SEMPRE ASSIM... ATÉ QUANDO. 24/06/2026. ODI ODIUM Da Série Psikeé


 

 Sentado a praça. Sozinho, e consigo mesmo. Como as pessoas faziam antigamente. Assim se encontrava. Estava tão antigamente, que se sentiu meio que invisível. As pessoas não o notavam. Considerava-se um cara um tanto esquisito pra sua época, excêntrico na verdade. Sempre metido num blazer, ainda que os dias fossem os mais triviais. Destacava-se na multidão, de iguais. Parecia um espantalho, isso lá parecia. Os pássaros, no fio de energia, viram, comentaram. E rindo, voaram, aos beijos.

 Acariciou o céu, cumprimentou o dia-sol-nuvem-céu-azul. Chamou de bom, tudo que suas vistas alcançavam. Parecia estar tão de boa. Arriscaria até desejar um bom dia, a outro ser humano. Afinal muito havia a comemorar. Comemorava o que mesmo? O fato de estar vivo, respirando, enxergando, pensando, e com certa lucidez. Escolheria alguém da sua idade. Um senhor, dos seus setenta, vinha pela calçada, meio trôpego. Estaria ainda sonolento, ou quem sabe, tivesse sequela de um acidente vascular cerebral. O certo era que havia vida ali, e estava muito agradecido por isso, independente do que sentia. A rua, a calçada, o cumprimento ao estranho, que nada respondeu. Para aquele nada daquilo tinha a menor graça. Poderia ponderar, outro que encontrara com os mesmos sentimentos seus. Aquilo, porém, o enchera de indignação. Não era nada animador ser assim, tratado com desprezo, e indiferença. Péssimo jeito de iniciar o dia. Aquele que vinha, deixou cair um pouco do ódio que tinha, acabou respingando sobre ele, sentado a praça.

O dia acidificou. Um azedume brotando áspero da ramagem. As nuvens quedaram, através de frestas purulentas, gosmentas, asquerosas.  As pessoas indo pro trabalho, pais levando os filhos pra escola. Os automóveis estupidamente aos gritos, atrasados, um nervosismo uníssono. O sol, sozinho, ele e Deus, subindo a serra e esquentando as orelhas, a testa e outras extremidades dos mortais viventes, seus míseros corpos expostos, a céu aberto. Gatos, cachorros de rua, de tanto usarem as vias públicas pensavam que lhes pertenciam. E acabavam entrando em conflito com os demais usuários, dos logradouros. E era ainda a parte da manhã, tão turbulenta, quanto não devia, trazer paz.

As bicicletas pareciam mais felizes que os ciclistas. Isso porque aqueles pensam. Enquanto que o ferro e a engrenagem, simplesmente iam. Pensar, era fator preponderante para o deus Fobos agir. Logo mais seria uma tarde. E que, por mais parecida que fosse, com a anterior, sempre teria algo de diferente. O gari da semana passada morrera, por um motociclista atropelado. O vendedor de mungunzá adoeceu, hospitalizado, o filho faltaria a escola, pra cobrir o trabalho do pai durante aqueles dias. Afinal o que levava uma pessoa a pensar, o que tanto a motivava? Acordar todos os dias as seis. Pensar, que dia era aquele? Pouco importava. Certeza tinha que não seria um sábado, nem tampouco domingo.

A escadaria, do prédio de apartamentos, o eco das vozes rebatendo nas paredes. Alguém esquecera alguma coisa. Era sempre assim, a pressa, inimiga dos pequenos objetos. Chaves, telefones móveis, carteiras de dinheiro, documentos, cartões, bolsas, chapéus, jornais, cadernetas, agenda, isqueiro, caixa de fósforos, dinheiro pro táxi. O cheiro de ovos fritos e pão fresquinho. Os óculos, sério ficaram olhando. O livro aproveitou a brisa, e caiu na gargalhada.

A escadaria, ela odeia bicicletas. O blazer, esquecera, ia precisar de um. O momento solene exigia. A formatura do jardim infantil da neta. Os cheiros. Cigarro aceso. Aquele fumante devia estar há pelo menos uns vinte metros, em algum lugar do terraço. Óculos de grau, um livro com um dedo marcando uma determinada página. Os olhos vagavam pela folhagem do pé de... De que mesmo é esse pé? É uma azinheira. Quem falou? Ninguém, por perto. Estaria ficando louco. Ouviu nitidamente, alguém disse: “É uma azinheira.” Na próxima reunião do condomínio colocaria como assunto de pauta: O fumante, as bitucas de cigarro que o cachorro do vizinho engoliu e quase morreu engasgado. Um atirador de elite, a lente de aproximação procurando uma vítima.

A rua. O leito da rua, um rio de metal. Rio de automóveis, bicicletas, carroças, pedestres, cães. Manter-se na calçada, questão de sobrevivência. Pensar era viver, andar sobreviver. O que havia pra fazer faria. O candeeiro de pavio virou prioridade. Quanto custa? Ficaria para o próximo mês. Estourara o orçamento. A queda de energia na noite passada. O medo de escuro. Desejou ardentemente a chegada da aurora. A noite, com sua plasticidade de trevas, cercando os nervos por todos os lados. Sua mente uma ilha solitária de aflição. E se um morcego caísse pelos cobertores. De onde concebera aquela ideia. Um sonho, um pesadelo.

Morcegos, eles se reproduzem enormemente. Então, onde estariam os milhares de irmãos daquele que teria matado no banheiro? A cena do filme “A Múmia”, veio-lhe, e milhares deles saindo de dentro da boca. Escolheram a parte interna do forro da casa para lhes servir de morada. Dizem que eles possuem uma espécie de radar para auxiliar no voo. Pois sua visão é ruim, então recompensam essa deficiência emitindo um som não captado pelos ouvidos humanos. Acordara em pânico, havia sonhado com um daqueles vampirinhos voadores mordendo-lhe a jugular. Instintivamente passou a mão no pescoço. Um gosto de sangue veio-lhe a boca.

Abriu o pão com uma faca, com certo sadismo, a manteiga passou com sevícia. Feito alguém que se delicia antes de destruir, um ser vivente. Pelo simples, e puro, prazer de o fazer. Descuidou na hora de colocar a faca sobre o balcão da pia, e metade do pão foi ao chão. Seguindo lei, de não sei lá quem. Só sei que caiu pra baixo, foi o da parte untada. Uma rede de punhos, um facão, um retrato de padre Cícero na moldura cor vinho. O tédio rindo-lhe na cara. Cuspiu-lhe manteiga na lapela do blazer, que ódio.  

Café com pão, engolido com oração. Pedidos de perdão. Pedidos sujos, de outros novos pecados. O banheiro, as revistas amareladas, sob o lastro da cama, mulheres despidas, amassadas, achatadas pelo peso do colchão. A menina negra, o abuso incontido. Rezaria com raiva, com pressa, com agonia. Pedido de perdão atrasado. Tudo valia, menos o desprezo, o ódio. Aquela cena, por décadas, ficara guardadinha no lado escuro da alma. Hibernara pra agora acordar, e vir apoquentar-lhe o espírito de suicida. Só não consumando o ato, por pura preguiça. Salvo pelo gongo. Na verdade escapara por um descuido proposital, de leviatã. A buscar água, no chafariz, com um carrinho de mão. As meninas ficaram olhando pela fresta do portão. O banho de cuia no oitão de casa. Certeza, que alguém o observava. Excitação, masturbação exibicionista. A timidez, reflexo de uma cobrança exagerada, ou de um valor para menos, desprezo com relação aos demais. Uma má avaliação dos pares.

A empregada a porta com um pano de prato na mão, um lenço na cabeça, o ventre quase exposto, olhando a rua. O tocador de pífano, o zabumbeiro, o triangulista, a tarde de bandeirolas, o santinho sorrindo feliz, pelos que, de alma generosa, abriam suas carteiras a doações. A noite, andando sozinho. O restaurante aberto sem ninguém as mesas. O porta guardanapo, o paliteiro, o pote de farofa. A lua, de uma noite triste, e voltar pra casa com uma só certeza, a de um aperto no coração. Nenhum dinheiro no bolso. A lua, única companhia, amiga solitária. Apareceu-lhe um moleque, um pretinho. Disse: Oi. Mediu-lhe com os olhos. Tentou adivinhar suas intenções, quase se animou a pedir um trocado. Ao ver-lhe a cara trancada desistiu.

As bicicletas pareciam mais tristes que os ciclistas. Isso porque aquelas pensam. E pensar, era fator fundamental para o deus Cronos agir. A escadaria, o eco das vozes rebatendo nas paredes. O cheiro de ovos fritos, e pão fresquinho. Uma noite, calma. Calma, igual uma xícara de café. Aguardaria com paciência a manhã de passarinhos tagarelas, de céu contemplativo, céu que vigia os viventes, e as reles tendência aos erros contumazes. Sempre a se desculparem, e odiosamente voltarem solícitos aos mesmos enganos. Um dia acordaria daquela letargia. Acordaria alguns dias, as seis, outros as quatro. E sempre com a mesma certeza. Certeza tinha que não era um sábado, muito menos um domingo. Pois, exclusivamente, esses dias amanheciam com uma cara diferente. Cara de fim de mundo. E olhava pro céu esperando um míssil, vindo com sua ogiva destruidora. Pondo um ponto final a tudo. O armagedon, tão pertubadoramente aguardado.

A escadaria, elas amavam bicicletas. A gravata, esquecera que ia precisar de uma. O momento solene exigia. A filha, terminara o curso de radiologista. Os cheiros, misturados, um champanhe sendo aberto. Adocicado aroma de abacaxi, vindo da cozinha. Devia haver alguém tomando cerveja ali perto, há pelo menos uns dois metros, em algum lugar do terraço. Som de pagode. Chapéu Prada, óculos raiban, alguém tentava acender uma churrasqueira. Os olhos vagavam pela folhagem do pé de...De que mesmo era aquele pé? Um trapiazeiro. Quem falou isso? Não havia ninguém, ali. Estaria ficando louco. Ouviu nitidamente, alguém dizendo: “É um pé de trapiá.” Uma certeza, estaria ficando louco.

A avenida. Uma efusão de cores, e sentimentos, coisas pra fazer, destinos a serem desencontrados. Vidas destroçadas, vícios. Rio de sentimentos, energia desnecessariamente gasta. Carcaças e mais carcaças, de almas rolando rua a baixo. Espíritos fluindo, alguns lentos, outros rapidamente, descendo e subindo a rua. Manter-se lúcido, questão de sobrevivência. O que tinha pra fazer faria. A vela de sete dias virada prioridade. A queda de energia noite passada, apavorante noite. Era um escuro palpável, tão intenso, como do Egito, e o faraó arrogante, coração de pedra. O medo de escuro. Desejou ardentemente o amanhecer. A noite, com suas trevas alucinantes, cercando a mente por todos os lados. A alma, ilha solitária de aflição. E se as almas penadas dos parentes viessem pedir justiça?

Escorpiões, eles se reproduzem aos milhares. Haveria milhares de irmãos daquele que havia matado no banheiro? Imaginou a cena do filme “A Múmia”, milhares deles subindo na cama entrando pela sua boca, ouvidos, narinas. Dizem que a escorpião mãe carrega os filhotes no dorso. E, se escassear alimento para a prole, os filhotes devoram a própria mãe. É da sua natureza. Na lenda da travessia do rio, ele vai preferir picar o jabuti, mesmo, sendo aquele garantia de travessia segura.

Abriu o pão, passou maionese. O descuido na hora de retornar a faca sobre o balcão da pia, e metade do pão foi ao chão. Algo aqui esperado, segundo a lei do capitão ianque Edward Murphy: a probabilidade, da parte untada cair, para baixo, dependia do peso da maionese , da altura da queda, e da força gravitacional. Esses fatores aumentavam em oitenta e um por cento as chances da fatia de pão cair emborcado. O que realmente se concretizaria, o lado untado caiu para baixo.

Outro ditado popular entrou na história, vindo lá da infância, caso ninguém estivesse olhando, apanharia. E lá dentro da cabeça, uma voz diria: “não dê gosto ao cão!”. Alguém teria criado, sem embasamento científico nenhum, a lei dos cinco segundos, que defende: “até cinco segundos, tempo de tolerância para se apanhar um alimento que tenha caído ao chão.” Uma rede de mentiras, não é igual a uma rede de intrigas. Muito menos uma rede de internet, consegue o que uma rede de punhos, armada debaixo dum telhado, é capaz de realizar. Um facão embainhado, um retrato de padre Cícero, uma moldura cor vinho pendurado numa parede de taipa, enrugada.

Café com pão, não rima com resignação. Pedidos de perdão, emporcalhados de outros pecados. O pequeníssimo furo na porta do banheiro, produzido exclusivamente para brechar  a empregada quando fosse tomar banho. A menina do longo cabelo negro, de seios volumosos, o abuso. Lembrança que afundara sob os lençóis. Lavados pelo tempo, voltariam, meio mundo de anos depois, a assustarem ameaçadores como as fendas do inferno. Parecia  reflexo de cobrança de valor para menos, desprezo com relação aos demais, irmãos.

Uma tarde, uma noite, uma manhã. O que levava, o que o motivava? Acordar, alguns dias as seis, ou as quatro. Pensar, que dia seria aquele? Pouco importava. Sabia, não era sábado, nem domingo. As bicicletas, muito mais felizes que ciclistas. Pensar, era fator essencial para o deus Eros agir. A escadaria, o eco das vozes rebatendo nas paredes. Os cheiros, perfume de gardênia. Lacívia.

A empregada, sentada num banco, roendo as unhas. Pensando em nada. Pele morena, branco dos olhos. O tocador de pífano, e suas vestes azuis. O chapéu de dançar guerreiro multicor, a maquete de igrejinha na cabeça. O rosto, borrado de carvão. Lágrimas de suor. As noites solitárias, andando a esmo. O restaurante aberto, ninguém as mesas. O paliteiro, o porta-guardanapos, o frasco de azeite de oliva. Uma caravela, e um pôr-do-sol, no biombo. Altemar Dutra a vitrola, bem ao fundo. A lua, a noite triste, voltar pra casa. Uma certeza, um aperto no coração.

 

 

 

VERMELHO-SANGUE Conto 04/06/2026






A biblioteca, um refúgio. Belo mundo, obscuro, aprendera a tatear. Amigos de verdade, ali estavam. Devagar, paulatinamente o descobrira. Ia se apegando a coisas que faziam sentido. O dia nascia, o dia vivia, o dia morria. Livros, jamais morriam. Um relógio de algibeira consultado. Aprendera a escolher livro pelo cheiro. Sabia que cheiro eles tinham, e sempre os cheirava. Aquilo fazia-o sentir-se dono. Acendia a vontade de ler.  Igual animal selvagem, que urina pra marcar território. As meninas de rosa e azul, de Renoir, na parede. O computador a horas consultado adoecendo os sentidos. Adoentava-se pelo excesso de uso, calado estava. Raiva, não era sentimento nobre, e de máquina, era infantilidade.

A moça negra, tranças rastafári. Olhos de mel, deliciosamente amendoados. Aquele sorriso insinuado entre os lábios desgastava-a, tornava-a irritante. Sentada a mesa, na sala do silêncio, lia Imaginou-se criminoso matando-a. A cor de pele, a luminosidade. Olhá-la assim, naquela tarde, no horário em que o anjo do tédio vinha-o aborrecer. Nervosamente passava as mãos nos cabelos, tanto, que quase feria com a ponta dos dedos, o couro cabeludo. Os olhos, coçava-os, tão insistentemente, ao ponto de ficarem vermelhos. Não ajudava muito, sentir o ódio que sentia. A alma, de tão cansada, deitara-se por cima dumas caixas de livros, que nem haviam sido abertas. Desmaiara, com o cheiro forte da tinta de impressão, e do polietileno das fitas das amarrações.   

Acordou com o gato lhe olhando. Naquelas ocasiões, ele sempre lhe aparecia. Terrível gato preto, de olhos ligeiramente esverdeados. Olhava-o como se lesse os pensamentos. Dava a entender que via além. E via, os sinistros prestes a ocorrer. Morcegos enormes saíam voando de dentro de “O Corvo”, de Poe. Isso criava um clima, um tanto trevoso. Cheiro de cinza, e incenso que irritava as narinas. Iniciou-se a fazer planos. Da infância, trazia alguns traumas, mamara até os seis anos de idade. Agarrava-se na saia da mãe a pedir um chupinho. Além de não lhe dar, a mama, irritada, a mãe lhe batia. Certa vez, foi o padrasto que lhe bateu. E o fez com tanta raiva, que, dada a violência, acabaria se borrando nas calças. Aquela moça, se a matasse, o que faria com o corpo? Alta e esbelta, pernas longilíneas. Bumbum arrebitado, dentro de uma surrada calça jeans. Tudo nela, dizia, o que era ser uma mulher, bonita, e negra. Calculou mentalmente a sua altura, comparou com o espaço que havia no interior da estante. Imaginou-a, Ísis a deusa egípcia da magia, e fertilidade, morta, dentro de um sarcófago. Levada ali por Osíris, deus dos mortos. Teria que embalsamá-la. No laboratório de química, encontraria, tudo o que precisava.

Ainda continuava com fome. Fome de ver gente morta. Isso, sempre o levava a lugares que  possibilitasse atender seus maníacos impulsos, necrotério, hospital, cemitério. Passaria no memorial dos velórios. Sempre havia ali, um defunto sendo velado. Gente morta, quanto mais anônima melhor. Desconhecidas, tanto, que quase ninguém iam vê-las nas últimas horas, em cima da terra. Uma senhora, que muito vivera. Só deixara completar oitenta e nove, morrera. Belo presente de aniversário. Seus olhos, de que cor seria? Assim fechados, não dava pra ver. Aguardaria, quando estivesse só, ele e a morta, abriria uma pálpebra.

Lembrou do coveiro, sentiu raiva, do homem que friamente enterrava os outros. Podia ser que não se achasse, mas parecia querer ser o dono da verdade. Tantos anos na labuta de enterrar gente, que se acostumara com a morte. Ódio, ao desprezo pela dor alheia. Considerava-o um ser, ignóbil, execrável. E precisado de uma lição. Tomou para si, a obrigação de mostrar-lhe quanto sofriam, pessoas que perdiam parentes. Mostraria ao enterrador de corpos, que tinha  ele que ser mais humano. Que tal sentir como era ser enterrado? Lá estava, quase que totalmente dentro do buraco que cavava. Sozinho, tirava o barro vermelho de dentro da cova. Aproximou-se, com toda força, na nuca, uma única paulada. Ao invés de um, dois sepultamentos, naquela tarde.

A noite, e o poder que possui de escurecer coisas que brilham, de dia, e revelar, coisas odiosamente perversas vindas do submundo.  O bar, todo tipo se encontra ali. Um, que aparentava ter emprego, família e preocupações. Deliberadamente se embriagava a uma mesa. Dentro do peito, prisioneira as angústias, donde saía, e a acariciar-lhe o espírito, frívola euforia. Lembranças de um tempo bom, onde falava alto a jovialidade. Tempo em que moto ainda era chamada de motocicleta, guidon, era guidão. Capacete cromado, cabelo ao vento, garota na garupa. Agora, só restara cachorros pulguentos que comiam restos que deixava cair da mesa. E se lhes fosse tirado, aquilo que lhes faria falta, como reagiria? Passava da meia noite, quando um guarda noturno encontrou num beco, o corpo inerte, a jugular aberta, cães lambiam o sangue, e comiam pedaços de carne do pescoço. Testemunhas diriam a polícia que viram aquele homem no bar.   

No alto do portal anunciava: Lar São Domingos. Um abrigo para idoso, todo cercado de árvores e muros altos. A paz reinava naquele lugar, por entre o arvoredo, passarelas bem cuidadas, casulos ornados de imagens que representavam a via sacra. Ali o que se ouvia era  pássaros a pipilar, se via flores nos canteiros e bancos, e se sentia o frescor de uma fonte. Quem dera fosse da juventude, e aqueles velhinhos ávidos a buscarem de beber da água rejuvenescedora. Foi visitar o pai, por conta de um aneurisma, há anos paraplégico. Pediu a benção, não havia resposta. Ficaria a falar-lhe, sozinho. Responder-lhe, o pai não conseguia. Fez-lhe uma pergunta desconcertante. Pai o senhor não queria morrer? Achava, honestamente, que sim. Afinal, aquilo não era vida que alguém, quisesse viver. Uma daquelas árvores lá fora tinha mais vida que o pai naquele leito. Uma lágrima, do olho verteu pelos sucos que os anos cavara em seu rosto. Mesmo diante, da pena que sentia, o sufocou com um travesseiro. Traçou uma cruz, na testa do corpo inanimado.

A noite, chegou trazendo um vento frio, vagou pela cidade. Lembranças boas vieram-lhe, do tempo em que saía pra farra com amigos. Um litro de bebida destilada compartilhado, um violão abundantemente castigado, a trazer alegria. O calor dos cigarros acesos, das gargalhadas, tresloucados, brindes a tudo que configurasse vida. Tudo havia se transformado, o que mais amava agora, a morte. Um sorriso doentio, crispado no rosto. Um mendigo, dormia na marquise de um armazém. Incomodava-lhe a cena. Via-se na obrigação, de tirar aquela pobre criatura do sofrimento que vivia. Pelo simples fato de assim viver, teria que morrer. Pra cometer as atrocidades recorria a algo muito ruim que lhe tivesse ocorrido no passado. Recordou da infância, de um dia que levou uma sova, de uma turma de meninos maus, que lhe pegaram na volta da escola, tiraram suas figurinhas mais especiais, tiraram-lhes o pião e as bolinhas de gude. Bateram-lhe, e por fim, urinaram sobre ele. Nunca, jamais esqueceria aquele dia. 

E quando, aquele menino que lhe urinara foi morto por um exame de abelhas, que inexplicavelmente entrara no seu quarto, fez questão de ir ao seu sepultamento. Levou-lhe flores brancas. O mendigo mataria, tendo no coração a alegria, de quem faz uma grande caridade a um pobre. Como se lhe  outorgaram o direito, e o poder de dar liberdade, a uma alma aprisionada por uma vida de sofrimento.

O bordel já ia fechar as portas. Ao aproximar-se a prostituta pediu-lhe uma garrafa de vodca, para com as amigas comemorar, o aniversário. Lembrou de uma noite antiga, em que, nem passava de um rapaz, estudante do colegial em escola noturna, ao voltar a casa, passara naquele cabaré. Letreiros em Neon avisava: Handevus The Suarez. As músicas explodiam nas caixas acústicas, contavam histórias de traições, de vinganças, e de amores bandidos. Os homens influentes da cidade frequentavam aquele ambiente, porém ocupavam lugares estratégicos, para não serem vistos, ou se preservarem das ciladas dos inimigos. Naquele pedido ótima oportunidade de proporcionar uma noite de prazer, diferente das que vivera até então. Chamou-a, a sair pela cidade, a curtirem pela madrugada. E, encerrariam a noitada dando um ao outro, tudo o que de melhor pudessem dar. Assim o faria. Seria, pra ambos, mais que uma noite de prazer. Ao passarem pela ponte desafiou-a a andar sobre o balaústre. Desafio feito, desafio aceito. Ajudou-a, a subir. E o empurrão para o nada. Um corpo caía para o abraço da morte.

O apartamento era pequeno. Uma gravura de um quadro famoso de Rembrandt “A Ronda Noturna”. Do sofá apreciava aquela cópia da pintura, se imaginava personagem da época fazendo companhia aqueles homens, pensando como eles pensavam. Ligou para uma pizzaria. O rapaz da entrega se dispôs atendê-lo. Não exigia que levasse com a tão propalada urgência, o pedido solicitado. Ódio aos entregadores de alimento rápido. A loucura que cometiam para realizarem as entregas. Punham em risco a própria vida, e a de outras pessoas. Passou-lhe o endereço, o rapaz teria que sair da cidade. Adiantou-se, e se pôs a bolar diabólico plano.  Por uma estrada vicinal, ao passar em alta velocidade, por um arame farpado esticado, e o  entregador foi encontrar a morte.

De volta a biblioteca. Nos livros, somente neles podia confiar. No Atlas geográfico viajava, a tantos lugares distantes. A bíblia, demasiadamente séria, para ser lida. Certa vez, o livro do apocalipse, quase o consumira. Prometeu nunca mais lê-lo. Dentre os evangelhos gostava da narrativa de São Mateus, por ele, alta consideração. Outro que gostava João Batista, este lhes dizia verdades. Assim como disse a Herodes, porém, como ocorria com o monarca, o erro lhe fascinava. Isso, o emocionava, tanto, e tão, que facilmente tinha os olhos vermelho-sangue.  






 

Era Tudo o que Queria... Conto 26/05/2026


A primeira coisa que lembro, desde que me entendo de gente, o doce embalar de uma cantiga de ninar. Vinda da mais bela voz que jamais esquecera, a da minha mãe. O mais incrível era, que ela, se quer abria a boca. O som saía de suas cordas vocais, e chegava-me através do corpo, do contato pele, com pele. Som morno, melodioso, acalentador. O tempo, senhor de todas as coisas, aperfeiçoaria os ouvidos. Não demoraria a escutar, e gostar de músicas, tocadas em discos de vinil. Uma imensa radiola, o centro das atenções dentre os móveis da sala.

Há um ditado que diz que, o primeiro prazer de um homem nascido vivo, é sugar. Sugar o leite materno. Semelhante a esse, e tão intenso quanto, é sugar, até a última gota. Sugar, tudo, todos os humores, se possível o sangue, a lágrima, o suor. Potentes forças, igualmente poderosas possuídas ao nascer: uma que nos proporciona os melhores dos confortos, e que atendidas sejam nossas necessidades, as mais prementes, é também a mais destruidora força, e sem hesitar, entrará em ação caso não sejamos atendidos, naquilo que necessitamos.

Causaria forte impressão, ao descobrir que eu, não era só eu. Era parte integrante de um grupo familiar, de seis viventes. Haveria momentos, que ficariam marcados, para sempre. Cada um tinha uma atividade específica, todos as exerciam: umas mais pesadas, outras mais leves. Trabalho braçal, alguns estudavam, outros limpavam, alguém organizava. E eu? nada. Tinha também momentos de descontração. A hora das refeições, que muito me marcaram. O café da manhã, um momento família. O almoço, lá em casa, se almoçava em família. Hora do ângelus, se jantava, em família.

As ruas, pareciam mais largas, as casas pareciam mais altas. O vendedor de suspiros, um gigante visto de cá de baixo. Assim se apresentavam as coisas, quando ainda éramos pequenos. As construções de tijolos maciços. Dentro de casa, colocar um quadro na parede, tarefa fácil. O barro aceitava, de bom grado, um prego. Era como enfiar um palito num bolo. Os varais para além dos quintais. Feito telas panorâmicas de cinema, como um filme que se repetia todas as manhãs, todas as tardes, todas as noites, todos os dias. As mães pretas cuidavam de lavar roupas, passavam as tardes engomando colarinhos, tirando os vincos das calças de tecido.

Os automóveis feios. Besouros gigantes, de ferro. Buzina engraçada, um espirro, um flato descuidado. As nuvens brincavam com as pipas, a grama brincava de meninos. Os calções de jogar bola, os meões esticados nos varais. Pardais, eles nunca envelhecem, pombos arrulhavam e arrulhavam como se jamais morressem, e nunca promovessem a paz, e jamais significassem espírito santo. Como a nos lembrar, cheio de inveja, casais enamorados. E entediado, velhos, que não tinham mais o que fazer, depois que se aposentavam. Inconscientemente se preparando pra morte.

As praças, ilhas de faz-de-conta. Praças, elas odiavam ter que agradar, a quem não quer ser agradado. Somente elas, as crianças queriam estar. Balançar nos balanços, gangorrear na gangorra, escorregar no escorrega. Subir nas árvores, cair quebrar um braço. Encher o gesso de desenhos, e frases, com canetas de várias cores. Sabe o que queria? Queria mesmo, era comprar aquela revista. Aquela, que tinha um desenho de uma máquina fotográfica, como que descascada, porque dava pra ver, como era por dentro. O nome da revista: “Como Funciona”. Era tudo o que queria. Até chegar o novo fascículo. E veio, uma que tinha uma pistola 45 milímetro, toda detalhada, fascinante manual do crime. Será que ensinava como se tornar um gângster? Era tudo o que queria...

Passou a tarde toda na beira do rio. É triste, ficar, a tarde inteira, olhando o rio. Melhor escalar uma serra, encontrar o couro de uma cobra, que acabara de trocar de pele. Se deparar com um ninho de urubus, os filhotes regurgitando, dando a impressão que estavam com nojo da presença da gente. Caçar passarinho. Atirar de peteca, ficar com pena do passarinho que matou. A arataca pegou um Zé Neguinho. Triste foi, levar pra casa e o gato comer, sem o menor remorso. 

Quando fez quinze anos, inventou de inventar de colecionar coisas. O que iria colecionar? Álbuns, não. Figurinhas, não. Bolas de gude, não. Tinha que ser algo diferente. Armas! Isso mesmo começaria com canivetes, punhais, adagas. Um dia um amigo, viu suas peças de coleção, pediu emprestado um punhal. Seria só por uma noite. Queria sentir a sensação de dormir, com uma arma debaixo do travesseiro. Naquela noite, ao voltar pra casa teria que atravessar uma pequena área de arbustos. Um colega resolveu lhe pregar uma peça, lhe fazer medo. Surpreendido com o susto desferiu vários golpes de punhal. Em estado de choque, se desfez de sua coleção de armas brancas, atirou tudo ao rio. Não queria ser cúmplice. Melhor se desfazer. Era tudo o que, não queria...     

A juventude chegou, trazendo pêlos no queixo, no bigode, no púbis. Lençóis borrados de sêmen. Coleção proibida de calendários de bolso, fotos de mulheres nuas. Numa madrugada fria de agosto, acordado seria pelo pai, pra ver um cometa. Três da madrugada, o raio do cometa, só às quatro da manhã passaria. Entre sonho e sono, entender onde ficava o planeta Vênus, que era a estrela Dalva, a constelação de Centauro, o Cruzeiro do sul.  Dormir, dormir, era tudo o que queria...

O vendedor de cavaco chinês, de algodão doce, o negro com sua bacia de fubá na cabeça. Sentado na cadeira de balanço na varanda. Parecia que estaria entrando no livro de história, indo fazer parte de um quadro do alemão Johann Rugendas. As moças com seus chapéus enormes, suas sombrinhas coloridas. As saias com tantos babados. As bicicletas engraçadas, com faróis que acendiam pela energia gerada em um dínamo, rente ao pneu. Tudo o que mais queria era adquirir aquele estojo de pintura, com cavalete, paleta, jogo de pincéis. Era tudo...

O hino cantado na porta da escola, os colegas todos perfilados. E o menino mais traquino da turma largou uma gia no pelotão das meninas, foi o maior alarido. Era dia da bandeira. O fogueteiro, a bandinha de pífano avisando a quermesse, logo mais a noite no bairro do subúrbio. A imagem da santa dentro de uma caixa de sapato, caprichosamente forrada com um pano alvinho. Já havia aprendido a fumar cigarros de filtros longos, amarelos, com piteiras. Já aprendera a tomar vermute, conhaque, e mais raramente licores e uísque. A coleção que tinha no fundo de um baú, era de amostras de bebidas. Pequenas garrafinhas que imitavam as grandes, no rótulo, na tampa, e mesmo no conteúdo.

Possuía várias garrafas de ferro, alumínio, e vidro, achatadas para levar no bolso do paletó, quando ia aos bailes. Os irmãos, odiavam-no, por levar aquela vida mundana. Um parasita de família. Sem querer assumir um emprego, um trabalho do qual se sustentasse. Era o que todos mais queriam. E não ficasse apenas esperando que os pais morressem, pra pegar sua parte do espólio.   

Os desenhos de quando tinha três anos, por acaso os encontrara. A tabuada que tantas lembranças ruins trazia. O toco de lápis grafite, enfiara uma vez a ponta daquele lápis, nas costelas de um colega, com quem brigara. O compasso destroçado, já não conseguia abrir escala; por conta da artrite, da artrose; a régua desreguada, o apontador já cego; a borracha, pele enrugada; o mata borrão praticamente morto. O transferidor transferido, o planisfério aposentado. As folhas que um dia fora brancas, amareladas. Achou um desenho do rosto de uma coleguinha que ele riscara tanto, mas tanto que ficara completamente desfigurada. Havia muita raiva naqueles traços riscados com força. Não se considerava doente. Não achava que fosse psicopata. Contava ao psicólogo que tivera problemas com algumas meninas, e que vozes diziam pra ele, que elas não prestavam. Sonhava enfiando-lhes agulhas de crochê nos olhos. E ria disso.

A vara de pesca, o anzol, a lata velha cheia de terra úmida com minhocas. O embornal surrado, as botas de couro, as cordas de agave, buchas de lavar pratos, tiradas do mato. A coleção do momento era de folhas de mato. Por acaso, a iniciou. Colocara uma folha de hortelã dentro do livro que lia: “A Queda da Casa de Usher: Edgar Allan Poe”. Dias depois percebeu quão bonita ficara desidratada. E que o cheiro permanecera no livro. Por isso, passaria a colecionar. Não era o que mais queria, mas...

As xícaras de porcelanas, os biscuits, a caixinha de música. Os remédios, o terço de contas escuras. A mãe na cozinha preparando a janta. As pernas grossas, cheias de varizes. Colecionava agora, retratos de gente morta. Recortava dos jornais, e as guardava, em uma pasta preta. Páginas de filme, o plástico exalava doce perfume. A foto dos irmãos, todos, já haviam morrido. E ficava passando o dedo indicador sobre seus rostos, como se os acariciasse. No dia do sepultamento, não teve coragem de aproximar-se do caixão, de nenhum. Nunca se perdoaria, por isso. Já os perdoara, por não gostarem dele. Quisera tanto, ter se reconciliado com cada um, antes de morrerem. Era tudo o que mais queria.

As saias, tão amigas das anáguas. Gostava de roupas femininas. Colecionava-as. Certa aversão aos ferros de passar, isso porque O calor quase infernal, ia tirando pouco a pouco o brilho que tinham. O toucador, o abajur, o cinzeiro, a capa de chuva, o guarda-chuva negro, o porta-óculos, o cachimbo, o cortador de ponta de charuto, o canivete, o pincel de fazer espuma, pra fazer a barba, o barbeador de lâmina, a navalha. O baton vermelho. Todas as coisas possuíam um valor, transmitiam uma mensagem, que um dia seria decodificada. Poderia acalmar-lhe, poderia trazer-lhes lágrimas, e na mesma hora, com mesma intensidade, um sorriso, que ia se transformando numa espalhafatosa gargalhada.

O paletó, que tantos bailes fora, tantos batizados, casamentos, saraus literários, exposições,  comícios, julgamentos. À missas solenes, aos funerais de amigos, as reuniões dos clubes de serviço. Aguardava calado, no cabide, o dia, que iria em definitivo, ao túmulo com seu mais fiel, e melhor amigo. Colecionava insetos agora. Borboletas, escaravelhos, aranhas. Catalogava-os: nome popular, nome científico, o que comia, se era inofensivo, se era venenoso. Uma aranhazinha, a danada, mal cabia na ponta do indicador. No entanto o veneno era capaz de, instantaneamente, matar. Um dia, acidentalmente caiu uma, no bule de café sobre a mesa. Todos tomaram daquele café.

Sentado no banco da praça, tristemente olhando, pro nada. Um jovem se aproximou, caderno na mão. Perguntou se poderia o entrevistar. Falou sobre uma história que tinha. Queria opinião. Imaginara a história de um escritor, que planejara assassinar os familiares, pra ficar sozinho, com a herança. Enquanto ouvia, ia bolando o plano,  lembrando, de seus pequenos crimes, de infância, juventude, idade adulta.

 



 

Caminhos...[Town of the Souls] Conto 20/05/2026.


 

O cemitério ficava no alto da serra. Diante do portal, pra quem ia saindo, o mar enchia os olhos, de sal, de sol, the soul. Olhasse pra o norte, lá estava, proeminente, majestoso, a cerca duns mil metros, o farol, com seus mais de vinte metros de altura. As faixas negras diagonais, dando a impressão que naquele local existia uma barbearia, invisível, de um povo gigante. Para além dos muros, do lado sul, e a oeste, coqueirais. A cidade dos mortos, bastante movimentada, naquela tarde. Pessoas de diversas épocas, passeavam trajando, cada qual, vestes do tempo em que eram vivos.

A oeste, do desfiladeiro soprava um vento, de barro vermelho. Aquela chapada, fendida ao meio parecia que, num tempo distante, um monstro colossal havia passado por lá, e, teria dado imensas abocanhadas no maciço, achando que fosse algo de comer. Aparência, de imensa cocada pé-de-moleque. Mais uma mordida, e, tragicamente, o chalé a beira do precipício teria desaparecido. A poeira dos túmulos, levada às narinas dos ventos, a provocarem pequenos e revoltosos redemoinhos.

Cabelos grudados nos crânios descarnados, diziam medos. Para sempre ficaria nas retinas dos olhos das crianças. Velas que não queimavam dignamente, sobre suas deformidades se retorciam. Um menino passou correndo, pisou em falso, se desequilibrou, caiu. A catacumba deu um estalo estranho, sobre o peso extra. Instintivamente se desvencilhou da mão que tentara ajudá-lo a levantar-se. Menino arredio, pele escura, roupa surrada, boné bufante escondia a carapinha, calças curtas, pés descalços. Eram trajes de pelo menos, dois séculos para trás. Sumiu entre os túmulos.

Havia uma mesa posta, a um canto, repleto de paz e ramagem de flores. Um violinista, que ninguém via, executava a sonata número quatro de Vivaldi. O som do violino envolvia. Amoreira, grama verde, ainda mais vistosa, sob um buquê de formosura. Os talheres em estilo neoclássico, prateados. As taças, ricas em detalhes, ornada de pintura: anjinhos nus, voando num jardim onde um pintor ensaiava sobre a tela, os primeiros traços de sua modelo. Bela madona, comodamente sentada sobre a raiz nodosa de acácia. Uma família composta de mãe, e três filhos. Duas irmãs, e um irmão, chegaram e ocuparam seus lugares. O sol no forro branco, alvíssimo pratos de porcelana, talheres de prata, a governanta em pé, o sol. Não há aqui, a necessidade de dizer seus nomes, afinal, estão todos mortos. A janta foi servida. O assunto, era o pai. Se chegaria a tempo.

O mar, tão belo, avançava pro oceano. A praia separava o elemento terra, do elemento água. A faixa amarela de areia, adiante verde coqueiral. As casinhas descoloridas, enfileirada empurradas pela enseada, enfeitadas de jangadas, compunha a pequena cidadela. O chefe do executivo, e sua comitiva naquele instante se encontrava no campo santo. Aglomeração frívola fazia as honras de inaugurar a estátua, de corpo inteiro, do pai do prefeito, funcionário público exemplar, a sua vida dedicara àquela cidade.

O prefeito era chamado de coronel. Seus ancestrais chegaram ali para trabalhar no campo. Criara seus filhos: um menino, e duas meninas, desde pequeno tendo um propósito para cada um. O menino serviria ao exército, e depois ingressaria na política. As meninas seriam: uma médica e outra professora. Na verdade o menino era menina, disfarçada de menino.

O pai daquelas três crianças sempre quis ter um filho homem. Para sua decepção, a sua esposa, por três gestações seguidas tivera três meninas. O coronel levava as meninas pra roça, fazia com que as três fizessem trabalhos de homem, capinar, preparar o solo pro plantio, arar terra, ir buscar água no açude com o carro de boi. As meninas nunca foram uma festa, nem uma missa aos domingos. Tudo para que não tivessem contato com meninos. O pai permitia ir à cidade somente a filha que se vestia de menino, mantida de cabelos curtos, pra parecer um menino.

Havia um gato. Sim, era um gato branco, bem apoiado, sobre uma catacumba. O olhar fixo no muro, branco. Não fosse pelo rabo, às vezes mexendo, sutilmente na ponta da calda, passaria por uma estatueta. O que estaria observando? Não estava em atitude de caça. O dorso ereto, as orelhas apontando para cima. Aquele bichano observava alguma coisa, o que mesmo? Uma passagem, uma porta lateral no muro do cemitério. O portão aberto estivera o tempo todo ali, e passara quase despercebido. Olhando mais atentamente, via-se uma passarela bem cuidada, e pessoas seguiam para além do portão.

Numa manhã muito triste, chegou por ali, uma família de negros retirantes do alto sertão, fugiam da seca, pra não morrer de fome.  O coronel, para demonstrar sua benevolência, e provar que era um homem de Deus. Propôs uma comercialização com os retirantes, trocaria uma saca de feijão por um menino negro. Os retirantes aceitaram, a troca foi feita. O negrinho tinha dez anos de idade, quando chegou a fazenda do coronel. O plano do fazendeiro, era usar o pretinho para serviço pesado. A intenção era aliviar, o serviço das filhas. Uma ideia macabra, porém, povoava sua cabeça: castraria o pobre diabinho.

Sentada num banco chamado péla-porco, a mãe preta acendeu o cachimbo. Deu boas baforadas enchendo a senzala de fumaça azulada, e cheiro inebriante. Uma caneca de café, ao alcance das mãos nodosas. E contou histórias dos tempos dos seus avós. Uma dessas, falava de um ano difícil, onde rumas de retirantes tiveram que deixar o sertão, fugindo para a zona da mata, se sujeitar a escravidão dos coronéis, no plantio da cana-de-açúcar. Revoltados com a humilhação, o sofrimento, muitos resolveram fugir pro mato, se unir, se organizar, e  saquear as fazendas dos coronéis.

O senhor coronel prefeito, estava na sua sala de descanso, sobre a escrivaninha, um revólver. Óculos no rosto, lia um livro. Uma taça de vinho entre os dedos. O cachimbo, fornilho de ébano, canela de cerejeira, boquilha de prata. Tabaco importado, aromático. O pensamento confuso, mistura de negócios, safra de açúcar, encontro com o governador, viagem a capital, compras, ida ao banco mercantil, visita ao bordel da amiga cafetã, Lusitânia, no cais do porto. Contrataria dois jagunços para matar os negros que tinham feito a desgraça na sua casa grande, junto a sua família. O ódio, era tanto no seu coração, que gotas de sangue vinham aos lábios a misturar-se com vinho. Tanta era, a força que punha nos dentes.

A porta que havia no muro lateral do cemitério dava acesso ao vale. Era uma descida e tanto, uma passarela trabalhada com pedras negras. Nos aclives mais acentuados degraus para amenizar o perigo da descida. Havia também parapeito, nos dois lados. Muitas pessoas estavam descendo. Subindo, ninguém. As pessoas só desciam. Ninguém conversava, nada. 

Lá embaixo, um curso d’água, na verdade um rio vermelho. Na margem, do lado que ficava o cemitério, um canoeiro dentro da sua canoa, segurando um enorme remo, era um velho encapuzado, donde sobressaía sua barba. O velho aguardava as pessoas vindas do cemitério, que desciam pela passarela.

Eram dois negros. Chegaram a casa grande do coronel a pé. As armas que portavam eram duas facas. Um entrou pela cozinha e rendeu a governanta, que dormia num quartinho, anexo à despensa. Amarrou-a e tapou-lhe a boca com um pano. O outro invadiu o quarto da esposa do coronel, e a imobilizou amarrando-a na cama. Os gritos que ecoaram na noite eram das meninas sendo imobilizadas pelos dois saqueadores. As três moças, a esposa do coronel e a governanta, foram todas estupradas. Os negros eram sádicos, insaciáveis, violentos, havia muitos dias sem comer, nem fazer sexo. A bebida contribuiu para que dessem vazão aos seus instintos mais insanos. Os integrantes da casa imobilizados, os negros foram pra cozinha, estavam famintos, preferiram vinho do porto, uísque, e cachaça da adega.

O negrinho criado do fazendeiro, dormia no celeiro, a alguns metros da casa grande. Acordou com os gritos das meninas. Tomado de coragem, tendo muito cuidado pra não ser visto, foi até uma das janelas da casa grande. Pelo lado de fora, e protegido pela escuridão, viu as atrocidades que seus irmãos de sangue praticaram contra aquelas indefesas criaturas. Os negros, reviraram a sala do coronel, encontraram jóias, dinheiro, dobrões de ouro. Engolidos pela escuridão, se foram.

Já seis dias haviam se passado do ocorrido. O coronel se embrenhara na mata, seguindo os rastros dos dois saqueadores. Finalmente foi os encontrar numa gruta, num lugar cheio de cavernas na base duma serra, era um charco de lodo, havia uma cachoeira. Por um dia inteiro, o coronel os observou, de um local seguro. Analisou friamente como executaria sua vingança. Esperou o cair da noite, para por em prática seu plano. Os negros beberam cachaça a noite toda. Ao perceber que haviam caído no sono o coronel se aproximou. Pegou-os de surpresa, rendeu-os apontando seu revólver.

Amarrou-os e deu início a um interrogatório. Para cada confissão, uma punição. Arrancou-lhes todos dentes, cortou-lhes a língua, arrancou as unhas. Os gritos de dor eram abafados com um tufo de pano na boca. Arrancou-lhes os olhos. Por fim arrancou-lhes o sexo.  Enfiando-lhes na boca, com bolas e tudo.  

O coronel acendeu seu cachimbo. Ateou fogo aquele grotesco acampamento, visão dos infernos. Calmamente com seu cavalo, foi se afastando dali. No alforje dos negros, duas bananas de dinamite. A explosão foi ouvida a quilômetros de distância. O dia já ia amanhecendo, jandaias se espantaram, saguis saltaram nos altos galhos, a onça pintada parou, piscou pensativa.

Lá iam os três: o coronel, e os dois negros transpondo a porta lateral, da cidade dos mortos, tranquilamente desciam pela passarela. De um salto, o gato branco alcançou o chão, e se foi. O barqueiro de Hades inquiriu: -Trouxeram moedas?