O Café de Seu Lira. Conto 22/08/2026.









Uma estrada. Três homens iam caminhando. Debaixo de um sol de agosto. Há cinquenta anos, havia partido, estava de volta. Vinha a pé. Do mesmo jeito que se fora.  Sem que ninguém se desse conta, haviam desaparecido. E agora voltavam. Alguém, em algum lugar, em determinado momento, de suas vidas. Na certa, deva ter se perguntado: onde andará? Perceber que voltavam, era perfeitamente normal. No entanto, com a mesma aparência de cinquenta anos antes. Era, de certa forma, estranho.

As mesmas vestes de quando partira, ainda trajavam. Dominício, chapéu de palha na cabeça, camisa de botões, daquelas bem antigas que tem um bolso no lado do coração. Calça de tecido, embainhada até as panturrilhas. Chinela de dedo. Uma estrovenga na mão. Firmino, chapéu de massa, de cor cinza, surrado. Daqueles que possuem uma fita preta, no encontro da aba com a copa, e uma pequena pena no lado direito. Camisa e calça de tecido branco. Nos pés, alpercatas franciscanas. Zezinho da Divisão, e sua inseparável viola às costas. Enfiada numa capa de napa preta. Também usava chapéu de massa, preto, proporcionalmente pequeno para sua cabeçorra. Camisa de mangas compridas, calça de linho, e sapatos passo Double nos pés.

Era um daqueles dias, que precisam dizer pra que viera. Por que nascera. Dias que não nasciam assim, apenas para ser entendido. Neles, sempre coisas boas estavam por acontecer. O sol esticando os longos braços sobre as montanhas. Executando magnífico salto, em câmera lenta por sobre a cidade. E tudo, era tão belo de se admirar. Porém, faltas ocorriam. E ocorriam por pura necessidade de ser. Elíptica trajetória sobre os caminhos, por sobre as vidas, por cima do lago, das casas, vagava. 

O cuscuz no cuscuzeiro. Lindamente cor de ouro. Cheirosamente intumescido. O botijão de gás achando de secar, justamente a quebrar aquela aura fluída. Amplamente formada. E tudo, permanecia perfeitamente normal. Pois imprescindível mesmo era o ar que se precisava para respirar, e continuar vivo. Melhor seria se não fosse aquele, dia, um feriado. Aconselhavam os mais velhos, que já mais, se deve dizer, caso algo esteja dando errado, “Pior não poderia ficar.”, porque podia sim piorar. Em muitas vezes. Ou não.

José Maria nascera de Antônia. Assim nascera. O menino gostava de música. Não apenas de ouvir música. Amava qualquer coisa relacionada à sonoridade. O quarto de José tinha um retrato de Bethoven na porta pelo lado de dentro. Um birimbau, uma cuíca, um “cajón”, um violino, uma cítara, um tamborim, um surdo, um pandeiro. Uma prancheta com partituras e vários programas relacionados a composições. Colecionava embalagens vazias de cigarros, meiões velhos, de jogador de futebol enfeitavam a planta. Sua pequena instante continha alguns livros. A bíblia, “O Velho e o Mar”, “Dom Casmurro”, “Os Sertões”. A borracha de apagar, a régua, os lápis de cor. Intensa jornada viveria para vencer intrigante batalha da dispersão. Num futuro sempterno e longínquo até, um dia conquistariam a vitória, e o fim do caos entre seus pertences.   

O dia inteiro, lá fora um belíssimo sol, se arrebentando por cima dos telhados. Amornando lençóis e calcinhas nos varais. Escalavam as sacadas das palafitas, dos subúrbios, fazendo três meninos sapecar suas pipas, nos calcanhares das nuvens brincalhonas. Zé Maria filho de uma cabocla lavadeira de roupas, de ganho; Firmino não gostava de ir pra escola, se criou solto na rua, criança foi carroceiro. Carroçava as compras das madames, pra ganhar uns trocados na feira. E depois de adulto, foi barbeiro. Filho de dona Corina, uma ex-prostituta, que com o avançar da idade, viraria mascate, a vender mangaios numa tolda na feira. Dominício filho da negra Celina. Neto de escrava, sua vó foi criada na senzala, tempos depois dos quilombos migraria para os mocambos litorâneos. Vivendo nas imediações do cais do porto, e das usinas de açúcar. 

Domino Dio, esse era seu nome de batismo. Na língua da negrada virou Dominício, filho da velha Celina, que por uma vida inteira trabalhou de cozinheira, na casa do padre José Bulhões. Na hora de batizar, nem nome tinha. Se dependesse da mãe se chamaria Cícero, que era a graça do santo do Juazeiro do Norte. O padre foi que interveio mudando para Domino Dio “Dia de Deus”, numa mistura de latim e italiano. 

O menino gostava de jogar bola. Colecionava camisetas velhas de clubes de futebol de campeonatos de várzea. Possuía algumas bolas e chuteiras descartadas pelos jogadores na sede da equipe de sua paixão, o Ipanema Atlético Clube. Quando não estava na escola, estava no campinho jogando bola, com os amigos. Podia estar fazendo o sol de meio dia, lá estava ele. Bastava ter mais um com a mesma disposição. E os dois passaria a tarde inteira, e nem se lembraria de ir pra casa comer alguma coisa.

O bairro vivia a festa da padroeira. A imagem da santa, todos os anos, o mesmo ritual, entrava triunfante, trazida pelos cavaleiros que teriam passado três dias na estrada. Enfrentaram frio, calor, tempestades. Repetiam a façanha dos desbravadores, lá do início dos tempos. O povo todo ia para a estrada na entrada da cidade, receber o cortejo. Bandeiras, fogos de artifício, uma filarmônica.

Muitas cores, sol amarelo, céu azul, límpido. As turmas das escolas todos perfilados em frente à capela de Senhora da Assunção. O padre com sua batina preta, a carapinha branquinha. As rezas, as janelas das casas, estatuetas, forros bordados, jarros com flores.

Seu Firmino, o barbeiro, estava indo abrir a barbearia. Achou interessante a movimentação dos cavaleiros, e damas. Acabou por pressentir algo no ar. Se dando conta finalmente que aquela quarta-feira era um feriado. Era dia da padroeira do bairro, Nossa Senhora da Assunção. Achava muito parecida com Nossa Senhora da Imaculada Conceição.

Mesmo assim continuou sua jornada, indo abrir a barbearia. Logo, chegaria, Dorival de Nésio, Quincas sapateiro, Tarde Fria, Zé Panta, Izaías Rêgo, Lulu Félix. Depois de ficar a manhã inteira ouvindo os colegas, a contar causos e lorotas das quais riam muito. Lulu Felix gozador, contaria uma mentira cabeluda. Dizia que teria visto na capital de São Paulo, um prédio de mais de duzentos andares, na cobertura, uma pista de pouso para avião. E caso alguém duvidasse, arrematava: Vocês não viajam, não conhece o mundo, não lê jornal!

A biblioteca Breno Accioly ficava no pavimento superior, aos fundos da cooperativa agrícola. Naquela manhã ficara abarrotada de agricultores. O presidente do sindicato dos trabalhadores rural aproveitara a ocasião, havia convocado a todos para uma reunião. O assunto principal, os empréstimos bancários, a que pé estaria às negociações. E o calendário do recebimento do seguro safra, por conta da estiagem prolongada daquele ano, muitos haviam perdido a lavoura.

Dominício ficou assim, olhando, por trás da multidão. Um pouco afastado do povo, observava a movimentação, dos cavaleiros com suas bandeiras, a banda filarmônica, a procissão. A euforia envolvente, a alegria das crianças, o olhar atento das autoridades no palanque oficial. As bandeirinhas e suas cores simbolizando as entidades, os poderes constituídos, os ritos, ali ocorridos. Festa de Nossa de Senhora, no bairro Monumento, na cidade de Santana, sertão de Alagoas. 

Dominício observou que ao lado do palanque havia um grupo de homens. Aqueles homens sérios, nos seus trajes a rigor, terno gravata, cabelos alinhados, sapatos engraxados. Olhavam com respeito, amor abnegado, abterno, e entusiasmado, a procissão, os missionário, a filarmônica, e o passar imponente do andor com a santa.

Dr Adelson Isaac de Miranda, dr. Valter Guimarães, dr João Ioiô Filho, major Darcy, o entendente Firmino Falcão, o padre Manuel Capitulino, o padre Fernando Medeiros, o padre Luiz Cirilo, Pastor Bonfim, Coronel Manuel Rodrigues da Rocha, Coronel Lucena Maranhão, major Estevam, dr Arsênio Moreira, dr. Isnaldo Bulhões, dr. Henaldo Bulhões, comerciante Bartolomeu Barros, os farmacêuticos Alberto Agra, Seu Caroula, Seu Moreninho, Seu Zeca Ricardo e Seu Aleixo. O prefeito Adeildo Nepomuceno Marques, Genival Tenório, Martinho Vieira Rêgo, o empresário Paulo Ferreira. O padre Francisco Correia de Albuquerque. Tudo registrado pela câmara fotográfica do senhor Darras Nóya, funcionário dos Correios e Telégrafos.

Cada criança trazia um cartaz representando os vultos históricos da cidade. Meninos traziam gravuras dos bustos dos homens de destaque no cenário político, civil e eclesiástico da época de quando a cidade fora fundada. Meninas traziam retratos de mulheres ilustres: professora Marinita Peixoto Noya, professora Narair, Terezinha Carvalho e Terezinha Amaral, Belmira Brandão, Albertina Agra a “Dama do teatro”. Sinhá Rodrigues, dona Penina, professora Josefa Leite, professora Helena Braga das Chagas, dona Flora, professora Déa Wanderley Tenório, artesã Maria Laranjeiras. Irmã Letícia, e irmã Leôntia. Missionárias vindas da Holanda.

Dominício, o agricultor, Firmino, o barbeiro e Zezinho da Divisão, o violeiro repentista.  Acabavam de se darem conta, do quanto a Vila de Sant’Ana havia mudado. Tanto, ao ponto de  ser elevada ao título de cidade.  Dominício observou o Abrigo dos idosos São Vicente de Paulo permanecia praticamente intacto, na sua fachada e arquitetura. Firmino e Zezinho da Divisão reconheceram, a capela Sagrada Família, a agência do banco do Brasil e o prédio dos Correios. Além desses, tudo o mais havia mudado. Até o solo que pisavam. Antes ladrilhado de paralelepípedos. Ostentavam betuminosa pista de asfalto.

E lá, no mais alto das paragens celestes. Por sobre radiantes, alvas e obesas nuvens. Os discípulos de deuses enfadonhos debruçados nas sacadas e pérgola dos grandes terraços do jardim nubiloso observavam. As três Moiras, as três deusas responsáveis por traçar e controlar os destinos de pobres mortais aqui da terra. Por um instante se distraíram, causando grande confusão. Por conta disso, nossos incautos sertanejos, os três, sem nada entender, compareceram ao solene Hall de entrada do palácio Nuvioso, à antessala do céu.  aguardaram pacientemente no jardim das acácias. Logo ao lado onde ninfas, fadas, dríades e elfos descansavam banhando-se nas fontes e piscinas. Entorno dos famosos duendes arquétipos: Inocêncio, Explorer, Sapientio,  Hero, Ribeld, Mago, Comunis Homus, Eros, o Bobo da Corte, Governator, e o Criador.

A deusa Cloto responsável pelo fuso, e pela fiação das vidas de todos os humanos aqui na terra. A deusa Láquesis responsável por medir o cumprimento do fio da vida, que determinava quanto tempo, cada vivente viveria, aqui em baixo. E a deusa Átropos, a inexorável controladora da vida dos homens, com sua tesoura afiada, responsável, para por fim a vida dos homens, os que deveriam subir. As três, tiveram uma breve discussão, e equivocadamente, acabaram arrebatando os três sertanejos até os salões celestiais. A permanência do trio de bravos sertanejos, aguardando o que lhes aconteceria, nas alamedas e átrios celestes. Não duraria mais que cinco minutos. Logo, as deusas desfizeram o erro, devolvendo-os a terra. Dominício, Firmino e José Maria do sítio Divisão. Acontece que, o tempo nas cortes celestinas não durava igual aqui nas plagas terrestres. Os cinco minutos lá, aqui, foram exatos cinquenta anos.

Zezinho da Divisão queria saber se no comércio ainda existia o Café de Seu Lira. Qual não foi sua decepção, ao ver que onde um dia, fora o famoso Café do amigo Lira. Agora funcionava uma loja de tecidos. De um outro Lira, a Casa dos Retalhos. Pegou sua viola e dedilhando versejou: “Nunca pensei que um dia, fosse parar no firmamento/ Quase fui falar com Deus, isso eu quase me arrebento/ Ao voltar cá pra Santana/ Encontrei tudo bacana/ Quero saber se é mentira/ Se mudaram o Café de Lira/ E a praça do jumento?”

Firmino, pensativo se lembrava da sua barbearia, via que agora nem existia mais. Um imponente centro comercial estava erguido no lugar. Sentado num banco relembrou de um pitoresco diálogo entre Tarde Fria e Macarrão. E o colóquio que os amigos tiveram sentados nos bancos altos do Bar Comercial, saboreando de manhãzinha um cafezinho. Enquanto Seu Sebastião Pacífico, ali sentado escutava tudo. Foi esse. Macarrão disse: Tarde Fria. Você sabia que aquela mulher que você arrumou, na última noite de festa de senhora Sant’Ana? Aquela dona já é furada! Tarde Fria calmamente respondeu: E daí? Eu não quero mulher, pra carregar água.

A procissão marcava o bicentenário da paróquia de Sant’Ana. Mulheres em fila, com seus brancos véus sobre a cabeça. Os vestidos azuis fechado, contrastando com as fitas vermelhas da Legião de Maria, que faziam um “v”, nas costas, onde o escapulário do devocional Sagrado Coração de Jesus ia. A vela acesa, pingos de luz amarela, chorando, recrudescendo, os caminhos daquele entardecer solene. 

Crianças levavam emoldurados, os retratos dos padres, que passaram por aquela paróquia. Desde quando tinha sido fundada. Um moço bonito, alto, feições serenas. De pele, cabelos e olhos claros. Trajado de batina preta, de chapéu saturno, assim chamado porque, a proteção pra cabeça, parecia com o planeta.  Curvando-se próximo a um dos meninos sussurrando, disse-lhe quase ao pé do ouvido. Esse que está aí na moldura que você leva, não sou eu. Eu sou o padre Francisco Correia. Esse daí é o padre José de Anchieta. Sorriu, e ficou apreciando a procissão. O menino continuou inalterado, seguindo o cortejo. Agora, ainda mais sério, do que antes da revelação do jovem religioso.     

 

 

 
































 

Nenhum comentário:

Postar um comentário