Caminhos...[Town of the Souls] Conto 20/05/2026.


 

O cemitério ficava no alto da serra. Diante do portal, pra quem ia saindo, o mar enchia os olhos, de sal, de sol, the soul. Olhasse pra o norte, lá estava, proeminente, majestoso, a cerca duns mil metros, o farol, com seus mais de vinte metros de altura. As faixas negras diagonais, dando a impressão que naquele local existia uma barbearia, invisível, de um povo gigante. Para além dos muros, do lado sul, e a oeste, coqueirais. A cidade dos mortos, bastante movimentada, naquela tarde. Pessoas de diversas épocas, passeavam trajando, cada qual, vestes do tempo em que eram vivos.

A oeste, do desfiladeiro soprava um vento, de barro vermelho. Aquela chapada, fendida ao meio parecia que, num tempo distante, um monstro colossal havia passado por lá, e, teria dado imensas abocanhadas no maciço, achando que fosse algo de comer. Aparência, de imensa cocada pé-de-moleque. Mais uma mordida, e, tragicamente, o chalé a beira do precipício teria desaparecido. A poeira dos túmulos, levada às narinas dos ventos, a provocarem pequenos e revoltosos redemoinhos.

Cabelos grudados nos crânios descarnados, diziam medos. Para sempre ficaria nas retinas dos olhos das crianças. Velas que não queimavam dignamente, sobre suas deformidades se retorciam. Um menino passou correndo, pisou em falso, se desequilibrou, caiu. A catacumba deu um estalo estranho, sobre o peso extra. Instintivamente se desvencilhou da mão que tentara ajudá-lo a levantar-se. Menino arredio, pele escura, roupa surrada, boné bufante escondia a carapinha, calças curtas, pés descalços. Eram trajes de pelo menos, dois séculos para trás. Sumiu entre os túmulos.

Havia uma mesa posta, a um canto, repleto de paz e ramagem de flores. Um violinista, que ninguém via, executava a sonata número quatro de Vivaldi. O som do violino envolvia. Amoreira, grama verde, ainda mais vistosa, sob um buquê de formosura. Os talheres em estilo neoclássico, prateados. As taças, ricas em detalhes, ornada de pintura: anjinhos nus, voando num jardim onde um pintor ensaiava sobre a tela, os primeiros traços de sua modelo. Bela madona, comodamente sentada sobre a raiz nodosa de acácia. Uma família composta de mãe, e três filhos. Duas irmãs, e um irmão, chegaram e ocuparam seus lugares. O sol no forro branco, alvíssimo pratos de porcelana, talheres de prata, a governanta em pé, o sol. Não há aqui, a necessidade de dizer seus nomes, afinal, estão todos mortos. A janta foi servida. O assunto, era o pai. Se chegaria a tempo.

O mar, tão belo, avançava pro oceano. A praia separava o elemento terra, do elemento água. A faixa amarela de areia, adiante verde coqueiral. As casinhas descoloridas, enfileirada empurradas pela enseada, enfeitadas de jangadas, compunha a pequena cidadela. O chefe do executivo, e sua comitiva naquele instante se encontrava no campo santo. Aglomeração frívola fazia as honras de inaugurar a estátua, de corpo inteiro, do pai do prefeito, funcionário público exemplar, a sua vida dedicara àquela cidade.

O prefeito era chamado de coronel. Seus ancestrais chegaram ali para trabalhar no campo. Criara seus filhos: um menino, e duas meninas, desde pequeno tendo um propósito para cada um. O menino serviria ao exército, e depois ingressaria na política. As meninas seriam: uma médica e outra professora. Na verdade o menino era menina, disfarçada de menino.

O pai daquelas três crianças sempre quis ter um filho homem. Para sua decepção, a sua esposa, por três gestações seguidas tivera três meninas. O coronel levava as meninas pra roça, fazia com que as três fizessem trabalhos de homem, capinar, preparar o solo pro plantio, arar terra, ir buscar água no açude com o carro de boi. As meninas nunca foram uma festa, nem uma missa aos domingos. Tudo para que não tivessem contato com meninos. O pai permitia ir à cidade somente a filha que se vestia de menino, mantida de cabelos curtos, pra parecer um menino.

Havia um gato. Sim, era um gato branco, bem apoiado, sobre uma catacumba. O olhar fixo no muro, branco. Não fosse pelo rabo, às vezes mexendo, sutilmente na ponta da calda, passaria por uma estatueta. O que estaria observando? Não estava em atitude de caça. O dorso ereto, as orelhas apontando para cima. Aquele bichano observava alguma coisa, o que mesmo? Uma passagem, uma porta lateral no muro do cemitério. O portão aberto estivera o tempo todo ali, e passara quase despercebido. Olhando mais atentamente, via-se uma passarela bem cuidada, e pessoas seguiam para além do portão.

Numa manhã muito triste, chegou por ali, uma família de negros retirantes do alto sertão, fugiam da seca, pra não morrer de fome.  O coronel, para demonstrar sua benevolência, e provar que era um homem de Deus. Propôs uma comercialização com os retirantes, trocaria uma saca de feijão por um menino negro. Os retirantes aceitaram, a troca foi feita. O negrinho tinha dez anos de idade, quando chegou a fazenda do coronel. O plano do fazendeiro, era usar o pretinho para serviço pesado. A intenção era aliviar, o serviço das filhas. Uma ideia macabra, porém, povoava sua cabeça: castraria o pobre diabinho.

Sentada num banco chamado péla-porco, a mãe preta acendeu o cachimbo. Deu boas baforadas enchendo a senzala de fumaça azulada, e cheiro inebriante. Uma caneca de café, ao alcance das mãos nodosas. E contou histórias dos tempos dos seus avós. Uma dessas, falava de um ano difícil, onde rumas de retirantes tiveram que deixar o sertão, fugindo para a zona da mata, se sujeitar a escravidão dos coronéis, no plantio da cana-de-açúcar. Revoltados com a humilhação, o sofrimento, muitos resolveram fugir pro mato, se unir, se organizar, e  saquear as fazendas dos coronéis.

O senhor coronel prefeito, estava na sua sala de descanso, sobre a escrivaninha, um revólver. Óculos no rosto, lia um livro. Uma taça de vinho entre os dedos. O cachimbo, fornilho de ébano, canela de cerejeira, boquilha de prata. Tabaco importado, aromático. O pensamento confuso, mistura de negócios, safra de açúcar, encontro com o governador, viagem a capital, compras, ida ao banco mercantil, visita ao bordel da amiga cafetã, Lusitânia, no cais do porto. Contrataria dois jagunços para matar os negros que tinham feito a desgraça na sua casa grande, junto a sua família. O ódio, era tanto no seu coração, que gotas de sangue vinham aos lábios a misturar-se com vinho. Tanta era, a força que punha nos dentes.

A porta que havia no muro lateral do cemitério dava acesso ao vale. Era uma descida e tanto, uma passarela trabalhada com pedras negras. Nos aclives mais acentuados degraus para amenizar o perigo da descida. Havia também parapeito, nos dois lados. Muitas pessoas estavam descendo. Subindo, ninguém. As pessoas só desciam. Ninguém conversava, nada. 

Lá embaixo, um curso d’água, na verdade um rio vermelho. Na margem, do lado que ficava o cemitério, um canoeiro dentro da sua canoa, segurando um enorme remo, era um velho encapuzado, donde sobressaía sua barba. O velho aguardava as pessoas vindas do cemitério, que desciam pela passarela.

Eram dois negros. Chegaram a casa grande do coronel a pé. As armas que portavam eram duas facas. Um entrou pela cozinha e rendeu a governanta, que dormia num quartinho, anexo à despensa. Amarrou-a e tapou-lhe a boca com um pano. O outro invadiu o quarto da esposa do coronel, e a imobilizou amarrando-a na cama. Os gritos que ecoaram na noite eram das meninas sendo imobilizadas pelos dois saqueadores. As três moças, a esposa do coronel e a governanta, foram todas estupradas. Os negros eram sádicos, insaciáveis, violentos, havia muitos dias sem comer, nem fazer sexo. A bebida contribuiu para que dessem vazão aos seus instintos mais insanos. Os integrantes da casa imobilizados, os negros foram pra cozinha, estavam famintos, preferiram vinho do porto, uísque, e cachaça da adega.

O negrinho criado do fazendeiro, dormia no celeiro, a alguns metros da casa grande. Acordou com os gritos das meninas. Tomado de coragem, tendo muito cuidado pra não ser visto, foi até uma das janelas da casa grande. Pelo lado de fora, e protegido pela escuridão, viu as atrocidades que seus irmãos de sangue praticaram contra aquelas indefesas criaturas. Os negros, reviraram a sala do coronel, encontraram jóias, dinheiro, dobrões de ouro. Engolidos pela escuridão, se foram.

Já seis dias haviam se passado do ocorrido. O coronel se embrenhara na mata, seguindo os rastros dos dois saqueadores. Finalmente foi os encontrar numa gruta, num lugar cheio de cavernas na base duma serra, era um charco de lodo, havia uma cachoeira. Por um dia inteiro, o coronel os observou, de um local seguro. Analisou friamente como executaria sua vingança. Esperou o cair da noite, para por em prática seu plano. Os negros beberam cachaça a noite toda. Ao perceber que haviam caído no sono o coronel se aproximou. Pegou-os de surpresa, rendeu-os apontando seu revólver.

Amarrou-os e deu início a um interrogatório. Para cada confissão, uma punição. Arrancou-lhes todos dentes, cortou-lhes a língua, arrancou as unhas. Os gritos de dor eram abafados com um tufo de pano na boca. Arrancou-lhes os olhos. Por fim arrancou-lhes o sexo.  Enfiando-lhes na boca, com bolas e tudo.  

O coronel acendeu seu cachimbo. Ateou fogo aquele grotesco acampamento, visão dos infernos. Calmamente com seu cavalo, foi se afastando dali. No alforje dos negros, duas bananas de dinamite. A explosão foi ouvida a quilômetros de distância. O dia já ia amanhecendo, jandaias se espantaram, saguis saltaram nos altos galhos, a onça pintada parou, piscou pensativa.

Lá iam os três: o coronel, e os dois negros transpondo a porta lateral, da cidade dos mortos, tranquilamente desciam pela passarela. De um salto, o gato branco alcançou o chão, e se foi. O barqueiro de Hades inquiriu: -Trouxeram moedas?

 

ONDE ESTÁ MONALISA? [Walking around...] Conto 09/05/2026.



 

Uma capela, branquinha, de uma torre só, lateral. Um ícone de São Francisco de Assis no frontispício. A rua, desembestada de calor, abafada de solidão. Nuvens atarefadas d’água, acinzentava, de canto a canto. Vasto céu, cansado de não ter o que fazer, nem mais pra onde ir. Uma salinha exígua ao fundo da igrejinha. A porta, um retângulo negro na vertical, era o que, de cá de fora, se via. Lá dentro, cadeiras dispostas em círculo, algumas ocupadas por jovens, largados, preguiçosos. Nas paredes, cartazes motivacionais. Tinha um que dizia: Deus está aqui neste momento. Talvez, houvesse quem lesse, e dissesse: Bom, muito bom saber. De tal informação.  

Monalisa. Cabelo negro. calça jeans customizada, camiseta preta. Uma nossa Senhora no peito. A moça fazia vez de professora. Dava aula de catecismo, a jovens, que não estavam nem aí, para o que ela dizia. De repente, parou. E bem de lá, do fundo do coração, se perguntou: O que mesmo, estava fazendo ali? Aquilo chegou com força. Incômodo, desconcertante.  Ponderou não fazer, o menor sentido continuar ali. Resolvida, saiu caminhando pela rua. As pedras, de cada paralelo que pisava, agora faziam todo sentido: dava chão para uma dissidente. Lastro pra uma revolucionária, solitária, sem aparente causa. Sua luta, travava contra si mesma.

O cenário, do nada, se modificou. As casas desapareceram, a estrada desapareceu. O céu era outro, estapafurdiamente azul, camuflado de bolotas brancas de nuvens, e um solzão suspenso no ar, igual rodela de comprimido efervescente, fervilhando o ar escaldante. O relevo, no entanto, continuava o mesmo. Monalisa entendera que, tinha sido tele transportada para outro tempo. Sendo que no mesmo lugar.  Onde antes havia as casas, as ruas, a capela de São Francisco de Assis. Tudo desaparecera, agora só mato.

Os pupilos aproveitaram pra irem pra porta. Teve um que perguntou: Aonde a professora vai? Embora preferisse que não houvesse resposta. E não havia. Nem mesmo Monalisa sabia aonde ia. Sentiu a necessidade de ir, e foi. Precisava sair. No momento, era só o que importava. Ir, sem rumo. Precisava desparecer, refrescar as ideias. Iria, até ficar satisfeita. Até encontrar paz. Nada mais importava. Tudo que queria, dali se afastar. Caminharia, até se cansar. E quando se cansasse, pararia.

Monalisa percebeu que tudo o que via a sua frente, não passava de uma propriedade rural. Havia um curral e uma cancela em ruínas. Um casebre de telhado baixo. Naquele espaço, até aonde a vista podia alcançar, dava pra ver quatro personagens: Jonas, João I, João II, Virgulino II, Joãozinho, Justino. Sim, são seis. Depois vais entender. O ar que se havia, tinha cara de ser da década de setenta. As cercas de arame farpado, as estacas rústicas, a vegetação abundante, as veredas, estradas de terra batida eram coisas de meio século para trás, isso não vinha de Monalisa. Não podia ser conclusão sua. Ela não vivera.

Que dia era aquele? Uma melancólica tarde, de um sábado qualquer, do período pascoal, do ano 26, do novo milênio. A que horas resolvera partir? Isso, para aquele momento, parecia algo sem a menor importância. Queria ir, sem pensar em nada. Lembrou dos catequizando, seus alunos. Era um grupo pequeno, uns 20. E naquele dia, só nove, teriam ido para o salão paroquial. Pré adolescentes, entre 12 e 16 anos. Monalisa sentiu as costas os olhares deles enquanto se afastava. Para onde estaria indo? Andou, andou, foi ficando cada vez mais, pequena, pequena... Até desaparecer por trás do lombo da estrada. Sumiu de vista. Da rua, do bairro, da vila, da igrejinha, de São Francisco de Assis.  

Jonas, não se trata aqui, do profeta. Aquele de Nínive, que na bíblia foi engolido pela baleia. Muito embora o nosso Jonas, alguma afinidade tem com outra baleia, uma cadela. Parte do que os olhos de Monalisa conseguiam alcançar pertencia a Jonas. Parte daquelas terras era dele. Seu Jonas era fiscal da prefeitura municipal. Era sua, a função de taxar as bancas dos feirantes, aos sábados ia, de tolda em tolda. Do seu talão previamente preenchido, tirava o bilhete com a tarifa pelo uso do espaço público, entregava ao mascate que lhe pagava. Jonas possuía algumas cabeças de gado. E os seus dez filhos homens, se revezavam na função de manejar o pequeno rebanho bovino. Todos os dias, com o auxílio da cachorra baleia, os rapazes, recolhiam o gado que pastava, apartavam os bezerros das vacas leiteiras.

Monalisa resolveu que iria em direção ao pôr-do-sol. Isso mesmo, iria ao encontro do sol. Se um objetivo faltava a sua causa, agora havia uma. A meta era chegar ao sol. E foi. Se fosse esta história descrita na bíblia, diria que era perto da hora nona, a hora que saíra. Assim diria o evangelista João, de Monalisa. Andou, andou, e percebeu que em breve o sol iria se por. Desapareceria o astro-rei no horizonte. Não importava iria naquela direção, mesmo assim.

João I, jamais fora monarca. Na verdade, afinidade nenhuma tinha o moço com a realeza. Nunca gostara muito dos livros, nem de estudos. Seguiu a profissão do pai, ferreiro. João entra aqui na história, porque fora contratado para fazer um portão de ferro para o abrigo dos idosos São Vicente de Paulo. Uma das poucas construções que aparecia naquele cenário, protagonizado por nossa catequista. O abrigo continuava no mesmo lugar de sempre. A moça percebeu que a edificação mudanças significativas, não teria ocorrido do tempo atual para os dias que retrocedera a jovem jesuíta.

Já duas horas de caminhada Monalisa havia caminhado. Sentiu sede. Uma casa de alpendre, logo ali a frente, a margem da estrada, um velho sentado num banco. O cumprimento, e a dúvida: Boa noite! Ou boa tarde? A resposta do preto velho: Louvado seja nosso senhor Jesus Cristo! O pedido de água. Uma quartinha de barro, o líquido friinho, revigorante. O caneco de estanho, azul por fora, escuro por dentro, estrelado de pontinhos branco. Do jeito que estava ficando o céu.

João II, era filho de Seu Arlindo, comerciante, proprietário da lanchonete “A Toca”. João II, e Virgulino II, os únicos que entram nessa história, que não estão no campo de visão de Monalisa. Isso porque o episódio ocorrido entre eles ocorrera além da propriedade do senhor Jonas. Eles se encontravam a porta do Grupo Escolar Padre Francisco Correia, se desentenderam e protagonizaram um briga. João II levou um murro e o olho roxo teve que explicar, em casa. Virgulino II, era menino de rua, seu pai Virgulino I era estivador, trabalhava duro, na carga e descarga de caminhões que chegavam no setor do comércio atacadista, e de armazenamento da vila.

E “minha filha”, está fazendo caminhada? A pergunta pronta, vinda do preto velho. Tantas vezes usada, para outras moças, em ocasiões e hora semelhantes. Estava. Agradecida, revigorada nas forças, e se fez a despedida. O chão as vezes também faz pergunta. E responde ele mesmo aceitando humilde, pisadas, suor e lágrimas. Pássaros cantando, nuvens sumindo no negrume da noite. De repente, Monalisa percebeu uma menina, ao seu lado. Oi? Oi! Pra onde você vai menina? Pra lá. E apontou para adiante, sem que o gesto definisse exatamente o lugar. E você? Também estou indo pra lá. Só então percebeu que a menina falava sem abrir a boca. Tudo o que dizia Monalisa ouvia, a voz, dentro da sua cabeça. A menina acabou se apresentando: Já que você não perguntou. Vou dizer quem sou eu. Eu sou você. Não está me reconhecendo? Realmente não havia percebido. A menina era idêntica a ela, quando tinha sete anos. Do nada, a estrada que iam virou uma loja. Estavam agora, as duas, dentro de uma loja de cosméticos. 

Monalisa criança, estava na companhia da mãe. A menina furtivamente pegou um baton que estava sobre o balcão e colocou dentro da bolsa de sua mãe. A moça lembrava perfeitamente daquele dia, vinte anos se passara. Nunca teve coragem de contar ao padre da sua paróquia, aquele pecado, nas confissões que fizera, até então.

Caiu a noite. Breu cá em baixo, céu estrelado, lá em cima, não dava pra enxergar muito, adiante. Pra piorar, veio um vento frio. Nada ruim, que não pudesse piorar: uma chuvinha fina começou a cair. Se passava um carro, clareava a moça, sozinha, na estrada. O relógio da igreja acusou sete badaladas, e se estava ouvindo o sino significava que pouco havia se afastado da vila. Quatro horas de caminhada.

De repente percebeu uma mulher caminhando a sua frente. A sua versão menina havia sumido. Emparelhou com a mulher. Para onde a senhora vai? Estou indo para lá. E acenou, com o queixo, o horizonte, logo adiante. Tudo o que estava a frente era destino. Escuro, desconhecido como naturalmente é, todo destino e todo futuro. Não vá me dizer que você, sou eu no futuro? Afirmou com um aceno de cabeça. Bela senhora de seus quarenta anos. Não se preocupe, no futuro não cometestes nenhum crime sério. Mas o companheiro que escolherás para viver, depois da fase de namoro, mudará muito. pra pior.

Justino, morava naquela tapera que Monalisa tinha visto, no alto do lajedo, caminho para o lago dos bodes, além das terras de Seu Jonas. A Barba enorme, as crianças o apelidavam de “Barba azul”, tinham medo de sua cara feia, fechada. Acabariam inventando histórias que misturava fatos reais e fantasia. Criaram uma lenda que em noite de lua cheia, virava lobisomem. Justino se protegia se isolando, o que só aumentava esse lado místico. Preferia a escuridão das madrugadas, pra andar pelas ruas. Um bando de cães, de companhia.  

O dia raiou. A caminhada chegava ao ponto em que o cansaço ia minando as forças. E as coisas todas precisavam urgentemente ser resolvidas. As montanhas, lá longe, fumavam. Nuvens frias roçando o topo, para os mais velhos, era sinal que dias como aquele, traziam o inverno. Um carro esporte, verde e branco, muito bonito parado a alguns mil metros a frente. O capô levantado indicava  problemas. Um homem branco, bem afeiçoado, em trajes de executivo, praguejava ao telefone móvel com um pobre coitado, do outro lado da linha. Olhou-o rapidamente, teve certeza, era ele o seu futuro marido. Enquanto falava, ele a observava, num misto de estranheza e familiaridade.    

Havia um menino a beira do caminho. O pretinho chamou-a de mãe. Pediu-lhe a benção. Pare com isso, não sou sua mãe! Eu sei que não é. A minha mãe já morreu... É que sinto tanto a falta dela. Posso chamá-la de mãe? Onde você mora, menino? Quando chegar lá, eu lhe mostro. É logo ali a frente. Alguns metros uma santa cruz, uma casinha de oração. Ao lançar um olhar ao interior do oratório gelou o coração de Monalisa. Lá dentro envolto em fitinhas coloridas uma foto do menino com quem falava. Instintivamente buscou-o, o garoto sumira. Joãozinho era filho de Ciça preta cozinheira do hotel  Dom Valeria, pego por um FNM.  

Sorriso enigmático. Alguém algum dia, parou pra pensar, o que levaria um ladrão, a planejar, por meses, e até anos, o roubo da pintura de Da Vinci. Chegara porém, o momento tão esperado. A longa caminhada, tudo valera a pena. Acabara toda angústia, todo cansaço. Finalmente, lá estava. A menina não tirava os olhos da parede, vazia. Um espaço onde antes havia, uma moldura, Monalisa.

O delegado parou a viatura, manteve o motor ligado. Desceu, contornou o veículo, e perguntou, Aonde a moça estava indo? Respondeu que ia adiante, sem rumo certo. Sobre o peito abraçava um embrulho, coberto com papel, algo fino, retangular. Impossível, ninguém podia transgredir, de forma tão impactante, a natureza das coisas, assim. Estar indo, a lugar algum? Como podia alguém ir a lugar nenhum? Isso ia de encontro a todo, e qualquer princípio da lei. Pior, incorria numa bruta transgressão. Passível de punição. Infelizmente. Teria que levá-la presa.

 

 

 


Sunemoon Conto 01/05/2026.


 

Um ônibus, na madrugada. Gigante azul, deslizando lento e calmo. Lembrava, nas formas, antigas geladeiras, da década de cinquenta, arredondado nas pontas. Molhado de chuva, semelhava um caubói, com imenso Ray-ban. Depois de noitada de farra, guiando, embriagado, sua Harley-davidson pela Rota 66. Lentamente foi se encostando a calçada. Parou. O som característico do balão de freio, se esvaziando sibilou noturnamente. A porta se abriu, para um passageiro subir.

Sunemoon, olhar sonolento, mesmo sem dizer nada, se despediu do poste, e da rua escura. Apanhando a mochila embarcou. Solidão, o seguiu, jamais a deixaria para trás. Alguns poucos passageiros dormitavam em suas poltronas. Foi assentar-se, numa, do lado da janela, na quarta fileira. Uma mulher, que acabara de subir passou, no corredor. Uma criança ao colo, e um menino de seus 16 anos a seguia. De onde aparecera aquela mulher? Tinha certeza, não havia ninguém, além dele, na rua. O coletivo, novamente em movimento.  Instintivamente afastou a cortina, encontrou vidro negro e frio. O interior do veículo, antes iluminado, voltou ao breu. Monstro de aço engolindo a faixa negra, sob os faróis. Lá encima uma lua raquítica, boiando no piche granulado. Valor nenhum dava ao que acontecia cá embaixo. Cavalos do cão, mariposas, libélulas, camicases noturnos, estouravam seus miolos, nos imensos óculos do trovão azul, comedor de estrada.

O corredor do hospital estava cheio. Macas encostadas nas paredes ocupadas por pacientes nas mais diversas situações. Acidentados, ladeados de pacientes infectados, uma mulher entrando em trabalho de parto, um vaqueiro com o braço quebrado, uma vítima de arma de fogo. Ali, tudo junto. Cenário de guerra, um campo de concentração. Uma moça atirou-se ao chão gritando. Dois enfermeiros tentaram segurá-la. Qualquer um diria que aquilo, não era coisa apenas da área clínica. Uma força descomunal, parecia possuída.    

Sunemoon estava no topo da colina. Uma altura considerável. Contemplava o vale que se descortinava ali a baixo, coberto por um verde exuberante. Esfumaçado o topo das montanhas, lá no horizonte. O céu azul, povoado de capuchos de nuvens brancas. Observando ao redor, viu que havia mais pessoas lá, além dele. Jovens conversavam animados, riam alto, enquanto faziam fotos. Um rapaz se aproximou, um gorro vermelho na cabeça cobria-lhe até as orelhas, o cabelo liso e negro, se sobressaía. Olhou para um lado, olhou para o outro, fechando os olhos, se atirou no abismo. Sunemoon, atônito, apenas observava. Ainda deu pra ver o corpo sumindo entre a vegetação.

A serra tinha nome e formato de barriga. Casas rústicas ali foram erguidas. Uma espécie de aldeia indígena, um enorme totem no centro representava os ancestrais da tribo que ali um dia habitara. Nativos vestiam roupas com estampas coloridas, homens e mulheres negras realizavam ritos tribais. Sentados em círculos apreciavam as danças, que eram também golpes de ataque e defesa pessoal. Um cigarro artesanal, feito de palha de milho e ervas aromáticas, sendo compartilhado. Na base do totem oferendas eram colocadas, garrafas de aguardente, vinhos, pratos com farofa, e pequenas caças assadas. O som de agogôs, atabaques e guizos feitos com couros de animais e cipós. Vozes bem ritmadas, e se transportavam em espírito a longínquas ilhas de Madagascar. 

Paulaner descobrira que o moço que tentara puxar conversa, se chamava Sunemoon. Disse-lhe, sem o menor receio, que estava em tratamento psiquiátrico e que achava que estar ali não passava de mais uma de suas alucinações. E que tudo aquilo talvez fosse apenas efeito de medicamentos. E que sempre acontecia, logo após tomar as drogas que precisava tomar. Uma pra manter a calma, outra pra relaxar, outra pra dormir, e outra pra não ter pensamentos ruins. E lhe confidenciava: Parece que a única que fizera efeito tinha sido a de dormir. E esperava muito, que tudo aquilo não passasse de sonho.

Sunemoon, viu que seu aparelho móvel de telefonia só 5%, tinha de carga. Aquela lata velha, tamanho gigante, não dispunha de entrada pra cabo de carregador. Se seu telefone celular descarregasse, ficaria sem comunicação com o mundo. Pior, não teria como pagar a passagem. Estaria, completamente, isolado do mundo. Mas, e não era isso o que mais queria? O seu maior propósito, não teria sido alcançado? Não, até chegar ao destino ao qual pretendia. Um lugar ao qual havia sonhado. Certeza tinha, chegaria lá. Saíra de casa sem saber ao certo pra onde ia. O destino, é que iria ao seu encontro.  

Sunemoon tocou-a levemente no braço dela dizendo, sinto muito dizer, mas, tudo aqui não apenas parece, mas é muito real. Caminhando foram até uma espécie de mirante, se despojaram de suas mochilas. Resolveram aproveitar a paisagem, que se oferecia. Encontraram, como que meio escondida, uma escadaria que dava acesso ao sopé da montanha. Lá embaixo, um formigueiro humano. Mulheres e crianças com rostos e pele queimados pelo sol, ofereciam lembrancinhas feitas de madeira e pedras encontradas ali mesmo, e que retratavam o local. De mãos dadas empreenderam a descida. Lá embaixo, esperavam encontrar Kleiner.

A médica do plantão tentando organizar aquela aparente desordem explodiu num forte brado. Alguém precisava dizer-lhe que, gritar em meio a uma balbúrdia apenas potencializava o caos. Nada havia de errado ali. De repente, pelos corredores, feito rastro de pólvora, se espalhou a boca miúda que o filho de um rico fazendeiro da região, teria dado entrada naquela unidade, com um objeto estranho, introduzido no ânus. O pai do moço apareceu bêbado, ameaçando todo mundo. A tão desconcertante notícia jamais devia ir, além dos corredores daquele hospital. Alguém iria pagar com a própria vida, caso isso acontecesse. Não sabia ele, que em Tóquio no Japão, os parentes da enfermeira Sakura, já estavam sabendo.

Uma pergunta tinha, a fazer, um ao outro. A respeito dos seus nomes. Sabiam não era nada comum, e a origem? Sunemoon quis explicar primeiro. O seu. era americano, seus bisavós teriam vindo para estas terras em busca de aventura fugindo da 2ª Guerra Mundial. Eram ourives e fundaram aqui uma relojoaria a qual poriam o nome de Sun & Moon. Seus pais quiseram que esse marca jamais sumisse, e deram assim, o nome ao primeiro filho.

Rindo Paulaner, disse, se você for a Alemanha vai me encontrar em todos os bares. É que meu pai é muito fã de cerveja. E quis que sua filha do meio tivesse o nome de uma marca de cerveja, que meus bisavós tanto consumiram em Munique, terra natal dos meus ancestrais.   

O celular de Sunemoon descarregara completamente. Sentado na sala de espera do hospital, viu o menino do gorro vermelho entrar, o mesmo que saltara pra morte, no alto da montanha. Vinha caminhando enquanto puxava a rédea do seu cavalo. Sentou ao seu lado, passando a mão na fronte do animal, disse que se chamava Kleinerferd, e que era irmão de Paulaner. Só tinha um pedido a lhe fazer, queria que ele cuidasse bem de sua irmã.

A moça histérica que havia sido medicada a força, agora balbuciava calmamente olhando seu celular. O vaqueiro bêbado que quebrara o braço, numa queda de cavalo, parara de gritar de dor, agora dormia. A parturiente dera a luz uma criança do sexo feminino. Prometeu, ali mesmo, colocaria o nome da filhinha, de Vitória, em homenagem a médica que a assistira. O cara que levara um tiro, estava em coma, induzido. E tudo o que ele mais queria, era saber o que aquele cavalo estava fazendo ali, cheirando suas cobertas, ao lado, do seu leito de hospital.

Analuz Conto 21/04/2026.



O nome do dia era manhã. A luz não viera, não viera ainda, a luz. Pássaros invisíveis anunciavam o que estaria pra vir. Uma casa, uma sala de sofá, iluminada por um abajur, a janela, Analuz. As trevas, deitada sobre as coisas, dormia. Tudo que se estava da luz afastado, o escuro engolia. A silhueta da serra projetada num denso azul, do céu noturno. Acordar de madrugada fazia Analuz pensar que era outra pessoa. Despertar numa hora não costumeira dava-lhe essa sensação. A imaginar que as preocupações de sempre nunca foram suas. Um desprendimento. Como se velhas obrigações, pertencessem a outra pessoa.

 Aquela hora, os pensamentos sobre o que teria pra fazer, parecia não ter nada a ver consigo. Fechou os olhos, um fundo amarelo surgiu, um imenso olho negro ao centro, que mais parecia um caroço de manga. Veio junto a vontade de saborear essa fruta. Tanto, que sentiu o cheiro. O monitor do aparelho deu sinal que a bateria, em breve, descarregaria. Um menino negro, debaixo duma chuva, que acabara de acabar, ia pela rua. Fora só uma nuvem, passageira. O menino tinha um buque de flores, parou, próximo a escadaria do santuário. Olhou lá para o alto. O dia agora, se fazia cinzento, pesado, tristonho, assim como o menino.

Resto de sonho retido na retina, de Analuz. Havia uma casa de taipa, lá dentro ainda era noite. Era um árido lugar. A luz que alumiava as coisas era de um candeeiro. As coisas tremeluziam, sob o luzeiro de cor alaranjada. As personagens preenchiam todo o espaço, de um rústico e curto corredor. Todos se tocavam, de tão próximos. Pareciam participar de um ritual. Os rostos morenos traziam uma serenidade indizível. Um clima de festa e celebração, no ar. Aquilo poderia ser um velório. As pessoas tinham uma necessidade de se tocar. Talvez isso, os tornasse limpos de algum mal, ou compartilhassem algo. Isso, não era assim tão explícito. Uma vara de incenso, que mal se via, ia sendo passada de mão em mão. Os que sentiam o odor que lhes entrava pelas narinas, e iam, em uma espécie de transe, alucinados, sob o efeito da droga liberada da pequena haste.

Os olhos pareciam molhados, negros, vítreos, sanguíneos. Não se sabia ao certo se entoavam um cântico. As lembranças não permitiam dizer, se o que lhes vinha aos ouvidos era uma oração, ou um tipo de canção. Um homem trajado de gravata e paletó, chapéu de massa, sapatos impecáveis. Projetou a sua sombra na calçada noturna. Era Ycaro, o coração cheio de ódio, planejava tirar a vida de Paul. Analuz estaria o traindo, com o seu melhor amigo. Vez em quando, apalpava o cabo do revólver que trazia preso ao cinto. Iria a roda de amigos, no lugar de sempre. Enquanto brindavam a vida, ele queria comemorar a morte. Espaço pra harmonia inexistia, caso abundasse contenda. Intrometia-se leviatã na trajetória de vida do casal. Abrindo oportunidade pra um, ou mais, assassinatos. E mataria, pelo vil prazer propiciado pelo ódio.

Os automóveis circulavam na pista de betume, nos dois sentidos. A chuva fina de há pouco, e tudo ficara indubitavelmente úmido, molhado. Os carros cobertos de gotículas, e as latarias vermelhas semelhavam morangos. Analuz, tinha um desses frutos boiando dentro de uma taça com gim. Submerso na bebida incolor o fruto rubro. Das coisas emanava um brilho incomum. Os negros pneus dos automóveis, incrivelmente novos, alucinadamente giravam com suas tiras brancas. Sequer tocavam a faixa negra do asfalto, simplesmente flutuavam. Apesar de movimento intenso do transito os carros pareciam não produzirem barulho dos motores. Analuz, nada conseguia ouvir, nada que viesse de lá fora. Nada externo ao seu ser.

O céu um imenso oceano, as águas suspensas se conservavam no firmamento. Uma atmosfera aquática, puramente hidráulica. Pregada lá no alto, poderosamente se mantinha, uma força gravitacional inversa que a retinha. Assim se continha, num balanço incrível, uma calmaria, inaldível, quase inacreditável. O homem de chapéu Panamá, metido a Indiana Jones se embrenhara numa biblioteca de casas. Ruas feito prateleiras enfileiradas. Achava que podia fazer o que quisesse, por mais que fizesse, sairia ileso. Fizesse o que fizesse, da selva de casas de vidro incolúme sairia. Tardiamente descobriria que não seria tão fácil assim. O que faria daria um conto, muito provável daria. Ajuntar fragmentos, pedaços de sonhos, pesadelos, lembranças de episódios vividos, outros inventados, seria o bastante. Misturaria ficção, e realidade. Seria seu álibi. Em meio a tudo isso, um assassinato estava sendo articulado. O do seu melhor amigo.

O santuário, era de concreto armado. A magnífica estrutura não possuía nenhum artifício incomum. Toda a beleza ali contida era obra da arte humana. Não havia diafaneidade, nenhum resquício de algo vindo de outra dimensão, nada que evocasse algo místico, espiritual.  Talvez fosse a única coisa real em todo aquele cenário incomum. Analuz, foi se encontrar encima de um barranco, vestida como se fosse, ou tivesse voltado, de uma festa, de um estupendo corpo de baile. O vestido vaporoso suas costas desnuda. Era um vestido longo, de tonalidade rosa, nos detalhes. A maior parte era vermelho púrpura. Havia tirado os calçados. Um cálice com gim num apoio de copo, um longo cigarro branco e fino, com piteira, entre o indicador e o anular da esquerda. Lá em baixo, a margem de um rio calmo, sobre as águas negras embarcações pintadas de branco refletiam uma nesga de luminosidade. Uma tocha fincada no barranco tremia, efemeridade de línguas de fogo. Carnal, carnaval.

Analuz, queria entender o significado da saudade que sentia.  Um homem de meia idade vestido com roupas de árabe, fantasia de carnaval, surgira puxando pelo braço um menino negro, de seus quinze anos. O homem estava bêbado, abaixou suas calças, em seguida, a do menino. E o violentou, ali mesmo. Depois arrastou o garoto para dentro d’água, e o afogou.  O rio, Analuz o conhecia. Tomou banho quando criança naquelas águas. Analuz não entendia, presenciava um crime acontecendo bem a sua frente. E, sequer isso lhes causava o menor constrangimento. Sentimento, nenhum brotava do seu coração. O assassino parecia com alguém que ela conhecia. Talvez seu pai, quando era mais novo. Esse comportamento a assustava, a surpreendia, simplesmente não se reconhecia, na sua ausencia de empatia. Nem um músculo de seu corpo, estremeceu. Ante, ato tão atroz. Ela ali, feito estátua. O gim, o ópio embotara seus sentimentos. Seria aquilo só um sonho, um pesadelo.  

A alça do vestido folgou, e um seio seu ficou exposto, a luz. A pele mais alva próximo ao mamilo. A auréola intumescida. O seio da “Liberdade guiando o povo”, feito quadro do pintor francês Eugene Delacroix . O mancebo que a vigiava, a mando do seu marido a tudo via, teve um alumbramento. Uma languidez, o invadira. Paul apareceu, do nada apareceu. Tinha ido a uns arbustos aliviar a bexiga. Os amigos o aguardavam a mesa, na calçada do botequim. Nada de importante conversavam, ali. Além do que uma turma de homens entregues a embriaguês poderiam discutir. Certames, campeonatos de futebol, abjeta discussão sobre política, nacional e internacional. Uma briga se concretizaria, iam as vias de fatos. Murros, garrafas quebradas. Alguém acabaria derramando seu sangue naquele chão. Ycaro aproveitaria a ocasião para atirar no amigo traidor. Algo incomum, no entanto aconteceria, um cão de rua ali aparecera, o dono do boteco resolvera o enxotar, tacando-lhe um chute nas definhadas costelas.   

Foi assim, que tudo começou, um cão negro surgido da escuridão. O pêlo molhado brilhava um brilho azulado. Olhos abaixados pro chão, a procurar comida. Ninguém percebeu, mas eram olhos como duas brasas. Talvez fosse só o reflexo das luzes que causasse essa impressão. Dos dentes saliva viscosa escorria. O dono da taberna fez menção de enxotá-lo. Deu-lhe um chute, que não o atingiu. O animal reagiu instintivamente mordendo a panturrilha do velho, que soltou um urro. Paul que estava na mesa empunhou um machado de cortar lenha. O aço desceu sobre o crânio do cão, se encravou macio entre os seus olhos. Ao penetrar o osso craniano, o animal voou em direção a jugular do seu agressor estraçalhando-lhe o pescoço. O boteco desse dia, melhor dizendo, dessa noite em diante ficaria conhecido com o bar do lobisomem. Paul foi pro hospital, e dali pro cemitério. O cão se embrenhou no mato com o machado encravado na testa. Ycaro vingado estava, sem sequer manchar as mãos de sangue.

Pouco a pouco o cenário começou a se modificar. Analuz, os corpos, as paredes, o teto como que explodido em luz. Era impacto bom, tudo, lentamente, passando a emitir feixes de luz. Uma luz serena, incandescente sobre as coisas. De todos os seres emanava luz, de todas as coisas luz. E o que, até então, era noite virou dia. Os automóveis circulavam. A chuva fina cessara, e tudo que estava úmido e frio agora, era sol. Os carros, lataria vermelha, feito cerejas. Um brilho incomum, negros pneus, flutuavam. O movimento intenso, os carros voltaram a produzir o normalíssimo barulho dos motores. O céu era um mar de paz, e de luz.

O nome de tudo que dava pra ver da janela, era dia. A luz que abundava era chamada manhã, lentamente se impondo. O clarão que vinha de detrás das montanhas, devagar avançava. Clarão que afastava os medos. Medo que não deixara Analuz dormir naquela noite. Pássaros saídos dos galhos das árvores em revoada anunciavam um novo dia. Analuz, inesperadamente despertou. Cambaleante andou pela casa, doce penumbra. A sala de sofá, o abajur, a janela. As coisas que a luz agora alcançara, as trevas desengoliu. A serra, embora distante, fazia-lhe companhia. O azul claro, do céu afagava-lhe.

Se imaginou sendo outra pessoa. Pensava nela, como alguém de quem era apenas amiga. Achou interessante pensar que ela, era outra pessoa, outro ser. Alguém a que, naquele instante, poderia aconselhar. Conversar quem sabe ajudar. Um pertencimento, as avessas. Queria entender porque as coisas do dia a dia, que tanto a preocupava, na madrugada todos os problemas eram  potencializados. Bastava amanhecer, e tudo aquilo parecia tão minúsculo.

Fechou os olhos, um fundo azulado surgiu-lhe na retina. Um imenso olho negro ao centro, que mais parecia um topázio. Uma taça de absinto, o suave gosto de anis. O monitor do aparelho deu sinal que a bateria estava completamente carregada. Um menino negro, se aproximou da escadaria do santuário.  Um buquê de flores encostado ao peito. Segurava-o com imenso cuidado. Aquele ramalhete tinha para ele, mais valor que sua própria vida. Uma mulher vestida de branco, o aguardava, no alto do lance de degraus. O menino, rosto molhado, de lágrimas de chuva. A mulher, apenas o menino a via. Olhar voltado para o alto. O belo rosto resplandecente, sorria.