A Procissão [Parte 2] Conto 26/03/2026.


 Letícia estava na cama. Não tinha a menor ideia de quanto tempo havia dormido. O corpo parecia não querer obedecer aos impulsos, ou as ordens das sinapses dos neurônios enviadas do cérebro: abrir os olhos - tão pesadas as pálpebras, se recusam atender-lhe. Sentar-se – nem um músculo se movia - Ir até o banheiro - nada. Tentou coisa mais simples, virar de bruços - em vão. Só duas funções, nela, estavam em ação: respiração e batimentos cardíacos. Tentou tirar o braço da posição incômoda que se encontrava. Os braços, nem pareciam lhes pertencer, custava acreditar que eram parte do seu corpo. Mais de uma vez tentara se mover, nada. Esse estado vegetativo nem um pouco a incomodava. Algo inusitado simples assim vivia-o. Um fio de baba, descera-lhe pelo rosto. Fria agora, molhara um pouco o travesseiro. Seria dia, ou já anoitecera? O quarto todo era penumbra.

Um menino árabe sentou-se bem ali, ao seu lado. Tinha, entre as mãos em concha, uma pedra azul turquesa que emitia uma luz encantadora. Teve vontade de pegar naquela pedra. O menino, porém, com um olhar carregado, crispado de angústia, olhava fixamente para ela, sem nada dizer. Seu olhar, de muita tristeza, era como se dissesse, nada daquilo adiantava mais. Pra que possuir algo tão bonito e valioso? Se a guerra havia tirado-lhe o que mais prezava, sua família. Aquele menino seria real, ou parte das alucinações causadas pelos psicotrópicos que ingerira em grande quantidade?

Para onde foram todas as coisas? A sua vida, sua rotina de cada dia. Tudo era inexoravelmente estranho, porém plausivelmente aceitável. O que aquela praia estava fazendo no final da rua? O céu escuro pronunciava tempestade. Aquele céu já o tinha visto outra vez, em outro sonho. E tanto, e tão grande terror lhe causara. Um sonho pavoroso, um tanto apocalíptico. As estrelas caiam do céu sobre as águas do mar. Ao chocar-se com as ondas gigantes, como bolas de fogo, as estrelas provocavam enormes deslocamentos de água, e o mar avançava para a terra. Aquelas ondas tenebrosas, elas, indubitavelmente iriam inundar o continente.

Onde estaria sua irmã naquele momento? Esperava desesperadamente que estivesse num lugar seguro. Num abrigo do governo, construídos exclusivamente para aquelas ocasiões, de uma terceira guerra mundial, ou de uma catástrofe natural. Não saberia explicar, se alguém lhe perguntasse, por que num momento de aflição como aquele lembrava primeiro da irmã mais velha. Dos outros irmãos, e os pais não pensava neles. Por quê?

Do jeito que estava, sem coragem pra se levantar, talvez fosse melhor voltar a dormir e continuar o sonho de onde parara. O leito da rua tinha uma cratera. Aberta por um míssil, que acabara de cair, a terra ainda quente e fumegante liberava cheiro forte de enxofre. Gente morta, destruição. Curiosos vieram ver o estrago provocado pela explosão da ogiva. Lá longe outras explosões, e mais estragos. Alarido, correria, gente chorando, gritos de lamento. As pessoas se atiravam ao chão desesperadas ao verem familiares mortos. Elas vestiam roupas como no oriente médio. Os homens eram morenos e barbudos, usavam turbantes. Estaria em algum povoado do Irã? Estaria no centro de Teerã?

Letícia, achava todo aquele papo de quaresma, e de semana santa um saco. Daquilo só curtia as novidades surgidas na mesa. A principal refeição do dia, no almoço, arroz no coco. Curtiu a beça. Bem que podia, de vez em quando, haver aquelas variações de prato, aquelas iguarias: bacalhoada, feijão com coco, peixe frito. Não somente naquela época do ano. Não entendia. O excesso de vinho, causara-lhe uma dor de cabeça daquelas. Vinho tinto, gelado, o fim da picada. Letícia pretendia abolir bebida alcoólica de sua vida, as ressacas a deixavam-na deprimida. Ficaria só com os psicotrópicos. E os baseados, nas festinhas, e finais de semana.

O pai, não gostava dele, nenhum pouco. Achava-o artificial demais. Não parecia uma pessoa normal. Parecia que atuava. Os seus gestos, comedidos, pareciam ensaiados. A fala empolada, como se quisesse impressionar. Como se quisesse ser lembrado um dia, por aquilo que dizia. Era como se tivesse decorado cada palavra. E se dizia algo de improviso, se recriminava. Como se reconhecesse o erro que acabara de cometer. Será que seu pai fora um filósofo em outras vidas? De certo jamais esqueceria nele o ser excêntrico que era as muitas manias feias que tinha, de querer tirar proveito de tudo. Não admitia, por exemplo, ir olhar um pôr-do-sol, lá no alto da serra tinha que voltar com uma plantinha que serviria pra um chá. Se fizesse uma caminhada pelo quarteirão, tinha que aproveitar pra fazer outra coisa, passar na padaria, no mercado ou na quitanda.  

Na infância odiava-o pelo destrato com sua mãe. Chegava a passar de semana, sem aparecer em casa. Levava vida boêmia, frequentava os cabarés, e era alcoólatra. Aposentara-se por invalidez, por problemas mentais. Sua mãe tanto sofrera na companhia dele. Deixava faltar alimento dentro de casa, até fome a pobre mãe passara. Um único ovo frito, um pouco de arroz e farinha certa vez dividira entre os quatro filhos. Um dia ao vê-la chorando, Letícia ouviu-a dizendo baixinho: -Um dia, ainda me livro dessa praga. Se vier me bater de novo, quando arriar na cama, boto água quente no ouvido desse infeliz.

O pai de Letícia, mesmo quando ficara uma moça, ainda ela o odiava. Achava que, mesmo sendo seu pai, a olhava com olhar de cobiça. Avaliava seu corpo como um homem qualquer, sequioso por sexo. Sem tentar disfarçar, sem o menor pudor observava seus seios, suas nádegas, seu sexo. Ela jamais saía do quarto de baby doll, se ele estivesse em casa. Entendera que tinha um pai psicopata. Entendia que não deviam, nem ela nem a irmã deixarem peças íntimas suas no banheiro. Já o flagrara se masturbando altas horas da noite, assistindo filmes pornôs. O sentimento que tinha dele era um misto de asco, e nojo. Algumas amigas já haviam percebido isso também, e o evitavam.     

Agora mesmo pensava na sua irmã. Imaginava como realmente ela era. Aquela paciência de Jó. Aceitava passivamente os acontecimentos, até mesmos as catástrofes, naturais ou provocadas pelos homens. Como se tudo, que estava pra acontecer já fosse esperado, e que era tudo pra ser daquele jeito mesmo. Peremptoriamente previsível. Olhar de resignação, abraçada aos seus dois filhos Rômulo e Alex, o primeiro de dezesseis, e o outro de sete anos. Ela ajeitava o longo cabelo, de modo tão natural, como se dali a pouco, aquele pesadelo fosse acabar. E sua doce vidinha voltaria ao normal. Pegaria seu laptop e reiniciaria seu trabalho “home Office”. Rômulo na cozinha enchendo um copo de Coca-Cola, tomaria e forçaria um arroto só pra sentir o gás do refrigerante saindo pelas narinas. E fazia sanduíches com pães seda, aberto ao meio, e lá dentro poria, em cada um, uma fatia de fiambre e outra de queijo mussarela.

Aquela ressaca, parecia que ia abrir-lhe a cabeça ao meio. Saiu da cama pra ir ao banheiro vomitar. Só então Letícia percebeu que estava nua. Cambaleou até o vaso sanitário, a visão da louça branca, o forte cheiro de água sanitária, não deu pra segurar o vômito. O jato de vinho tingiu tudo de cor púrpura, lembrava sangue. Lembrava morte, lembrava coisas tristes, lembrava suicídio. Lembrava as lições de moral do pai. A mãe ralhando, porém brigava como quem afagava. Foi pra debaixo do chuveiro. No espelho, um diabo, com cara do Coringa, mesma maquiagem, mesmo sorriso asqueroso, mesmos olhos sanguíneos, rodeados de tinta preta, que se derretia em lágrimas negras.

A flor do deserto, e o deserto. Era noite, a escuridão tinha cheiro de vinho. Uma lua parecida com um pedaço de unha reluzente, boiava no gás negro, noturno, a alguns metros à cima do areal. Parecia que se estendesse a mão conseguiria pegá-la. Não tinha interesse em tê-la. Alguém tocava um piano de calda, acompanhado por um negro escravo, vestido apenas com uma calça de linho branco, que soprava numa gaita uma melodia triste. Teria chegado ao inferno? Não havendo fogo nem demônio, ali. Então presumiu que poderia estar no purgatório.

Percebeu-se deitada num imenso areal. Grãos de areia aderidos ao rosto. Havia areia por todo o corpo seminu, beijado pelo vento leste. O capim, o cheiro adocicado da maconha chegava as suas narinas. Quisera agora somente viessem lembranças boas. Os olhos se abrindo e conseguindo enxergar os pneus da moto do amigo, estacionada a poucos metros. O amigo que Letícia chamava de “Miga” estava sentado na areia, só conseguia ver suas costas nuas. Fumava. A noite calma, já ia alta.

O pai estava na cozinha quando ela passou pro banheiro. O sermão começou, enquanto sua mãe preparava o almoço. Ódio por viver aquele tipo de situação. As coisas, quando fogem do controle parece que tudo vai desabar. Era sempre assim, Letícia achava que não devia satisfação nenhuma da sua vida. Apesar de viver na casa dos pais. A tevê, infelizmente não conseguia entreter seu pensamento de morte. Donald Trump que fosse logo pro inferno. E levasse junto com ele, os Aiatolás todos do oriente médio, que se danassem também a guerra da Ucrânia com Zelensky, com Putin, e todos os líderes comunistas, que fossem todos pro inferno, que eles mesmos haviam criado.

A mãe, chegara do trabalho, naquele instante, reclamava de dores nas articulações, na coluna vertebral, e na região cervical. De tanto fazer exames e consultas, já estava se acostumando a falar igual aos médicos. De remédios, desde os de farmácia, aos chás caseiros, quem ainda entendia era ela. A ladainha do pai, reclamava sobre a única filha, que mesmo adulta e emancipada financeiramente, pois tinha um trabalho de técnica em Enfermagem, ainda assim vivia dentro de casa. Letícia aprendera a filtrar aquele tipo de discurso, olhava pro pai e mentalmente apertava o botão “Mute”. E simplesmente tudo ao seu redor passava a ser só imagem, sem som nenhum. E se acaso ele fazia uma pergunta. Respondia com outra já engatilhada: “-Não entendi.”  

A moça não era batava, era albina mesmo. Imaginou-a se estaria realmente de biquíni? Achou bonito o caminho pros seus pêlos pubianos, a fila de cabelos descoloridos. Ela percebeu seu olhar cobiçoso, mesmo por trás do rayban. Perguntou se tinha isqueiro ou fósforo. Não tinha, nenhum nem outro. Detestou não poder ajudá-la naquele momento. Era pra acender um baseado. Letícia se prontificou a conseguir. Foi até a conveniência comprou um isqueiro, uma lata de Coca-Cola sem açúcar, e uma goma de mascar Trident. Quando voltou a ruiva já havia acendido o baseado, conversava com um homem negro, de cabelo rastafári e longa barba com trancinhas nas pontas. Ficaram em três, se curtindo. Conversas, fumo dividido,  sorrisos.

Letícia havia meses, talvez anos, tentava por fim a sua vida. Não via motivo plausível pra viver aquela vida que vivia. Considerava-a sem sentido, e que não a levaria a objetivo algum. Na sua concepção, por assim dizer, sua vida inutilmente era vivida. O motivo pelo qual ainda não o fizera, eram vários. Em setembro, porque achava que precisava pegar um bronze. Não convinha se tornar uma defunta descorada. Além da palidez natural, cadavérica, que iria adquirir.  Também precisava subir a serra pela milésima vez. Fazer fumaça. Se despedir da amiga natureza, uma das melhores companhias que tivera até agora, à altura dos seus vinte e sete anos. Imaginou-se deitada no caixão, e as amigas comentando, como estava legal, a sua cor de pele, as tatuagens, ainda bem vivas.    

O sino tocando renitente, pessoas cantando, um canto penitente alvoroçava a rua. A frente um mancebo todo de branco erguendo uma cruz preta, envolta numa faixa de pano, também branco. Matracas, canto de lamento, de almas arrependidas, pedidos de perdão, pelos pecados. Letícia não tinha ânimo sequer pra levantar a cabeça. Alguém disse: “-Parece que ela está morta...”. O moço da moto, deu a entender que estava com ela. E que ninguém precisava se preocupar.

Letícia, agora, sentada no banco dos réus, o olhar no nada. Nem parecia estar ali, sendo julgada em uma sessão do tribunal da justiça. A assembléia muda, apenas ouvia, O silêncio quebrado somente pelas falas dos magistrados. A moça era acusada de “crime fútil, com resquício de crueldade”. Por ter tirado cruelmente a vida dos pais. Os corpos, pela polícia, foram encontrados em casa. A mãe, sentada no sofá, lavada em sangue, degolada enquanto assistia televisão. O pai, encontrado no quarto deitado na cama, tinha uma perfuração de bala no pescoço que saía na nuca.

O júri em andamento. A fala agora era da defensora pública, que tentava convencer ao corpo de jurado, a inocência da ré. Letícia havia ligado o modo: “Mute”. Porém, lá no fundo, bem no fundo do seu cérebro, um cântico ecoava. Um, que a multidão de povo entoava, ao passar em sua rua o cortejo quaresmal: “A morrer crucificado. Teu Jesus é condenado/ Por teus crimes pecador, por teus crimes pecador.”  

 


A Procissão [Parte Um] Conto 08/03/2026.


Seu Paulo aparentava cansaço, um dos braços sobre o ombro da esposa, pesava. O outro, segurava a mão do enteado. “Paulo! Por que me persegues?” Absorto em pensamentos, sequer ouvia a multidão, de gente que entoava cânticos e orações. A mente vagava, sobre o último exame de próstata que fizera. Nele, o médico detectara um câncer, em situação bastante preocupante. No entanto, preferiu fazer mais outros exames. Bernardo tinha hematomas nos braços, pescoço e pernas. Ameaçado, e com medo, o menino nada dizia à mãe. E que sofria maus tratos do padrasto. Dali a uma semana, Paulo agonizava em um leito de hospital. Amigos, familiares lamentariam. Como um homem tão bom, respeitador, um exemplo de marido, bom pai de família. 1ª ESTAÇÃO: JESUS É CONDENADO A MORTE.

Ana Luiza trabalhava na companhia de eletricidade. Cantando com fervor, marchavam: ela, sua mãe Assunção, e Alice, sua filha, de apenas dois anos e meio, que ia ao colo da avó. Era uma turma de cinquenta candidatas, concorreram a apenas duas vagas, Ana foi uma das selecionadas, em teste escrito. Inicialmente, trabalhara de leiturista. Após dois anos de empresa, Ana namorou Roberto, seu chefe. Desse namoro nasceu Alice. Roberto não assumiria ser o pai de Alice. Isso poria fim ao relacionamento. A briga agora era na justiça, para que Roberto assumisse a paternidade. O moço já estaria de relacionamento novo, namorava agora Beatriz, a outra moça selecionada para a segunda vaga de leiturista. 2ª ESTAÇÃO: JESUS CARREGA SUA CRUZ.

Bodó, era o apelido de José Carlos. Bodó era alcoólatra, às vezes assumia, e ia ele mesmo ao A.A. Há poucos dias, beijando seus dedos cinzentos de nicotina, cruzados sobre os lábios ressecados, jurou a esposa Deise, à filha Sofia, e à sua mãe dona Bernadete, que não ia beber durante aquela quaresma. Deise aproveitou a ocasião e exigiu: "-E você irá nos acompanhar nas procissões da Via Sacra." Ele aceitou. O povo cantando, a noite abafada, o calor sufocante, Zé Carlos, a boca seca, o suor frio, o ar não chegava aos pulmões, agonia. O mundo que já estava escuro desapareceu. E o desmaio. 3ª ESTAÇÃO: JESUS CAI PELA PRIMEIRA VEZ.

Melina residia na capital. De férias, em plena quaresma, aproveitara para voltar ao interior. Após cinco anos, voltava à sua terra natal. A cidadezinha onde vivera a infância e parte da juventude. Quando fizera dezoito anos, foi morar com uma tia na capital. Conseguiu se formar como advogada. Todos os seus onze irmãos deixaram a casa paterna. Seguiu cada um seu caminho, seus destinos. Melina, naquele momento, seguia a procissão. O povo cantando, e seu pensamento era na sua mãe, dona Tereza, ela que há muito ficara viúva. Sozinha, sem ninguém, fora colocada num abrigo de idosos. Melina foi visitá-la. Pediu-lhe a bênção. A mãe, porém, acometida pelo mal de Alzheimer, nem a reconheceu. Os olhos opacos, quase sem vida, olhavam para o nada. 4ª ESTAÇÃO: JESUS ENCONTRA SUA MÃE.

Beto, toda a vida foi um cristão fervoroso. Herança dos pais. As missas do domingo, ele não perdia uma. Salvo, casos excepcionais. Um tipo extrovertido, brincalhão, e festeiro. Curtia o carnaval. Mas, na quarta-feira de Cinzas, todos os anos, declarava:  É o fim das bebedeiras. E, ao longo da quaresma, nada de bebidas. Dentro daqueles quarenta dias, farras e bebedeiras seriam evitadas. Viveria com intensidade todos os rituais da quaresma.  E de modo especial os da semana Santa. Jejuaria, não comeria carne vermelha, nem às quartas e nem às sextas-feiras. Beto era pintor de ambientes. Seria contratado para pintar a casa grande da fazenda de um empresário. Aconteceu que descobriu que um morador e cuidador do gado do patrão, estava muito doente. Chamou um amigo que os levaria ao hospital. Desde então, se encontrava internado, se recuperando. Ali, na via sacra, Beto elevou suas preces a Deus para que curasse o amigo peão. 5ª ESTAÇÃO: O CIRINEU AJUDA JESUS A CARREGAR A CRUZ.

Marcos tinha um apelido engraçado: “Viramundo”. Na juventude, era destemido, só andava de gangues. Era vida louca, muita bebida alcoólica, até maconha curtia nas baladas de finais de semana. Tatuagens, tinha várias por todo o corpo, nos braços, peito, costas. No rosto tinha uma, de uma cobra que contornava o olho esquerdo, passava pela orelha, e descia pelo pescoço. Nunca quis nada com estudos, fez somente o primário. Porém, era muito habilidoso com serviços de mecânica de automóveis. E, por muitos anos, foi disso que sobreviveu. A velhice chega para todos. E pra “Viramundo” também chegou. Alguém se compadeceu, ao encontrá-lo morando na rua. E o levou a um abrigo de idosos. A professora Eunice morava sozinha, nunca se casara. Agora mesmo, a educadora acompanhava a via sacra e, em suas orações, pedia a Deus por “Viramundo”. Ela, a única pessoa, que o visitava quase todos os domingos. Ajudava a cuidar das feridas nos braços e rosto, sequela da tinta das tatuagens. 6ª ESTAÇÃO: VERÔNICA ENXUGA O ROSTO DE JESUS.

Pedro era motorista de aplicativo. Num passado distante, tempos atrás, fora conceituado comerciante do ramo de calçados. Pedro tinha alguns vícios que o levariam a perder, o convívio, com a esposa e os filhos: Igor, doze anos, e Milena, de seis anos. Pedro, quando bebia, ficava agressivo com, sua esposa. Lúcia professora do jardim infantil, também era agressivo com os filhos. Agora mesmo acompanhava a via sacra, sufocando um choro, e tentava a todo custo conter. Lágrimas teimavam rolar pelo rosto. A esposa e os dois filhos, logo ali a frente, naquela via sacra. Por medida protetiva, ele, o pai, não podia se aproximar de sua família. Por força da lei, era obrigado a manter distância, das pessoas a quem mais amava. Tudo por conta de malditos vícios. 7ª ESTAÇÃO: JESUS CAI PELA SEGUNDA VEZ.

 

PÉ DE CÃO Conto 03/03/2026


Lá ia o mundo, bolando, pelo infinito a fora. Mundo girando, vagabundo. E na casca, levando um tanto de gente. Gente, que as vezes, nem um muquifo, onde se amparar tem. Um buraco, pra chamar de “lar doce lar”, não tem. Gente que acaba fazendo da cidade sua casa. Pé de cão é um desses. Habitante desse planeta, e sua casa, o mundo.  

José Luiz Ferreira Santos, esse foi o nome que lhe deram na pia batismal. Seus pais viviam de roça, eram agricultores. Não tiveram muito a lhe oferecer, quanto a educação. Oportunidade de trabalho, só a do roçado. Ainda menino, Zé Luiz, chegou a ir a escola, parou na terceira série do fundamental. Aprendeu a ler e escrever, achou que era o suficiente. Empolgou-se com os jogos de futebol, nos times da periferia. Pena, que só ele achava que tinha talento com a bola. Dos campos rurais, pros campinhos de várzea. Daí pra os bares, pras farras com cachaça, foi um pulo. E a bola do mundo debaixo dos seus pés lhe deu muitos dribles. Voltar pra roça não quis mais. Os pais, idosos, não demorariam muito, partiram pra junto de Deus. E vagou pelas casas de alguns poucos amigos. Depois só restariam as ruas.

As ruas foi o que restou pra chamar de casa. A marquise de uma loja, a calçada da igreja, um ponto de parada de ônibus, uma construção inacabada, um prédio abandonado. Anoitecia, em qualquer lugar, onde estivesse, estava em casa. Seu quarto de dormir, um canto para recostar a cabeça. O colchão, um pedaço de papelão.

Ruas, praças e avenidas viraram sua sala de estar. Uma torneira com água, podia proporcionar um breve alívio, lavar o rosto. O cafezinho gratuito, dava pra conseguir, na recepção da prefeitura. E partia pra mais um dia de vida concedido por Deus. Se oferecia a lavar os carros dos grã-finos, estacionados nas portas dos hotéis. Ao meio-dia, o estômago dizia que precisava de algo pra digerir. Opções havia, pra conseguir comida. E a busca faria considerando a um doador que a mais tempo fizera uma visita. Restaurantes, hotéis, lanchonetes, padarias.

Pé de cão, dizia que não tinha amigos, apenas colegas: “Só tive um amigo na vida, meu pai. E agora só Jesus!” Criara um itinerário, que cumpria diariamente, ao perambular pela sua “casa”. Primeiro o Bar de Zé de Quineu, o destino de toda manhã. Ponto de encontro dos pingunços. Os chamados: Pé-inchados, ou Pé-na-cova. Alguns frequentadores, eram colegas do tempo que fora jogador de futebol. Alguns idosos, rebeldes, viciados, que fugiam de casa pra beber, sem serem importunados pela família. Aposentados, ex-funcionários públicos, que nunca conseguiram se livrar do vício da embriaguez.

Pé de cão, não negava serviço. Tinha vez que se oferecia, e outros que era chamado. Serviços que sujavam apenas o corpo, e outros que maculavam a alma. Alguns que carregaria a mancha na alma. Já participara dos dois tipos. Lavava pocilga, limpava vísceras de bois, no matadouro, desviscerava peixe no mercado, esgotava fossas. Já fora preso, por arrombar um armazém. Repassara drogas das “bocas” pra estudantes em porta de escola. Outros que terminado, bastaria tomar um banho no rio, e ficava limpo. Nada que um pedaço de sabão, não limpasse, água à vontade, num local mais afastado, e pronto. O banho de rio, e a capacidade que tinha de revigorar as forças. O rio, também, faz a pessoa voltar no tempo, relembrar coisas de infância. Dar saltos mortais, sapatadas, descer na correnteza, nadar cachorrinho, se lambuzar no barro da encosta. Uma brincadeira que nem lembrava mais, fazer carrinhos com varas de mamoeiro.  

Mercado da feira, lugar, aonde opostos, se encontram. Os que buscam algo, e os que necessitam desfazer de coisas. Um eterno se encontrar, e se perder. Ulular de vozes, diálogos, ora sussurrados, ou xingamentos exaltados. Uma babel, onde todos se entendem. Pé de cão, faria qualquer coisa, desde que lhe rendesse algum dinheiro. Arrumou uma empreitada. Era serviço pesado. Carregar, até o lastro de um caminhão, cinco sacas de feijão.

Cada saca pesava sessenta quilos, quase o dobro do peso do estivador improvisado. O pobre homem, de estatura minguada, era só ossos. O uso excessivo de álcool minou suas forças. A primeira saca, e a cabeça ficou leve, igual a uma pena. Parecia que não havia nada sobre os ombros e o pescoço. Mais duas sacas, e o coração, deu pulos, ameaçando sair pela boca. Das duas últimas, sufoco. Só uma, conseguiu manter a consciência. E o desmaio.

Pé de cão, nunca gostou de mendigar. Até que tentara, algumas vezes, porém, achava  humilhante demais. Além do que sua aparência de boêmio, aliada ao ar de quem não tinha cara de necessitado, rendia-lhes impropérios de quem abordava. Engolia seco, e as poucas e boas, que ouvira, fariam definitivamente desistir da mendicância.

Bar Comercial, Pé de cão sabia, ali tinha que respeitar. Pedia uma cachaça, pagava e saía. As frases filosóficas, tipo: “Se nada tens a fazer. Não o faça aqui.”; “Um domingo sem missa, é uma semana sem Deus.” Pregadas na parede, diziam tudo.  O bar era frequentado por muitos colegas de Pé de cão: “Cara de Jegue”, “Fedor”, “Dorme sujo”, “Zebedeu”, “Profeta”, “Capiá”, “Tarde Fria”, “Saco do cão”, “Fofão”, “Ciço Mouco”, “Papa-figo de Abidôn”, “Chupa péda”, “Macaco”, “Instalação trocada”, “Zé Gago”, “Colimério”, “Miau”, “Branca-de-Neve”, “Mão-de-Onça”, “Lopreu”, “Calhambeque”, “Ivaldo Cui-ui-ui”. Era uma seleta freguesia, ali se encontrando: comerciantes, artistas, locutores de rádio, funcionários, também poetas, cordelistas, repentistas, ambulantes, moradores de rua.

Um morador de rua, como qualquer pessoa, precisa fazer suas necessidades fisiológicas. As opções, no transcorrer do dia pode variar. O mercado público, as repartições do governo, e particulares, bares e restaurantes. A coisa só se complica, com o avançar da noite. Quando começa a escassear algum ponto aberto. Cabe aqui a improvisação, um terreno baldio, um lugar ermo, uma capoeira. No último caso, evacuar em um saco plástico e se desvencilhar a plena via pública.

Vida de rua, exige cuidado. Quando a escuridão envolve todos os cômodos dessa casa, chamada cidade.  A lei que vigora, é a lei da selva. Os cães de rua, de dia, são parceiros, e até brincam de andar com os vagabundos, como se esses fossem seus donos. A noite, rosnam, mostram os dentes, e latem com fúria pra tudo que se move. Tudo virava ameaça, chuva, trovões, ratos, gatos, cassacos. O terror fica por conta da falta de energia elétrica. Nada é mais assustador.

O namoro. Pé de cão, tinha uma namorada, Ritinha. Ela também vivia perambulando pelas ruas. Embora tivesse onde e com quem morar, numa casa de verdade. Maria Rita de Cássia, já tivera uma família, até os vinte anos morou com seus pais. Seus pais morreram, vitimas de uma cheia do riacho Camoxinga Teve um ano que desceu da serra uma tromba d’água que atingiu sua casa. Naquele ano, foram muitos desabrigados. A defesa civil, o corpo de bombeiros, e o Serviço de resgate muito trabalho teve para encontrar os corpos , pra resgatar sobreviventes.

Pé de cão, conheceu Ritinha, na madrugada do domingo de carnaval, os dois catavam latinhas vazias, de cerveja e refrigerante, pra reciclagem. Sentados na calçada conversaram, fumaram um baseado. E daí a pouco estavam transando num terreno baldio, na saída da cidade.  As ruas, aos poucos, vão se tornando a única opção de morada, de gatos e cães abandonados, de animais silvestres com hábitos noturnos, cassacos, cobras, raposas, ratos, gabirus, corujas, gaviões, papa-mel, sapos, gafanhotos, enxames de abelhas, morcegos, saguis, e gente. Arriscando a vida, em nome da sobrevivência. A lei da selva, acaba, migrando pra cidade: vence o mais forte.

 O apelido Pé de cão, vem de uma história pra lá de estranha. Primeiro que, qualquer um que olhasse para seu pé esquerdo via que algo diferente existia. Era totalmente de uma pele de cor mais escura que o resto do corpo, e coberta de pelos negros, de um aspecto capaz de causar repulsa. E se completa com a história de um encontro que nosso herói, teve com uma figura folclórica, um lobisomem. Ele fazia questão de contar, com riqueza de detalhes. “Lá ia eu, bem tranquilo pela rua da Praia. Passava da meia noite,  era uma sexta-feira, do mês de agosto. A rua estava escura, a única luz existente a dum poste, mesmo assim coberta por uma neblina fina. Pretendia chegar a casa do amigo Carlinhos Índio, conhecido de todos nós, homossexual declarado. Eu estava com muita fome. Sabia que chegando no “apê” do meu amigo. Se tivesse, ele não me negaria algo pra eu comer.”

De repente, ao dobrar a esquina, Zé Luiz se depara com uma cena dantesca. Um lobisomem vinha saindo de uma bueira de esgoto, bem ali, na sarjeta. Zé, vinha na calçada alta, que fica bem de frente à igreja de Nossa Senhora de Fátima. Calçada da associação dos moradores daquele bairro. O ser horripilante tinha cabeça de lobo, e corpo de homem, totalmente coberto de pêlos, vestia uma calça jeans. Os olhos de fogo. A voz como que de mil demônios, disse assim pra Zé: “-Eu venho do mundo das trevas, vim lhe buscar. Porém, você só poderá ir, depois que virar bicho, assim como eu. Para isso, eu preciso lhe morder, numa perna, ou num braço.” Ao dizer isto, o lobisomem partiu pra cima do rapaz, que se esquivou. E empurrou o homem-lobo de cima da calçada. A fera caiu, mas conseguiu agarrar o tornozelo do Zé. Isso foi suficiente para iniciar o processo de transformação. Então, Zé Luiz deu um estrondoso grito que ecoou por toda rua: “-Valei-me! Meu Padrinho Ciço do Juazeiro!” Exclamou, ao tempo que olhava um casulo de vidro fincado na parede da igreja, com a imagem do santo milagroso do Cariri. Na mesma hora o lobisomem, soltou seu pé, e sumiu na boca negra, bueira a dentro.

Naquele sábado, de boca em boca, a notícia se alastrou. Não se falava de outra coisa: A fantástica história do morador de rua que se encontrou com um lobisomem, na rua da praia. E no Bar Comercial, sentado a uma mesa, o poeta Mário Pacífico, deu o mote: “Assim diz o povo, acredite Você ou Não/ Homem vira lobisomem, isso é lá com Pé de Cão.”

      

 

BEM ALI, A FRENTE... [RIGTH THERE AHEAD] Conto 23/02/2026.

FOTO RIACHO CAMOXINGA EM 22/02/2026
 

Uma estrada pavimentada, quase deserta, cheia de curvas sinuosas. Um céu exuberantemente azul, mesclado de brancas nuvens, até o horizonte. Um carro, a cem por hora, surgiu. No interior do automóvel, aparente calmaria. A única coisa que quebrava o silêncio, lá dentro, um rock balada vindo do rádio. Som meloso de guitarra eletrônica. Do lado de fora, ronco de motor no asfalto. Semblante fechado, o moço que dirigia, parecia irritado. Chapéu de caubói, óculos raiban. Teria aí seus trinta e poucos anos, fazia o tipo, americano, Ao seu lado, uma moça, de longo cabelo negro, olhos castanhos, longos cílios. Escondia-os nuns óculos de armação estilizada. A julgar pela cor da pele, uma nativa.

Terra seca, aridez de deserto, cactos. Era a paisagem que se refletia nos vidros. Escassez de gente, escassez de casas, escassez de sombra. Abundância de sol, abundância de tristeza e solidão. Adrenalina, entre outras coisas, tem poder de fazer o coração bater com mais intensidade. O daqueles dois acompanhava o ritmo do asfalto. A aparente tranquilidade, era só aparência.

Tem coisas para as quais não existe explicação. para Sidnei, tudo a sua volta podia parecer normal, mas não era. Lorena, mascava chiclete. A calma de araque da moça, só contribuía para aumentar a irritabilidade de Sidnei. Num relampejo de lucidez, pensou: se acaso se envolvessem num acidente? Naquelas circunstâncias. Seria fatal.

Os pensamentos, tentava organizar. A velocidade com que as imagens se sucediam, curvas, placas de sinais, um animal morto a margem da pista, urubus. Qualquer coisa tirava a concentração. Mesmo com os vidros fechados, a sensação era que tudo o que pensava saía voando, lá pra fora. Pelo vento era levado. E pensar que uma discussão boba, poderia levá-los a morte. Uma força estranha, talvez isso, os permitia continuarem vivos. Só tinham que aproveitar. E relembrar como tudo começara. Tempo havia de sobra. A longa estrada a frente. Poderia levá-los a onde queriam ir. Ou, aonde nunca imaginariam chegar.

Enquanto o carro avançava, lembranças vinham. Sidnei lembrava de uma tarde de domingo. Um sol reluzente brilhava na imensidão do azul celeste. Era outono. Estavam no alpendre da velha cabana dos Silva. Acomodados sobre um banco comprido, de madeira. Trajado numa camiseta vermelha com uma estampa amarela no centro do peito. Não lembrava se era um desenho duma ave, ou um coração. Seria um pato, de bico alaranjado? Ela, vestida num vestido verde claro, adornado de detalhes na barra e nas mangas, sianinha branca e fitilho vermelho. O cabelo, tinha-o preso próximo a nuca, por um lenço estampado.

Sidnei tinha uma xícara branca com café. Lorena acendera um cigarro. A fumaça azulada brincava com seus cabelos, e subia, a cima do telhado. Conversavam quase sem dizer nada. O olhar cheio de montanhas. O horizonte, de longe, só assistia, sem nada dizer. Ela disse: -Estou com dor de cabeça. Ele sacou uma piada pronta, cheia de malícia: -Abra as pernas que a cabeça passa... Ingenuamente ela obedeceu. Sidnei não conteve a gargalhada. Aquele instante cheio de ternura, marcava um dos primeiros, de muitos momentos que passariam juntos. Uma vida inteira teria, pela frente. E nem sabiam o que o esperavam. Bem ali, logo a frente.

-Acho que estamos perdidos. Disse ela. Ao tempo que via, do seu lado da estrada, um imenso portal de entrada, de uma fazenda. -Assim que avistar alguém, eu paro, e peço informação. Retrucou. Nem bem fechou a boca, duas motocicletas, surgiram no retrovisor, vinham no mesmo sentido do carro. Baixou o vidro da janela do motorista, com o braço para fora, tentou fazer sinal para pararem. Os motociclistas emparelharam com eles, mas passaram direto.

Oito quilômetros depois, avistaram um posto de combustível. Tentaria informação com o frentista. O magricela, de macacão sujo de graxas e óleo, era de poucas conversas. Ao menos, ficou sabendo que estava no caminho certo. E que andaria ainda uns quarenta quilômetros até chegar ao destino. Isto é um assalto! Imediatamente veio a sua mente o dia em que o pai de Lorena Seu Antonio, havia uma semana que estava sumido teve uma de suas crises de esquizofrenia. Armado com uma velha faca peixeira enferrujada, tentou assaltar o posto de combustível de Vila Santa. O frentista sacou uma pistola calibre doze e explodiu o peito do velho Antonio. Encerrava ali a trajetória do velho sogro de Sidnei, cuja vida conturbada, era de clínica em clínica, de hospitais, e hospitais psiquiátricos.

Sidnei foi até a conveniência, comprou, biscoitos, chicletes, batatas fritas, água, e cigarros. O barbudo atrás do balcão lembrava, fisicamente, o seu primo Artur. Nitidamente recordou aquela manhã que fora com ele, levar o gado pra beber água no açude, que ficava por trás da casa da vó Emília. De volta, chegaram pelos fundos, aos gritos, chamaram pela avó várias vezes sem obterem resposta. Quis entrar pela cozinha, porém desistiu. Contornaram a velha casa pelo oitão. Ao chegarem a frente, novamente chamaram pela avó. Sinal nenhum que houvesse alguém ali. Entraram pela frente. A porta estava só encostada. A casa parecia abandonada.

Lorena, lembrava de outras brigas, por motivo ainda mais fútil que aquele. No primeiro ano de namoro quando fizera aniversário, ganhou de Sidnei um relógio de pulso, que era o desejo da maioria das mocinhas de sua idade, a época. Junto a caixa do presente, um cartão de parabéns. Nele, havia um desenho de um casal de namorados envolto em uma densa neblina. Encimados de letras brilhantes, que dizia: “Feliz Aniversário! Te Amo.” Lá dentro, Sidnei escrevera, de próprio punho, alguma coisa. Ao vê-la abrir, pediu: -Leia. E fechando o cartão ela disse: -Depois. -Quero que leia agora! Disse ele taxativo. E a discussão começou. O rosto banhado em lágrimas, ela acabou confessando: -Eu não sei ler!  

Os meninos, vasculharam todos os cômodos. Não havia ninguém ali. Na cozinha, uma chaleira de café no fogão à lenha. Era comum, nas casas de sítio, uma panela no fogo, somente pra aproveitar as brasas. Os meninos avançaram nos quitutes da velha avó, comeram coalhada com açúcar, doce de leite de pelotas. E saborearam a famosa torta de frango da vó Emília, que ela guardava a sete chaves. E não gostava quando comiam sem sua permissão. Na sala aproveitaram pra mexer nas antigas armas do vovô Pedro, exposta sobre uma enorme cômoda de cedro. Vo Pedro morrera de câncer no estomago, fazia anos. Seu semblante severo na moldura da parede, parecia, repreender os meninos pelo que faziam. Um bacamarte, uma pistola Luger P08, alemã, da segunda guerra mundial. E uma pistola de cano duplo, apelidada de “Dois tiros e uma carreira.”

De fato, Sidnei esquecera a origem humilde da namorada. E que após a morte do pai, quando ela ainda era criança. Pra sobreviver teve que trabalhar duro nas plantações, nos roçados. O pai bruto, não permitia que estudasse. As mãos eram calejadas na palma e nos nós dos dedos. Só tinha direito a comprar uma roupa nova, próximo as festas do padroeiro, com o dinheiro ganho com a venda dos cereais. As vezes ganhava roupas usadas, das primas ricas que moravam na capital.

O dia, calmo e ensolarado até aquele início de tarde. De repente, mudou. O mundo escureceu, parecia noite. O trovão roncou seu ronco de meter medo nas almas penadas, e nos seres  vivente que perambulavam pelas brenhas do sertão. Ainda mais em menino medroso, que estaria fazendo o que não devia. E já imaginava que o castigo chegara, só que chegara rápido demais. Os raios cortavam o céu como se metade do firmamento fosse cair bem ali, no terreiro da velha vó Emília. Uma ventania arrastou as roupas do varal pra uma plantação de palma que tinha ao lado do terreiro. Agora tinha palma vestida de camisola, uma com touca de calçola e até uma enrolada de toalha como se fosse cachecol. Galinhas, guinés, perus, pavões, patos e gansos buscaram abrigo. A chuva, de pingos grossos produzia, na calha, um barulho ensurdecedor. De dar nos nervos. A água descia pela bica, corria cano a baixo, caindo direto na cisterna.

Sidnei e Lorena, se casaram num final de ano. O último dia, num 31 de dezembro pra ser mais exato. O moço resolvera fazer, naquele mesmo dia, sua despedida de solteiro. Ficou após a cerimônia, a tarde toda bebendo com os amigos, pelas ruas, bares e botecos. A festa foi na casa dos pais dela. Um almoço foi servido aos presentes. Uma vitrola se alternava com um violonista, que bebia muito, só executava uma música a pedido, depois de tomar várias doses de cachaça. Acabou bêbado, arriou lá no quintal, próximo a uma goiabeira, onde ia aliviar a bexiga. A algazarra era por conta das crianças, a maioria sobrinhos da noiva. A mãe de Sidnei, dona Clotilde, era viúva e se fez presente ao casamento sozinha. Parecia tão pensativa. Como se tivesse com um sentimento de perda. Com aquele semblante só se vira no dia do sepultamento do finado Arnobio. E já, uns vinte anos havia desde que seu esposo se fora.

Naquele baile do final de ano Lorena fugiu de casa. Depois que todos dormiram saiu pela janela pra ir encontrar Sidnei. Ele a esperava na praça, fazia horas, isso o deixara nervoso. Lorena prendeu um riso com a mão ao vê-lo. Achou ridícula a gravata azul que usava. Infelizmente ele percebeu, a reprovação dela. Aquele não seria nunca a melhor noite de final de ano. A discussão foi inevitável. O pretexto: a demora. Isso a fez ir embora. Talvez Lorena se arrependera de ter fugido, e assim tentasse evitar levar uma surra do seu irmão Jorge, o mais velho. E que não aprovava o namoro da irmã com aquele ofice boy da empresas dos Correios. Enquanto que seu pai, nunca saberia. Na noite de ano novo ficava tão bêbado que acabava perdendo o melhor da última noite do ano: a queima dos fogos de artifício.

Os meninos, no sofá. Cobriram-se com uma manta, que tinha um tigre de bengala estampado. Com a tempestade, o tigre do desenho parecia também temer o que lá fora acontecia.  Artur jurou que viu um vulto passando pela vidraça da janela lateral. Do oitão a oriente da casa.  Segundo ele, era a silhueta da vó Emília refletida ao clarão de um raio. Mas o que a vó deles estaria fazendo, andando em torno da casa, debaixo daquele violento temporal. Será que a velha queria meter medo nos meninos?

O revellion na praia tinha tudo pra ser o melhor de suas vidas. Já eram adultos. A falta de experiência ficara pra trás, fazia anos. Motivos tinham muitos pra comemorar, a vida, a estabilidade financeira. Enfim a paz, não a do mundo, mas a existente entre os dois. O champanhe estourando, as taças tilintaram várias vezes. As fotografias, os flashes, a alegria contagiante sendo registrada para a posteridade. A queima de fogos, explodiu enchendo de luzes o manto negro sobre o mar. Lorena era puro êxtase, frenesi de felicidade, o álcool a fez mergulhar no mar. Ao emergir parecia uma deusa seminua. Seu vestido branco sutilmente fino colou ao corpo. Nitidamente dava pra ver seus pêlos pubianos, negros sob o translúcido tecido. Ao vê-la assim Sidnei teve um acesso de fúria. Pegando-a pelo braço, puxou-a para a penumbra, dizendo-lhe palavras duras. Despiu sua camisa e a envolveu por sobre a cintura, cobrindo-lhe o ventre. Mais um fiasco, numa noite de virada de ano.

Alguém batia com força na porta da frente. Os meninos trêmulos, paralisados pelo medo, num quase num sussurro perguntaram: -Quem é? Era Seu Antonio. Aos gritos tentava dizer algo ocorrido a sua velha mãe, dona Emília. Uma lufada de vento apagou todas as velas. Aquela noite tempestuosa, trouxe medo, trouxe dor. Dona Emília fora encontrada morta boiando nas águas turvas do açude, o balde que levava, boiava  junto ao corpo.

O carro avançava. A imensidão do infinito escurecera. A escuridão dizia: é noite. Noite nos pensamentos, noite nas mentes de tormentas, tenebrosa noite nos corações, vacilantes. Raios, trovões. A anunciar: dali pra frente, a jornada se tornaria mais difícil. Onde há discórdia, as chances de dar certo diminuem, e  de dar errado só aumentam. Uma ponte, semi destruída logo a frente. a força das águas, facilmente consegue engolir um frondoso carvalho, uma cerca, de arame farpado, uma cancela de cedro seminova. Sem hesitar engoliria sonhos, planos, engoliria projetos, as esperanças de chegar a um lugar. Abismo no peito, cratera, aberta na alma. Tão fria, capaz de encerrar sonhos, trajetórias. Entrelaçar história de vidas. A cem por hora. No rádio, a música dizia: “Nós fomos feitos um pra o outro...”