OLHOS VERMELHOS


A moça precisava casar, pelo menos era o que pretendia. Os padrinhos pacientemente aguardavam na calçada da igreja. Coisas rememorava de quando ainda era menina. De quando naquela mesma igreja batizaram-na, mesmo altar, mesmo padre. Mais velho estava agora. O noivo ainda em casa trocava-se, no quarto. Os tanques de guerra lentos avançavam. Não entendia porque não produziam som algum. Apenas avançavam esmagando um céu, que um dia fora preto e branco, agora cinzento. Uma falta de ar, a encher-lhe os pulmões sufocando. Isso chegava a arder-lhe os olhos. Olhos vermelhos. À boca, gosto de nada, como se mastigasse cortiça. Gosto de vinho velho que vinha, inebriar o pensar. De longe àquela tarde antiga, de mais de quarenta. Tarde amarela de sol, voando fugindo, na velocidade que passava. E ter que descarregar tijolos de um velho caminhão. A carroceria tinha lastro quebrado. Dava pra ver pelo buraco a estrada passando ligeira. O pó da argila nas narinas, na pele, no cabelo. Só quando tomasse banho no açude se livraria da fantasia aborígene.

O pai estava na sala. A luz intensa quase cegava. Agora ia ficando cada vez mais sem visão, cada vez mais, a ver cada vez menos. Caso piorasse, e sabia que ia piorar, pediria a filha que o levasse, assim mesmo, pra feira. Se contentaria em sentir o cheiro dos bagos de jaca. O bambão leitoso, por certo jogado, ali por perto, na sarjeta. O cheiro de tempero moído, o fumo de rolo picado, os gritos do vendedor de picolé, a algazarra, uma alegria, de tantos outros significados. A carta que foi para a emissora de rádio, entre linhas de folhas de caderno, e caneta de tinta que azulava incertezas e desertos de almas e medos. Declaração magra, de amor, fraca de desejos. O maio que ficou pregado no tempo voltou, sujando o céu com suas nuvens cor de chumbo, pela manhã. E feito carneirinhos de Deus na vespertina. À nona, hora da oração da misericórdia. A igreja quase deserta. Vento nos ombros, soprando atrás das orelhas. Eu estou aqui. Não se esqueça de mim. Estarei contigo todos os dias. Te vigiando, para te guardar do mal. O mal que sempre estará em você mesmo. Guardado, grudado a sua alma, dormindo. 

Quando era criança, menina ainda, não pensava em nada disso. O pai, sentado na primeira fila de bancas da igreja. A cara de Madalena arrependida. Olhava fixo pro piso. O padre dava-lhes conselhos, que estavam pelo menos dez anos atrasados. O padre disse bem assim: Não, não é que agora seja tarde. Sempre, é tempo pra se arrepender. Ele também se confessara. Não havia sentido no que pensava. O que contara na confissão não devia ter contado ao noivo. Sem a menor intenção de fazer sentido. O noivo ficou indiferente a tudo, desde que ouviu a confissão. 

O sangue na louça branca, no apoio da pia. O espelho do toucador também ficou tinto, a torneira pingando metalicamente, bem dentro do ralo, produzindo um ruído que era como dissesse: “Foi”, “Foi”! Foi o quê? A mão direita - o corpo estirado no chão – estático, ainda segurava a navalha. O fio inoxidável calado, mesmo assim dizendo que quase não tinha sangue. Tudo parecia dizer: não sinto-me culpado de nada. Se havia culpa era somente de ser. O caminho para a serra cheio de buracos, fendas provocadas pelas chuvas. O homem da capa preta, chapéu preto, andar preto, como quem provocava poesia, ao cair da tarde. E ia sentar-se no banco de ferro e madeira, a praça dali a pouco escuro, tudo ficaria. Quase indiferente as nuvens carregadas de sofrimento, e angústia indo pra bem longe. Enquanto um balão vermelho vinha voltando quarenta e poucos anos depois, como se tivesse acabado de escapulir das cordas mal amarradas, ainda agora mesmo. A desenhar uma trajetória que dava um frio na coluna. E descia até o final da espinha dorsal. Um sentimento de leveza, de quase não existência. De apenas ficar pensado. Como se também quisesse alçar voo junto com o balão imaginário. Mas que fora de verdade fora, um dia. Os pés e a gravidade impunham sua dura lei. Agora somente os sonhos conseguiam voar, com a promessa que um dia voltaria. Sem sequer saber se um dia voltaria. E não é que voltou? 

Com ele trouxe homens, de chapéus engraçados, chapéu coco, cartolas, e mulheres de vestidos longos e sombrinhas deliciosamente delicadas. Diziam-se convidados para o casamento. As prostitutas maquiadas, com certa extravagância, de perfumes muito afetados. Os homens do departamento de saúde vistoriavam seus convites, pediam os cartões de vacina, e faziam anotações. Atestando para todas que, após a cerimônia, poderiam vender amor para quem quisesse. Um homem de baixa estatura, gorducho, de nariz redondo e bochechas avermelhadas, num canto do salão produzia uma pintura à óleo, retratava aquele momento, solene. Vez outra, fazia algumas exigências. Um copo de conhaque que nunca estava vazio. Um cinzeiro fumava e fumava. A vitrola cantava uma canção que falava de um homem perdidamente apaixonado por Dolores Sierra lá de Barcelona à beira do cais. 

Ao cair da tarde o menino foi à casa da vó. No caminho levou uns pingos de chuva. Adoeceu. Foi ficando cansado, cansado. Seu peito subia e descia descompassado. A tosse seca. A face em fogo. Os olhos vermelhos. E teve sonho com cavalos que disparavam num prado instigante. A oração apressada de quase noite, assoprava o candeeiro. O telhado chorando lacrimosamente, nostálgico. Choro de chuva, e frio. Onde estaria o gato àquela hora? Talvez no cesto de roupas sujas, se esquivando da noite molhada. O soldado, rosto de bronze e lama não podia demonstrar que sentia medo. A mãe dormia um sono leve subitamente interrompido pela chuva. Os cavalos bravios endoidecidos invadiram o cemitério. De repente uma granada explodiu quase no rosto do rapaz, atirando pra longe os dois braços que continuava segurando o fuzil. 

Não haveria casamento, o noivo travara uma luta insana, uma guerra, contra ele mesmo, e perdeu. Perdeu para a morte. O tio do menino, não mais casaria, suicidara-se. Como alguém escolhe tirar a própria vida às vésperas do casamento? As flores na jarra se cansaram de esperar. Enfadados os quitutes, o ponche. A moça vestida de noiva, uma bailarina de porcelana. Mas como isso foi acontecer? As coisas não carecem de explicação pra acontecer. Independente de agradar a uns e desagradar outros. Nem só de borboletas de asas vistosas vivem os jardins, mas também de lodo, espinhos e lama. E ficaram debruçados sobre os comentários. O gato não se animava perseguir o cassaco que viera revirar o lixo a cata de comida. A água descia pela calha levando pra sarjeta uma terra preta trazidas das telhas. Quem dera levasse os pensamentos maus. O menino sonhava que o criado mudo transformara-se num grande peixe. E mesmo virado em peixe continuava o móvel da cabeceira de sua cama. E falava pra ele ficar calmo, que tudo aquilo ia passar. O tio estava bem, apenas dormia. 

Os óculos do senhor feitor vencidos, ou seriam os seus pobres olhos? O pior é que mal conseguia enxergar as letras do grande livro. Palavras, letras, frases se desaprumavam da página amarelada. Ameaçavam desabar, vertiginosamente sobre seus sapatos bolorentos. Letras, ora obesas, ora desnutridas iam e vinham cirandeando nas folhas alvas avançando pra sua face. Um baile dantesco de grafos zumbis zumbindo. Olhos vermelhos. Fechava o olho esquerdo, e tinha a impressão de melhorar, mas não muito. Não haveria casamento. 

Os convivas se puseram a servir-se por conta própria. Quando se fartassem iriam embora. As prostitutas sorriam sorrisos líquidos, cintilantes, de baton e ruge carmim, de lábios lânguidos a beijar e marcar, tulipas de champanhe, cálices de vinho. O pó de arroz, o espelho do toalete. A mão enorme, tapou-lhe a boca. Enquanto a outra buscava seu sexo. Tornando púrpura a flor de menina. Não tinha forças para reagir a seu pai, um monte de músculos, o sexo rijo. O homem tão familiar, entrando com força dentro de seu corpo virginal, infante. Por certo não seria um homem mau. O pai não é homem mau. 

Não mais haveria casamento. Pobre rapaz, duro demais suportar tal confissão, vinte anos depois. Quem sabe uma missa, um velório. Qualquer coisa que precisasse daquelas flores brancas. Rosas, cegas de sono amparadas pela luz das velas. Bêbadas do cheiro náuseo de alfazema, e cítrico de casca de laranja. O choro arrendado as carpideiras, pagamento antecipado. As ruínas causadas pela guerra, além dos campos de batalha. Verdades escondidas por muito tempo, destruíam lares que sequer começaram, destroçavam almas de gente que ninguém, nunca, jamais falaria. O carro preto parado na porta. O menino não iria ao sepultamento do tio, ainda estava muito debilitado pela asma.

O gato ficou olhando de longe. O movimento demasiado nos cômodos da casa acabaria por expulsá-lo da rotina, de brincar com o novelo de lã, de deitar no sofá, espreguiçando-se nas almofadas que esquentavam ao sol da janela. A barricada de sacos de areia continuava lá. Intrépida, inexorável, cruel. Os soldados de ferro e fogo. Bom seria se nada daquilo fosse real. Ao invés disso preferia o muro de arrimo, da praça alegre. As muretas amorcegadas de meninos. Encostadas suas bicicletas velhas, descoloridas, de selim e pneus estragados. A rua descia com sua algazarra. Os soldados que retornaram desfilariam garbosamente levantariam a bandeira, bem alto ao mastro. Tocariam com orgulho os clarins, as fanfarras, garbo hino estatal. 

O menino sentado no sofá, vindo de um domingo diferente, que ficaria pra sempre, amarrando os cadarços dos sapatos gastos, eternamente gastos. A fotografia em preto e branco, de calças curtas. As pernas nem alcançavam o chão. O quadro do sagrado coração de Jesus, na parede da sala, que ia ficando cada vez mais estreita, desagigantando-se, amofinando, na velhice, do menino velho. Empurrando os sonhos pra bem longe. Pra onde o dirigível pudesse levar E que só daria pra alcançar se voasse no balão vermelho. 

As cartas que foram lidas na rádio. Como conseguiram sobreviver tanto tempo? Cartas a desmorrer gente e sentimentos de outros tempos. As cidades subterrâneas Emergidas das profundas, para onde a guerra haviam-nas empurrado, que julgavam perdidas para sempre. O choro contido da noiva do soldado. Olhos vermelhos. O retrato da amada, amarrotado ficou na carteira, resquício de humano no meio da guerra. O menino, se sabia, não demonstrava o quão achava bom ir pelo caminho de criança. E sonhava. Enquanto não vinha o sono de pedra, a acabar com o sonho.


SERRASALMUS KINGDOM Capítulo 1: Madrigais



 O dia de ontem ainda estava lá. Ficaria eternamente pregado, nas pedras que subiam o muro de arrimo. Em cima, a sacada, a praça, as luminárias centenárias. Os bancos de tiras de madeira e ferro desenhado, o jardim. O vento açoitou as árvores. Acabaram coitadas, perdendo as unhas, os dedos magros pelados. E iam pelo chão fazendo barulho de chuva, pelas sarjetas. Chuva sem água. As sobrinhas coloridas dos vendedores de quitutes espraiaram tons azuis, vermelho e branco na palheta alaranjada, do pintor de quadros. As vitrinas de salgados e doces, aguçavam sentidos, de muita variedade. O vendilhão de aguardente oferecia degustação, aca de qualidade. Àquela hora do dia o álcool tinha fluidez de perfume. O boné branco, o avental estufado, o volume da barriga que insistia em roçar a mesa de madeira. Luzia olhou pro alto da ladeira. Olhou pra Deus, quase inconscientemente, pediu que lhes desse coragem, pra mais  uma escalada. Os sapatos, diziam do quanto de sua vida fora consumida, em tantas subidas e descidas. Muitas, vidas vividas, naquelas ladeiras. Ladeira da aflição, ladeira da oração, ladeira da reflexão. Ladeira da preguiça. Ladeira da coragem, e disposição pra descida. Cosmo e Damião, os irmãos gêmeos, em carrinhos de rolimã, disputavam quem chegaria primeiro lá embaixo. 


O rio, deitado calmamente, estava lá, quase seco. Agonizante.  Com uma nesga de céu, forrava o sopé da montanha. Aquela casa, do outro lado do rio, tantos desejaram morar lá. Talvez ninguém tivesse ideia da tristeza que lá, fazia morada. Um velho, que todos conheciam por vô Antonio, seus últimos dias, vivia em cima duma cama. Devagar as horas iam, em silêncio de quartos, na penumbra. Remédios com hora certa pra tomar, esperando no criado mudo. Seu Antonio nem lembrava mais, da valentia, dos anos de seu vigor. Do tempo de conduzir as boiadas pros pastos mais próximos da montanha. E ia caçar onça, na mata do Engenho novo. Um dia Marilusa, a dona do bordel mais famoso da cidade teve o atrevimento de ir cobrar-lhe  uma conta de coito com raparigas e bebidas. O velho Antonio deu uma surra de chicote na rameira, na porta de casa. Velho Antonio de nunca levar desaforo pra casa. Antonio de quando o querido Teodorense F. C. quando tinha que ir jogar fora, sempre o acompanhava. A deixar dona Gertrudes preocupada porque se o time perdesse, as brigas eram inevitáveis. Dona Gertrudes dizia que, se não morresse primeiro, cuidaria dele até a morte, assim disse, assim cumpria. E até aquela data cuidava. Os pombos e pardais saíam em revoltada, se os homens disparavam seus bacamartes debaixo do trapiazeiro, no cair da tarde. A preta velha Filomena, empregada doméstica, desde aqueles tempos, dizia que não tinha mais saúde pra tratar os frutos das caças, de quando Seu Antonio voltava da mata. Sempre traziam um bicho graúdo, porco do mato, veado, sariema. No tempo de galinha d’água, nambu e rolinha fogo apagou, traziam os embornais cheios. E tinha a época do tatus-pebas, dos cágados d’água. E quando lembravam que peba comia defunto, retrucavam: “Então compadre vamos comê-lo, antes que nos coma.” E riam das próprias piadas. Mocó, preá, cassáco, e calango sardão, esses bichos Seu Antonio não gostava de matar, dizia que aquilo não era caça de homem.


Os saguis toda manhã vinham saltar pelos pés de manga, goiabeiras e siriguelas, do pomar de dona Lourdes. Vinham encrencar os passarinhos de Seu Expedito. Doa Lourdes punha bananas descascadas na sacada e vinham pegar. Seu Expedito ficava brabo, por ele matava todos, aqueles malditos macacos, mataria tudinho, não deixaria um só. Artur Bernardo, neto do velho Artur da Mata Fonseca Alves, a segunda família mais influente da região. Levou um tiro de espingarda que pegou de raspão no pescoço o que o deixou paraplégico. Morava numa casa avarandada, na margem esquerda do rio. De onde ficava o dia todod, dava pra ver a casa do velho Antonio, do outro lado.  Dário irmão de Artur, tardes inteiras passava deitado na rede, no alpendre, do lado oeste do casarão, o que dava-lhes bela visão da alameda dos Ipês.  Naquela época do ano, florido, enchia o paço de viço e cor. Os galhos da imburana entranharam os fios do telégrafo e produzia um zumbido. O gato de Seu Irineu indiferente a tudo tomava banho de sol, na calha de zinco. Inocência viria ao cair da tarde trazendo seus livros apertando-os ao colo. O corpo esguio, o cabelo castanho, longo, enfeitando suas espáduas alvas, debaixo do vaporoso tecido de cetim. Rosto de menina, corpo de mulher. O moço, por instantes eternos, pararia de ler o romance, e seus olhos saiam voando, lentos, de encontro a gazela, que flutuava na calçada. E os dois, feito pássaro e caçador se encantavam de se ver. E de ser um para o outro, fonte de inspiração, de ver, e de viver. Não sabia se um dia pedir-lhe-ia em casamento, como o casal do romance que lia. E se negasse o pedido? Diferente do romance. Preferia vê-la morta, a vê-la nos braços de outro. 


A cidade com seus mistérios. De todo dia acordar cedo, e mesmo assim parecia dormir. A torre da igreja prestando reverência a Deus e toda sua criação. O sino de cabeça baixa, calado. Talvez, vivesse lembranças do passado. De quando alegre, chamava o povo pra missa de domingo. Ou pontualíssimo a dizer que hora era do dia. Outras vezes cerimonioso e triste, anunciava compassadamente que um féretro estaria sendo conduzido ao cemitério. A calçada alta, a escadaria íngreme, de causar náusea a dona Minuca. Na hora de descer os degraus, sempre pedia ajuda, ao vendedor de pão, ao gari, ao pipoqueiro. Ou a quem pudesse ajudar. O calçamento irregular, de pedras escuras.


A linha do trem enferrujara, a muito não via comboio. A velha estação ferroviária o dia inteiro olhando pra o fim da curva. Não perdera ainda a esperança de ver a Maria fumaça de volta, chegando, fazendo zoada, bufando, estremecendo o ar, intrépida, trazendo alegria à urbe. O telhado de duas caídas d’água da estação lembrava um relógio cuco. Naquele quase tarde, de pardais zoadentos. Entre os passageiros, descera Séba, um rapaz, quase menino ainda. Talvez o único Sebastião cuja parte inicial do nome era o apelido, geralmente era a parte final, que virava. Menino negro, pobre, vinha do engenho, do corte da cana. Fora ganhar algum dinheiro pra ajudar nas despesas de casa. De muitos irmãos pra comer. Seis meses longe de casa. Os pais eram moradores da fazenda de dr. Nicolau Cansanção Feitosa. Patriarca da família mais importante do Engenho Novo. Dono de metade das terras daquele lugar. 


Aldo, Almir e Benedito, eram amigos, pareciam irmãos. Aldo trabalhava na gráfica Fruto de Palma. Almir era auxiliar de tipografia. Benedito, professor de história. Sempre se encontravam ao cair da tarde, e iam pro bar de dona Graça, no bairro dos pescadores, zona portuária. Lugar de encontro da boemia, das prostitutas e estivadores. Ficavam horas sentados a mesa, na calçada, jogando conversa fora. Olhando a vida passar. O disco na vitrola tocava uma música, de um cabeludo, de barba negra, que os rapazes pediam sempre para repetir. A faixa acabou arranhando, após os versos que dizia:


“Eu conheço bem a fonte

Que desce daquele monte

Ainda que seja de noite”



 Os versos seguintes: “Nessa fonte tá escondida/ O segredo dessa vida” Mas como estava arranhado ficava só repetindo: “Nessa fonte tá escondida/ tá escondida/ tá escondida...” E os rapazes cantavam remedando o arranhão, e riam muito. Aldo era casado com Marilda, Benedito com Olga. Almir solteiro. Marilda, não era muito de reclamar, porque o marido gostava de ficar horas com os amigos. Olga, no entanto era exatamente o contrário. A ponto de Benedito muitas vezes, entre os amigos declarar: “Um dia ainda mato a mulher.” Todos riam do desabafo do colega. Era mesa de bar. Em mesa de bar, vale tudo. Até contar um crime que prometera cometer, que talvez jamais se concretizasse.


Na rua onde a professora Maria da Graça morava, havia uma biblioteca, um artesanato, e a casa de um poeta, que o governo municipal transformara em museu. Neste de cá, ela sempre parava, e entrava. Ficava horas, vendo os objetos, que um dia pertencera ao vate. Tinha extrema admiração pelos poemas que escrevera. E era como se tivesse escrito exclusivamente pra ela. Mesmo não tendo vivido até sua época. Um tempão, na sala de música, ficava encarando um óleo. uma pintura enorme que retratava o poeta, sentado serenamente, de paletó com seus óculos de aros redondos olhava. Era como se estivesse vivo, só que numa outra dimensão. E via e sentia, tudo que se passava do lado de cá. Senhorita Graça, sentada na cadeira de vime, justamente aquela onde o poeta sentara pra fazer a tela. Onde tantas vezes  sentaram. Graça por instante, teve a sensação, de ouvir o poeta declamando um dos poemas dele, dos mais conhecidos, e que ela muito apreciava:


“Os dias, feito pássaros

As horas, como folhas secas

O vento da tarde, a secar meus olhos

Um dia, todas as canções, um dia

Vão abraçar teus olhos,

Ai meus ossos, minha boca

Se encherão de Graça

A te chamar

E minha mãe, já velha,

Me tomará ao colo

Me embalará cantando

Cantiga de ninar

Como criança velha, um dia

Pro céu me levará

E o rio, pobres rio

Haveria de chorar, eternamente.



Beatriz, irmã de Maria da Graça, fora a capital, visitar no presídio, o namorado, Miqueias Apolinário. Fora o que atirara em Artur, o rapaz que ficou paraplégico trabalahava no banco. Tudo aconteceu durante uma tentativa de assalto, ao banco Mercantil & CO., da pacata vila do Engenho Novo. A noite caiu, e a montanha com sua escadaria de luzes, atraiu um objeto voador não identificável que passava, e acabou pousando, no cume. Uma portinhola se abriu, e homens, com corpos humanos e cabeça de piranha desceram, e ficaram olhando os arredores. Pareciam admirados com o que viam. Admiravam a edificação mais elevada, a torre da igreja. Naquela tarde o sino tocou, tocou fúnebre. Enquanto um féretro ia, conduzido ao cemitério.



Fabio Campos, 26 de janeiro de 2018.
        

TAGOR - A REDENÇÃO (30º Episódio)

Tudo de antes, estava de voltava, agora, com muito mais ênfase. O povo na Praça Champs Élysées, em Paris. A multidão, naquela manhã de sábado, ia assistir a mais uma execução. O senhor Tagor Zabulon Fashall, dali a alguns instantes morto seria pela guilhotina. Os dias que permanecera no cárcere deixou-o muito magro, o rosto ossudo. O cabelo e a barba haviam crescido. Usava uma camisola, chamada de túnica dos condenados. Na cadeia da corte o ministro das execuções de justiça, determinava ao carcereiro que na hora de morrer o réu, deveria estar usando apenas aquela vestimenta, era peça única, alva, de linho. Trajos que seus parentes poderiam ficar com ele, bem como os objetos pessoais do morto, depois de aplicada a pena.  Lívido, de pés descalços, ladeado por dois verdugos com carapuças na cabeça, seguia. Devagar subia os degraus do patíbulo. Iria pagar pelos crimes que cometera, devagar subia. Mas que crime hediondo teria cometido contra a corte francesa pra merecer a guilhotina?

Os meninos das bicicletas, Marcos, João e Tiago na Praça da Bandeira passeavam. Subitamente pararam pra ver onde o amigo Tagor naquele momento se encontrava. O portal do tempo, novamente se abriu, e os mostrou. A claraboia da torre da Capela de Nossa Senhora Assunção foi crescendo, crescendo, até virar um imenso portal. Como a tela panorâmica do cine Alvorada. E puderam contemplar, debaixo de um céu de chumbo, entristecido, desenhado exclusivamente pra aquele momento, preludiando o que estava pra acontecer. Os pombos voavam, tanto aqui como lá, de um sobrado pro outro. Antonieta, de lá do interior da igreja de Santa Étienne-du-Mont, de joelhos, com um véu sobre a cabeça, rezava, sob a imagem de Santa Genoveva.

No hemisfério de cima era tempo de início da primavera. Alguns filhos desse mundo receberiam por batismo o nome de April, em referência ao mês que abria o bom tempo da primavera. E poder dar adeus ao rigor do frio, da clausura de dentro das casas, da lareira como sendo o ponto central de tudo. Com a chegada da estação das flores, tudo mudaria, os campos ficavam mais vistosos, as cores se tornavam abruptamente realçadas. Como a estação da alegria estava implantada, nada no mundo podia lembrar tristeza, em tal época. Parecia que o tempo passava a andar mais lentamente, como que querendo aproveitar melhor cada instante daqueles momentos. É muito provável que Deus, tivesse criado as estações do ano, para que Abel pudesse dividir o tempo em: tempo de pastoreio, tempo do aprisco, tempo da apartação,  ou desmame, e tempo da cobertura das ovelhas pelos cabritos. Caim por sua vez, saberia em que época devia cultivar: frutas, legumes, flores, hortaliças. Nessa época Deus andava no mundo, e admirava-se de sua obra “Gênesis 3:7,8”, e portanto está dito: “e viu que tudo que tinha feito era bom “Gênesis 1:10”

O Primeiro crime de Tagor, somente ele sabia que havia cometido. Havia roubado um álbum de figurinhas do seu amigo Ricardo que morava na rua do mercado. Muitas foram as vezes que fora ele e os amigo pra casa de Ricarte e o irmão, pra brincarem no quintal. Lembrava que havia uma cisterna cheia d’água da chuva, que os meninos mergulhavam pra tomar banho. Era muito profunda só entrava quem sabia nadar. E assim passavam praticamente o dia inteiro. Os pais dos amigos iam pro sítio Batatal. Então aproveitavam, por ficarem em casa sozinhos, faziam a festa. Os amigos vinham fazer companhia, e tomavam banho na cisterna. E depois que abusavam de tanto banho, brincavam de muitas outras coisas. De jogar dama, ludo e baralho. De bafo-bafo com figurinhas. E juntavam moedas, e compravam refrigerantes, pães e salame e comiam com avidez porque as atividades físicas dava muito fome. Tagor aproveitando a distração deles, apanhou um álbum de colecionar, que tinha futebol como tema, e tinha uma capa verde, e as figurinhas eram como medalhas de latão, redondas, autocolantes. Derick o gato viu tudo, foi a única testemunha do primeiro crime de Tagor.

Leviatã odiava o Criador e toda sua obra. Jamais aceitava a perfeição, onde houvesse paz tentaria instalar o caos. E desde então, onde pudesse desmanchar tudo de bom que Ele havia feito, tentaria. E Deus disse a Adão e Eva, depois de expulsá-los do paraíso, que dali por diante iriam suar suor dos seus rostos para adquirirem seu sustento, e os expulsou do jardim do Éden. Mas era preciso que se entendesse que isso, não significava necessariamente que haveria mais castigo pra uma região, em detrimento de primícias pra outras partes do mundo. Os meninos das bicicletas, muito queriam entender porque na região que moravam passavam anos a fio de muita seca. As estiagens prolongadas fazia seus pais perderem rebanhos, plantações. Não dava pra entender porque muitos dos aldeões que possuíam glebas de terras e cultivavam e criavam, assim com Caim e Abel, e conformavam-se a verem o gado morrendo sem nada puder fazer. E suas montanhas a ficarem peladas, destituídas dos vegetais que tão belamente ornavam outrora. Agora praticamente desapareceram, escassearam e tornara tudo tão árido e inóspito. Tempo dos sertões entristecidos chorarem sua dor.

A medida que subia o patíbulo, e aproximava-se do terrível instrumento de causar morte, e morte artificial, Tagor, via passar na sua frente, como num filme, momento a momento da sua vida. A infância junto a seus outros seis irmãos, os ensinamentos recebidos de seus pais. O respeito que deviam, ele e os irmãos, devotar aos mais velhos, a sabedoria que deles poderia adquirir. As reverencias religiosas, recitar três vezes por dia versículos de salmos bíblicos, ao cair da tarde a recitação do santo terço, pedir a benção aos pais, tios e avós pelo menos três vezes por dia, caso estivesse em suas presenças, por ocasião de acordar ao levantar-se, ao fazer a refeição principal do almoço, e ao recolher-se para dormir. Se pudesse escolher, a forma como queria ser executado, talvez não soubesse direito, se ia preferir morrer como o amigo Joaquim, o alferes lá de Minas, que morrera dependurado numa corda. E ainda por cima o esquartejamento. Dizem que até mesmo o terreno da sua casa teria sido salgado, Deus, quanto ódio contra um homem e seu ideal de liberdade. O Cristo Jesus, este outro amigo, também sofreu martírio, só que injustamente sofrera.

Tagor lembrava agora, do seu segundo crime, que teria cometido, matara Derick o gato de seu melhor amigo. Depois daquele dia em diante, botou na cabeça que detestava gatos. Isso porque o olhar do bichano, ao vê-lo cometer o primeiro crime foi inquisidor, até hoje ao lembrar incomodava-se. Jamais esqueceria o olhar do gato sobre ele. Penetrando seu olhar, como se soubesse que o que ele estava fazendo era errado.  Mas o que realmente o levaria a matar Derick, fora porque muitos anos depois o bichano, que nunca se apartaria do seu convívio, foi morar na rua de uma outra vida sua, já na idade adulta. Ali se reconheceram e passaram a viver. E eis que Derick acabou comendo um seu Hamster, um roedor que comprara na feira do rato, pra ter um amigo e companheiro, e o mantinha preso numa gaiola. Alimentava-o, conversava com ele e devotava-lhe cuidados diariamente. O amigo vizinho dono de Derick, jamais ficara sabendo que tinha sido ele, que colocara veneno pro gato morrer. Esse era um dos crimes que, mesmo não sendo do conhecimento da justiça francesa, estava ele levando pra guilhotina.

O terceiro crime de Tagor, dizia razão a coroa francesa. O que parecia sim, ser o menos grave crime. Depois de ter sido absolvido da acusação injusta de ter matado mestre Morion Lucindo, o ferreiro, que acabara ressuscitando. Tagor agora se via sob a acusação de lesar a coroa francesa. Era acusado de ser contrabandista, desviando ouro das reservas reais de França. Isso fazia ao apoiar as escavações e intervenções dos aliens em terras francesas. Estariam os extraterrestres levando pro espaço, mais precisamente pro planeta Urano, o metal precioso para a produção de Megano o vital alimento e combustível dos aliens.

Os meninos das bicicletas, se iniciaram numa discussão sobre o que poderiam fazer pra libertar Tagor. E conseguir tirá-lo daquela situação periclitante que se encontrava. E se havia real possibilidade disso. Certeza tinham que obstáculos existiam, primeiro teriam que entrar no túnel do tempo, e se conseguissem, pois fácil não seria, teriam que enfrentar a corte com seus batalhões de soldados rigorosamente armados, além de uma multidão ávida por ver mais um condenado executado. Não sabiam se podiam contar com a ajuda dos alienígenas A verdade é que eles sempre precisaram de Tagor, quem sabe Derick, o gato seu amigo pudesse ajuda-lo. Rafael Bertrand, de longe apenas assistia, motivo não tinha para envolver-se, aliás Tagor pra ele não passava de um desconhecido, um pobre desafortunado. Mestre Lucindo, nem este podia evitar o holocausto, infelizmente nem estava lá, seu paradeiro, naquele momento, era outra galáxia muito distante da terra. Antonieta, não tendo outra coisa a fazer rezava.

Um frade capuchinho foi trazido pelos soldados da guarda francesa, conduzido até a parte superior do patíbulo, para encomendar a alma do condenado. O capuz da sua veste de franciscano estava levantado de modo que ninguém conseguia ver seu rosto. Ao chegar de frente a Tagor ele retirou o capuz. E todos puderam ver, o próprio Tagor de frente a ele mesmo. Só que mais novo, sem barba, nem cabelo grande. E apenas disse: “-Fique tranquilo, estou aqui para te salvar.”

Fabio Campos, 22 de Abril de 2017.

VIA APIA (29º Episódio de T.Fashall)


Naquele tempo. Sempre com essas palavras o sacerdote iniciava a leitura dos santos evangelhos. A dizer, aos fiéis que, entre tantas coisas, Jesus vivera sua Via Sacra, e em quinze Estações, é seu calvário narrado. Tagor também vivera sua via sacrificada. Só que a Via Apia. Em trinta cegos episódios estarão narrados. A grande batalha estava pra acontecer. Os brasões ricamente belos, a cima dos elmos dos soldados romanos. Seguia a linha de frente do pelotão, em ordem de batalha, Guarnecidos por pontiagudas flechas, lanças e escudos. Dois grandes exércitos em breve se confrontariam, Roma e Armagedon. A menina que tinha medo de escuro admirava-se de ver o mundo virar um grande conflito daquele jeito. Sobre a mesa do quartel general a massa de bravos guerreiros não passava de bonecos que o comandante movimentava com um pequeno rodo de madeira, ia montando sua estratégia sobre o mapa. 

As serras iam andando pra onde as nuvens as levassem. O homem encostado na pia de lavar louça, na cozinha, não passava de mais um retrato do cotidiano. Um pintor anônimo, quem sabe um dia o retratasse, e mesclaria cores quentes e frias na sua paleta. E ia ficar com cara de coisa vinda dos trópicos. Arte barata, vendida em feira de artesanato. Diferente de outros dias lá atrás. De tempos em que retratos eram feitos somente em dias solenes. Quando todos haveriam de ter tomado banho e penteado os cabelos exclusivamente pra se fazer o flagrante. O avô apararia o bigode, a avó colocaria perfume e pó de arroz no rosto. Um colar, herança de família, guardado especialmente para aquele momento usaria.

Pietro desceu do seu Fiat Uno, a plena Praça de Maio. Mulheres com seus lenços amarrados na cabeça ocupavam todos os bancos de mármore que adornavam a fonte d’água. Elas queriam ver seus jesus que estavam presos, talvez mortos, muitos desaparecidos. Luiz veio ao seu encontro, se cumprimentaram com efusivo abraço, e beijos na face como todo bom italiano gosta de se cumprimentar. Os pombos sem o menor receio vinham catar migalhas que caiam dos lanches dos meninos. O céu de Roma tinha duas caras bem definidas, no centro lembrava algo pintado por Michelângelo, como na abóbada da capela Cistina. E nos flancos parecia com o céu de Leonardo Da Vinci em Monalisa. Por trás de tanta beleza havia infelizmente a tragédia, não de duas apenas, mas de muitas guerras.
Manoela morava numa casa na vila de San Joseph, devido à separação do marido, foi morar na capital italiana. Alugou um apartamento bem próximo a Via Apia. Para o transporte de seus pertences acertou com Seu Antony da padaria. O caminhão de carregar lenha disponível estaria somente a tardinha. Tinha pressa, mesmo assim aceitou. Da única janela do apartamento, além de muros e construções, poucas coisas naturais conseguia ver. Um pé de marmeleiro, lá longe no quintal de uma casa do quarteirão da Rua do Sol. Não tinha certeza se a rua assim se chamava, porém, dali por diante, assim a denominaria. Também uma amendoeira quase atropelada pelos carros que incessantemente circulavam pela avenida, com seus faróis acesos a plena luz do dia. A negra pedraria do calçamento, com a umidade da névoa de inverno, refletiria ao cair da tarde sua luz tênue.

Os dias de jejum se intensificaram.  A menina que tinha medo de estouro de balões de aniversário, sentada a mesa, desenhava. E queria saber: por que não podia comer carne naquele dia? Os adultos de seu convívio, tinham opiniões vagas. Teve um que falou: “É por que estamos vivendo um tempo que precisamos renunciar a algo de que gostamos”. Um outro disse: "porque somos todos culpados, de ferir a carne de Jesus Cristo". Desconversaram. Dos rabiscos fortes da menina surgiam fadas que conseguiam pegar luas com uma facilidade impressionante. Também duendes, e meninos encrenqueiros que saltavam faceiros pra cima do branco sulfite. Saltavam e já iam fazendo o que mais gostavam, encrencar. Botavam apelidos nos outros, esfregavam seus pirulitos gosmentos no caderno dos colegas, empurravam restos de lápis pra banca vizinha. A árvore da felicidade também estava lá. E somente ela, podia realizar os sonhos todos das meninas e meninos. E vinham com seus livros, cheios de surpresas e uma fada madrinha com seu vestido de princesa, rodeada de garças, apesar de não ficarem tão belas, mas que dava pra entender perfeitamente o que eram.

O gari começava seu trabalho sempre às quatro da manhã. Já era cinco quando achou na calçada, cheia de sol e de orvalho, o desenho da menina. Ficou sem saber o que fazer com aquele reinado inteiro, só uma certeza tinha: tudo aquilo não caberia na sua carroça de lixo. Um avestruz completamente desorientado foi parar na lição, só porque começava com a letra “a”. A abelha por sua vez veio ver a amiga do desenho, e a menina pensou que a mesma tivesse reconhecendo a colega, na verdade viera atraída pelo açúcar do seu copo de refrigerante.

A procissão passou pela rua. Jesus caiu pela terceira vez, a rua ficou às escuras. As velas das lanternas continuaram acesas. As matracas labutavam serviço de ferro e madeira. O mundo quase indiferente estávamos na terceira queda que Jesus deu. O filho de dona Cândida pulou o muro da escola pra gazear aulas. Isso foi lá trás, ainda quando Jesus caíra pela segunda vez. A mãe não imaginava que ele estivesse se envolvendo com coisa perigosa. Jesus se encontrando com sua mãe. O bedel avisou ao administrador, que avisou a oficiala, que avisou a conselheira para que tomasse as devidas providências. Isso foi bem antes. E Jesus nem tinha ainda sido condenado. Jesus passou a noite na cadeia.  Os anjos, eles fizeram tudo tudo que podiam, o menino fora tentado, e tentação, sempre fora algo muito atraente. O Simeão que ajudou a carregar o madeiro pesado, de bicicleta vinha pela rua, vinha com uma marmita no bagajeiro, voltava do trabalho. Então o soldado o obrigou. O irmão do reverendíssimo disse que jamais havia provado ervas aromáticas, que causavam alucinações. Verônica a irmã dele tentou passar-lhe um lenço pelos gradis mais foi contida, desconfiaram que ela consigo trouxesse drogas. Verônica mesmo assim teve tempo de enxugar-lhe o rosto. O menino seu sobrinho infelizmente não podia dizer o mesmo. As mulheres lastimosas, o dia inteiro, ficavam sentadas nos degraus, esperando a hora da visita.  Ele era acusado de ter levado pra dentro do internato, pro colegas provarem. Isso era muito grave.

A xícara de café com seu poder invisível, belamente indizível, atraiu a moça. Moça que não sabia da missa um terço, mas que tinha lábios perfeitos. As verdades às vezes se escondiam por trás de meias verdades. E isso queimava, quando não se sabia esperar a hora de degustar. Pois pra tudo tem hora. Hora pra avançar e recuar.  A casa era muito velha, e as paredes sujas tinham marcas de tiros. No meio do terreiro ficaram os apetrechos de colocar na parelha de bois de arado, bois que agora estavam mortos. Por que se demoravam, em que confiavam? O que esperavam? Seu Maximiliano ficou quase um século se perguntando. Melhor vender o gado a vê-lo morrer. E o barbeiro disse: aquele velho é um mentiroso, onde já se viu dizer, com tanto vigor que se tem mais de século de vida. Cento e quatro anos foi o que disse que tinha. Com aquela lucidez e potência. Não seja por isso, dona Deolinda mesmo, não acreditava que tivesse na cacunda, noventa e um. E perguntou se alguém sabia alguma coisa sobre Maria Auxiliadora, uma que ia sempre com ela pra igreja. Se viva ainda estivesse com noventa e cinco estaria, pois era quatro anos mais velha que ela. O filho Tagor a havia encontrado na igreja, esperava a hora da confissão, Esqueceu, porem de dizer à mãe que a havia encontrado.

Marcos os viu, quase debaixo do meio dia, meninos pintados com carinhas de coelhos. Estavam voltando da escola. Isso o fez lembrar, da sua infância, sofrida de inda agora. A mãe costurava pra ganhar uns trocados. E ele era quem ia levar as encomendas. Um dia levou umas roupas na casa de comadre Iolanda. Acabou ganhando um vintém com o qual comprou um sorvete. Tomou tudo na rua, pra não chegar a casa com ele. A mãe acabaria descobrindo pela lambuzeira na roupa. Semana Santa os costumes de sair as procissões, de Nosso Senhor dos Passos indo ao encontro de Nossa Senhora da Soledade. Os cânticos chorosos, as matracas, as vestes lilás do pároco e acólitos. O turíbulo, o cheiro de incenso. As meninas, elas sabiam de uma história de procurar aleluia, dentro da igreja, as escuras. A fogueira ardendo lá fora, abandonada. A consagração dos santos óleos, a queima das cinzas da quarta-feira do ano anterior, a que dera início a quaresma.

A menina que tinha medo de escuro queria saber: por que na quaresma havia mais moscas que em outras épocas do ano? Inácia, a preta velha, com seu rosto luzidio seus lábios enormes, a carapinha presa debaixo do lenço, o ventre avolumado. Olhando de soslaio lá da cozinha disse que sabia o porquê. E de lá mesmo, da beira do fogo, onde cuidava de vigiar o leite, disse: “É por conta de nossos pecados. Está no velho Testamento, na Bíblia. Pela dureza do coração do faraó vieram às sete pragas sob o Egito. Entre nós, agora ocorre o mesmo, depois do carnaval sofremos alguns castigos, mandado por Deus. Regiões como a nossa fica muito tempo sem chover. Vem pragas de gafanhoto, na roça de feijão, de lagartas na roça de milho. Os barreiros e barragens de água secam, e moscas invadem as casas. Isabela tinha outra opinião. “As moscas invadem as casas por conta do seu ciclo de vida, elas precisam se reproduzir. Então põem seus ovos nos monturos, e quando vem as trovoadas esses ovos ficam expostos ao sol, e eclodem provocando uma superpopulação delas, portanto, nada a ver com semana Santa. Desconversaram.”

As sombrinhas naqueles momentos de fé, substituídas eram por sóbrios guarda-chuvas. As cores ou qualquer coisa que denotasse alegria sutilmente se escondiam, era quaresma. Crianças vestidas de frades se pareciam franciscaninhos, miniaturizados. A cabeça raspada, a auréola de cabelos, chinelos de monge nos pés. As lanternas acesas. A procissão do fogaréu. Os passos apressados nas ladeiras, a cantoria cansada. Esforços humanos, superação. A menina que tinha medo de escuro, também tinha medo de fogos de artíficios, na procissão ia. Agarrava com força o avô, choramingava. Não sabia a letra do canto por inteiro, e cantava só o refrão: “Com a Virgem dolorosa, nossa mãe tão piedosa/ Perdoai-me meu Jesus/ Perdoai-me meu Jesus.”

A rigidez das tradições, a discrepância de uma mesa farta nos dias grandes. Desde a quarta-feira santa, chamada também de quarta-feira maior. O tríduo pascal, de quinta-feira ao sábado de aleluia. Os chamados dias grandes. Jesus tinha passado quarenta dias orando, e jejuando. No entanto, poucos, quase ninguém, queria ficar uma semana sem satisfazer os caprichos do corpo. Sem querer abrir mão dos vícios, pelos quais os corpos pediam, apenas por uns poucos dias. Abster-se de comer carne não era suficiente. Era preciso renunciar a muito mais coisas do mundo. A ceia pascal essa sim, podia vir regada a vinho e peixes, guloseimas de chocolate. A menina que tinha medo de gatos, queria saber o que tinha a ver o coelho com a páscoa? Na dúvida a mãe disse que perguntasse a professora, na escola. Ao retornar disse que a tia tinha dito, que era porque coelhos eram muito férteis. E lembravam páscoa que era vida nova. Mas ficou no mesmo porque ninguém soube lhe explicar com clareza o que era ‘férteis’. Desconversaram.


Fabio Campos, 15 de Abril de 2017.