A lua cheia. Translucidamente vagando sobre uma tarde entre brancas nuvens, de céu azul, tendo logo a baixo o frenesi de um dia de feira. Um sábado do tamanho da cidade. Em suas vias, suas praças, igreja, bares, especificamente nesses dias simplesmente a urbe implodia. Turbilhão de gestos, profusão de vozes. Titânica massa cheia de intenções, algumas boas, outras más. As mentes cheias de vontades, de fazeres, de afazeres, de buscas, de ganhos, de achados, e de perdidos.
E parecia que tudo o que menos importava era um bando de pardais discutindo relação. Pior, acabando indo as vias de fatos. Dois deles se engalfinharam, e se esqueceram que estavam a metros do chão. Do alto do beiral do mercado caíram embolados, foram se esborrachar na via pública. Por pouco não foram trucidados por um automóvel que velozmente seguia seu trajeto. As andorinhas mais parcimoniosas preferiam a tranquilidade dos quintais, a companhia dos saguis. A disponibilidade de mamoeiros, goiabeiras, mangueiras. Não esperariam a assembléia das garças, nem tampouco se incomodariam com os tratados inventados pelas aves de rapina que tentavam ditar regras. Gaviões, abutres detestavam o “modus operandis” de seus parentes equidistante os urubus. Para eles, pouco importava a arrogância, a empáfia, sabiam da lei que vigorava tanto na selva, quanto na cidade: a lei de que só os mais forte sobreviveriam.
O homem, sabia exatamente o que iria fazer, naquela manhã de sábado. Acostumara a trazer tudo meticulosamente anotado, numa pequena caderneta anotava. Uma prática trazida da juventude, de quando vendia carvão, na carvoaria do pai. A lápis grafite, grafava, com letras que pareciam caroços de milho, de tão feias. Em ordem cronológica escrevia sucintamente o que ia fazer, ao longo do dia, a cada dia. No alto da folha colocava a data com números: dois dígitos para o dia; uma barra; um dígito para o mês, mais uma barra; e com dois dígitos fazia o ano. Com fé em Deus, dizia, cumpriria sua missão cotidiana. Primeiro compromisso para o turno da manhã. Anotava: Manhã: comprar bananas, café torrado, fumo picado; segundo compromisso para o turno vespertino. E escrevia a palavra, Tarde: Logo a frente fizera o desenho de um pequeno círculo, com um xis sobrepondo-o. E a frente desse símbolo, o nome de uma mulher: Esmeralda. Era um código, que só ele entendia. O que significava? “Matar Esmeralda”.
A rua, cheia de gente, indo e vindo. A rua, nem se incomodava mais com o burburinho provocado pelo povo, na feira. Acostumara-se com o sufoco dos prédios, das construções terminadas, de outras tantas em andamento. O tráfego intenso, a disputa dentre carroças de burro, carregadores de estivas, meninos e homens que faziam frete de feira. Espaçosa, vadia, vagabunda, assim se dizia a rua: Meretriz. Se entregaria a quem pagasse melhor. Uma vez negociado o valor, seria usada, lambuzada, abusada, ao bel-prazer de quem pagasse. Às vezes se submetendo aos caprichos de seres sádicos, psicopatas, possessos, perturbados mentais. Feirantes, compradores, viajantes, forasteiros, aventureiros, salteadores, gente da melhor e da pior espécie. Tudo aturdidamente mesclado, sem o menor remorso faziam, sem o menor pudor usavam, e depois se iam. Simples assim. Depois, iam embora, Deixando para trás um rastro de nojeira, fezes, urina, mau cheiro, lixo. Garrafas quebradas, uma orelha, um olho humano, sangue. Rua, depois da feira, esgoto a céu aberto. Rua, aberta ao céu, o tempo todo jamais tirara os olhos de lá. A prestar atenção. Afinal, era para lá que se dirigia.
A placa de latão, pintada de branco, com letras azuis: “Rua do Sol”, afixada bem na quina do museu. O sol, entediado, resvalava por cima dos toldos. Mexia e remexia com quem estava inquieto, coçava o pelo do cachorro, afobava as orelhas dos jumentos, cansados. Os bichinhos, tão cansados acabavam se deitando no cimento quente das calçadas, aquecido. Enxadrezado, acinzentado, rude paralelepípedo. Ali mesmo urinava, vomitava suas línguas de fogo em brasa. Tomaria toda água que seu ventre suportasse. Lá ia o astro-mor se intrometer nas cores da sobrinha, da moça que ia, desenhando disformes e invisíveis figuras. Enormes rabos de perfumes captados pelos olfatos aguçados. O deus Osíris apontava sua lança para o alto da torre, os menos desavisados chamavam aquilo de pára-raio. A deusa Minerva vigiava do alto de um sobrado o que restaria ao final daquela batalha: inumanos e humanos sem vencedores, só derrotados. Amornava as asas dos pombos que catavam migalhas, pelas calçadas. Ao tempo que marchavam, defendiam suas fêmeas. Arrulhavam, arrulhavam, só para impressionar. E quando fosse bem de tardezinha, ia indo, ia indo, até sumir no horizonte.
A moça via-se por inteiro, refletida no espelho do quarto. Olhos grandes. Analisava o rosto, e todo o corpo. Enquanto alisava os cabelos. O frescor do banho que havia tomado avivara-lhe o espírito, abrira-lhe os poros, ativara a circulação. Doce perfume a embalar a mente. Toque cítrico ativando os pensamentos. Estava decidida, outra vez se encontraria com seu namorado. Entregar-se-ia ao prazer com ele. Decidida, a mudar de vida naquele sábado. Seria naquele. Daquele não passaria. Escolhera aquele final de semana, para acabar com a vida de sua mãe. A idosa de noventa e seis anos, muito já vivera Na sua concepção tinha que morrer. Prostrada em cima de uma cama, com demência, pelo mal de Alzheimer. Afinal, já havia dez anos que cuidava dela. Não suportava mais, quem já estava ficando doente, propriamente, era ela.
Ir pela rua, fazia de cada um, parte de algo grandioso, místico. Andar a rua e a vida pareceria mais leve, mais intrigante, interessante. Avivando o branco do terno e do chapéu de massa dos citadinos. Andar pela rua renovava a alma dos viventes e dos manequins nas vitrinas. Zé Pilintra só andava assim, bem elegante, terno gravata, chapéu e sapatos envernizados. O preto velho cutucava o saci que doidamente passou rodopiando e derrubando, por pirraça, as bugigangas dos mascates, que se valiam dos santos do sertão: Valei-me meu padinho Ciço e padim Frei Damião! E tudo isso se revertia em fé. E ajudava a enternecer os problemas da gente humilde, que os cartões postais procuravam esconder. O prédio do correio parvo de secularidade, o jardineiro absorto em suas tesouradas na relva, o pipoqueiro pipocando, em manteiga derretendo-se de calor, o menino jornaleiro quase virando ao avesso, em gritaria. Enquanto o negro engraxate, era, pura calmaria. Tárcila do Amaral aqui, material suficiente para centenas de telas teria. E o que parecia diáfano concretamente se materializaria. Está sentindo? Cheiro de tinta.
O moço, encostado no poste da esquina. Um livreto de poesia a ocupar-lhe os olhos. Letras refletidas no translúcido par de óculos. Absorto em pensamentos. A poesia ia, e vinha, e esperaria pacientemente que virasse um cadáver. Ou arranjasse um. E se diluiria por entre suas preocupações e desejos. Assim, feito oração rezada sem fervor. Quem sabe virasse frase de sua lápide. O ônibus, amarelo e preto dizendo com sua carga e seu letreiro que escola era destino. Os pardais displicentemente pousados sobre os fios. Desconheciam o perigo que os rondava, a poderosíssima corrente elétrica fluía sob suas frágeis garras. Aviões enormemente pesados, desafiando a gravidade levantavam vôo, carregados de sonhos, encomendas, embaladas para presente, transportando doenças e doentes incuráveis, disseminando dúvidas, incertezas pelo mundo a fora. Indo, em missões importantes, sabia-se lá pra onde.
Célebre encontro semanal, a que todos se propunham participar. Belo encontro social. Junção quase perfeita, de seres vivos, e entes mortos. Gente almada e desalmadas, tudo junto. Assim era a feira. Caldeirão fervente de sentimentos, desejos, provocações, realizações, frustrações. Uma salada de frutos incomuns, frutas temporãs, exóticas, legumes, verduras, cereais vindos de lugares distantes, que ninguém jamais saberia o trabalho que dera pra chegar até ali. Negros teriam sido explorados, mulheres teriam perdido filhos, e suas filhas tiveram que se prostituir para não morrer de fome. Mercadorias embaladas na surdina, às pressas. Ensacados sem a menor higiene, para viajarem na escuridão da madrugada, e evitarem passar nas alfândegas, e nos postos fiscais. Bolachas, barras de doce, pastéis, caldo-de-cana, fubá. Mulheres benzedeiras e suas ervas medicinais, tudo meticulosamente ensaiado para funcionar bem, para vender, para obter algum lucro.
Gastaram suas vidas anos a fio naquela lida. Guardas que perseguiam, e caçadores de aves e pequenos animais que fugiam, defendendo cada um, seus interesses. Passarinhos engaiolados, apinhados em ínfimas combucas de dois olhos. De onde agora viam o mundo por outro ângulo. Através de portinholas, do tipo guilhotina. Redes de pesca pendidas debaixo de um pé de algaroba. Cena surreal. Semelhava ninhos de alienígenas, teias de aranhas gigantes. Quebra-queixo, tapioca, bolo de massa puba, pé-de-moleque, bolo na palha de milho, bolo na palha de bananeira. Um extraterrestre passou pela feira do rato. Observou tudo detalhadamente. A verdade é que ninguém, ninguém sequer o percebeu. Provou beju, água de coco e tapioca. Rapazes tiraram fotos ao lado de sua moto, que ficou estacionada com frente ao bar de Seu Nelinho.
Um menino, seria sempre um menino. No sertão nordestino, na Arábia, na Turquia, na índia, ou na Palestina. Naturalmente qualquer ser em tamanho reduzido com as características de um humano, se não fosse uma menina, indubitavelmente seria um menino. Bermuda, surrada e suja, camiseta, idem. Nos pés empoeirados, chinela de dedo. Na cabeça um boné, a lhes servir de proteção, contrapeso, para os causticantes e implacáveis raios de sol. Boné, formidável adereço de cabeça. Alívio para os pensamentos cabeludos, que nenhum pente conseguiria pentear. Na hora da confissão o padre o desencorajou a fazer aquilo, e com veemência diria que aquilo seria pecado grave. Se sua mãe soubesse, certamente lhe daria uma surra. Mas estava decidido para o que se propunha fazer. Naquele sábado estava exatamente com uma semana que fora fretado, com seu carrinho de mão para levar a feira, da casa da moça bonita, a filha da velhinha. Entrou pela garagem, na volta, na hora que ia saindo achou de remexer num baú que estava ali largado, empoeirado. Dentro, entre outras coisas, havia uma pistola, uma quarenta e cinco milímetros, toda municiada, na cartucheira. Foi paixão a primeira vista. Estava fazendo, exatamente naquele sábado, uma semana que sonhava todos os dias em pegar aquela pistola. Ficaria ali, aguardando a moça bonita. E ela viria.
Cães, eles sabem exatamente onde precisam estar, aonde devem ir, dia de feira. É questão de sobrevivência. Uma turba de cães, à porta do mercado da carne. Disputariam cada osso jogado pelos marchantes, os vendilhões de carne. Os interesses não são exclusividades dos humanos. Cães vivem em sociedade, dividem espaços, disputam parceiras sexuais. Rosnam, latem e mostram os dentes. Fazem caras e bocas dependendo da necessidade. Entre um bando de cães existem os mais afoitos, os que se aventuram, os que se arriscam numa empreitada pelo pedaço de carne. Ainda que isso lhe custasse uma cacetada, de olho de machado, uma lapada de facão nos espinhaços. E uma briga podia acontecer a qualquer momento, entre homem e cães, e mesmo entre os próprios cães. Fatalmente alguém sairia ganhando ou perdendo. Um olho, uns dentes, um pedaço de orelha, uma nesga de couro das costas.
Cachaça no balcão, homens novos, velhos meninos, boi-de-barro, jarros de argila, moinho de milho caçuá, cangalha, esteiras de piri-piri, balaio, embornal, carrinho de mão, carrinho feito de lata de óleo, pirulito de mel de açúcar. Broa, tão branquinhas daquelas que derretiam na boca. A moça pôs uma flor no cabelo, virou tema de uma tela, um retrato de Di Cavalcanti. A porta do cabaré raparigas, cafetões, soldado de polícia, pirangueiros, jogadores de pôquer, boêmios, trajados de roupa branca, de suspensório. Zé Torreiro, e Ciço Mouco passaram a madrugada abatendo suínos, fazendo linguiça de porco no açougue de Seu João Soares. Agora era hora de se divertir, no cabaré de dona Brejão.
Um menino, um homem, uma mulher. Três viventes, três criaturas no mundo de humanos, desumanamente impelidas a abomináveis planos. Anjos do mal as acompanhavam. Convencera-os a realizarem maquiavélicos projetos. Arvorados no pretexto de realizações pessoais. Diante das situações em que se encontravam. Levados a acreditarem que o que fariam, poderia trazer-lhes alguma realização pessoal. Ledo engano.
Um pé de castanhola na porta da prefeitura, forrava o chão com suas enormes folhas, em tons sanguineos, e seus frutos cor de vinho. O rio, as canoas, a areia fofa, molhada. O consultório do dentista, o palhaço mambembe. As marionetes, as bandeirolas que sobejaram do são João. Os meninos que alugavam bicicletas a Cosme e Damião. Sapato envernizado. Velocípedes, patinetes, carrinhos de tábuas de descer ladeiras. A fazerem riscos, e versos no calçamento, cimentado. Bola de gude, ferro de finca, arraias, piões. A igrejinha de Nossa Senhora da Piedade, ou seria Nossa Senhora da Soledade? O mercado do peixe, a bodega de Seu Ozéias. A casa de esquina de Seu Artur e dona Mirian. Tudo ia, aos poucos se ajeitando.
O pior já passara. Belzebu palitava os dentes. Com seu tridente aproveitou-o para coçar o couro cabeludo. Pensativo, desanimado com o saldo nada animador do final daquele sábado. Sentado sobre o espinhaço de um bêbado arriado, a porta do bar de Seu Lira. Olhou prum lado, olhou pro outro, cuspiu. De raiva, deu uma fungada tão forte que tapou o mundo com uma nuvem cinza, fedorenta a enxofre. E foi dizendo: Arre égua! Nada de interessante acontece nesse fim de mundo! E sumiu.
















