Derick acordara tarde. Costumava abandonar as almofadas, entre cinco e meia, e seis da manhã. E ia direto lá pro quintal. Punha-se a dar carreira em pardais e sanguis. Felinos amavam aquilo. Exercício matinal, dos bons. Naquele dia, acordara dez e meia. Fez um alongamento, de couro e ossos. Com o corpo inteiro saudou a primavera. Primavera sem flores, primavera sem o canto da cigarra. Primavera apática, anêmica, sem coragem pra nada. Mal sabia Derick, estaria com as vidas por um fio. As sete, que tinha. Todas, de uma só vez, poderia se esvair.
Thomas precisou usar óculos cedo. Mal vira amadurecera a infância, e os olhos pediram arrego. Um aperreio assim, feito nuvem espessa saindo dos recônditos escuros das cavernas dos pensamentos. Se insinuando, feito coisa que nunca se esperava acontecer acontecia. Os pais se separaram. Ir morar na capital, nunca aquilo, um dia, passara pela sua cabeça. Abundava novas experiências no meio da sua existência. Sorrateira inquietude indo se enroscar no alvorecer da adolescência. E ter que aceitar como normal, como parte do ser o que normal não era. O cristalizar das quinas dos alpendres, o condensar dos altos galhos dos pinhãozeiros. O congelar da ponta dos chifres do deus Pan, zeloso cuidador das matas e florestas.
Movido pela curiosidade, o deus mítico, metade gente, metade cabrito escalou o muro que separava a selva da civilização, queria ver o que faziam as pessoas nos quintais àquela hora da matina. A julgar pelo cheiro reinante, Sinhá Inácia, estaria cuidando de uns peixes pra fritar pro almoço. Afinal era uma sexta-feira. Santa como todas as sextas-feiras o são. Em meio a isso, uma discípula de Leviatã, atraída pelo odor do pescado marinho, viera à busca de alimento. Nhá Inácia, imediatamente avisada por Miguel Arauto, deu posse dum machado e desferiu assaz e certeiro golpe, partindo a serpente em duas.
Derick tivera ligeira impressão que o dia quisera o enganar, propositadamente deixando que dormisse um pouco mais. Acordar tarde fazia as criaturas ficarem enjoadas. De olhos inchados, cara amassada. Foi olhar a rua, pra ver como estavam às coisas. Quem dera, o leiteiro fosse passando. E, com um pouco de sorte, uma de suas garrafas derramasse. De um salto o gato saiu do sofá pro tapete da sala, e dali pra porta da frente. Qual não foi sua surpresa ao olhar a rua.
Não viu uma única pessoa, na rua. Ali só havia bichos, só animais andando nas calçadas. Espera lá! Animais com corpos humanos? Isso mesmo. O que teria acontecido durante a noite? Pras pessoas amanhecerem transformadas em animais. E eram todos bípedes. Porcos, carneiros, pavões, jumentos. Cabeça de bicho, corpo de gente. “Apenas apanhei na beira-mar um táxi pra estação lunar/ Pelos raios desse sol lilás/ Pelo fogo do seu corpo, centelha/ Belos raios desse sol...”
Treze pessoas se estavam sentadas, ao redor de uma mesa. Uma garrafa de vinho, uns bolinhos de trigos num prato, sobre um forro alvíssimo. Uma toalha sobre um banco, uma jarra e uma bacia no chão. Cena estática, porém pulsante. Noutra mesa, tão fisicamente real quanto à primeira, uma natureza-morta: fruteira com palmas de banana, mangas, melão, peras, laranjas da terra. Ali pessoas-animais discutiam destinos, divisão de bens, herança de antepassados. Duzentas horas, não seria suficiente para decidir o que discutiam ali. Atravessariam o dia, a noite e madrugada se preciso fosse. Celebrava-se a instituição da vida eterna, na primeira mesa. Enquanto decidia-se a efemeridade do ser na segunda.
Tico e Teco, assim foram denominados por Thomas. Dois porquinhos-da-índia que ganhara do pai. Chegaram feito filme mudo, sem trilha sonora. Os fones de ouvidos, no menino, faziam com que fossem sentidos, mais com a percepção visual. Os olhos esses eram que faziam a festa. Lá fora, um terral desses, assim, encrenqueiro cutucando charcos e mananciais. Frio, e calafrios queriam entrar a pulso pra dentro dos corpos dos viventes. Obrigando braços, e mãos a dizerem, não. Obrigando-os a encolher a alma, de tanto frio aqui, vindo de lá fora. No aconchego do pequeno apartamento, mais dois inquilinos enjaulados. Agora duplamente engaiolados, recebiam efusivas boas-vindas. Mal sabiam Tico e Teco, suas duas únicas vidas, estavam com os dias contados. E isso seria muito mais em breve, do que pudessem imaginar.
Da reunião familiar somente quatro deles, concordariam com o acordo. Corpos animados sairiam dali arranhados, nas almas, nos espíritos. Corpos inanimados, dentro do armário calavam sobre xícaras, de porcelana, canecos de louça, que um dia pertencera a membros da família, que já se foram. Herdado seriam por outros parentes. E que talvez, não os guardassem com o mesmo valor afetivo. Era muito provável que tomassem café, água, e até vinho, cachaça e cerveja com eles. E um dia, se embriagariam, deixariam cair e quebrar. Possibilitando assim, o fechar de um ciclo. Deixando enfim descansarem em paz. Alguém há muito, do outro lado, por aquilo esperava.
Derick através de suas lentes via os Hámsters [ se negava veementemente trocar o nome do seu magnífico almoço asiático, pelo reles nome de porcos indianos]. Afinal pratos bem decorados, e belicosamente nominados enobrecem qualquer cozinha. Bigodes de gato, binóculos cheios de olhos, podia não significar assunto de um mesmo contexto, mas era. Thomas só deu por falta de Tico e Teco quando já estavam sepultados no estômago de Derick. E pra resumir a epopéia gastronômica, assim que o pai do menino soube do duplo “hamstercídio” tratou de comprar uma espingarda. E um só tiro, foi o bastante pra colocar fim a imensurável trajetória físico existencial do ‘desinfeliz’ felino. E que, de bucho cheio - sorria - lá da eternidade.
A cidade estava bonita. Enfeitada para festa. Meio-fio pintado de cal, palanque montado, bocas de som, fitas coloridas balançavam ao vento. Um homem de paletó, chapéu de massa, óculos escuro, de pé, em frente a matriz observava. A torre da igreja pontilhada de bicos de luz até o topo. De tardezinha, início da noite o espetáculo era magnífico. Tudo seria redundamente perfeito, se o homem ao qual citamos não fosse, nada mais nada menos que o prefeito da cidade. E sua descomunal cabeça de touro.
Um porco estava sentado na porta do mercado. Um charuto cubano no canto da boca, os olhos, pro trás dos óculos escuros, eram de quem não conseguira dormir direito naquela noite. Três rapazes conversavam ao pé do balcão da vidraçaria dos irmãos Carvalho: um cavalo, um asno e um mulo. Escusado dizer que os corpos dos eloquentes mancebos era de gente, e as cabeças, essas sim, eram de equinos. Falavam do quanto gostariam de estar na casa de alpendre, lá no sítio Batatal, ou se banhando nas águas do rio Ipanema com os amigos.
Tonho mutuca, nêgo Lila e Tião eram tão amigos que não aceitavam jogarem em times diferentes. Se acabaria a Associação Atlética Ipiranga, mas nunca acabaria a amizade, dentre um bode, um carneiro, e um cabrito. No sábado pela manhã, compromisso certo, passar na casa de Seu Sebastião Amaral, assistir a rinha, apostar nas brigas dos galos, nem que fosse: moedas e balas doce. Dinheiro era igual pé de cobra, quem visse morria.
Negrote, Arquibeiço, Cláudio e Roberto, eram afeiçoados galos de raça. Um dia, nêgo Jorge se desentendera com o melhor amigo de Negrote. E acabariam brigando bem no meio da rua Benedito Melo, com frente a banca de revista de Carlos Jorge. Nêgo Jorge, botou a caixa de picolé na calçada, tirou as chinelas. E partiu pra brigar, e bateu, bateu tanto no amigo que talvez, até hoje os zumbidos que ele sente nos ouvidos seja resquício daquela pisa. Pareciam dois cachorros, brigando. Na verdade eram.
Era assim, quando colocava os óculos, se via animais. Tirava-os e eram seres humanos novamente. Bem no centro, dentre eles, um dia ainda apareceria um cordeiro, de cujos olhos emanava uma luz brilhosa. O tempo inteiro, seguido por um touro que tinha pelagem escura. E seus olhos eram vermelhos sanguineos. E como dizia o livro eterno: “as pessoas continuavam dando-se em casamento.” O bode com a cabra; o carneiro com a ovelha; o mulo com a mula; Pavão com a perua.
A cidade se enchera deles. Um casal de cassácos, um preá, um tamanduá, um rinoceronte, um elefante. As mulheres que vendiam o corpo tinham cabeça de gazela, duma gata parida, uma cadela no cio. Viviam suas rotinas de fazer compras, de irem a escolas, ao banco, as praças. Tinha tempo até de visitar museu, que lhes exigia equilíbrio espiritual. A muito, não se usava almofada de renda de bilros, máquina de datilografia, máquina Polaroid. A caneta tinteiro de Delmiro Gouveia. O pneu do automóvel, de buzina engraçada. Mais parecia um pneu de motocicleta, de tão fino. A imagem de Nossa Senhora pintada por um nordestino, tão bem acabada, que entristecia. A quem olhasse bem nos olhos da virgem Maria.
Nina fizera aniversário, por aqueles dias. Quis se sentir feliz, com a data de vida renovada. Seria o bastante sair do apartamento, ir à praia à noite, curtir Geraldo Azevedo. E aquele setembro, antes mal-assombrado, renovara-se desinflamado das vicissitudes, se apresentando com toda sua realeza. Orvalharam-se os olhos do amigo, ao ouvir o cantar ao vivo, do poeta. Em plena noite, a beira-mar, tão doces recordações. Saíram catando pelas beiras, migalhas de felicidade no precipício da existência. Por instantes, se tornariam as pessoas mais felizes do mundo. Vivendo coisas, que quase ninguém se dava ao cuidado de viver. Sem se importar com mais nada.
“Quando fevereiro chegar/ saudade já não mata a gente/ A chama continua, no ar/ O fogo vai deixar semente/ A gente rir, a gente chora...”
A pintura emoldurada na parede, dizia: “Ambassadeurs: Aristides Bruant dans son cabaret 1892 – Toulouse – Lautrec.” era uma réplica. O original, só Deus sabia onde estava. A soleira da porta ficou com as marcas de botas. O couro de urso hibernava, em forma de tapete. Era muito provável que dali a pouco, o embaixador fosse ao Bar Comercial. Nada combinado, porém acabavam sempre se encontrando. O professor girafão e o dono do rancho Búfallo Bill. Em conversa iam parar no povoado Mata-burro. E riam - a bandeiras despregadas - recordando velhas aventuras. Um revólver niquelado calibre 38, foi parar em cima da mesa, um maço de cigarros, uma cerveja, das de garrafa. Dois copos americano, com doses de cachaça. O policial rodoviário federal, vendo tudo. Saiu lá do seu posto, e veio tomar satisfação. Acho melhor parar por aqui. Essa história ainda vai dar muito o que contar.
O chão de mato, tantas vezes pisado recrudesce. Nada mais nele nasce, vira vereda. E até que um dia alguém se invente de contar, guardará seus mistérios.
É O FIM...







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