Uma xícara de café de arrumação, uma xícara de café de conversa, com discussão. Uma xícara de café, de olhar o mundo. Uma xícara de café. Uma colher de mexer, doces pensamentos. Uma xícara, quase meia, de solidão. A porta, da casa da minha vó, estava sempre aberta. Para tudo que quisesse, por ela, entrar: meninos, zoada, vento, ventania, redemoinho, senhora alegria, dona tristeza, poeira da estrada. O sol se arriscava. Entrava só um pouquinho, depois se ia.
Era uma casa de taipa. Tudo tão, impregnadamente túrgido de rusticidade. Os caibros roliços, retorcidos, escuros. Renitência de negritude, de fumo, e fumaça, emanada do fogão a lenha. Tudo ali, tão alucinadamente trôpego. A cozinha era o que se podia chamar, de, o maior cômodo daquele casebre. Panelas de estanho suspensas, pelos seus pegadores, enganchados em pedaços de arame que semelhavam anzóis gigantes, pendidos dos caibros.
Dia, de lavar roupas, dia de duras pedras, de chão - embranquecidas de alvejantes – sob moles pedras de sabão. Palavras quentes fervendo, saídas da boca, com todo ranço de quem revoltada estaria, com o que era feito de todas as coisas. Com a lida, com a vida. Dia de lavar roupas amostrando, que aquilo não era vida de gente. E que nenhum ser vivente merecia - viver - vida daquele jeito. Dia de lavar roupa, era dia de tanger meninos, tanger galinhas do terreiro, tanger burro. Dia de ajuntar tudo, dia de tanger a falta de coragem. E a raiva ia pingando na areia, porque mesmo com tudo aquilo, tinha que ir. Para onde estava indo mesmo? Pra lá. Lá pro beiço do riacho, se fosse tempo das trovoadas. Ou, danava-se pro açude, que no verão ficava feio. Mas, um dia, bonito novamente estaria. Quem sabe num sábado. Assim, bem de tardezinha.
Deteve-se olhando bem direitinho a rua. Achou que, aos olhos, se apresentava diferente. Não sabia exatamente o que, mas que havia algo, havia. Aquele pé de Velame? Como foi parar lá em cima das eiras, da casa de dona Aída? Foi o vento que levou! Foi não senhor, foi um pardal que cagou a semente lá! E que símbolo era aquele, na fachada da casa de dona Maria? Nunca que houvera percebido aquilo lá. E olha que, naquela rua, morava desde que nascera. As paredes da casa da minha vó. Toda vez que ia lá, sentia como que queriam abraçar. Sentia o calor, seu carinho, parva de saudade perguntando: Por onde andastes? Por que te demorastes tanto, a voltar? A cada vinda, quase não o reconhecia, sempre mais e mais esticado. As paredes da casa da minha vó tinham a cor, e o cheiro dela. À medida que ia, minha vó, envelhecendo, também as paredes da casa iam, adquirindo rugas, as que marcavam seu rosto.
Dia de lavar roupas, achou um talão de luz, não pago, por esquecimento. Achou de ser achado, logo ali no bolso da saia. Com a mão da raiva o amassou. Dia de lavar roupas, sempre, sempre, exigia dose extra de cortisol, nas estradas das veias, no caminho do sangue, quente. O aparelho de telefonia móvel, por si só, fazia um apanhado de tudo. O mundo chegando, na telinha, em todas as suas nuances. Mensagens de amor. Palavras, imagens, e o poder de mudar vontades, opiniões, comportamento, humor. Desejos e vontades ganhavam - e perdiam - forças. Um céu que não era habitado por Deus, e o poder de mudar de azul em lilás. As meninas na praça, debaixo de um sol escaldante. As roupas excessivamente ínfimas. Cheias de carne, de energia, de calor exalado. Não havia vontade suave, não havia desejo originalmente vindo do coração, os impulsos nervosos convergindo para as satisfações pessoais. Vontades exacerbadas. Inexistência de discernimento. Os netos mangavam de vó porque na hora do jornal nacional falava com o homem da televisão. Desculpava-se por cochilar, devolvia o boa noite. Oxente! E vocês não ficam aí, falando com essas televisões pequenininhas? Mas aqui vó, as pessoas conseguem falar com a gente!
Pardais não deviam discutir política. Eles, nada entendiam desse assunto. Mesmo assim, discutiam, e ficavam com raiva, uns dos outros. E tomavam partidos - literalmente - e brigavam. E marcavam território esfregando as penas do rabo nas biqueiras, nas redes de fios. E ai, do filhote de pardal desavisado que se metesse a besta, e ultrapassasse aquele limite. Uma espingarda soca-tempero. Dormia seu fedor de pólvora, entranhada entre caibros e ripas. Um facão embainhado num armador de rede. Uma imagem de Joana D’Arc, - numa moldura almofadada, com frisos de canto - ainda moça, jovem guerreira, na frente de batalha, tão longe de França. Porém, tão familiarizada com tudo aquilo. O piso irregular obrigava a andar, como quem pisava em brasas. E não havia muita diferença entre ali, e tropicar nos amoitados e veredas que compunham o vasto sertão, de em derredor.
As corujas rasga-mortalha tinham consciência da sua importância para sua prole, também pra cidade. As guardiãs dos templos, predadoras de morcegos, devoradoras de pequenas cobras, lagartixas, rãs, insetos, camundongos, gabirus, lacraias, escorpiões. Sobre corujas, meninos só sabiam coisas ruins, que traziam mau agouro. E que eram aves de bruxas, magos e outras criaturas abomináveis. Por isso consideravam-nas inimigas mortais. As plantas nos caqueiros, elas quase não conversavam Simplesmente por não haver muita coisa, entre elas, pra dizer. Diante de tanta quietude, uma riqueza de sentimentos, de perfumes, de meles, e de cores. A ausência de bons gostos, só se via entre pessoas. Equipados com seus laptops e aparelhos de telefonia móvel. Os humanos pareciam, cada vez mais, desumanizado? Não seriam as plantas que estariam se robotizando, jamais. A mulher conversava com elas. Algo saudável, para ambas. Além da reciprocidade. Sentia que sua fala as alegrava. Lá da sala vinha vindo uma música de ciranda, do tempo que as crianças, ainda brincavam em frente da televisão.
As paredes e suas reentrâncias, com variada serventia. Pendurava-se nelas touceira de corda, relhos de bater em animais, chapéus de couro, uma lamparina a querosene, uma cesta de cipó contendo folhas de catingueira, com ovos de galinha, uma sacola de pano, com um cordão na boca, cheia de farinha de mandioca. Um embornal encardido. O portão do chiqueiro dos porcos, enferrujado nas pontas, pintura gasta, de cor indefinida. Tinha dia que parecia azul claro, desbotado, noutros parecia um verde desmaiado. Muito viu, muito aprendera, muito ensinara. Crianças montaram nele, se balançaram. E foi tanta dor nas suas dobras, e o lamento viria em forma de assobios que imitava a respiração. Os meninos não sabiam, um dia, se vingaria.
A terceira e última porta, a da despensa de minha vó. Essa era puro mistério. Às vezes luminosos; às vezes dolorosos. Os quartos, não tinham portas, só cortinas. A habitação toda, talvez, não tivesse mais de dez côvados de fora a fora. Por quatro de largura. E menos de três, de altura. Talvez três no seu pé direito. De idade, porém, mais de século. Cada cômodo por menor que fosse, para as crianças, eram vistos como enormes. Aquele era tempo, em que os meninos ainda usavam calças curtas. As meninas, vestidos de chita. Muitos anos se passaram. Porém nunca esqueceria o que vivenciara ali. Minha vó, com uma xícara de café enxergava melhor o mundo. As coisas pareciam mais aceitáveis. Do líquido negro, tênue fumegar subindo embaçando a vista. Inebriando com seu perfume, a alma, os cabelos, as maçãs do rosto, os lábios finos, as pálpebras decaídas por cima dos olhos, de índia, de minha vó.
Os batentes eram feitos pra brincar de subir. E subir trocando rapidamente os pés. Quantas vezes brincamos daquilo. Nem lembrava mais, quantos anos tinha. Quando Francisco caiu, e quebrou a perna. Depois foi a vez de... De quem mesmo? Não lembrava mais. A porta, da despensa. Sensação estranha invadia qualquer um que a olhasse. Parecia que alguém para além dela, estivesse observando. Olhos e ouvidos invisíveis, vendo, escutando. A porta, parecia um ser dotado de olhos, ouvidos, e uma boca, que quase rindo, sorria. Uma porta com sentimentos, com características humanas. Uma porta, que sentia saudade, que se alegrava com a chegada de pessoas, que ria, e que chorava, e ficava triste quando estava sozinha. Pois lhe batia uma solidão.
Um pedaço de couro de sola, dependurado ao lado espelho, servia para amolar a navalha do meu avô. O pincel de barba, de pelos brancos. O cabo de segurar, esse já era branco. Seria marfim? Talvez osso polido. A tesoura, e sua haste de apoio pro dedo indicador. Como uma vírgula, servindo, exatamente para isso, pra dar uma pausa. A chapeleira aceitava cavalheiramente: bengalas, quepes, boinas, bonés, gorros, e toda variedade de adornos de cabeça. A depender da freguesia que a barbearia recebesse, no diuturno salão azul, do meu avô.
Um balaio com frutas, mangas, mamões, laranja, melancias. Duas jacas num canto. Outro balaio com leguminosas, abóboras, feijão de corda, debulhado. Uma touceira de milho seco na espiga. Tinha dias que as coisas não pareciam reais. Como se tudo tivesse sido criado, como em uma revista em quadrinhos. E quando as pessoas falavam, suas falas iam estupefatamente plasmando sobre suas cabeças, em estapafúrdios balões. Se gritassem, poderiam sofrer grave acidente. Atropelados por grotescas letras desembalonadas caindo, despencando a não suportarem mais, o peso de si mesmas.
Casteado, sobrinho e afilhado da minha vó. Vagabundo, não queria nada com nada, na vida. Fugia de trabalho ou qualquer ocupação. Fugia, como o diabo foge da cruz. Dado a bebedeiras. Quando bêbado, dormia pelas calçadas. Mas o lugar preferido de dormir, a despensa da sua tia-madrinha, minha vó. Foi porém, numa noite de inverno, que o mais estranho dos acontecimentos, até então, percebido naquela casa ocorreu. Lá fora o vento assoprou anunciando um vendaval. E lá do pé da serra, veio um redemoinho que chegaria batendo nas portas igual touro brabo querendo entrar, ou por abaixo a humilde moradia.
Não dava proa distinguir ao certo que cidade era aquela, que dava pra ver através da janela. Talvez fosse apenas uma cidade imaginária. A destruição era amplamente visível. Parecia cena de filme de ficção científica. Daqueles que o mundo, num tempo tão à frente, que o progresso metaforicamente alardeado jamais existisse. Isso a menos de meio século inexplicavelmente e aceitavelmente, nunca chegara. As ruas e avenidas, as pistas asfálticas cheias de destruição. Como a dizer que a humanidade que teria chegado o armagedom, o apocalipse. O que se via naquele instante, era exatamente o que sobrara.
E o trânsito nas nuvens do céu da cidade, muito mais intenso do que o de lá de baixo: tráfego de automóveis, carroças de burro, carruagens, monociclos, triciclos, motonetas, lambretas, patinetes. Homens, meninos, moças e mulheres, idosos, cegos e seus cães-guias. Ao entrar naquele cubículo, que a minha vó chamava de despensa, era como se entrar num outro mundo. Um universo paralelo. Como se abduzidos fossemos. Tragados para um mundo interplanetário, rico em tecnologias, cibernético. Para muito além daquela velha choupana. A porta entreaberta dava pra ver apenas uma nesga de escuridão profunda, capaz de dar medo, a quem a olhasse. Se acaso minha vó entrasse lá. E de cá alguém a chamasse. Simplesmente ela não conseguia ouvir os chamados. Como se realmente tivesse ido, para um lugar muito distante, dali.
A impressão que se tinha, era, que pra além daquela porta, houvesse um mundo mítico. A visão que se tinha, era de um vasto imaginário. Algo do espaço sideral, naves espaciais transitando numa alucinante conexão. Não se sabia que tipo de controle havia, para que as naves nunca se chocassem, umas com as outras. O tráfego era intenso, eletrizante. Havia excessiva exposição de brilho e cores. Uma tecnologia descomunal imperiosa, para milhões de anos-luz além da capacidade humanóide.
Dias, de tempestade faziam sumir a claridade diurna, dando lugar a uma escuridão palpável, possuidora de volume, cor, temperatura, com capacidade de ocupar cada milímetro cúbico de medo. Nessas ocasiões minha vó ia para debaixo da cama. O ar ficava sufocante, delirante, agonizante. Parecia puxar o único fluxo de oxigênio que ainda restava. Enquanto o vento norte abalava as estruturas daquele casebre. O laptop, o telefone móvel, e a maioria dos minicomputadores não haviam sido inventados ainda, nessa época. Porém, havia momentos que dava pra se ouvir nitidamente ruídos produzidos por jogos eletrônicos, vindo de lá, da dispensa de minha vó.
Na dispensa da minha vó, devia haver um campo magnético. Ali dentro, devia haver uma espécie de portal cósmico que atraía energia do universo. Seres intergaláticos, do nada, vinham parar ali. Talvez por puro acaso. Ou, por desvio de rota interplanetária, por acidente, ou incidente cibernético. Quando isso ocorria, as pessoas da casa nada percebiam. Ou quando percebiam, interpretavam erroneamente. Viam como sendo fenômenos místicos. Associavam a coisas vindas do campo da espiritualidade.
Meu avô acordou atordoado. Nu, da cintura pra cima se levantou da camarinha. De debaixo da cama pegou um facão e se dirigiu para a porta da cozinha. Uma certeza ele tinha, aqueles baques na porta dizia que do outro lado, não era só o vento que batia. De fato, lá fora uma aeronave planava o terreiro. Pilotado pó um jaguar, isso mesmo um felino metade bicho, metade humano que tinha capacidade, de raciocínio e falava. Possuidor de muito conhecimento histórico e filosófico. De co-piloto, um leopardo arrogante, de espírito aventureiro. Ambos navegavam uma espécie de dirigível, por sobre o nordeste. Tinham acabado de vir do tempo da guerra dos Guararapes. Isso porque eles tinham autonomia pra escolher em que época queria estar, pois navegavam uma máquina do tempo.
Num canto da casa havia um local de orações, ali era permanentemente mantida aberta, uma bíblia, vários santos da igreja, entre estes o padroeiro da paróquia, santo Antônio de Pádua, que por sinal era representado pelo dito cujo, tendo Jesus, ainda menino, no colo. Isso em si, já seria motivo pra interrogação, como um santo vivido muitos séculos depois que Jesus morreu crucificado, poderia ter ele, o Cristo, nos braços, ainda criança de colo. Seria Francisco um visionário.
Um homúnculo vestido com roupas futuristas, sentado no banco, chamado de péla-porco, de meu avô. Serenamente se estava. Tentou exercer um contato com o velho, balbuciou palavras ininteligíveis. Ao perceber que seu interlocutor nada entendera entregou-lhe um dispositivo, e gesticulando pediu que o introduzisse no ouvido. Meu avô aceitou, e atendeu o que lhe havia solicitado. E daí em diante, passaria a se entender. O que o alienígena queria dizer era que: teria vindo parar ali, porque faltara combustível na sua aeronave. E mostrou uma fórmula de como poderia conseguir o tal adustível. Só que meu avô teria que ajudá-lo a conseguir os componentes químicos.
Na porta da despensa, escrito com giz branco, umas letras, um índio, feito de traços. Na verdade, cinco traços, os dois braços, as duas pernas, o tronco, e a cabeça, um pequeno círculo. Só se sabia que era o desenho de um índio, porque portava arco e flecha, e um pequeno traço sobre a cabeça dando a entender que fosse uma pena, ou um cocar.
E eis que Casteado apareceu. Lá estava, a lapa de xucro. Como sempre, não sabia onde por as mãos. Ficava mastigando com os dedos, as abas do velho chapéu de palha, trazido junto do peito. E ele lá, calado, plantado, na cozinha de minha vó. Não dizia um nada. Ao virar-se, e dar de cara com o afilhado. Minha vó, coitada tomou o maior susto. Afinal aquele lá, fazia anos já, que desaparecera. Até dado como morto, já fora. Bença madrinha! Ô menino! Por onde tu andava? E me chega assim de madrugada? Como entrou? A porta eu nem abri ainda?
É O FIM...




















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