Os avós, de tempos atrás tinham mãos brutas. Ainda assim, jamais desvendariam segredos trancafiados nos objetos dos dias atuais. Cheios de surpresa, ficavam, ao verem que, de dentro deles, seus netos conseguiam fazer coisas incríveis. Um clique, um toque. E folhas de livro se transformavam em aliens, folhas de mato viravam seres da pré-história. Alana lia, num sussurro, trechos de poesia. Difícil era, conter as tempestades que vinha dos olhos.
Seu avô, ficou pensativo. Estava lá. Porém ninguém o via, numa outra região inatingível pelos que estavam aqui. Não se angustiava, não ficava apreensivo, em nada interferia. Tudo admirava, com muita paciência e resignação. A mazorrona calejada planando o cume da cabeça. O vento gélido vindo das bandas dos céus das piscinas dos Wanderleys teimava esvoaçar sua vasta cabeleira, de cabelos brancos.
As flores e suas singularidades. Se tocadas se abriam solícitas. O pote de doce de mamão cristalizado. Cubos imersos em calda d’ouro metálico. A língua doce, falaria de coisas menos amenas. Quando tocadas, o discurso era áspero. Se compadecia das crianças que não tinham o que comer. Do nada, se lembrava delas. Embora, sem saber exatamente em que lugar estavam naquele momento. Porém uma necessidade infinita de ir até lá, nascia. Atacada por todos os lados, de desgosto padecia. Meninas que já um dia sofreram, tinham olhos tristes.
Caderno apoiado nas coxas, pernas cruzadas, sentada no chão da calçada. Isso, não fazia tempo, fora ainda ontem. Escrevia: Eu e minha vó fomos dormir com fome. Um bombom que ganhei da amiga Célia, na escola, foi minha janta. Tiveram apresentações. Alana dançou. O tema da sua turma: folclore. Apresentaram uma dança quilombola. Som de atabaques, sons da longínqua África encheu o pátio. Vestiu o traje de época, colocou a peruca branca, estilo Luiz XV. Alguns professores disseram que ficara parecida com a Chica da Silva. Ficou interessada em saber quem era, a tal. Era uma negra escravizada que alcançara lugar de destaque na sociedade mineira, no período do Brasil colonial.
A lua, lá em cima caminhando seu caminho, bem devagarzinho. Fluidamente desenhando sua interplanetária órbita. Diluir-se-ia assim que o sol saísse, assim que o dia viesse. Alana, negra, cá embaixo. A lua, branca, lá em cima. De repente, a bola cor de prata começaria a ser desengolida pelas trevas. Aquilo era capaz de dar medo, ao mundo que nada entendia. A lua sumindo, sumindo. O dia vindo, vindo, enquanto a noite a ir-se. Alana submersa, na imensa escuridão de sua alma. O que menos queria era pensar. Era o que minimamente interessava para aquele momento. Sendo, no entanto, a única coisa sensata que havia pra fazer.
Para que pressa. Não havia pressa. E não havia vontade de ir, onde se estava indo? Vontade alguma de pensar. Fosse lá o que fosse. Algumas vezes, pensou em ir embora, desaparecer. Sumir para um lugar que ninguém soubesse. Lugar que nem ela sabia aonde iria. Talvez, procurasse padrinho. A lhe pedir ajuda. Porém, a vergonha a impedia. Mandava mensagem no aplicativo do telefone móvel: “Bença padrinho...” Pronto. Não passava disso Ele, como resposta a abençoava. E aguardava. Se ao menos ele perguntasse: E aí? Está tudo bem?...
Tudo parecia noite. A plena luz do dia, uma nuvem escura pairada sobre as ideias. Tornando turvo, o olhar. Queria entender o significado de tudo que estava sentindo. Vozes, dentro da cabeça. Muitas vezes dizendo, fuja, de certas coisas. Afaste-se, de certas pessoas. Sua presença provocava inquietação. Aquela manhã inteira ficou debaixo do viaduto, conversando com os meninos órfãos, sapateiros. Achava suas situações parecidas. Eles perderam o pai, pra cachaça. Ela perdera a mãe, pras drogas.
O aparelho de telefonia móvel chamando, insistentemente chamando. Estava no modo silencioso, nada escutava. Se tivesse atendido, teria falado com André. E ele a chamaria para irem, de moto até o riacho do bode. Queria aquela tarde tranquila, só pra os dois, em plena quarta-feira. De vez em quando iam lá, pra transar e curtir um baseado. Propositadamente escolhiam o dia bem no meio da semana. Pra aguentar o trampo. Tinha que dar aquela escapulida. A fuga necessária, pra segurar a barra. Doce vida, dura de viver. Enquanto as pessoas normais se ocupavam com seus afazeres. Eles iam, e riam à beira do lago. E ouviriam um fantasioso imaginário concerto de Mozart, o número 21. Escalariam a montanha da Camonga, se agarrando em sustenidos e bemóis. A preencherem todos os espaços visíveis e imagináveis. E brincavam criando, em cima de sonatas violinísticas medievais, versões tresloucadas com musiquinhas infantis: “Pirulito que bate-bate, pirulito que já bateu.”
O dia, naquela manhã, tinha vindo pra cima com cara de brabo. Os cabelos revoltos, os olhos vermelhos, de sono, e de muito choro. As sobrancelhas arqueadas. Choro de raiva, por não conseguir se superar. Nem superar os vícios, da bebedeira, do uso da diamba. Objetos de vidro davam-lhe nos nervos. A taça, o copo longo cheio de insinuações, de implicâncias. Nunca iria esquecer, o dia que a mãe morreu. Mataram sua mãe dentro de casa, Alana vira tudo. Jamais esqueceria. Aquela cena a acompanharia pro resto da vida, para sempre. Aquele seria, na sua vida, um dia inesquecível. Só que pelo avesso. Inesquecível de forma ruim.
Ao passar em frente à creche, dava para ouvir as vozes das cuidadoras das crianças ecoando transpassando o côncavo acinzentado telhado de amianto. Em frente ao posto de saúde, mães e seus filhos de colo, aguardavam médicos, consultas, vacinação. Lembrou de sua mãe. Lembrou que marcara com o dentista. Só iria, no dia que não conseguisse dormir com dor de dente. Se a mãe soubesse que depois que partira, havia ficado assim desleixada consigo mesma. Viria lá do céu, pederia um à parte a São Pedro, falaria com Jesus e vinha cá embaixo dar-lhes boas chineladas. Imaginou o chinelo voltando pro pé, sublinhado com sua mais autêntica frase: “Você ta pensando o quê, da sua vida?”
Como sentia falta dela. Outra vez, chorou lembrando da sua mãe. Um imenso vazio ficara, que nada no mundo preenchia. Poderia passar o tempo que fosse. Seis longos anos, já se haviam passado. Nunca jamais imaginara que um dia a perderia. E daquela forma pior ainda. Gostava de tomar café com ela. Para matar a saudade, agora tomava café, sozinha. Sentada na calçada. Ficava pensando, no tempo em que fazia aquilo com ela. E como era bom tomar café, as duas, juntas. Tinha café que era só alegria, descontração. Tinha café com sabor de recordações de infância. Dona Aurelina, sua mãe levando-a pra escola, do jardim infantil. E tinha café da zoeira, as duas discutindo por bobagens. E iam cada uma pra um lado. Emburradas.
A beira do riacho, tinha tudo que queriam. Muito verde, muita água, muito céu azul, galinhas d’angola voando rente ao mar d’água, salubre. Pássaros de fogo, um céu rabiscado de lilás nas ombreiras, e amarelo queimado nas barras do dia. Uma serra encaliçada de verde coentro, abrindo seus braços de granito. O arvoredo se agigantando indo tocar o infinito. Como na história, de João e o pé de feijão. O som de um violão, as andorinhas imitando aves canoras. Num coral longínquo que se desescondia, despetalando das frias reentrâncias das cavernas onde habitava morcegos, corujas, e seres inimagináveis. Frutas terçãs que nunca ninguém encontraria nas bancas da feira. Daquelas que os curandeiros diziam trazerem de lugares que nunca existiram, nem nos mapas.
Alana e André se embrenhavam totalmente nus por entre a vegetação arbustiva que circundava, o riacho do bode. Aproveitavam pra fumar. A se deliciarem na presença do deus Epícuro de Samos nos arredores dos palácios gregos, onde habitava as deusas Apônia, da ausência da dor física e mental, e Ataraxia do não excesso da gula. Plantas se apresentavam com visco, e deliciosa aparência de morangos vermelhos, que lembravam falos pontilhados de brotoejas. Bananas verdosas arqueadas, cheias de sinuosas insinuações. Coração da índia, onde os olhos vagavam, sem nunca encontrar o que procuravam. Narinas que aspiravam com tanta volúpia. Dilatavam e se contraiam com sofreguidão, amantes beirando a loucura, ao pressentirem o orgasmo.
Alana, tinha um conceito de si mesma, ninguém a compreendia. Se sentia um pouco rebelde por isso. Ninguém melhor que ela mesma sabia o que passara. Nunca superara a morte da mãe. Ainda mais da forma como partira. Assassinada covardemente, dentro de casa. Bem ali, na sua frente. Os dois caras que a executara, ela os conhecia. Teria sido um acerto de contas.
Banhavam-se nas águas frias, da cintura para baixo, mornas próximo ao espelho reluzente. Sonhavam encontrar um tesouro de pedras preciosas, colares de puro ouro, coroas de reis, rubis, safiras, diamantes. Largados na pequena enseada aguardaram recuperar as forças. Muitos outros frequentadores daquele pequeno paraíso. Bem ali, esquecido por outros banhistas uma caixa de papelão contendo alguns livros. Livros com aroma de passado: “O Pequeno Príncipe” de A. Saint-Exúpery. Outro, de apurado gosto: Deuses do Mandacaru, de C. B. Chagas.” E um, de visão futurista: “Admirável Mundo Novo de A. Huxley.”
Alana se inscrevera para participar da Corrida pela Emancipação. O percurso, uma longa volta no entorno da cidade. Com largada na Praça do Monumento, com frente a igrejinha de Nossa Senhora da Assunção. Estendia pelo acesso ao lago da represa: João Gomes. Seguia pelo alto do conjunto Marinho. Descambava até o abatedouro público de bovinos, e retornava ao centro da cidade pela pista asfáltica, passando pela ponte da barragem, e pelo largo do Maracanã. Dois rapazes numa moto a aguardavam Alana para uma emboscada, justo no trecho do matadouro. Algo sabiam, que Alana largara com o número 66 pregado, no peito e nas costas. Grampeado num pedaço de pano branco na camiseta vermelha. Boné branco na cabeça, short azul e tênis nos pés. Os rapazes ficaram amoitados por trás duns pés de catingueira. Com um monóculo acoplado ao rifle localizaram a vítima. Um único tiro, certeiro, no peito, e nossa atleta foi ao chão, abatida. A mãe já havia sido morta. Chegara a vez da filha.
O moinho, moía os grãos de milho, as fendas vertiam o leitoso caldo, com gosto e cheiro do rei dos cereais, coberto de ouro. Dali a pouco aquela massa viraria um gostoso alimento. Revigorante, que fazia esquecer as agonias, os sofrimentos as desventuras. Os desentendimentos, as discórdias. Todas as tristezas do mundo se encerravam, num prato de cuscuz.
Aqueles dois eram da boca de fumo. Matavam por dívidas com drogas. E aquilo não fazia o menor sentido. Se eles tivessem lhe dito, tua mãe tem dívida com a gente. Ela tem até dia tal, pra quitar, ou vai morrer, Teria dado um jeito, de arrumar o dinheiro. Talvez ainda pudesse contar com ela, bem ali na sua frente. O talão de água enganchado nuns galhos de cróton no minúsculo jardim da sua vó. O cachorro mordendo as pulgas na calçada. O portão e uma dobradiça solta precisando de reparos. A ventania tangia o portão, fazendo-o dançar um só passo: um pra lá, um pra cá, ao tempo que criava sonora melodia.
Na sexta-feira Alana foi pra casa de uma amiga, ouviria música, só reggae da Jamaica, e Edson Gomes, a manhã inteira. Foram pra bodega de Seu Dedé jogar sinuca a tarde inteira. Tomaram duas latinhas de cana, com cajuína, e de tira-gosto pipoca isopor, uns salgadinhos. Mônica, naquele dia morrera no lugar da amiga. Alana, escapara tão somente por conta do número pregado na camiseta. 66, o número na camiseta de Alana. 99 o número de Mônica , se desprendeu, ficou dependurado, de ponta cabeça.
MAKE OFF
É O FIM...
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