PÉ DE CÃO Conto 03/03/2026


Lá ia o mundo, bolando, pelo infinito a fora. Mundo girando, vagabundo. E na casca, levando um tanto de gente. Gente, que as vezes, nem um muquifo, onde se amparar tem. Um buraco, pra chamar de “lar doce lar”, não tem. Gente que acaba fazendo da cidade sua casa. Pé de cão é um desses. Habitante desse planeta, e sua casa, o mundo.  

José Luiz Ferreira Santos, esse foi o nome que lhe deram na pia batismal. Seus pais viviam de roça, eram agricultores. Não tiveram muito a lhe oferecer, quanto a educação. Oportunidade de trabalho, só a do roçado. Ainda menino, Zé Luiz, chegou a ir a escola, parou na terceira série do fundamental. Aprendeu ler e escrever, achou que era o suficiente. Empolgou-se com os jogos de futebol, nos times da periferia. Pena, que só ele achava que tinha talento com a bola. Dos campos rurais, pros campinhos de várzea. Daí pra os bares, pras farras com cachaça, foi um pulo. E a bola do mundo debaixo dos seus pés lhe deu muitos dribles. Voltar pra roça não quis mais. Os pais, idosos, não demorariam muito, partiram pra junto de Deus. E vagou pelas casas de alguns poucos amigos. Depois só restariam as ruas.

As ruas foi o que restou pra chamar de casa. A marquise de uma loja, a calçada da igreja, um ponto de parada de ônibus, uma construção inacabada, um prédio abandonado. Anoitecia, em qualquer lugar, onde estivesse, estava em casa. Seu quarto de dormir, um canto para recostar a cabeça. O colchão, um pedaço de papelão.

Ruas, praças e avenidas viraram sua sala de estar. Uma torneira com água, podia proporcionar um breve alívio, lavar o rosto. O cafezinho gratuito, dava pra conseguir, na recepção da prefeitura. E partia pra mais um dia de vida concedido por Deus. Se oferecia a lavar os carros dos grã-finos, estacionados nas portas dos hotéis. Ao meio-dia, o estômago dizia, que precisava de algo pra digerir. Opções havia, pra conseguir comida. E a busca faria considerando a um doador que a mais tempo fizera uma visita. Restaurantes, hotéis, lanchonetes, padarias.

Pé de cão, dizia que não tinha amigos, apenas colegas: “Só tive um amigo na vida, meu pai. E agora só Jesus!” Criara um itinerário, que cumpria diariamente, ao perambular pela sua “casa”. Primeiro o Bar de Zé de Quineu, o destino de toda manhã. Ponto de encontro dos pingunços. Os chamados: Pé-inchados, ou Pé-na-cova. Alguns frequentadores, eram colegas do tempo que fora jogador de futebol. Alguns idosos, rebeldes, viciados, que fugiam de casa pra beber, sem serem importunados pela família. Aposentados, ex-funcionários públicos, que nunca conseguiram se livrar do vício da embriaguez.

Pé de cão, não negava serviço. Tinha vez que se oferecia, e outros que era chamado. Serviços que sujavam apenas o corpo, e outros que maculavam a alma. Alguns que carregaria a mancha na alma. Já participara dos dois tipos. Lavava pocilga, limpava vísceras de bois, no matadouro, desviscerava peixe no mercado, esgotava fossas. Já fora preso, por arrombar um armazém. Repassara drogas das “bocas” pra estudantes em porta de escola. Outros que terminado, bastaria tomar um banho no rio, e ficava limpo. Nada que um pedaço de sabão, água a vontade, num local mais afastado, não limpasse. O banho de rio, e a capacidade que tinha de revigorar as forças. O rio, também, faz a pessoa voltar no tempo, relembrar coisas de infância. Dar saltos mortais, sapatadas, descer na correnteza, nadar cachorrinho, se lambuzar no barro da encosta. Uma brincadeira que nem lembrava mais, fazer carrinhos com varas de mamoeiro.  

Mercado da feira, lugar, aonde opostos, se encontram. Os que buscam algo, e os que necessitam desfazer de coisas. Um eterno se encontrar, e se perder. Ulular de vozes, diálogos, ora sussurrados, ou xingamentos exaltados. Uma babel, onde todos se entendem. Pé de cão, faria qualquer coisa, desde que lhe rendesse algum dinheiro. Arrumou uma empreitada. Era serviço pesado. Carregar, até o lastro de um caminhão, cinco sacas de feijão.

Cada saca pesava sessenta quilos, quase o dobro do peso do estivador improvisado. O pobre homem, de estatura minguada, era só ossos. O uso excessivo de álcool minara suas forças. A primeira saca, e a cabeça ficou leve, igual uma pena. Parecia que não havia nada sobre os ombros e o pescoço. Mais duas sacas, e o coração, deu pulos, ameaçando sair pela boca. Das duas últimas, sufoco. Só uma, conseguiu manter a consciência. E o desmaio.

Pé de cão, nunca gostou de mendigar. Até que tentara, algumas vezes, porém, achava  humilhante demais. Além do que sua aparência de boêmio, aliado ao ar de quem não tinha cara de necessitado rendia-lhes impropérios de quem abordava. Engolia seco, e as poucas e boas, que ouvira faria definitivamente desistir da mendicância.

Bar Comercial, Pé de cão sabia, ali tinha que respeitar. Pedia uma cachaça, pagava e saía. As frases filosóficas, tipo: “Se nada tens a fazer. Não o faça aqui.”; “Um domingo sem missa, é uma semana sem Deus.” Pregadas na parede, dizia tudo.  O bar era frequentado por muitos colegas de Pé de cão: “Cara de Jegue”, “Fedor”, “Dorme sujo”, “Zebedeu”, “Profeta”, “Capiá”, “Tarde Fria”, “Saco do cão”, “Fofão”, “Ciço Mouco”, “Papa-figo de Abidôn”, “Chupa péda”, “Macaco”, “Instalação trocada”, “Zé Gago”, “Colimério”, “Miau”, “Branca-de-Neve”, “Mão-de-Onça”, “Lopreu”, “Calhambeque”, “Ivaldo Cui-ui-ui”. Era uma seleta freguesia, ali se encontrando: comerciantes, artistas, locutores de rádio, funcionários, também poetas, cordelistas, repentistas, ambulantes, moradores de rua.

Um morador de rua, como qualquer pessoa, precisa fazer suas necessidades fisiológicas. As opções, no transcorrer do dia pode variar. O mercado público, as repartições do governo, e particulares, bares e restaurantes. A coisa só se complica, com o avançar da noite. Quando começa a escassear algum ponto aberto. Cabe aqui a improvisação, um terreno baldio, um lugar ermo, uma capoeira. No último caso, evacuar em um saco plástico e se desvencilhar a plena via pública.

Vida de rua, exige cuidado. Quando a escuridão envolve todos os cômodos dessa casa, chamada cidade.  A lei que vigora, é a lei da selva. Os cães de rua, de dia, são parceiros, e até brincam de andar com os vagabundos, como se esses fossem seus donos. A noite, rosnam, mostram os dentes, e latem com fúria pra tudo que se move. Tudo vira ameaça, chuva, trovões, ratos, gatos, cassacos. O terror fica por conta da falta de energia elétrica. Nada é mais assustador.

O namoro. Pé de cão, tinha uma namorada, Ritinha. Ela também vivia perambulando pelas ruas. Embora tivesse onde e com quem morar, numa casa de verdade. Maria Rita de Cássia, já tivera uma família, até os vinte anos morou com seus pais. Seus pais morreram, vitimas de uma cheia do riacho Camoxinga Teve um ano que desceu da serra uma tromba d’água que atingiu sua casa. Naquele ano, foram muitos desabrigados. A defesa civil, o corpo de bombeiros, e o Serviço de resgate muito trabalho teve para encontrar os corpos , pra resgatar sobreviventes.

Pé de cão, conheceu Ritinha, na madrugada do domingo de carnaval, os dois catavam latinhas vazias, de cerveja e refrigerante, pra reciclagem. Sentados na calçada conversaram, fumaram um baseado. E daí a pouco estavam transando num terreno baldio, na saída da cidade.  As ruas, aos poucos vão se tornando a única opção de morada, de gatos e cães abandonados, de animais silvestres com hábitos noturnos, cassacos, cobras, raposas, ratos, gabirus, corujas, gaviões, papa-mel, sapos, gafanhotos, enxames de abelhas, morcegos, saguis, e gente. Arriscando a vida, em nome da sobrevivência. A lei da selva, acaba, migrando pra cidade: vence o mais forte.

 O apelido Pé de cão, vem de uma história pra lá de estranha. Primeiro que, qualquer um que olhasse para seu pé esquerdo via que algo diferente existia. Era totalmente de uma pele mais escura que o resto do corpo, e coberta de pelos negros, de um aspecto capaz de causar repulsa. E se completa com a história de um encontro que nosso herói, teve com uma figura folclórica, um lobisomem. Ele fazia questão de contar, com riqueza de detalhes. “Lá ia eu, bem tranquilo pela rua da Praia. Passava da meia noite,  era uma sexta-feira, do mês de agosto. A rua estava escura, a única luz existente a dum poste, mesmo assim coberta por uma neblina fina. Pretendia chegar a casa do amigo Carlinhos Índio, conhecido de todos nós, homossexual declarado. Eu estava com muita fome. Sabia que chegando no “apê” do meu amigo. Se tivesse, ele não me negaria algo pra eu comer.”

De repente ao dobrar a esquina Zé Luiz se depara com uma cena dantesca. Um lobisomem, vinha saindo de uma bueira de esgoto, bem ali, na sarjeta. Zé, vinha na calçada alta, que fica bem de frente a igreja de Nossa Senhora de Fátima. Calçada da associação dos moradores daquele bairro. O ser horripilante tinha cabeça de lobo, e corpo de homem, totalmente coberto de pêlos, vestia uma calça jeans. Os olhos de fogo. A voz como que de mil demônios, disse assim pra Zé: “-Eu venho do mundo das trevas, vim lhe buscar. Porém, você só poderá ir, depois que virar bicho, assim como eu. Pra isso, eu preciso lhe morder, numa perna, ou num braço.” Ao dizer isto o lobisomem partiu pra cima do rapaz, que se esquivou. E empurrou o homem lobo de cima da calçada. A fera caiu, mas conseguiu agarrar o tornozelo do Zé. Isso foi suficiente para iniciar o processo de transformação. Então, Zé Luiz deu um estrondoso grito que ecoou por toda rua: “-Valei-me! Meu Padrinho Ciço do Juazeiro!” Exclamou, ao tempo que olhava pra um casulo de vidro fincado na parede da igreja, com a imagem do santo milagroso do Cariri. Na mesma hora o lobisomem, soltou seu pé, e sumiu na boca negra, bueira a dentro.

Naquele sábado, de boca em boca, a notícia se alastrou. Não se falava de outra coisa: A fantástica história do morador de rua que se encontrou com um lobisomem, na rua da praia. E no Bar Comercial, sentado a uma mesa, o poeta Mário Pacífico, deu o mote: “Assim diz o povo, acredite Você ou Não/ Homem vira Lobisomem, isso é lá com Pé de Cão.”