SEMPRE ASSIM... ATÉ QUANDO. 24/06/2026. ODI ODIUM Da Série Psikeé


 

 Sentado a praça. Sozinho, e consigo mesmo. Como as pessoas faziam antigamente. Assim se encontrava. Estava tão antigamente, que se sentiu meio que invisível. As pessoas não o notavam. Considerava-se um cara um tanto esquisito pra sua época, excêntrico na verdade. Sempre metido num blazer, ainda que os dias fossem os mais triviais. Destacava-se na multidão, de iguais. Parecia um espantalho, isso lá parecia. Os pássaros, no fio de energia, viram, comentaram. E rindo, voaram, aos beijos.

 Acariciou o céu, cumprimentou o dia-sol-nuvem-céu-azul. Chamou de bom, tudo que suas vistas alcançavam. Parecia estar tão de boa. Arriscaria até desejar um bom dia, a outro ser humano. Afinal muito havia a comemorar. Comemorava o que mesmo? O fato de estar vivo, respirando, enxergando, pensando, e com certa lucidez. Escolheria alguém da sua idade. Um senhor, dos seus setenta, vinha pela calçada, meio trôpego. Estaria ainda sonolento, ou quem sabe, tivesse sequela de um acidente vascular cerebral. O certo era que havia vida ali, e estava muito agradecido por isso, independente do que sentia. A rua, a calçada, o cumprimento ao estranho, que nada respondeu. Para aquele nada daquilo tinha a menor graça. Poderia ponderar, outro que encontrara com os mesmos sentimentos seus. Aquilo, porém, o enchera de indignação. Não era nada animador ser assim, tratado com desprezo, e indiferença. Péssimo jeito de iniciar o dia. Aquele que vinha, deixou cair um pouco do ódio que tinha, acabou respingando sobre ele, sentado a praça.

O dia acidificou. Um azedume brotando áspero da ramagem. As nuvens quedaram, através de frestas purulentas, gosmentas, asquerosas.  As pessoas indo pro trabalho, pais levando os filhos pra escola. Os automóveis estupidamente aos gritos, atrasados, um nervosismo uníssono. O sol, sozinho, ele e Deus, subindo a serra e esquentando as orelhas, a testa e outras extremidades dos mortais viventes, seus míseros corpos expostos, a céu aberto. Gatos, cachorros de rua, de tanto usarem as vias públicas pensavam que lhes pertenciam. E acabavam entrando em conflito com os demais usuários, dos logradouros. E era ainda a parte da manhã, tão turbulenta, quanto não devia, trazer paz.

As bicicletas pareciam mais felizes que os ciclistas. Isso porque aqueles pensam. Enquanto que o ferro e a engrenagem, simplesmente iam. Pensar, era fator preponderante para o deus Fobos agir. Logo mais seria uma tarde. E que, por mais parecida que fosse, com a anterior, sempre teria algo de diferente. O gari da semana passada morrera, por um motociclista atropelado. O vendedor de mungunzá adoeceu, hospitalizado, o filho faltaria a escola, pra cobrir o trabalho do pai durante aqueles dias. Afinal o que levava uma pessoa a pensar, o que tanto a motivava? Acordar todos os dias as seis. Pensar, que dia era aquele? Pouco importava. Certeza tinha que não seria um sábado, nem tampouco domingo.

A escadaria, do prédio de apartamentos, o eco das vozes rebatendo nas paredes. Alguém esquecera alguma coisa. Era sempre assim, a pressa, inimiga dos pequenos objetos. Chaves, telefones móveis, carteiras de dinheiro, documentos, cartões, bolsas, chapéus, jornais, cadernetas, agenda, isqueiro, caixa de fósforos, dinheiro pro táxi. O cheiro de ovos fritos e pão fresquinho. Os óculos, sério ficaram olhando. O livro aproveitou a brisa, e caiu na gargalhada.

A escadaria, ela odeia bicicletas. O blazer, esquecera, ia precisar de um. O momento solene exigia. A formatura do jardim infantil da neta. Os cheiros. Cigarro aceso. Aquele fumante devia estar há pelo menos uns vinte metros, em algum lugar do terraço. Óculos de grau, um livro com um dedo marcando uma determinada página. Os olhos vagavam pela folhagem do pé de... De que mesmo é esse pé? É uma azinheira. Quem falou? Ninguém, por perto. Estaria ficando louco. Ouviu nitidamente, alguém disse: “É uma azinheira.” Na próxima reunião do condomínio colocaria como assunto de pauta: O fumante, as bitucas de cigarro que o cachorro do vizinho engoliu e quase morreu engasgado. Um atirador de elite, a lente de aproximação procurando uma vítima.

A rua. O leito da rua, um rio de metal. Rio de automóveis, bicicletas, carroças, pedestres, cães. Manter-se na calçada, questão de sobrevivência. Pensar era viver, andar sobreviver. O que havia pra fazer faria. O candeeiro de pavio virou prioridade. Quanto custa? Ficaria para o próximo mês. Estourara o orçamento. A queda de energia na noite passada. O medo de escuro. Desejou ardentemente a chegada da aurora. A noite, com sua plasticidade de trevas, cercando os nervos por todos os lados. Sua mente uma ilha solitária de aflição. E se um morcego caísse pelos cobertores. De onde concebera aquela ideia. Um sonho, um pesadelo.

Morcegos, eles se reproduzem enormemente. Então, onde estariam os milhares de irmãos daquele que teria matado no banheiro? A cena do filme “A Múmia”, veio-lhe, e milhares deles saindo de dentro da boca. Escolheram a parte interna do forro da casa para lhes servir de morada. Dizem que eles possuem uma espécie de radar para auxiliar no voo. Pois sua visão é ruim, então recompensam essa deficiência emitindo um som não captado pelos ouvidos humanos. Acordara em pânico, havia sonhado com um daqueles vampirinhos voadores mordendo-lhe a jugular. Instintivamente passou a mão no pescoço. Um gosto de sangue veio-lhe a boca.

Abriu o pão com uma faca, com certo sadismo, a manteiga passou com sevícia. Feito alguém que se delicia antes de destruir, um ser vivente. Pelo simples, e puro, prazer de o fazer. Descuidou na hora de colocar a faca sobre o balcão da pia, e metade do pão foi ao chão. Seguindo lei, de não sei lá quem. Só sei que caiu pra baixo, foi o da parte untada. Uma rede de punhos, um facão, um retrato de padre Cícero na moldura cor vinho. O tédio rindo-lhe na cara. Cuspiu-lhe manteiga na lapela do blazer, que ódio.  

Café com pão, engolido com oração. Pedidos de perdão. Pedidos sujos, de outros novos pecados. O banheiro, as revistas amareladas, sob o lastro da cama, mulheres despidas, amassadas, achatadas pelo peso do colchão. A menina negra, o abuso incontido. Rezaria com raiva, com pressa, com agonia. Pedido de perdão atrasado. Tudo valia, menos o desprezo, o ódio. Aquela cena, por décadas, ficara guardadinha no lado escuro da alma. Hibernara pra agora acordar, e vir apoquentar-lhe o espírito de suicida. Só não consumando o ato, por pura preguiça. Salvo pelo gongo. Na verdade escapara por um descuido proposital, de leviatã. A buscar água, no chafariz, com um carrinho de mão. As meninas ficaram olhando pela fresta do portão. O banho de cuia no oitão de casa. Certeza, que alguém o observava. Excitação, masturbação exibicionista. A timidez, reflexo de uma cobrança exagerada, ou de um valor para menos, desprezo com relação aos demais. Uma má avaliação dos pares.

A empregada a porta com um pano de prato na mão, um lenço na cabeça, o ventre quase exposto, olhando a rua. O tocador de pífano, o zabumbeiro, o triangulista, a tarde de bandeirolas, o santinho sorrindo feliz, pelos que, de alma generosa, abriam suas carteiras a doações. A noite, andando sozinho. O restaurante aberto sem ninguém as mesas. O porta guardanapo, o paliteiro, o pote de farofa. A lua, de uma noite triste, e voltar pra casa com uma só certeza, a de um aperto no coração. Nenhum dinheiro no bolso. A lua, única companhia, amiga solitária. Apareceu-lhe um moleque, um pretinho. Disse: Oi. Mediu-lhe com os olhos. Tentou adivinhar suas intenções, quase se animou a pedir um trocado. Ao ver-lhe a cara trancada desistiu.

As bicicletas pareciam mais tristes que os ciclistas. Isso porque aquelas pensam. E pensar, era fator fundamental para o deus Cronos agir. A escadaria, o eco das vozes rebatendo nas paredes. O cheiro de ovos fritos, e pão fresquinho. Uma noite, calma. Calma, igual uma xícara de café. Aguardaria com paciência a manhã de passarinhos tagarelas, de céu contemplativo, céu que vigia os viventes, e as reles tendência aos erros contumazes. Sempre a se desculparem, e odiosamente voltarem solícitos aos mesmos enganos. Um dia acordaria daquela letargia. Acordaria alguns dias, as seis, outros as quatro. E sempre com a mesma certeza. Certeza tinha que não era um sábado, muito menos um domingo. Pois, exclusivamente, esses dias amanheciam com uma cara diferente. Cara de fim de mundo. E olhava pro céu esperando um míssil, vindo com sua ogiva destruidora. Pondo um ponto final a tudo. O armagedon, tão pertubadoramente aguardado.

A escadaria, elas amavam bicicletas. A gravata, esquecera que ia precisar de uma. O momento solene exigia. A filha, terminara o curso de radiologista. Os cheiros, misturados, um champanhe sendo aberto. Adocicado aroma de abacaxi, vindo da cozinha. Devia haver alguém tomando cerveja ali perto, há pelo menos uns dois metros, em algum lugar do terraço. Som de pagode. Chapéu Prada, óculos raiban, alguém tentava acender uma churrasqueira. Os olhos vagavam pela folhagem do pé de...De que mesmo era aquele pé? Um trapiazeiro. Quem falou isso? Não havia ninguém, ali. Estaria ficando louco. Ouviu nitidamente, alguém dizendo: “É um pé de trapiá.” Uma certeza, estaria ficando louco.

A avenida. Uma efusão de cores, e sentimentos, coisas pra fazer, destinos a serem desencontrados. Vidas destroçadas, vícios. Rio de sentimentos, energia desnecessariamente gasta. Carcaças e mais carcaças, de almas rolando rua a baixo. Espíritos fluindo, alguns lentos, outros rapidamente, descendo e subindo a rua. Manter-se lúcido, questão de sobrevivência. O que tinha pra fazer faria. A vela de sete dias virada prioridade. A queda de energia noite passada, apavorante noite. Era um escuro palpável, tão intenso, como do Egito, e o faraó arrogante, coração de pedra. O medo de escuro. Desejou ardentemente o amanhecer. A noite, com suas trevas alucinantes, cercando a mente por todos os lados. A alma, ilha solitária de aflição. E se as almas penadas dos parentes viessem pedir justiça?

Escorpiões, eles se reproduzem aos milhares. Haveria milhares de irmãos daquele que havia matado no banheiro? Imaginou a cena do filme “A Múmia”, milhares deles subindo na cama entrando pela sua boca, ouvidos, narinas. Dizem que a escorpião mãe carrega os filhotes no dorso. E, se escassear alimento para a prole, os filhotes devoram a própria mãe. É da sua natureza. Na lenda da travessia do rio, ele vai preferir picar o jabuti, mesmo, sendo aquele garantia de travessia segura.

Abriu o pão, passou maionese. O descuido na hora de retornar a faca sobre o balcão da pia, e metade do pão foi ao chão. Algo aqui esperado, segundo a lei do capitão ianque Edward Murphy: a probabilidade, da parte untada cair, para baixo, dependia do peso da maionese , da altura da queda, e da força gravitacional. Esses fatores aumentavam em oitenta e um por cento as chances da fatia de pão cair emborcado. O que realmente se concretizaria, o lado untado caiu para baixo.

Outro ditado popular entrou na história, vindo lá da infância, caso ninguém estivesse olhando, apanharia. E lá dentro da cabeça, uma voz diria: “não dê gosto ao cão!”. Alguém teria criado, sem embasamento científico nenhum, a lei dos cinco segundos, que defende: “até cinco segundos, tempo de tolerância para se apanhar um alimento que tenha caído ao chão.” Uma rede de mentiras, não é igual a uma rede de intrigas. Muito menos uma rede de internet, consegue o que uma rede de punhos, armada debaixo dum telhado, é capaz de realizar. Um facão embainhado, um retrato de padre Cícero, uma moldura cor vinho pendurado numa parede de taipa, enrugada.

Café com pão, não rima com resignação. Pedidos de perdão, emporcalhados de outros pecados. O pequeníssimo furo na porta do banheiro, produzido exclusivamente para brechar  a empregada quando fosse tomar banho. A menina do longo cabelo negro, de seios volumosos, o abuso. Lembrança que afundara sob os lençóis. Lavados pelo tempo, voltariam, meio mundo de anos depois, a assustarem ameaçadores como as fendas do inferno. Parecia  reflexo de cobrança de valor para menos, desprezo com relação aos demais, irmãos.

Uma tarde, uma noite, uma manhã. O que levava, o que o motivava? Acordar, alguns dias as seis, ou as quatro. Pensar, que dia seria aquele? Pouco importava. Sabia, não era sábado, nem domingo. As bicicletas, muito mais felizes que ciclistas. Pensar, era fator essencial para o deus Eros agir. A escadaria, o eco das vozes rebatendo nas paredes. Os cheiros, perfume de gardênia. Lacívia.

A empregada, sentada num banco, roendo as unhas. Pensando em nada. Pele morena, branco dos olhos. O tocador de pífano, e suas vestes azuis. O chapéu de dançar guerreiro multicor, a maquete de igrejinha na cabeça. O rosto, borrado de carvão. Lágrimas de suor. As noites solitárias, andando a esmo. O restaurante aberto, ninguém as mesas. O paliteiro, o porta-guardanapos, o frasco de azeite de oliva. Uma caravela, e um pôr-do-sol, no biombo. Altemar Dutra a vitrola, bem ao fundo. A lua, a noite triste, voltar pra casa. Uma certeza, um aperto no coração.

 

 

 

VERMELHO-SANGUE Conto 04/06/2026






A biblioteca, um refúgio. Belo mundo, obscuro, aprendera a tatear. Amigos de verdade, ali estavam. Devagar, paulatinamente o descobrira. Ia se apegando a coisas que faziam sentido. O dia nascia, o dia vivia, o dia morria. Livros, jamais morriam. Um relógio de algibeira consultado. Aprendera a escolher livro pelo cheiro. Sabia que cheiro eles tinham, e sempre os cheirava. Aquilo fazia-o sentir-se dono. Acendia a vontade de ler.  Igual animal selvagem, que urina pra marcar território. As meninas de rosa e azul, de Renoir, na parede. O computador a horas consultado adoecendo os sentidos. Adoentava-se pelo excesso de uso, calado estava. Raiva, não era sentimento nobre, e de máquina, era infantilidade.

A moça negra, tranças rastafári. Olhos de mel, deliciosamente amendoados. Aquele sorriso insinuado entre os lábios desgastava-a, tornava-a irritante. Sentada a mesa, na sala do silêncio, lia Imaginou-se criminoso matando-a. A cor de pele, a luminosidade. Olhá-la assim, naquela tarde, no horário em que o anjo do tédio vinha-o aborrecer. Nervosamente passava as mãos nos cabelos, tanto, que quase feria com a ponta dos dedos, o couro cabeludo. Os olhos, coçava-os, tão insistentemente, ao ponto de ficarem vermelhos. Não ajudava muito, sentir o ódio que sentia. A alma, de tão cansada, deitara-se por cima dumas caixas de livros, que nem haviam sido abertas. Desmaiara, com o cheiro forte da tinta de impressão, e do polietileno das fitas das amarrações.   

Acordou com o gato lhe olhando. Naquelas ocasiões, ele sempre lhe aparecia. Terrível gato preto, de olhos ligeiramente esverdeados. Olhava-o como se lesse os pensamentos. Dava a entender que via além. E via, os sinistros prestes a ocorrer. Morcegos enormes saíam voando de dentro de “O Corvo”, de Poe. Isso criava um clima, um tanto trevoso. Cheiro de cinza, e incenso que irritava as narinas. Iniciou-se a fazer planos. Da infância, trazia alguns traumas, mamara até os seis anos de idade. Agarrava-se na saia da mãe a pedir um chupinho. Além de não lhe dar, a mama, irritada, a mãe lhe batia. Certa vez, foi o padrasto que lhe bateu. E o fez com tanta raiva, que, dada a violência, acabaria se borrando nas calças. Aquela moça, se a matasse, o que faria com o corpo? Alta e esbelta, pernas longilíneas. Bumbum arrebitado, dentro de uma surrada calça jeans. Tudo nela, dizia, o que era ser uma mulher, bonita, e negra. Calculou mentalmente a sua altura, comparou com o espaço que havia no interior da estante. Imaginou-a, Ísis a deusa egípcia da magia, e fertilidade, morta, dentro de um sarcófago. Levada ali por Osíris, deus dos mortos. Teria que embalsamá-la. No laboratório de química, encontraria, tudo o que precisava.

Ainda continuava com fome. Fome de ver gente morta. Isso, sempre o levava a lugares que  possibilitasse atender seus maníacos impulsos, necrotério, hospital, cemitério. Passaria no memorial dos velórios. Sempre havia ali, um defunto sendo velado. Gente morta, quanto mais anônima melhor. Desconhecidas, tanto, que quase ninguém iam vê-las nas últimas horas, em cima da terra. Uma senhora, que muito vivera. Só deixara completar oitenta e nove, morrera. Belo presente de aniversário. Seus olhos, de que cor seria? Assim fechados, não dava pra ver. Aguardaria, quando estivesse só, ele e a morta, abriria uma pálpebra.

Lembrou do coveiro, sentiu raiva, do homem que friamente enterrava os outros. Podia ser que não se achasse, mas parecia querer ser o dono da verdade. Tantos anos na labuta de enterrar gente, que se acostumara com a morte. Ódio, ao desprezo pela dor alheia. Considerava-o um ser, ignóbil, execrável. E precisado de uma lição. Tomou para si, a obrigação de mostrar-lhe quanto sofriam, pessoas que perdiam parentes. Mostraria ao enterrador de corpos, que tinha  ele que ser mais humano. Que tal sentir como era ser enterrado? Lá estava, quase que totalmente dentro do buraco que cavava. Sozinho, tirava o barro vermelho de dentro da cova. Aproximou-se, com toda força, na nuca, uma única paulada. Ao invés de um, dois sepultamentos, naquela tarde.

A noite, e o poder que possui de escurecer coisas que brilham, de dia, e revelar, coisas odiosamente perversas vindas do submundo.  O bar, todo tipo se encontra ali. Um, que aparentava ter emprego, família e preocupações. Deliberadamente se embriagava a uma mesa. Dentro do peito, prisioneira as angústias, donde saía, e a acariciar-lhe o espírito, frívola euforia. Lembranças de um tempo bom, onde falava alto a jovialidade. Tempo em que moto ainda era chamada de motocicleta, guidon, era guidão. Capacete cromado, cabelo ao vento, garota na garupa. Agora, só restara cachorros pulguentos que comiam restos que deixava cair da mesa. E se lhes fosse tirado, aquilo que lhes faria falta, como reagiria? Passava da meia noite, quando um guarda noturno encontrou num beco, o corpo inerte, a jugular aberta, cães lambiam o sangue, e comiam pedaços de carne do pescoço. Testemunhas diriam a polícia que viram aquele homem no bar.   

No alto do portal anunciava: Lar São Domingos. Um abrigo para idoso, todo cercado de árvores e muros altos. A paz reinava naquele lugar, por entre o arvoredo, passarelas bem cuidadas, casulos ornados de imagens que representavam a via sacra. Ali o que se ouvia era  pássaros a pipilar, se via flores nos canteiros e bancos, e se sentia o frescor de uma fonte. Quem dera fosse da juventude, e aqueles velhinhos ávidos a buscarem de beber da água rejuvenescedora. Foi visitar o pai, por conta de um aneurisma, há anos paraplégico. Pediu a benção, não havia resposta. Ficaria a falar-lhe, sozinho. Responder-lhe, o pai não conseguia. Fez-lhe uma pergunta desconcertante. Pai o senhor não queria morrer? Achava, honestamente, que sim. Afinal, aquilo não era vida que alguém, quisesse viver. Uma daquelas árvores lá fora tinha mais vida que o pai naquele leito. Uma lágrima, do olho verteu pelos sucos que os anos cavara em seu rosto. Mesmo diante, da pena que sentia, o sufocou com um travesseiro. Traçou uma cruz, na testa do corpo inanimado.

A noite, chegou trazendo um vento frio, vagou pela cidade. Lembranças boas vieram-lhe, do tempo em que saía pra farra com amigos. Um litro de bebida destilada compartilhado, um violão abundantemente castigado, a trazer alegria. O calor dos cigarros acesos, das gargalhadas, tresloucados, brindes a tudo que configurasse vida. Tudo havia se transformado, o que mais amava agora, a morte. Um sorriso doentio, crispado no rosto. Um mendigo, dormia na marquise de um armazém. Incomodava-lhe a cena. Via-se na obrigação, de tirar aquela pobre criatura do sofrimento que vivia. Pelo simples fato de assim viver, teria que morrer. Pra cometer as atrocidades recorria a algo muito ruim que lhe tivesse ocorrido no passado. Recordou da infância, de um dia que levou uma sova, de uma turma de meninos maus, que lhe pegaram na volta da escola, tiraram suas figurinhas mais especiais, tiraram-lhes o pião e as bolinhas de gude. Bateram-lhe, e por fim, urinaram sobre ele. Nunca, jamais esqueceria aquele dia. 

E quando, aquele menino que lhe urinara foi morto por um exame de abelhas, que inexplicavelmente entrara no seu quarto, fez questão de ir ao seu sepultamento. Levou-lhe flores brancas. O mendigo mataria, tendo no coração a alegria, de quem faz uma grande caridade a um pobre. Como se lhe  outorgaram o direito, e o poder de dar liberdade, a uma alma aprisionada por uma vida de sofrimento.

O bordel já ia fechar as portas. Ao aproximar-se a prostituta pediu-lhe uma garrafa de vodca, para com as amigas comemorar, o aniversário. Lembrou de uma noite antiga, em que, nem passava de um rapaz, estudante do colegial em escola noturna, ao voltar a casa, passara naquele cabaré. Letreiros em Neon avisava: Handevus The Suarez. As músicas explodiam nas caixas acústicas, contavam histórias de traições, de vinganças, e de amores bandidos. Os homens influentes da cidade frequentavam aquele ambiente, porém ocupavam lugares estratégicos, para não serem vistos, ou se preservarem das ciladas dos inimigos. Naquele pedido ótima oportunidade de proporcionar uma noite de prazer, diferente das que vivera até então. Chamou-a, a sair pela cidade, a curtirem pela madrugada. E, encerrariam a noitada dando um ao outro, tudo o que de melhor pudessem dar. Assim o faria. Seria, pra ambos, mais que uma noite de prazer. Ao passarem pela ponte desafiou-a a andar sobre o balaústre. Desafio feito, desafio aceito. Ajudou-a, a subir. E o empurrão para o nada. Um corpo caía para o abraço da morte.

O apartamento era pequeno. Uma gravura de um quadro famoso de Rembrandt “A Ronda Noturna”. Do sofá apreciava aquela cópia da pintura, se imaginava personagem da época fazendo companhia aqueles homens, pensando como eles pensavam. Ligou para uma pizzaria. O rapaz da entrega se dispôs atendê-lo. Não exigia que levasse com a tão propalada urgência, o pedido solicitado. Ódio aos entregadores de alimento rápido. A loucura que cometiam para realizarem as entregas. Punham em risco a própria vida, e a de outras pessoas. Passou-lhe o endereço, o rapaz teria que sair da cidade. Adiantou-se, e se pôs a bolar diabólico plano.  Por uma estrada vicinal, ao passar em alta velocidade, por um arame farpado esticado, e o  entregador foi encontrar a morte.

De volta a biblioteca. Nos livros, somente neles podia confiar. No Atlas geográfico viajava, a tantos lugares distantes. A bíblia, demasiadamente séria, para ser lida. Certa vez, o livro do apocalipse, quase o consumira. Prometeu nunca mais lê-lo. Dentre os evangelhos gostava da narrativa de São Mateus, por ele, alta consideração. Outro que gostava João Batista, este lhes dizia verdades. Assim como disse a Herodes, porém, como ocorria com o monarca, o erro lhe fascinava. Isso, o emocionava, tanto, e tão, que facilmente tinha os olhos vermelho-sangue.