Fraglante da Lua na Noite de 28/9/2026 Rua Maria Lila Carvalho, São Vicente.
Coronel Manoel Rocha, apareceu andando a cavalo, na Maniçoba. Para ele a estrada continuava a mesma. Uma pequena mudança eram aquelas duas fileiras de casebres de taipa, a maioria, antes, coberta de palha de coqueiro. Agora, de telhas, de barro cozido. Iam emparelhadas brincando feito cavalinho de carrossel, acompanhando o sobe-e-desce do terreno. O velho Zé Rosa, morava na casa cor de rosa. Dona Sinhá, debaixo de um alpendre, ensinando a cartilha do abc e a tabuada, a meia dúzia de alunos. Usava o único mobiliário ali existente, uma moenda, e uns bancos compridos. O sol botava cuidado no mundo. O dia espiava pro céu. Santana ficava escutando as orações que iam chegando, se dissipando, voando baixo nas bordas do altar. Bem pertinho de Jesus, escondido, quietinho, cochilando no sacrário. Depois as preces subiam, subiam, lá a cima do campanário. Ganhavam o vento, e sumiam. O casarão e o sobrado encostados na matriz, numa pausa, descansavam da labuta de século e meio de se estar ali. O intendente na intendência, no seu gabinete, recebendo gente, que chamavam de indigentes. A fila dobrava o quarteirão. Zé Doidinho passou carregando um ramo de flores. Com destino, a gruta de Nossa Senhora de Lourdes. Ia cumprir uma promessa de dona Cristina. A tarde era uma assim de setembro, prelúdio de estação. Da casa de Seu Cariolano farmacêutico e delegado, pelas frestas das portas, deslizantemente fluia uma Sonata, a de Primavera, de Vivaldi.
Um copo de alumínio com água fria, pra quem tinha sede, que primor. Era como mergulhar numa fonte de delícias, bálsamo para os couros da garganta, debaixo do sol. O suor, a lágrima vertida que o rosto oferecia. Numa vã tentativa de refrigério. O moço que o Coronel Manoel Rodrigues viu enforcado, pendurado num galho da goiabeira, lá na maniçoba, no quintal de comadre Zélia. Era o mesmo que, por ciúme, matara a menina Elisabeth. Uma menina tão trabalhadeira. Magrinha, de dá dó. Olhos verdes, vivos, sagazes. Cara pintada de sardas. Dois bicos de peito apontando na blusa amarela, desbotada. O short jeans tão gasto, mas, tava na moda, apertando as coxas, finas. Menina interesseira que só. Buscando avidamente autonomia. Não depender de ninguém. Bolava planos. Plantava cebolinha, macaxeira e inhame, no terreiro por trás de casa. Esperava as chuvas, olhava pra serra da Camonga, marcava com um lápis os meses no calendário. Pensava, na aula que aprendera sobre os índios que deram o nome aquela elevação fascinante, tão misteriosa. Mais parecia uma noiva, esperando o noivo no altar. Ciço não gostava, porque Beth saía pelas ruas, vendendo suas hortaliças. Se corroía de ciúme, Também achava humilhante o que ela fazia. Beth não via nada disso, só queria ganhar seu dinheirinho. Importante era poder comprar absorvente, sabonete, desodorante, biscoito recheado e cajuína que tanto gostava. E quando se desocupava corria, e ria feito criança, para a tarde de riacho do bode. As nuvens se embolando umas por dentro das outras. Numa agonia, numa pressa pra verter água. Semelhante gente com a bexiga cheia: Chuá! A cara rajada, de terra de macaxeira, migalhas de biscoito no canto da boca. Não alcançaria chegar ao alpendre do casarão velho, sem ensopar de chuva, pelo menos, a blusa. Em algum lugar muito distante dali, tocava Vivaldi, Sonata de Verão.
Vigário Bello, seguia pela rua. Alcançou, num só tempo, a capela de Nossa Senhora da Piedade. Leu a placa na quina da bodega de Seu Zé Verçosa. Se admirou que tivesse virado nome de rua. Chapéu de Saturno, batina preta. Sol a pino, abriu o guarda-chuva negro. Na rua trêmula, algo negro ia se movendo. Em meio a isso tudo, os urubus olhavam, e deram de asas. O vigário, só eles viam. A praia dizendo Sal, as ondas dizendo Lina. Ajuntando os cacos dera de ir a Salina. O amontoado de casinhas. Abrigavam tarrafas, bóias de isopor, gererés, puçás e gente, se ajeitava por ali como podia. Na casa de dona Durvalina, o terreiro sempre bem varrido, pontilhado de flores vermelhas de Cássia. Seu Belinho, um dia fora prefeito. Agora só mandava na sua cadeira, preguiçosa. O cabo Jair Fausto, na porta da delegacia, sentado numa cadeira com o respaldo virado pra rua. A servir de apoio pros braços e separar as pernas. A igrejinha de Nossa Senhora da Piedade, desenhada de rococó, avisava que tinha mais de trezentos janeiros. Dali, da porta de onde estava, dava pra ver, eles chegando, corsários, homens maus, que batiam em negros, que matavam soldados da guarda real, saqueavam e roubavam armazéns de suprimentos. Já havia se passado mais de três séculos, e tudo permanecia como antes. O vigário continuou olhando.
O cabo Fausto, nunca tivera atrito com ninguém, Robson, esse sim. O seu amigo era de se meter facilmente em confusão, ao ponto de trocar tiros no meio da rua. Uma vez, chegou a tomar como escudo de proteção, uma mesa do bar de Quineu. Aquele maloqueiro, fumador de maconha, ele estava pensando o que, da vida? Ele não perdia por esperar, ia aprender a respeitar os homens de bem. A boquinha da noite, faltou energia elétrica. A cidade inteira caída, debaixo das asas negras de Guriatã. Criaturas ruins aproveitam a escuridão para colocar seus piores planos em ação.Tipo, aqueles que maturaram, planejaram, e não tiveram coragem de executar. Tudo porque a luz incomodava, a luz revelava, a luz denunciava. Robson sabia exatamente onde Antonio se refugiava, o morador de rua, costumava dormir embaixo das bancas dos mascates. Inclusive, ele, ganhava um trocado nos dias de feira colocando as mesas dos vendilhões no leito da rua. Os mascates os gratificavam. As terças-feiras dia que mais ganhava dinheiro.
Naquele dia arrumou confusão logo com um policial. Rosa amorosa a concubina, pediu-lhe uns trocados pra comprar sardinha, farinha de mandioca e uma garrafa de cachaça. Beberam a manhã toda, na casa abandonada. Acabaram dormindo. O vaqueiro senhor Marcondes, o dono da tapera. Jamais imaginara que seu imóvel estivesse servindo de abrigo pra moradores de rua. Naquela noite de breu, o destino tratou de juntar invasores de imóvel, proprietário, polícia. E desafetos por uma discussão de cachaça, em um bar, em pleno dia de feira. Somente na manhã do outro dia o saldo sombrio. Um cadáver na beira do riacho. O bar de Ciço de Quincas, e sua vitrola de móvel ABC “A voz de Ouro”. No seu acervo de vinil: Roberto Muller, Orlando Silva, Nelson Gonçalves, Altemar Dutra, Núbia Lafaette, Dalva de Oliveira. Ninguém até hoje sabe dizer de onde apareceu. Só se sabia que estava lá. Dentre os demais, um disco de Vivaldi. Um tal de Senhor Smith, assim meio boêmio, meio caubói, estava jogando sinuca com um jogador fino “Agarina” era esse seu apelido. Ninguém nem sabia seu nome, era "Agarina" e pronto. Jogavam e tomavam cerveja. E disseram pra si mesmos: Por que não? Se referiam a botar pra tocar, e a radiola tocou: Sonata de Inverno, de Vivaldi.
Quem nunca conheceu Ledo Ivo, nunca soube o que era viver. Qualquer cristão vivente, e também morrente, que vagasse pelo lombo da terra, pras bandas do Jaraguá, tinha diariamente oportunidade de vê-lo. Todo dia, ele passava por aquela rua. Belamente trajado na sua camisa, de botões, verde claro, calça de linho, bege. Vaporosos sapatos mocassim, sem meias. O Jornal e a gazeta de Alagoas enrolados na mão, encostados junto ao peito. Caminhava pela calçada da avenida. O tempo todo olhava pro mar, atravessava a rua. Quase sem automóveis àquela hora. E se deixava engolir pela boca antiga da rua dos casarões e armazéns dos estivadores. A mesma que ia dá na alameda do palácio dos comerciários. Ornada com imensas palmeiras, que guarneciam os suntuosos pilares do frontispício. Bem ali próximo ao beco das raparigas. O destino era sempre o mesmo o Bar das Sete Liras. Não fizera ainda uma semana que o estivador Davi, um negro de dois metros, só de músculos. Um titã. Pegara uma briga com o “Séba”, o pescador Sebastião, irmão de dona Augusta, por parte de pai. Ela vendia acarajé, na porta do mercado do artesanato. O brigão do estaleiro foi parar na delegacia, o das docas, no hospital.
Domingos Afonso Vieira de Souza, era o tabelião. O nome, apenas o nome, viera de Portugal. O sangue, e as esquisitices eram genuinamente brasileiras. O cartório tinha uma janela grande, preguiçosa. Dessas que ficavam a tarde inteira bisbilhotando a vida, da Praça Santo Antonio. Na parte da manhã nada de interessante: garis, leiteiro, padeiro, jornaleiro engendravam sua labuta. A tarde, a praça ficava mais atraente: casais namorando, sorveteiro, pipoqueiro, cães e gatos levavam seus donos a passear. E o sol que ali passara, jamais passaria incólume. Deixara sua quentura nos balanços, nos bancos, na areia, na grama, no chão. Agora mesmo, lá ia ela, a esfera de brasa quicando, languidamente, feito bola de festa, por entre os últimos telhados e coqueiros. Ia, com a certeza que no dia seguinte voltaria, vibrante, nascente. Pena que era àquela, hora, de dar adeus ao mundo. Ninguém sabia dizer como uma banca de mascate, foi parar no meio do arroio. A turba foi olhar, um homem amanhecera morto, na encosta do riacho. Não exalava cheiro ruim, ainda, era defunto fresco. Porém formigões, já escalavam o pescoço, a testa. Depois de muitos golpes de faca peixeira. A morte o viera buscar. Três coisas o cadáver apontava pra cima: O bico do nariz, sujo de terra, a ponta do cabo da faca, cuja lâmina jazia, totalmente, enterrada no bucho, e o pênis. A braguilha aberta, o sexo exposto, rijo. O sol amarelara tudo, tão de um jeito que as coisas todas, o mar, os alagados, arroios, céus, chãos, serras, abismos, infernos, purgatório. Tudo, tudo amareladamente da cor da Sonata de Outono, de Vivaldi.
FRAGLANTE tirado de frente ao Santuário de Senhora Sant'Ana e São Joaquim.Algum dia da segunda quinzena do mês de Setembro de 2026.
Por hoje...É Só!














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