ERA DIA DE CARNAVAL 14/02/2026


   As ruas, as casas, tudo dava a entender que aquele, era um dia de carnaval. Os altos falantes jogavam frevo no ar. O tapete acinzentado de paralelepípedos pontilhado de confete e serpentina, estendia-se pela avenida. Nuvens de pó branco, no ar, nas cabeças, no chão. O bloco do Sujo, àquela hora da manhã, ainda estava limpo. Limpo, nas vestes, nas mentes, aturdidas de frevo, ávidas de éteres. Lanças perfumes, buzinas barulhentas, frevo, samba, uísque, e agogô. Blocos surgiam nas esquinas. Na mesma proporção que sumiam, pra tudo quanto era lado. Sem saber ao certo pra onde iam, perambulavam. Vagavam, pra lugar nenhum. Inconscientemente, convergiam em direção a praça.

Esmeraldina acabara de sair da quitanda. Um pouco desnorteada. O estardalhaço dos blocos punha frenesi nas coisas, nas almas dos viventes, nos espíritos que vagavam, também nos bichos. Segurando firme a sacola com as compras, seguiu caminho. A mão direita fechada, como se fosse esmurrar alguém. Na palma, bem escondida, uma cédula de dinheiro, amassada, amarrotada. O troco da quitanda, que dali a pouco viraria um litro de leite. Toda manhã, junto com o sol, na lombada da estrada de barro, lá vinha ele, Seu Fernando Catingueira. A jumenta com um chocalho, a anunciar sua chegada. O líquido lácteo, branquinho, recém tirado da vaca, vinha pra cidade, dentro de baldes, nos caçuás da jumenta. O cheiro abusado, atraía insetos, gente, gatos famintos.

Seu Audálio, de manhã cedo, já estava na bodega de Seu Oséias. A primeira lapada de cana, sem ter botado um nada na barriga, botou pra dentro. Na última, das quatro portas botou meio corpo para fora. Nos dois sentidos da rua, olhou, quem ia, quem vinha. Saiu pra calçada acendeu um cigarro, o primeiro jato de fumo soprou para cima. Aproveitou para explorar o céu. Havia nuvens se concentrando por sobre a urbe. A chuva prometia, brincaria carnaval, junto à corja barulhenta. A turba desvairada, aqui em baixo, teria chuva por companhia. Um grupo de meninos trajados de bobos passou correndo, estalando relhos, assoprando apitos, o silvo imitava pássaros noturnos. Esguichavam indiscriminadamente água de lanças coloridas.  

A bagunça reinante cá embaixo, parecia refletir-se lá em cima. A cima das cabeças, das casas, e dos telhados. Nuvens obesas, insistentemente avisavam que não suportariam por muito tempo. Um desmame previamente avisado. Em breve uma ordenha pluvial ocorreria. Não apenas um espetáculo, mas dois. Prontos para acontecerem, o início do tríduo dos dias frívolos, e a chuva. Chuva e foliões, uma combinação mais que perfeita. Chuva benfazeja, chuva pra lavar a alma, lavar corações, chuva pra arrastar a tristeza para a sarjeta. Chuva pra lavar as faces, maquiadas, enganadoras faces. Efusivas, coloridas, de falsos sorrisos, da falsa alegria, de momo, meladas de pó. Chuva de pingos oblongos, demasiadamente esticados, pingos feitos projéteis derretidos, que rapidamente transformavam ruas em rios, becos, vielas em canais. Arrastavam terra dos terrenos baldios, ajuntavam lama nas bueiras, nas bocas de lobo. Chuva que revelavam grotescas faces escondidas, debaixo de pierrôs, de colombinas. Palhaços e fadas, tudo de mentira.

 A casa de Seu Audálio, continuava no mesmo lugar. Tetricamente estática, como que se negando entrar na folia. A rua toda era alegria, saltitante. Portas escancaradas, gente entrando, gente saindo. Cimentado perigosamente molhado. E gente, a dar escorregões e tombos, os que desafiavam a lei da gravidade, e que teimavam em passar correndo. Aquela casa acanhada, encolhida entre outras mais bem cuidadas, se negava a ser alegre, ainda que fossem aqueles, dias de folia. Alegria falsa, falsa euforia. O ano inteiro sofrimento, o ano todo, o que sobejava dentro daquele casebre, tristeza.

A música, ora uma modinha, ora esfuziante valsa, ao transpor os umbrais daquela casa semelhava marcha fúnebre. A melancolia, da porta pra dentro, ali reinante, desbotava os mais sonoros acordes. A rudez da carência, o parco e velho mobiliário. Numa salinha um centro adornado de um jarro com flores empoeiradas. Um sofá, e uma poltrona resistiam, competiam pra ver quem primeiro sucumbiria às revezes do tempo. O quarto dos filhos de Seu Audálio, e dona Esmeraldina, André e Carlos de 15 e 16 anos. Lúcia e Eulália, de 8 e 13 anos. Num ínfimo cubículo, se apertavam dois beliches, que subiam pelas paredes laterais. De um lado dormiam os meninos, do outro, as meninas.

Seu Audálio, era vaqueiro. A vida toda vivera na caatinga. Nas brenhas do sertão se criara. Se inventara de vir pra vila, em busca de vida melhor. E, até então, tudo o que conseguira, miséria, humilhação. E arrependimento, pelo mal fadado exílio. Quando conseguia alguma coisa, pra ganhar algo, era, limpar um quintal da casa de um comerciante, de um funcionário público, ou trabalho de servente de pedreiro. Dona Esmeraldina vivia amargurada de saudade, da vida na roça. É certo, que lá, as coisas não eram nada fácil. Porém, nunca faltara o de comer. E a si mesmo dizia: “Se arrependimento matasse, eu já estava mortinha.”

O mundo pra Seu Audálio rapidamente se modificara. A cachaça, tornada refúgio. Entornada no estômago vazio, sorrateira subia-lhe à cabeça. Ali chegando tudo fazia virar um alucinante carrossel de sonhos. O frevo, o álcool, ocasional, fazia-o flutuar. O chão amolecera, parecia esterco quente, pastoso, cheiroso. Como se saído de dentro do boi agora a pouco. Aquele cheiro bom, fazia tempo que não sentia. Vindo lá de um curral imaginário, guardado na memória. Não sabia como, mais era de lá, de tão longe viera. A sensação de tranquilidade, a aquecer-lhe o coração. Sob o véu do etanol, a rua parecia mais cordial, mais amiga. As casas pareciam sorrir-lhe, como se tivessem bocas, e enormes dentes, alvinhos a sorrir-lhe. O frevo tão convidativo. As árvores pareciam possuidoras de enormes olhos, com imensos cílios postiços. As nuvens como se maquiadas, dotadas de bochechas rosáceas. Os ouvidos de Seu Audálio pareciam, de bom grado, engolir as notas musicais que materializadas, eram pintadas de cores vivas. Eram fofas, cheiravam a hortelã, orvalhado. Brilhantes, vistosas como frutos de Melão-de-São-Caetano.

O ex-vaqueiro, veio vindo pela rua. Vestia uma calça preta que ganhara do ex-patrão. No seu corpo, agora franzino, pelas necessidades passadas, a calça de linho sobejava de tecido, precisara de um arrocho maior do cinto. O chapéu de couro, roto, amassado, o andar trôpego, deu-lhe a aparência dum “Carlitos” mambembe. Algo estranho de se ver, nosso protagonista, todo em preto e branco. E, a sua volta, efusão de cores, euforia.

Seu Audálio envolto pela alegria. Arrastado por explosiva magia reinante, esfuziante momice. Alimentada de trejeitos, fricotes, gargalhadas. Risos soltos. Afoitos arroubos nascidos de rum, vinho e outros destilados, ou fermentados, a todos endoidando. Foliões, com seus frascos claudicavam como se dançassem, ou dançavam como se claudicassem. Pelas ruas e ladeiras, iam. Por um instante, o pobre Audálio se esqueceu que tinha família, mulher e filhos. Enquanto estes, como sempre, o esperariam. Na esperança que trouxesse algo para comer, que viesse, para casa, perto do meio-dia. Mulher e filhos, a vida toda uma eterna espera. Mais uma vez esperavam. E esperariam deitados, pois em pé, cansa. Como sempre, a fome chegava, primeiro que Seu Audálio. Enquanto isso, casa era varrida, camas forradas, louças e roupas lavadas, terreiros e quintal eram limpos, sonos dormidos. Aguardariam pacientemente, até que o esteio da casa, o supridor das necessidades, chegasse. A fome que não podia esperar, esperava.  Na casa onde abundava a carência carnal, carnaval nem se atrevesse a entrar. O frevo, o batuque, o maracatu, os estrondos dos clarins, passavam pela porta, mas nem se animava entrar. Casa de pobre, se conhece de longe.

De repente, um carro enorme, um Cadilac preto, parou à porta da casa de Seu Audálio. O chofer desceu, bateu palmas. Eulália veio ver quem era, em seguida chegou sua mãe. Seu Geraldo, o chofer, trazia um recado do senhor Diocleciano seu patrão, o dono da usina de algodão, proprietário da fazenda Bom Jardim, na qual Seu Audálio, por muitos anos trabalhara. Um convite trazia, para o vaqueiro voltar a trabalhar pra ele. Dona Esmeraldina sorriu por dentro, mas conteve-se ao notar o olhar de cobiça do chofer pra sua filha, insiste mente olhava para os pequenos seios da menina, que agora tinha 14 anos. Falou pro moço que seu marido tinha saído cedo, e até àquela hora, passava de meio-dia, não havia voltado.

A tarde ia. Ia muito além da misericórdia. O sol, deu uma vacilada, e sequestrado foi, por um tufo de nuvens que desde cedo lhe empurrava para os abismos do vale das sombras. E a intenção, todos sabiam, era que a tempestade reinasse, do céu à terra. E ela reinou. A tromba d’água pegou alguns de surpresa. A torrente forte levou confetes, serpentinas, fantasias,  danificou ornamentações dos postes. O bloco “Arrastão”, arrastado ladeira a baixo. Água descia aos rolos, levando com força tudo que encontrava pela frente. Tambores, tamborins, estandartes, alegorias, alegria, cachorros, gente bêbada. Água e folia.

E veio a noite. Uma chuvinha fina, insistentemente, caía sob o calçamento, sob as ruas escuras, do subúrbio. Dava pra ouvir, muito longe, um instrumento metálico, de sopro. Desafinado, notas cortadas. Suspiros últimos, como de um sobrevivente de um naufrágio, que tentava, num último esforço, comemorar o fato de estar vivo. Aqui e acolá, reflexo de lanternas, como se procurasse algo. Alguém, perdera alguma coisa. Sabe-se lá o quê. Um relógio, os sapatos, a chave de casa, a vergonha, a vontade que tinha de brincar carnaval. Muito longe, um murmúrio. No final do quarteirão uma discussão de bêbados. A ambulância passou, lá longe, gemendo a sirene, em direção ao centro da cidade. Um gato, pulou da marquise até o muro, do muro até o contêiner de lixo, e dali, ao chão. Aproximou-se do batente da loja de ferragens. Jazia um homem ali. Vencido pelo cansaço, pelo álcool, pela fome. Palhaço sem graça, mambembe sem troça, espantalho de roça. No primeiro dia de carnaval, no chão largado, dormia. Seu Audálio.    

 

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