por Thomas. Dois porquinhos-da-índia que ganhara do pai. Chegaram feito filme mudo, sem trilha sonora. Os fones de ouvidos, no menino, faziam com que fossem sentidos, mais pela percepção visual. Os olhos esses eram que faziam a festa. Lá fora, um terral desses, assim, encrenqueiro cutucando charcos e mananciais. Frio, e calafrios queriam entrar a pulso pra dentro dos corpos dos viventes. Obrigando braços, e mãos a dizerem, não. Obrigando-os a encolher a alma, de tanto frio aqui, vindo de lá fora. No aconchego do pequeno apartamento, mais dois inquilinos enjaulados. Agora duplamente engaiolados, recebiam efusivas boas-vindas. Mal sabiam Tico e Teco, suas duas únicas vidas, estavam com os dias contados. E isso seria muito mais breve, do que pudessem imaginar.

Da reunião familiar somente quatro deles, concordariam com o acordo. Corpos animados sairiam dali arranhados, nas almas, nos espíritos. Corpos inanimados, dentro do armário calavam sobre xícaras, de porcelana, canecos de louça, que um dia pertencera a membros da família, que já se foram. Herdado seriam por outros parentes. E que talvez, não os guardassem com o mesmo valor afetivo. Era muito provável que tomassem café, água, e até vinho, cachaça e cerveja com eles. E um dia, se embriagariam, deixariam cair e quebrar. Possibilitando assim, o fechar de um ciclo. Deixando enfim os ex-donos descansarem em paz. Alguém há muito, do outro lado, anseava por aquilo.

Derick através de suas lentes via os Hámsters [ se negava veementemente trocar o nome do seu magnífico almoço asiático, pelo reles nome de porcos indianos]. Afinal pratos bem decorados, e belicosamente nominados enobrecem qualquer cozinha. Bigodes de gato, binóculos cheios de olhos, podia não significar assunto de um mesmo contexto, mas era. Thomas só deu por falta de Tico e Teco quando já estavam sepultados no estômago de Derick. E pra resumir a epopéia gastronômica, assim que o pai do menino soube do duplo “hamstercídio” tratou de comprar uma espingarda. E um só tiro, foi o bastante pra colocar fim a imensurável trajetória físico existencial do ‘desinfeliz’ felino. E que, de bucho cheio - sorria - lá da eternidade.

A cidade estava bonita. Enfeitada para festa. Meio-fio pintado de cal, palanque montado, bocas de som, fitas coloridas balançavam ao vento. Um homem de paletó, chapéu de massa, óculos escuro, de pé, em frente a matriz observava. A torre da igreja pontilhada de bicos de luz até o topo. De tardezinha, início da noite o espetáculo era magnífico. Tudo seria redundamente perfeito, se o homem ao qual citamos não fosse, nada mais nada menos que o prefeito da cidade. E sua descomunal cabeça de touro.

Um porco estava sentado na porta do mercado. Um charuto cubano no canto da boca, os olhos, pro trás dos óculos escuros, eram de quem não conseguira dormir direito naquela noite. Três rapazes conversavam ao pé do balcão da vidraçaria dos irmãos Carvalho: um cavalo, um asno e um mulo. Escusado dizer que os corpos dos eloquentes mancebos era de gente, e as cabeças, essas sim, eram de equinos. Falavam do quanto gostariam de estar na casa de alpendre, lá no sítio Batatal, ou se banhando nas águas do rio Ipanema com os amigos.

Tonho mutuca, nêgo Lila e Tião eram tão amigos que não aceitavam jogarem em times diferentes. Se acabaria a Associação Atlética Ipiranga, mas nunca acabaria a amizade, dentre um bode, um carneiro, e um cabrito. No sábado pela manhã, compromisso certo, passar na casa de Seu Sebastião Amaral, assistir a rinha, apostar nas brigas dos galos, nem que fosse: moedas e balas doce. Dinheiro era igual pé de cobra, quem visse morria.

Negrote, Arquibeiço, Cláudio e Roberto, eram afeiçoados galos de raça. Um dia, nêgo Jorge se desentendera com o melhor amigo de Negrote. E acabariam brigando bem no meio da rua Benedito Melo, com frente a banca de revista de Carlos Jorge. Nêgo Jorge, botou a caixa de picolé na calçada, tirou as chinelas. E partiu pra briga, e bateu, bateu tanto no amigo que talvez, até hoje os zumbidos que ele sente nos ouvidos seja resquício daquela pisa. Pareciam dois cachorros, brigando. Na verdade eram.  

Era assim, quando colocava os óculos, e via animais. Tirava-os e eram seres humanos novamente. Bem no centro, dentre eles, um dia ainda apareceria um cordeiro, de cujos olhos emanava uma luz brilhosa. O tempo inteiro, seguido por um touro que tinha pelagem escura. E seus olhos eram vermelhos sanguineos. E como dizia o livro eterno: “as pessoas continuavam dando-se em casamento.” O bode com a cabra; o carneiro com a ovelha; o mulo com a mula; Pavão com a perua.  

A cidade se enchera deles. Um casal de cassácos, um preá, um tamanduá, um rinoceronte, um elefante. As mulheres que vendiam o corpo tinham cabeça de gazela, duma gata parida, uma cadela no cio. Viviam suas rotinas de fazer compras, de irem a escolas, ao banco, as praças. Tinha tempo até de visitar museu, que lhes exigia equilíbrio espiritual. A muito, não se usava almofada de renda de bilros, máquina de datilografia, máquina Polaroid. A caneta tinteiro de Delmiro Gouveia. O pneu do automóvel, de buzina engraçada. Mais parecia um pneu de motocicleta, de tão fino. A imagem de Nossa Senhora pintada por um nordestino, tão bem acabada, que entristecia, a quem olhasse, bem nos olhos da virgem Maria.

Nina fizera aniversário, por aqueles dias. Quis se sentir feliz, com a data de vida renovada. Seria o bastante sair do apartamento, ir à praia à noite, curtir Geraldo Azevedo. E aquele setembro, antes mal-assombrado, renovara-se desinflamado das vicissitudes, se apresentando com toda sua realeza. Orvalharam-se os olhos do amigo, ao ouvir o cantar tão ao vivo, do poeta. Em plena noite, a beira-mar, doces recordações. Por instantes, se sentiriam as pessoas mais felizes do mundo. E aproveitara pra sairem catando, migalhas de felicidade à beira do precipício da existência. Vivendo coisas, que quase ninguém se dava ao cuidado de viver. Sem se importar com mais nada.

“Quando fevereiro chegar/ saudade já não mata a gente/ A chama continua, no ar/ O fogo vai deixar semente/ A gente rir, a gente chora...”

A pintura emoldurada na parede, dizia: “Ambassadeurs: Aristides Bruant dans son cabaret 1892 – Toulouse – Lautrec.” era uma réplica. O original, só Deus sabia onde estava. A soleira da porta ficou com as marcas de botas. O couro de urso hibernava, em forma de tapete. Era muito provável que dali a pouco, o embaixador fosse ao Bar Comercial. Nada combinado, porém acabavam sempre se encontrando. O professor girafão e o dono do rancho Búfallo Bill. Em conversa iam parar no povoado Mata-burro. E riam - a bandeiras despregadas - recordando velhas aventuras. Um revólver niquelado calibre 38, foi parar em cima da mesa, um maço de cigarros, uma cerveja, das de garrafa. Dois copos americano, com doses de cachaça. O policial rodoviário federal, vendo tudo. Saiu lá do seu posto, e veio tomar satisfação. Acho melhor parar por aqui. Essa história ainda vai dar muito o que contar.

O chão de mato, é assim, tantas vezes pisado recrudesce. Nada mais nele nasce, vira vereda. E até que um dia alguém se invente de contar, guardará seus mistérios.






MAKE OFF



Créditos a música de Geraldo Azevedo "Quando Fevereiro chegar" É citado os primeiros versos no Conto aqui publicado.
Também versos de "Táxi Lunar" de Geraldo Azevedo, Alceu Valença, e Zé Ramalho.




FACHADA da Escola Municipal Iracema Salgueiro da Silva hoje: 19/09/2026.


A LIVRARIA Parque Shoping MACEIÓ - AL.


Eu, e minhas netas: Sofia e Aika.


O Conto "FELIZ VIDA, NINA" Aqui publicado.É homenagem  a minha Querida e Eterna Amada, Mara Rúbia. Parabéns pela júbilo de sua existência terrena.

E...

 É O FIM...

As Cinza do Velho Eon. Conto 11/09/2026.






Uma Máquina. Muitas vezes, uma velha “Maria Fumaça”, conta mais história que o personagem de um romance. Relata de alguém, que ninguém jamais escreveu. E falam de homens que deixaram para trás família, filhos, esposa. A se aventurarem, muito longe de casa. Sem sequer saber se um dia voltariam. A abrirem caminhos a ferro e fogo, mesmos por dentro de rios. Construção de estradas de ferro, estradas de carro. Estradas da vida, de tempos idos. Chegaram a lugares longínquos que jamais pensariam chegar. E se vivos, um dia  sairiam de lá.

O Homem. Nas feições aparentava idade de quem já acabara, pelo menos, uns três daqueles corpos. Assim franzino, desta grossura. Tão tantinho assim que aquilo quando morresse, a terra ia ter muito pouca coisa pra mastigar. Apesar de tudo, o franzinozinho era arrogante, metido a besta, que só. Cabeleira branca, barba e bigode brancos, olhos inquietos. A única coisa que olhava com interesse era a caatinga, o céu, o pôr-do-sol.  A vida do homem era ajeitar coisas do mato, da roça.  Ajeitar uma cerca, tirar um mel dum enxame de abelhas, Curar uma ferida numa vaca, limpar um açude, queimar uma coivara. Rio preto e Rio pardo sua pareia de bois mais querida. De canga, vara de ferrão e facão lá ia, no meio do tempo. Assuntando junto a Deus e Nossa Senhora, entre baforadas de um “braço de Juda”, cigarro picado a faca, enrolado num pedaço quadriculado de palha de milho seca.   

Os chapéus contavam sobre guerras, sobre malas de couro, gastos, mofados, sobre segredos guardados junto com coisas, e cheiros antigos. Ainda moço, enfrentaria noites insones ao voltar aos porões e sofrerem sevícias. E flagelos de tiranos e suas tiranias, de revoltas e revoluções. Olhos tristes lacrimejantes de bombas de gás. Queimaduras e feridas de abertas por cassetete. E de orvalhos que sulcaram feridas nas searas dos seus rostos. Sublimando limo nas pedras e ferrugens nas engrenagens dos trens, que partiam levando amarguras, desilusões. Gente pobre, padecendo de doenças sem cura. Cujas memórias comprometidas pela idade, e tempestuoso cisma de vendaval na alma. Nem bem percebia a violência do tempo, e a brevidade, de século e meio, de segundos. E dali a pouco era pó, varridos da face da terra. E ninguém mais sequer, lembrava de suas existências.

O cachorro. Ficava olhando o mundo, e os modos estranhos com que tratava as criaturas. A  brisa possuía determinado valor. Os cheiros que as narinas conseguiam captar falavam de coisas que aprendera ainda filhote. Dali a muitos quilômetros, Rio pardo agonizava. A seca implacável, o camponês, desumano, preferia perdê-lo para os urubus a ver dependurado por uma pata, pingando sangue no balcão de cimento, na tarimba do mercado, retalhado por ínfimo dinheiro. Uma cobra jibóia deslizando seu ventre frio pelo lastro do mundo, era menos perigoso que o olho do marchante. Um bando de andorinhas se esquivando sobre as copas das árvores teriam sempre mais a ensinar, que cantiga de ninar com intenção de botar medo em gente miúda que demorava a pegar no sono.

Jabuticabas, olhares noturnos, siriguelas, rede gemedeira, coração-da-índia ainda verde, travoso sapoti. Juás apoquentando infames consciências de saguis. Pitiguaris selvagens a bicarem goiabas.  Araras fluíam nuança de plumas, aquecendo os olhos negros com suas cores, dilatando narinas. A seta do dia afiada vencendo a barreira do ar, e do som. O cão, rosnou mostrando os pontudos caninos. Bem de frente pra uma onça, miseravelmente faminta. Desejou nunca estar ali, no meio do aceiro, Gosto de sangue veio-lhe a boca. Pobre Veludo.

As nuvens nunca nascem pelo acúmulo de ideias. A bala que sibila por dentro do ar atmosférico agride tanto e tudo, até alcançar nervos, músculos, tecidos. A morte, e sua mais cruéis particularidades. Em especial, a de ir entrando no ser vivo ainda que não tenha sido chamada. À medida que o sangue se ia esvaindo. O porco-do-mato enlaçado pela Boa contrictor num bailado voluptuoso, excitante, insinuantemente sexual, macabro. A esperança e sua capacidade de nascer à medida que as janelas descerram as trancas. Encerram atrás das portas, versos que nunca foram escritos, nem ninguém jamais declamou. Uma maçã sobre a mesa de forro branco, em toda sua beleza e viscosidade deslumbrantemente desmaiada e desejada. Como os sedosos lábios da virgem. A saudade das coisas que ninguém nunca imaginou, pecados que maculavam as mentes pueris. Traduzia-se em viscosa baba semelhante a de mexilhões. Loucura de colméia de abelhas, mentes atormentadas, impaciência de um vespeiro inquietante.

O branco dos olhos conseguia guardar em suas entranhas. E passaria adiante o lilás, e o amarelo que se insinuava, toda vez que o vermelho carmim vinha com o rosa prosear. Um pilão de socar cuminho, um naco assim de sebo de carneiro capado, pendurado no caibro do alpendre, um bocado assim de semente de abóbora, secando encima dum grajau.  Um recavém a disposição dos grilos, das moscas, dos cupins. Os sinos, estes sabiam perfeitamente dissimular os ventos, as ventanias, as brisas suaves. Sem jamais perderem as estribeiras, nem desembestar feito cavalo desgovernado. Atirando ao solo cavaleiro encolerizado.  As crinas ganhariam campinas indo se misturar a poeira da estrada.

Os familiares, nunca se entenderam. Heranças nunca antes divididas. Moendas que deram tantos lucros, e agora que não mais giravam, não rangiam mais as palhetas. Envelheceram, tanto que criaram lodo nas partes internas. E assim que chegasse o inverno, raposas chocas, fogo-corredor, caipora seriam os habitantes dos charcos. A barragem tomaria tanta água a não suportar mais, tanta. O velho, de tão velho não conseguiria mais sair da cama, gemeria de frio, e sentiria saudade de sua amante. A esposa endureceria o coração, sem mais sentir pena da sua cegueira abandonou-o a sorte. E quando veio a faltar suprimentos. Pra não morrer de fome e sede, bebeu o sangue de um bacurau, que encandeado foi cair-lhe ao pé da cama.

O gato. Já não tinha muito ânimo pra nada. Vivia agora de se lembrar do tempo de jovem. A comida podia passar andando na sua frente – um gabiru  –  não se animava a empreender caçada. O pelo não cumpria mais a função de aplacar o frio. Entristeceu só de lembrar que não brincaria mais correndo atrás das folhas, quando chegasse o outono. No verão reclamaria os telhados avermelhados de quentura boa pra dormir e sonhar. O musgo tomando de conta de tudo, uma tira de couro de veado a cumprir importante função de espantar morcegos. A entrecasca do pé de aroeira. Uma relíquia potente, um chá capaz de curar até tristeza, solidão e de quebra uma constipação.

Se houvesse amanhã, haveria amanhã. E seria para dizer, quão preciosa era a matina. O arvoredo, feito oração de criaturas tementes a Deus. A folhagem, revelando aspecto nunca antes observado pelo olho de um ser não animado. As portas, e o nobilíssimo dom de amadurecer sentimentos. O fluxo de luz que podia trazer paz, aquecendo dentro das veias junto ao sangue. A poeira abaixando, a onça se afastando levando entre as presas, Veludo, morto.

Nos dias de ficar deprimido, aproveitava pra ficar bêbado. Os reflexos comprometidos acabavam causando pequenos acidentes, uma facãozada no dedo polegar. Pucumã de teias de aranha pra aplacar o sangramento. Notou que estava ficando com os pés inchados. O olho direito, operado de catarata, não conseguia enxergar tanto quanto o esquerdo. Por acaso, descobriu a deficiência, no dia do eclipse lunar. Fechou um olho, viu perfeito com o que estava aberto. Fechou, e abriu o outro. Com aquele, não via bem. Uma nuvem embaçava tudo.  Três semanas ficaram  acampados na ribanceira do rio, atalhando o gado pra enchente não levar. Ao voltarem a civilização ficaram sabendo que as milícias haviam passado. Não demoraria, haveria derramamento de sangue. Tropas federais fediam a pólvora, e a cadáveres.

Dona Carmem, fora paixão proibida. A brutalidade do pai teria feito dele, um menino tímido retraído. De poucas conversas. Como foi se apaixonar pela professora, não sabia direito o porquê. Talvez porque fosse a única pessoa que o entendia. O trabalho do campo, cansativo, dia a dia, que sempre o levava a exaustão. Crescera em cima duma montaria. Conhecia as manhas de um por um: jegue, cavalo, égua, mula, mulo. Uma parelha de bois para puxar um arado, era sua especialidade amansar. Pinicar balaios e mais balaios de palma, buscar água no açude pra encher o tanque do banheiro. Quebrar umas espigas de milho seco no aceiro da roça. Moer os grãos no moinho. Colocar pra quarar.

A verdade muitas vezes é muito mais cruel do que se possa imaginar. E doía como ferida feita com lâmina afiada. Tinha medo. Medo de dormir e não acordar, medo de ficar sem respirar, medo de olhar pra lua, medo do olho negro do pato. O olhar do cavalo era perturbador, se lhe olhasse fixamente ficava suando, verdadeiro pavor, sentia calafrios, vontade de sair correndo até se cansar. Vontade de sumir, desaparecer. A raiva era sentimento ruim. Temia que esse sentimento fosse percebido. E acabasse tendo a fama de maricas. De cabra mole. Descontava na cachaça.

As roupas. As que costumava usar quando era menino. Eram simples Camisa de mangas curtas, uma carreira de botões, calção, suspensórios, botinas nos pés. Quando fez treze anos, descobriu o sexo. Curioso, observara galos e galinhas, namorando no meio do terreiro. Ficaria excitado ao ver o cavalo com a égua, o jegue com a jumenta, os cães com as cadelas. Por diversas vezes melou os calções. Naqueles momentos lhes vinha ao pensamento a sua grande paixão, dona Carmem, a professora do primário.

O gato às vezes, nem tinha noção do perigo, que corria. A ideia de ter sete vidas, ia muito além do que o pensamento era capaz de conceber. Achava aquilo bobagem, lenda contada nas calçadas pra entreter meninos. Odiava meninos, eles eram inconsequentes, precisavam ter melhor noção das coisas. E o que significava ter que carregar botijões de água de um açude até a casa. A bela senhora andava como quem desfilava. Senhora dama, cuja pele enrugara, a mocidade deixada para trás, antes mesmo de ficar velha. Criara os filhos dos outros. Filhos dos seus irmãos que partiram em busca de destinos e de ganhar dinheiro. Dona moça, só não dera de mamar aos sobrinhos por não ter leite nas mamas. Improvisava uma mamadeira com farinha láctea. E a tia-mãe os educaria na fé cristã. É pena que Deus não entrava nas pessoas pelas mamadeiras.  

As maritacas, atacavam o amanhecer, o desenrolar e o descer das horas. A retidão da estrada repleta de solidão, e amargor das almas largadas à beira do caminho, sem ter o que fazer. Meninos que deixaram cedo essa vida, presos a um destino de infinitas horas que os relógios nem contavam mais.  Se desdobravam, repetindo a mesma coisa, todo santo dia. Pegava a carroça, nem sabia a quem pertencia. Tomava-a pelos punhos, e ninguém se inventasse de reclamar, pois ia assim mesmo.

Cachorro não fazem amizade com anum. O negro do pelo não se dava com o negro das penas. Voar compreendia o poder de ir até os altos muros da penitenciária. Homens encarcerados gastando suas miseráveis vidas dentro de cubículos mal-cheirosos. Pagariam por décadas seus crimes, que iam de furto de pequenos objetos agrícolas, suínos, ovos, galináceos. Nos dias de visitas procuravam fazer amizade com as moças da igreja, que lhes garantiriam sabonetes, toalhas novas, lâminas de barbear, cigarros, fósforos.

Os aldeões tiravam retratos a porta de casa. Ao lado do barbeiro, e do anão. Uma bruxa que ia passando na hora foi pega, em pleno voo pelo flagrante. O mago a reconheceria, porém nada disse. O chapéu do mago ficou triste, suas cores desbotaram, mas na saiu do lugar onde estava. Começou a murchar, tanto que encolheu sobre si, em poucos instantes ressacou totalmente.

As aves, elas são, espirituosas, e cheias de humor, bastam descobrirem que são aladas, que poderosamente possuem a capacidade de voar, pra desfrutarem abusivamente desse benefício, proporcionado pela natureza. Defecam sobre as cabeças dos pobres andantes aqui de baixo. Se fosse a cólera, a raiva e a ira sentimentos nobre, a grande parte das aves canoras, e de rapina que migraram pras urbes seria dizimada. As que se salvassem seriam devolvidas aos alagadiços, aos mangues. Ali muito bem viveriam, e se alimentariam de pequenos momentos. E velha locomotiva, passaria apitando, bufando tufos de fumaça, levando para a eternidade, as cinzas do velho Eon.








MAKE OFF














 

NÃO MORRA ALANA! Conto 28/08/26


Os avós, de tempos atrás tinham mãos brutas. Ainda assim, jamais desvendariam segredos trancafiados nos objetos dos dias atuais. Cheios de surpresa, ficavam, ao verem que, de dentro deles, seus netos conseguiam fazer coisas incríveis. Um clique, um toque. E folhas de livro se transformavam em aliens, folhas de mato viravam seres da pré-história. Alana lia, num sussurro, trechos de poesia. Difícil era, conter as tempestades que vinham dos olhos.

Seu avô, ficou pensativo. Estava lá. Porém ninguém o via, numa outra região inatingível pelos que estavam aqui. Não se angustiava, não ficava apreensivo, em nada interferia. Tudo admirava, com muita paciência e resignação. A mazorrona calejada planando o cume da cabeça. O vento gélido vindo das bandas dos céus das piscinas dos Wanderleys teimava esvoaçar sua vasta cabeleira, de cabelos brancos.

As flores e suas singularidades. Se tocadas se abriam solícitas. O pote de doce de mamão cristalizado. Cubos imersos em calda d’ouro metálico. A língua doce, falaria de coisas menos amenas. Quando tocadas, o discurso era áspero. Se compadecia das crianças que não tinham o que comer. Do nada, se lembrava delas. Embora, sem saber exatamente em que lugar estavam naquele momento. Porém uma necessidade infinita de ir até lá, nascia. Atacada por todos os lados, de desgosto padecia. Meninas que já um dia sofreram, tinham olhos tristes.

Caderno apoiado nas coxas, pernas cruzadas, sentada no chão da calçada. Isso, não fazia tempo, fora ainda ontem. Escrevia: Eu e minha vó fomos dormir com fome. Um bombom que ganhei da amiga Célia, na escola, foi minha janta. Tiveram apresentações. Alana dançou. O tema da sua turma: folclore. Apresentaram uma dança quilombola. Som de atabaques, sons da longínqua África encheu o pátio. Vestiu o traje de época, colocou a peruca branca, estilo Luiz XV. Alguns professores disseram que ficara parecida com a Chica da Silva. Ficou interessada em saber quem era, a tal. Era uma negra escravizada que alcançara lugar de destaque na sociedade mineira, no período do Brasil colonial.

A lua, lá em cima caminhando seu caminho, bem devagarzinho. Fluidamente desenhando sua interplanetária órbita. Diluir-se-ia assim que o sol saísse, assim que o dia viesse. Alana, negra, cá embaixo. A lua, branca, lá em cima. De repente, a bola cor de prata começaria a ser desengolida pelas trevas. Aquilo era capaz de dar medo, ao mundo que nada entendia. A lua sumindo, sumindo. O dia vindo, vindo, enquanto a noite a ir-se. Alana submersa, na imensa escuridão de sua alma. O que menos queria era pensar. Era o que minimamente interessava para aquele momento. Sendo, no entanto, a única coisa sensata que havia pra fazer.

Para que pressa. Não havia pressa. E não havia vontade de ir, onde se estava indo? Vontade alguma de pensar. Fosse lá o que fosse. Algumas vezes, pensou em ir embora, desaparecer. Sumir para um lugar que ninguém soubesse. Lugar que nem ela sabia aonde iria. Talvez,  procurasse padrinho. A lhe pedir ajuda. Porém, a vergonha a impedia. Mandava mensagem no aplicativo do telefone móvel: “Bença padrinho...” Pronto. Não passava disso Ele, como resposta a abençoava. Ela aguardava. Se ao menos perguntasse: E aí? Está tudo bem?...

Tudo parecia noite. A plena luz do dia, uma nuvem escura pairada sobre as ideias. Tornando turvo, o olhar. Queria entender o significado de tudo que estava sentindo. Vozes, dentro da cabeça. Muitas vezes dizendo, fuja, de certas coisas. Afaste-se, de certas pessoas. Sua presença provocava inquietação. Aquela manhã inteira ficou debaixo do viaduto, conversando com os meninos órfãos, sapateiros. Achava suas situações parecidas. Eles perderam o pai, pra cachaça. Ela perdera a mãe, pras drogas.

O aparelho de telefonia móvel chamando, insistentemente chamando. Estava no modo silencioso, nada escutava. Se tivesse atendido, teria falado com André. E ele a chamaria para irem, de moto até o riacho do bode. Queria aquela tarde tranquila, só pra os dois, em plena quarta-feira. De vez em quando iam lá, pra transar e curtir um baseado. Propositadamente escolhiam o dia bem no meio da semana. Pra aguentar o trampo. Tinha que dar aquela escapulida. A fuga necessária, pra segurar a barra. Doce vida, dura de viver. Enquanto as pessoas normais se ocupavam com seus afazeres. Eles iam, e riam à beira do lago. E ouviriam um fantasioso imaginário concerto de Mozart, o número 21. Escalariam a montanha da Camonga, se agarrando em sustenidos e bemóis. A preencherem todos os espaços visíveis e imagináveis. E brincavam criando, em cima de sonatas violinísticas medievais, versões tresloucadas de musiquinhas infantis: “Pirulito que bate-bate, pirulito que já bateu.”

O dia, naquela manhã, tinha vindo pra cima com cara de brabo. Os cabelos revoltos, os olhos vermelhos, de sono, e de muito choro. As sobrancelhas arqueadas. Choro de raiva, por não conseguir se superar. Nem superar os vícios, da bebedeira, do uso da diamba. Objetos de vidro davam-lhe nos nervos. A taça, o copo longo cheio de insinuações, de implicâncias. Nunca iria esquecer, o dia que a mãe morreu. Mataram sua mãe dentro de casa, Alana vira tudo. Jamais esqueceria. Aquela cena a acompanharia pro resto da vida, para sempre. Aquele seria, na sua vida, um dia inesquecível. Só que pelo avesso. Inesquecível de forma ruim.

Ao passar em frente à creche, dava para ouvir as vozes das cuidadoras das crianças ecoando transpassando o côncavo acinzentado telhado de amianto. Em frente ao posto de saúde, mães e seus filhos de colo, aguardavam médicos, consultas, vacinação. Lembrou de sua mãe. Lembrou que marcara com o dentista. Só iria, no dia que não conseguisse dormir com dor de dente. Se a mãe soubesse que depois que partira, havia ficado assim desleixada consigo mesma. Viria lá do céu, pederia um à parte a São Pedro, falaria com Jesus e vinha cá embaixo dar-lhes boas chineladas. Imaginou o chinelo voltando pro pé, sublinhado com sua mais autêntica frase: “Você ta pensando o quê, da sua vida?”

Como sentia falta dela. Outra vez, chorou lembrando da mãe. Um imenso vazio ficara, que nada no mundo preenchia. Poderia passar o tempo que fosse. Seis longos anos, já se haviam passado. Nunca jamais imaginara que um dia a perderia. E daquela forma pior ainda. Gostava de tomar café com ela. Para matar a saudade, agora tomava café, sozinha. Sentada na calçada. Ficava pensando, no tempo em que fazia aquilo com ela. E como era bom tomar café, as duas, juntas. Tinha café que era só alegria, descontração. Tinha café com sabor de recordações de infância. Dona Aurelina, sua mãe levando-a pra escola, do jardim infantil. E tinha café da zoeira, as duas discutindo por bobagens. E iam cada uma pra um lado. Emburradas.

A beira do riacho, tinha tudo que queria. Muito verde, muita água, muito céu azul, galinhas d’angola voando rente ao mar d’água, salubre. Pássaros de fogo, um céu rabiscado de lilás nas ombreiras, e amarelo queimado nas barras do dia. Uma serra encaliçada de verde coentro, abrindo seus braços de granito. O arvoredo se agigantando indo tocar o infinito. Como na história, de João e o pé de feijão. O som de um violão, as andorinhas imitando aves canoras. Num coral longínquo que se desescondia, despetalando de frias reentrâncias das cavernas onde habitava morcegos, corujas, e seres inimagináveis. Frutas terçãs que nunca ninguém encontraria nas bancas da feira. Daquelas que os curandeiros diziam trazerem de lugares que nunca existiram, nem nos mapas.

Alana e André se embrenhavam totalmente nus, por entre a vegetação arbustiva que circundava, o riacho do bode. Aproveitavam pra fumar. A se deliciarem na presença do deus Epícuro de Samos nos arredores dos palácios gregos, onde habitava as deusas Apônia, deusa da ausência da dor física e mental, e Ataraxia do não excesso da gula. Plantas se apresentavam com visco, e deliciosa aparência de morangos vermelhos, que lembravam falos pontilhados de brotoejas. Bananas verdosas arqueadas, cheias de sinuosas insinuações. Coração da índia, os olhos vagavam, sem nunca encontrar o que procuravam. Narinas aspirando o ar com volúpia. Dilatavam e se contraiam com sofreguidão, amantes beirando a loucura, a pressentirem o orgasmo.

Alana, tinha um conceito de si mesma, ninguém a compreendia. Se sentia um pouco rebelde por isso. Ninguém melhor que ela mesma sabia o que passara. Nunca superara a morte da mãe. Ainda mais da forma como partira. Assassinada covardemente, dentro de casa. Bem ali, na sua frente. Os dois caras que a executara, ela os conhecia. Teria sido um acerto de contas.

Banhava-se nas águas frias, da cintura para baixo, mornas próximo ao espelho reluzente. Sonhavam encontrar um tesouro de pedras preciosas, colares de puro ouro, coroas de reis, rubis, safiras, diamantes. E ficavam largados, na pequena enseada, aguardariam recuperar as forças. Distantes de outros frequentadores daquele paraíso. Bem ali, esquecido por outros banhistas uma caixa de papelão contendo alguns livros. Livros com aroma de passado: “O Pequeno Príncipe” de A. Saint-Exúpery. Outro, de apurado gosto: Deuses do Mandacaru, de C. B. Chagas.” E um, de visão futurista: “Admirável Mundo Novo de A. Huxley.”

Alana se inscrevera para participar da Corrida pela Emancipação. O percurso, uma longa volta no entorno da cidade. A largada na Praça do Monumento, com frente a igrejinha de Nossa Senhora da Assunção. E ia pelo acesso ao lago da represa: João Gomes. Seguia pelo alto do conjunto Marinho. Descambava até o abatedouro público de bovinos, e retornava ao centro da cidade pela pista asfáltica, passando pela ponte da barragem, e pelo largo do Maracanã. Dois rapazes numa moto a aguardavam Alana para uma emboscada, justo no trecho do matadouro. Eles sabiam, que Alana largara com o número 66 pregado, no peito e nas costas. Grampeado num pedaço de pano branco na camiseta vermelha. Boné, na cabeça, short azul e tênis nos pés. Os rapazes ficaram amoitados por trás duns pés de catingueira. Um monóculo acoplado ao rifle localizara a vítima. Um único tiro, certeiro, no peito, e nossa atleta foi ao chão, abatida. A mãe já havia sido morta. Chegara a vez da filha. 

O moinho, moía os grãos de milho, as fendas vertiam o leitoso caldo, com gosto e cheiro do rei dos cereais, coberto de ouro. Dali a pouco aquela massa viraria um gostoso alimento. Revigorante, que fazia esquecer, as agonias, os sofrimentos, as desventuras. Os desentendimentos, as discórdias. As tristezas do mundo se esvaiam, num prato de cuscuz.

Aqueles dois, eram da boca de fumo. Matavam por dívidas com drogas. Aquilo não fazia o menor sentido. Se ao menos tivessem lhe dito: tua mãe tem dívida com a gente. E tem até dia tal, pra quitar, ou vai morrer, Teria dado um jeito, de arrumar o dinheiro. Talvez isso mudasse toda a história. E poderia ainda estar com ela, bem ali na sua frente. O talão de água enganchado nuns galhos de cróton no minúsculo jardim da sua vó. O cachorro mordendo as pulgas na calçada. O portão, uma dobradiça solta, precisando de reparos. A ventania tangia a folha de madeira, fazendo-o dançar um só passo: pra lá, pra cá, ao tempo que criava sonora melodia.  

Na sexta-feira Alana foi pra casa de uma amiga. Ficaram, a manhã inteira ouvindo música, só reggae da Jamaica, e Edson Gomes. Foram pra bodega de Seu Dedé, jogar sinuca, a tarde toda. Tomaram duas latinhas de cana, com cajuína, tira-gosto pipoca de isopor, uns salgadinhos. No dia da corrida Mônica foi quem morrera. Alana, escapara tão somente por conta do número, pregado na camiseta: 66. O número de Mônica: 99, desprendeu, ficou dependurado, de ponta cabeça. 


MAKE OFF


Minha neta Aika, em Arapiraca, com 2 aninhos de idade.


O meu quintal... há dez anos passados...


E É O FIM...

 


 

O Café de Seu Lira. Conto 22/08/2026.









Uma estrada. Três homens iam caminhando. Debaixo de um sol de agosto. Há cinquenta anos, havia partido, estava de volta. Vinha a pé. Do mesmo jeito que se fora.  Sem que ninguém se desse conta, haviam desaparecido. E agora voltavam. Alguém, em algum lugar, em determinado momento, de suas vidas. Na certa, deva ter se perguntado: onde andará? Perceber que voltavam, era perfeitamente normal. No entanto, com a mesma aparência de cinquenta anos antes. Era, de certa forma, estranho.

As mesmas vestes de quando partira, ainda trajavam. Dominício, chapéu de palha na cabeça, camisa de botões, daquelas bem antigas que tem um bolso no lado do coração. Calça de tecido, embainhada até as panturrilhas. Chinela de dedo. Uma estrovenga na mão. Firmino, chapéu de massa, de cor cinza, surrado. Daqueles que possuem uma fita preta, no encontro da aba com a copa, e uma pequena pena no lado direito. Camisa e calça de tecido branco. Nos pés, alpercatas franciscanas. Zezinho da Divisão, e sua inseparável viola às costas. Enfiada numa capa de napa preta. Também usava chapéu de massa, preto, desproporcionalmente pequeno para sua cabeçorra. Camisa de mangas compridas, calça de linho, e sapatos passo Double nos pés.

Era um daqueles dias, que precisam dizer pra que viera. Por que nascera. Dias que não nasciam assim, apenas para ser entendido. Neles, sempre coisas boas estavam por acontecer. O sol esticando os longos braços sobre as montanhas. Executando magnífico salto, em câmera lenta por sobre a cidade. E tudo, era tão belo de se admirar. Porém, faltas ocorriam. E ocorriam por pura necessidade de ser. Elíptica trajetória sobre os caminhos, por sobre as vidas, por cima do lago, das casas, vagava. 

O cuscuz no cuscuzeiro. Lindamente cor de ouro. Cheirosamente intumescido. O botijão de gás achando de secar, justamente a quebrar aquela aura fluída. Amplamente formada. E tudo, permanecia perfeitamente normal. Pois imprescindível mesmo era o ar que se precisava para respirar, e continuar vivo. Melhor seria se não fosse aquele, dia, um feriado. Aconselhavam os mais velhos, que já mais, se deve dizer, caso algo esteja dando errado, “Pior não poderia ficar.”, porque podia sim piorar. Em muitas vezes. Ou não.

José Maria nascera de Antônia. Assim nascera. O menino gostava de música. Não apenas de ouvir música. Amava qualquer coisa relacionada à sonoridade. O quarto de José tinha um retrato de Bethoven na porta pelo lado de dentro. Um birimbau, uma cuíca, um “cajón”, um violino, uma cítara, um tamborim, um surdo, um pandeiro. Uma prancheta com partituras e vários programas relacionados a composições. Colecionava embalagens vazias de cigarros, meiões velhos, de jogador de futebol enfeitavam a planta. Sua pequena instante continha alguns livros. A bíblia, “O Velho e o Mar”, “Dom Casmurro”, “Os Sertões”. A borracha de apagar, a régua, os lápis de cor. Intensa jornada viveria para vencer intrigante batalha da dispersão. Num futuro sempterno e longínquo até, um dia conquistariam a vitória, e o fim do caos entre seus pertences.   

O dia inteiro, lá fora um belíssimo sol, se arrebentando por cima dos telhados. Amornando lençóis e calcinhas nos varais. Escalavam as sacadas das palafitas, dos subúrbios, fazendo três meninos sapecar suas pipas, nos calcanhares das nuvens brincalhonas. Zé Maria filho dedona Antonia, uma cabocla lavadeira de roupas, de ganho; Firmino não gostava de ir pra escola, se criou solto na rua, criança foi carroceiro. Carroçava as compras das madames, pra ganhar uns trocados na feira. E depois de adulto, foi barbeiro. Filho de dona Corina, uma ex-prostituta, que com o avançar da idade, viraria mascate, a vender mangaios numa tolda na feira. Dominício filho da negra Celina. Neto de escrava, sua vó foi criada na senzala, tempos depois dos quilombos migraria para os mocambos litorâneos. Vivendo nas imediações do cais do porto, e das usinas de açúcar. 

Domino Dio, esse era seu nome de batismo. Na língua da negrada virou Dominício, filho da velha Celina, que por uma vida inteira trabalhou de cozinheira, na casa do padre José Bulhões. Na hora de batizar, nem nome tinha. Se dependesse da mãe se chamaria Cícero, que era a graça do santo do Juazeiro do Norte. O padre foi que interveio mudando para Domino Dio “Dia de Deus”, numa mistura de latim e italiano. 

O menino gostava de jogar bola. Colecionava camisetas velhas de clubes de futebol de campeonatos de várzea. Possuía algumas bolas e chuteiras descartadas pelos jogadores na sede da equipe de sua paixão, o Ipanema Atlético Clube. Quando não estava na escola, estava no campinho jogando bola, com os amigos. Podia estar fazendo o sol de meio dia, lá estava ele. Bastava ter mais um com a mesma disposição. E os dois passaria a tarde inteira, e nem se lembraria de ir pra casa comer alguma coisa.

O bairro vivia a festa da padroeira. A imagem da santa, todos os anos, o mesmo ritual, entrava triunfante, trazida pelos cavaleiros que teriam passado três dias na estrada. Enfrentaram frio, calor, tempestades. Repetiam a façanha dos desbravadores, lá do início dos tempos. O povo todo ia para a estrada na entrada da cidade, receber o cortejo. Bandeiras, fogos de artifício, uma filarmônica.

Muitas cores, sol amarelo, céu azul, límpido. As turmas das escolas todos perfilados em frente à capela de Senhora da Assunção. O padre com sua batina preta, a carapinha branquinha. As rezas, as janelas das casas, estatuetas, forros bordados, jarros com flores.

Seu Firmino, o barbeiro, estava indo abrir a barbearia. Achou interessante a movimentação dos cavaleiros, e damas. Acabou por pressentir algo no ar. Se dando conta finalmente que aquela quarta-feira era um feriado. Era dia da padroeira do bairro, Nossa Senhora da Assunção. Achava muito parecida com Nossa Senhora da Imaculada Conceição.

Mesmo assim continuou sua jornada, indo abrir a barbearia. Logo, chegaria, Dorival de Nésio, Quincas sapateiro, Tarde Fria, Zé Panta, Izaías Rêgo, Lulu Félix. Depois de ficar a manhã inteira ouvindo os colegas, a contar causos e lorotas das quais riam muito. Lulu Felix gozador, contaria uma mentira cabeluda. Dizia que teria visto na capital de São Paulo, um prédio de mais de duzentos andares, na cobertura, uma pista de pouso para avião. E caso alguém duvidasse, arrematava: Vocês não viajam, não conhece o mundo, não lê jornal!

A biblioteca Breno Accioly ficava no pavimento superior, aos fundos da cooperativa agrícola. Naquela manhã ficara abarrotada de agricultores. O presidente do sindicato dos trabalhadores rural Seu Miguel Caetano aproveitara a ocasião, havia convocado a todos para uma reunião. O assunto principal, os empréstimos bancários, a que pé estaria às negociações. E o calendário do recebimento do seguro safra, por conta da estiagem prolongada daquele ano, muitos haviam perdido a lavoura.

Dominício ficou assim, olhando, por trás da multidão. Um pouco afastado do povo, observava a movimentação, dos cavaleiros com suas bandeiras, a banda filarmônica, a procissão. A euforia envolvente, a alegria das crianças, o olhar atento das autoridades no palanque oficial. As bandeirinhas e suas cores simbolizando as entidades, os poderes constituídos, os ritos, ali ocorridos. Festa de Nossa de Senhora, no bairro Monumento, na cidade de Santana, sertão de Alagoas. 

Dominício observou que ao lado do palanque havia um grupo de homens. Aqueles homens sérios, nos seus trajes a rigor, terno gravata, cabelos alinhados, sapatos engraxados. Olhavam com respeito, amor abnegado, abterno, e entusiasmado, a procissão, os missionário, a filarmônica, e o passar imponente do andor com a santa.

Dr Adelson Isaac de Miranda, dr. Valter Guimarães, dr João Ioiô Filho, major Darcy, o entendente Firmino Falcão, o padre Manuel Capitulino, o padre Fernando Medeiros, o padre Luiz Cirilo, Pastor Bonfim, Coronel Manuel Rodrigues da Rocha, Coronel Lucena Maranhão, major Estevam, dr Arsênio Moreira, dr. Isnaldo Bulhões, dr. Henaldo Bulhões, comerciante Bartolomeu Barros, os farmacêuticos Alberto Agra, Seu Caroula, Seu Moreninho, Seu Zeca Ricardo e Seu Aleixo. O prefeito Adeildo Nepomuceno Marques, Genival Tenório, Martinho Vieira Rêgo, o empresário Paulo Ferreira. O padre Francisco Correia de Albuquerque. Tudo registrado pela câmara fotográfica do senhor Darras Nóya, funcionário dos Correios e Telégrafos.

Cada criança trazia um cartaz representando os vultos históricos da cidade. Meninos traziam gravuras dos bustos dos homens de destaque no cenário político, civil e eclesiástico da época de quando a cidade fora fundada. Meninas traziam retratos de mulheres ilustres: professora Marinita Peixoto Noya, professora Narair, Terezinha Carvalho e Terezinha Amaral, Belmira Brandão, Albertina Agra a “Dama do teatro”. Sinhá Rodrigues, dona Penina, professora Josefa Leite, professora Helena Braga das Chagas, dona Flora, professora Déa Wanderley Tenório, artesã Maria Laranjeiras. Irmã Letícia, e irmã Leôntia. Missionárias vindas da Holanda.

Dominício, o agricultor, Firmino, o barbeiro e Zezinho da Divisão, o violeiro repentista.  Acabavam de se darem conta, do quanto a Vila de Sant’Ana havia mudado. Tanto, ao ponto de  ser elevada ao título de cidade.  Dominício observou o Abrigo dos idosos São Vicente de Paulo, permanecia praticamente intacto, na sua fachada e arquitetura. Firmino e Zezinho da Divisão reconheceram, a capela Sagrada Família, a agência do banco do Brasil e o prédio dos Correios. Além desses, tudo o mais havia mudado. Até o solo que pisavam. Antes ladrilhado de paralelepípedos. Ostentava betuminosa pista de asfalto.

E lá, no mais alto das paragens celestes. Por sobre radiantes, alvas e obesas nuvens. Os discípulos de deuses enfadonhos debruçados nas sacadas e pérgola dos grandes terraços do jardim nubiloso observavam. As três Moiras, as três deusas responsáveis por traçar e controlar os destinos de pobres mortais aqui da terra. Por um instante se distraíram, causando grande confusão. Por conta disso, nossos incautos sertanejos, os três, sem nada entender, compareceram ao solene Hall de entrada do palácio Nuvioso, à antessala do céu.  aguardaram pacientemente no jardim das acácias. Logo ali, ao lado, ninfas, fadas, dríades e elfos descansavam banhando-se nas fontes e piscinas. Entorno dos famosos duendes arquétipos: Inocêncio, Explorer, Sapientio,  Hero, Ribeld, Mago, Comunis Homus, Eros, o Bobo da Corte, Governator, e o Criador.

A deusa Cloto responsável pelo fuso, e pela fiação das vidas de todos os humanos aqui na terra. A deusa Láquesis responsável por medir o cumprimento do fio da vida, que determinava quanto tempo, cada vivente viveria, aqui em baixo. E a deusa Átropos, a inexorável controladora da vida dos homens, com sua tesoura afiada, responsável, para por fim a vida dos homens, os que deveriam subir. As três, tiveram uma breve discussão, e equivocadamente, acabaram arrebatando os três sertanejos até os salões celestiais.

A permanência do trio de bravos sertanejos, aguardando o que lhes aconteceria, nas alamedas e átrios celestes. Não duraria mais que cinco minutos. Logo, as deusas desfizeram o erro, devolvendo-os a terra. Dominício, Firmino e José Maria do sítio Divisão. Acontece que, o tempo nas cortes celestinas não durava igual aqui nas plagas terrestres. Os cinco minutos que passaram lá. Aqui, foram exatos cinquenta anos.

Zezinho da Divisão queria saber se no comércio ainda existia o Café de Seu Lira. Qual não foi sua decepção, ao ver que onde um dia, fora o famoso Café do amigo Lira. Agora funcionava uma loja de tecidos. Pertencente a um outro Lira, a Casa dos Retalhos. Pegou sua viola e dedilhando versejou: “Nunca pensei que um dia, fosse lá pro firmamento/ Quase fui falar com Deus, isso eu quase me arrebento/ Ao voltar, cá pra Santana/ Encontrei tudo bacana/ Quero saber se é mentira/ Se mudaram o Café de Lira/ E a praça do jumento?”

Firmino, pensativo se lembrava da sua barbearia, via que agora nem existia mais. Um imponente centro comercial estava erguido no lugar. Sentado num banco relembrou de um pitoresco diálogo entre Tarde Fria e Macarrão. Sentados, nos bancos altos do Bar Comercial, conversavam. Saboreando de manhãzinha um cafezinho. Seu Sebastião Pacífico, ali ao lado, sentado escutava tudo. Esse foi o colóquio. Macarrão disse: Tarde Fria. Sabe aquela mulher que você arrumou, na última noite de festa de senhora Sant’Ana? Aquela dona já é furada! Tarde Fria calmamente respondeu: E daí? Eu não quero mulher, pra carregar água.

A procissão marcava o bicentenário da paróquia de Sant’Ana. Mulheres em fila, com seus brancos véus sobre a cabeça. Os vestidos azuis fechado, contrastando com as fitas vermelhas da Legião de Maria, que faziam um “v”, nas costas, onde ia o escapulário do devocional Sagrado Coração de Jesus. A vela acesa, pingos de luz amarelada, chorando, recrudescendo, os caminhos daquele entardecer solene. 

Crianças levavam emoldurados, os retratos dos padres, que passaram por aquela paróquia. Desde quando tinha sido fundada. Um moço bonito, alto, feições serenas. De pele, cabelos e olhos claros. Trajado de batina preta, de chapéu saturno. Assim chamado porque, a proteção pra cabeça, parecia com o planeta.  Curvando-se próximo a um dos meninos sussurrando, disse-lhe ao pé do ouvido. Esse que está aí na moldura que você leva, não sou eu. Eu sou o padre Francisco Correia. Esse daí, é o padre José de Anchieta. Sorriu, e ficou apreciando a procissão. O menino continuou inalterado, seguindo o cortejo. Agora, ainda mais sério, do que antes da revelação do jovem religioso.