BEM ALI, A FRENTE... [RIGTH THERE AHEAD] Conto 23/02/2026.

FOTO RIACHO CAMOXINGA EM 22/02/2026
 

Uma estrada pavimentada, quase deserta, cheia de curvas sinuosas. Um céu exuberantemente azul, mesclado de brancas nuvens, até o horizonte. Um carro, a cem por hora, surgiu. No interior do automóvel, aparente calmaria. A única coisa que quebrava o silêncio, lá dentro, um rock balada vindo do rádio. Som meloso de guitarra eletrônica. Do lado de fora, ronco de motor no asfalto. Semblante fechado, o moço que dirigia, parecia irritado. Chapéu de caubói, óculos raiban. Teria aí seus trinta e poucos anos, fazia o tipo, americano, Ao seu lado, uma moça, de longo cabelo negro, olhos castanhos, longos cílios. Escondia-os nuns óculos de armação estilizada. A julgar pela cor da pele, uma nativa.

Terra seca, aridez de deserto, cactos. Era a paisagem que se refletia nos vidros. Escassez de gente, escassez de casas, escassez de sombra. Abundância de sol, abundância de tristeza e solidão. Adrenalina, entre outras coisas, tem poder de fazer o coração bater com mais intensidade. O daqueles dois acompanhava o ritmo do asfalto. A aparente tranquilidade, era só aparência.

Tem coisas para as quais não existe explicação. para Sidnei, tudo a sua volta podia parecer normal, mas não era. Lorena, mascava chiclete. A calma de araque da moça, só contribuía para aumentar a irritabilidade de Sidnei. Num relampejo de lucidez, pensou: se acaso se envolvessem num acidente? Naquelas circunstâncias. Seria fatal.

Os pensamentos, tentava organizar. A velocidade com que as imagens se sucediam, curvas, placas de sinais, um animal morto a margem da pista, urubus. Qualquer coisa tirava a concentração. Mesmo com os vidros fechados, a sensação era que tudo o que pensava saía voando, lá pra fora. Pelo vento era levado. E pensar que uma discussão boba, poderia levá-los a morte. Uma força estranha, talvez isso, os permitia continuarem vivos. Só tinham que aproveitar. E relembrar como tudo começara. Tempo havia de sobra. A longa estrada a frente. Poderia levá-los a onde queriam ir. Ou, aonde nunca imaginariam chegar.

Enquanto o carro avançava, lembranças vinham. Sidnei lembrava de uma tarde de domingo. Um sol reluzente brilhava na imensidão do azul celeste. Era outono. Estavam no alpendre da velha cabana dos Silva. Acomodados sobre um banco comprido, de madeira. Trajado numa camiseta vermelha com uma estampa amarela no centro do peito. Não lembrava se era um desenho duma ave, ou um coração. Seria um pato, de bico alaranjado? Ela, vestida num vestido verde claro, adornado de detalhes na barra e nas mangas, sianinha branca e fitilho vermelho. O cabelo, tinha-o preso próximo a nuca, por um lenço estampado.

Sidnei tinha uma xícara branca com café. Lorena acendera um cigarro. A fumaça azulada brincava com seus cabelos, e subia, a cima do telhado. Conversavam quase sem dizer nada. O olhar cheio de montanhas. O horizonte, de longe, só assistia, sem nada dizer. Ela disse: -Estou com dor de cabeça. Ele sacou uma piada pronta, cheia de malícia: -Abra as pernas que a cabeça passa... Ingenuamente ela obedeceu. Sidnei não conteve a gargalhada. Aquele instante cheio de ternura, marcava um dos primeiros, de muitos momentos que passariam juntos. Uma vida inteira teria, pela frente. E nem sabiam o que o esperavam. Bem ali, logo a frente.

-Acho que estamos perdidos. Disse ela. Ao tempo que via, do seu lado da estrada, um imenso portal de entrada, de uma fazenda. -Assim que avistar alguém, eu paro, e peço informação. Retrucou. Nem bem fechou a boca, duas motocicletas, surgiram no retrovisor, vinham no mesmo sentido do carro. Baixou o vidro da janela do motorista, com o braço para fora, tentou fazer sinal para pararem. Os motociclistas emparelharam com eles, mas passaram direto.

Oito quilômetros depois, avistaram um posto de combustível. Tentaria informação com o frentista. O magricela, de macacão sujo de graxas e óleo, era de poucas conversas. Ao menos, ficou sabendo que estava no caminho certo. E que andaria ainda uns quarenta quilômetros até chegar ao destino. Isto é um assalto! Imediatamente veio a sua mente o dia em que o pai de Lorena Seu Antonio, havia uma semana que estava sumido teve uma de suas crises de esquizofrenia. Armado com uma velha faca peixeira enferrujada, tentou assaltar o posto de combustível de Vila Santa. O frentista sacou uma pistola calibre doze e explodiu o peito do velho Antonio. Encerrava ali a trajetória do velho sogro de Sidnei, cuja vida conturbada, era de clínica em clínica, de hospitais, e hospitais psiquiátricos.

Sidnei foi até a conveniência, comprou, biscoitos, chicletes, batatas fritas, água, e cigarros. O barbudo atrás do balcão lembrava, fisicamente, o seu primo Artur. Nitidamente recordou aquela manhã que fora com ele, levar o gado pra beber água no açude, que ficava por trás da casa da vó Emília. De volta, chegaram pelos fundos, aos gritos, chamaram pela avó várias vezes sem obterem resposta. Quis entrar pela cozinha, porém desistiu. Contornaram a velha casa pelo oitão. Ao chegarem a frente, novamente chamaram pela avó. Sinal nenhum que houvesse alguém ali. Entraram pela frente. A porta estava só encostada. A casa parecia abandonada.

Lorena, lembrava de outras brigas, por motivo ainda mais fútil que aquele. No primeiro ano de namoro quando fizera aniversário, ganhou de Sidnei um relógio de pulso, que era o desejo da maioria das mocinhas de sua idade, a época. Junto a caixa do presente, um cartão de parabéns. Nele, havia um desenho de um casal de namorados envolto em uma densa neblina. Encimados de letras brilhantes, que dizia: “Feliz Aniversário! Te Amo.” Lá dentro, Sidnei escrevera, de próprio punho, alguma coisa. Ao vê-la abrir, pediu: -Leia. E fechando o cartão ela disse: -Depois. -Quero que leia agora! Disse ele taxativo. E a discussão começou. O rosto banhado em lágrimas, ela acabou confessando: -Eu não sei ler!  

Os meninos, vasculharam todos os cômodos. Não havia ninguém ali. Na cozinha, uma chaleira de café no fogão à lenha. Era comum, nas casas de sítio, uma panela no fogo, somente pra aproveitar as brasas. Os meninos avançaram nos quitutes da velha avó, comeram coalhada com açúcar, doce de leite de pelotas. E saborearam a famosa torta de frango da vó Emília, que ela guardava a sete chaves. E não gostava quando comiam sem sua permissão. Na sala aproveitaram pra mexer nas antigas armas do vovô Pedro, exposta sobre uma enorme cômoda de cedro. Vo Pedro morrera de câncer no estomago, fazia anos. Seu semblante severo na moldura da parede, parecia, repreender os meninos pelo que faziam. Um bacamarte, uma pistola Luger P08, alemã, da segunda guerra mundial. E uma pistola de cano duplo, apelidada de “Dois tiros e uma carreira.”

De fato, Sidnei esquecera a origem humilde da namorada. E que após a morte do pai, quando ela ainda era criança. Pra sobreviver teve que trabalhar duro nas plantações, nos roçados. O pai bruto, não permitia que estudasse. As mãos eram calejadas na palma e nos nós dos dedos. Só tinha direito a comprar uma roupa nova, próximo as festas do padroeiro, com o dinheiro ganho com a venda dos cereais. As vezes ganhava roupas usadas, das primas ricas que moravam na capital.

O dia, calmo e ensolarado até aquele início de tarde. De repente, mudou. O mundo escureceu, parecia noite. O trovão roncou seu ronco de meter medo nas almas penadas, e nos seres  vivente que perambulavam pelas brenhas do sertão. Ainda mais em menino medroso, que estaria fazendo o que não devia. E já imaginava que o castigo chegara, só que chegara rápido demais. Os raios cortavam o céu como se metade do firmamento fosse cair bem ali, no terreiro da velha vó Emília. Uma ventania arrastou as roupas do varal pra uma plantação de palma que tinha ao lado do terreiro. Agora tinha palma vestida de camisola, uma com touca de calçola e até uma enrolada de toalha como se fosse cachecol. Galinhas, guinés, perus, pavões, patos e gansos buscaram abrigo. A chuva, de pingos grossos produzia, na calha, um barulho ensurdecedor. De dar nos nervos. A água descia pela bica, corria cano a baixo, caindo direto na cisterna.

Sidnei e Lorena, se casaram num final de ano. O último dia, num 31 de dezembro pra ser mais exato. O moço resolvera fazer, naquele mesmo dia, sua despedida de solteiro. Ficou após a cerimônia, a tarde toda bebendo com os amigos, pelas ruas, bares e botecos. A festa foi na casa dos pais dela. Um almoço foi servido aos presentes. Uma vitrola se alternava com um violonista, que bebia muito, só executava uma música a pedido, depois de tomar várias doses de cachaça. Acabou bêbado, arriou lá no quintal, próximo a uma goiabeira, onde ia aliviar a bexiga. A algazarra era por conta das crianças, a maioria sobrinhos da noiva. A mãe de Sidnei, dona Clotilde, era viúva e se fez presente ao casamento sozinha. Parecia tão pensativa. Como se tivesse com um sentimento de perda. Com aquele semblante só se vira no dia do sepultamento do finado Arnobio. E já, uns vinte anos havia desde que seu esposo se fora.

Naquele baile do final de ano Lorena fugiu de casa. Depois que todos dormiram saiu pela janela pra ir encontrar Sidnei. Ele a esperava na praça, fazia horas, isso o deixara nervoso. Lorena prendeu um riso com a mão ao vê-lo. Achou ridícula a gravata azul que usava. Infelizmente ele percebeu, a reprovação dela. Aquele não seria nunca a melhor noite de final de ano. A discussão foi inevitável. O pretexto: a demora. Isso a fez ir embora. Talvez Lorena se arrependera de ter fugido, e assim tentasse evitar levar uma surra do seu irmão Jorge, o mais velho. E que não aprovava o namoro da irmã com aquele ofice boy da empresas dos Correios. Enquanto que seu pai, nunca saberia. Na noite de ano novo ficava tão bêbado que acabava perdendo o melhor da última noite do ano: a queima dos fogos de artifício.

Os meninos, no sofá. Cobriram-se com uma manta, que tinha um tigre de bengala estampado. Com a tempestade, o tigre do desenho parecia também temer o que lá fora acontecia.  Artur jurou que viu um vulto passando pela vidraça da janela lateral. Do oitão a oriente da casa.  Segundo ele, era a silhueta da vó Emília refletida ao clarão de um raio. Mas o que a vó deles estaria fazendo, andando em torno da casa, debaixo daquele violento temporal. Será que a velha queria meter medo nos meninos?

O revellion na praia tinha tudo pra ser o melhor de suas vidas. Já eram adultos. A falta de experiência ficara pra trás, fazia anos. Motivos tinham muitos pra comemorar, a vida, a estabilidade financeira. Enfim a paz, não a do mundo, mas a existente entre os dois. O champanhe estourando, as taças tilintaram várias vezes. As fotografias, os flashes, a alegria contagiante sendo registrada para a posteridade. A queima de fogos, explodiu enchendo de luzes o manto negro sobre o mar. Lorena era puro êxtase, frenesi de felicidade, o álcool a fez mergulhar no mar. Ao emergir parecia uma deusa seminua. Seu vestido branco sutilmente fino colou ao corpo. Nitidamente dava pra ver seus pêlos pubianos, negros sob o translúcido tecido. Ao vê-la assim Sidnei teve um acesso de fúria. Pegando-a pelo braço, puxou-a para a penumbra, dizendo-lhe palavras duras. Despiu sua camisa e a envolveu por sobre a cintura, cobrindo-lhe o ventre. Mais um fiasco, numa noite de virada de ano.

Alguém batia com força na porta da frente. Os meninos trêmulos, paralisados pelo medo, num quase num sussurro perguntaram: -Quem é? Era Seu Antonio. Aos gritos tentava dizer algo ocorrido a sua velha mãe, dona Emília. Uma lufada de vento apagou todas as velas. Aquela noite tempestuosa, trouxe medo, trouxe dor. Dona Emília fora encontrada morta boiando nas águas turvas do açude, o balde que levava, boiava  junto ao corpo.

O carro avançava. A imensidão do infinito escurecera. A escuridão dizia: é noite. Noite nos pensamentos, noite nas mentes de tormentas, tenebrosa noite nos corações, vacilantes. Raios, trovões. A anunciar: dali pra frente, a jornada se tornaria mais difícil. Onde há discórdia, as chances de dar certo diminuem, e  de dar errado só aumentam. Uma ponte, semi destruída logo a frente. a força das águas, facilmente consegue engolir um frondoso carvalho, uma cerca, de arame farpado, uma cancela de cedro seminova. Sem hesitar engoliria sonhos, planos, engoliria projetos, as esperanças de chegar a um lugar. Abismo no peito, cratera, aberta na alma. Tão fria, capaz de encerrar sonhos, trajetórias. Entrelaçar história de vidas. A cem por hora. No rádio, a música dizia: “Nós fomos feitos um pra o outro...”

 


ERA DIA DE CARNAVAL Conto 14/02/2026


   As ruas, as casas, tudo dava a entender que aquele, era um dia de carnaval. Os altos falantes jogavam frevo no ar. O tapete acinzentado de paralelepípedos pontilhado de confete e serpentina, estendia-se pela avenida. Nuvens de pó branco, no ar, nas cabeças, no chão. O bloco do Sujo, àquela hora da manhã, ainda estava limpo. Limpo, nas vestes, nas mentes, aturdidas de frevo, ávidas de éteres. Lanças perfumes, buzinas barulhentas, frevo, samba, uísque, e agogô. Blocos surgiam nas esquinas. Na mesma proporção que sumiam, pra tudo quanto era lado. Sem saber ao certo pra onde iam, perambulavam. Vagavam, pra lugar nenhum. Inconscientemente, convergiam em direção a praça.

Esmeraldina acabara de sair da quitanda. Um pouco desnorteada. O estardalhaço dos blocos punha frenesi nas coisas, nas almas dos viventes, nos espíritos que vagavam, também nos bichos. Segurando firme a sacola com as compras, seguiu caminho. A mão direita fechada, como se fosse esmurrar alguém. Na palma, bem escondida, uma cédula de dinheiro, amassada, amarrotada. O troco da quitanda, que dali a pouco viraria um litro de leite. Toda manhã, junto com o sol, na lombada da estrada de barro, lá vinha ele, Seu Fernando Catingueira. A jumenta com um chocalho, a anunciar sua chegada. O líquido lácteo, branquinho, recém tirado da vaca, vinha pra cidade, dentro de baldes, nos caçuás da jumenta. O cheiro abusado, atraía insetos, gente, gatos famintos.

Seu Audálio, de manhã cedo, já estava na bodega de Seu Oséias. A primeira lapada de cana, sem ter botado um nada na barriga, botou pra dentro. Na última, das quatro portas botou meio corpo para fora. Nos dois sentidos da rua, olhou, quem ia, quem vinha. Saiu pra calçada acendeu um cigarro, o primeiro jato de fumo soprou para cima. Aproveitou para explorar o céu. Havia nuvens se concentrando por sobre a urbe. A chuva prometia, brincaria carnaval, junto à corja barulhenta. A turba desvairada, aqui em baixo, teria chuva por companhia. Um grupo de meninos trajados de bobos passou correndo, estalando relhos, assoprando apitos, o silvo imitava pássaros noturnos. Esguichavam indiscriminadamente água de lanças coloridas.  

A bagunça reinante cá embaixo, parecia refletir-se lá em cima. A cima das cabeças, das casas, e dos telhados. Nuvens obesas, insistentemente avisavam que não suportariam por muito tempo. Um desmame previamente avisado. Em breve uma ordenha pluvial ocorreria. Não apenas um espetáculo, mas dois. Prontos para acontecerem, o início do tríduo dos dias frívolos, e a chuva. Chuva e foliões, uma combinação mais que perfeita. Chuva benfazeja, chuva pra lavar a alma, lavar corações, chuva pra arrastar a tristeza para a sarjeta. Chuva pra lavar as faces, maquiadas, enganadoras faces. Efusivas, coloridas, de falsos sorrisos, da falsa alegria, de momo, meladas de pó. Chuva de pingos oblongos, demasiadamente esticados, pingos feitos projéteis derretidos, que rapidamente transformavam ruas em rios, becos, vielas em canais. Arrastavam terra dos terrenos baldios, ajuntavam lama nas bueiras, nas bocas de lobo. Chuva que revelavam grotescas faces escondidas, debaixo de pierrôs, de colombinas. Palhaços e fadas, tudo de mentira.

 A casa de Seu Audálio, continuava no mesmo lugar. Tetricamente estática, como que se negando entrar na folia. A rua toda era alegria, saltitante. Portas escancaradas, gente entrando, gente saindo. Cimentado perigosamente molhado. E gente, a dar escorregões e tombos, os que desafiavam a lei da gravidade, e que teimavam em passar correndo. Aquela casa acanhada, encolhida entre outras mais bem cuidadas, se negava a ser alegre, ainda que fossem aqueles, dias de folia. Alegria falsa, falsa euforia. O ano inteiro sofrimento, o ano todo, o que sobejava dentro daquele casebre, tristeza.

A música, ora uma modinha, ora esfuziante valsa, ao transpor os umbrais daquela casa semelhava marcha fúnebre. A melancolia, da porta pra dentro, ali reinante, desbotava os mais sonoros acordes. A rudez da carência, o parco e velho mobiliário. Numa salinha um centro adornado de um jarro com flores empoeiradas. Um sofá, e uma poltrona resistiam, competiam pra ver quem primeiro sucumbiria às revezes do tempo. O quarto dos filhos de Seu Audálio, e dona Esmeraldina, André e Carlos de 15 e 16 anos. Lúcia e Eulália, de 8 e 13 anos. Num ínfimo cubículo, se apertavam dois beliches, que subiam pelas paredes laterais. De um lado dormiam os meninos, do outro, as meninas.

Seu Audálio, era vaqueiro. A vida toda vivera na caatinga. Nas brenhas do sertão se criara. Se inventara de vir pra vila, em busca de vida melhor. E, até então, tudo o que conseguira, miséria, humilhação. E arrependimento, pelo mal fadado exílio. Quando conseguia alguma coisa, pra ganhar algo, era, limpar um quintal da casa de um comerciante, de um funcionário público, ou trabalho de servente de pedreiro. Dona Esmeraldina vivia amargurada de saudade, da vida na roça. É certo, que lá, as coisas não eram nada fácil. Porém, nunca faltara o de comer. E a si mesmo dizia: “Se arrependimento matasse, eu já estava mortinha.”

O mundo pra Seu Audálio rapidamente se modificara. A cachaça, tornada refúgio. Entornada no estômago vazio, sorrateira subia-lhe à cabeça. Ali chegando tudo fazia virar um alucinante carrossel de sonhos. O frevo, o álcool, ocasional, fazia-o flutuar. O chão amolecera, parecia esterco quente, pastoso, cheiroso. Como se saído de dentro do boi agora a pouco. Aquele cheiro bom, fazia tempo que não sentia. Vindo lá de um curral imaginário, guardado na memória. Não sabia como, mais era de lá, de tão longe viera. A sensação de tranquilidade, a aquecer-lhe o coração. Sob o véu do etanol, a rua parecia mais cordial, mais amiga. As casas pareciam sorrir-lhe, como se tivessem bocas, e enormes dentes, alvinhos a sorrir-lhe. O frevo tão convidativo. As árvores pareciam possuidoras de enormes olhos, com imensos cílios postiços. As nuvens como se maquiadas, dotadas de bochechas rosáceas. Os ouvidos de Seu Audálio pareciam, de bom grado, engolir as notas musicais que materializadas, eram pintadas de cores vivas. Eram fofas, cheiravam a hortelã, orvalhado. Brilhantes, vistosas como frutos de Melão-de-São-Caetano.

O ex-vaqueiro, veio vindo pela rua. Vestia uma calça preta que ganhara do ex-patrão. No seu corpo, agora franzino, pelas necessidades passadas, a calça de linho sobejava de tecido, precisara de um arrocho maior do cinto. O chapéu de couro, roto, amassado, o andar trôpego, deu-lhe a aparência dum “Carlitos” mambembe. Algo estranho de se ver, nosso protagonista, todo em preto e branco. E, a sua volta, efusão de cores, euforia.

Seu Audálio envolto pela alegria. Arrastado por explosiva magia reinante, esfuziante momice. Alimentada de trejeitos, fricotes, gargalhadas. Risos soltos. Afoitos arroubos nascidos de rum, vinho e outros destilados, ou fermentados, a todos endoidando. Foliões, com seus frascos claudicavam como se dançassem, ou dançavam como se claudicassem. Pelas ruas e ladeiras, iam. Por um instante, o pobre Audálio se esqueceu que tinha família, mulher e filhos. Enquanto estes, como sempre, o esperariam. Na esperança que trouxesse algo para comer, que viesse, para casa, perto do meio-dia. Mulher e filhos, a vida toda uma eterna espera. Mais uma vez esperavam. E esperariam deitados, pois em pé, cansa. Como sempre, a fome chegava, primeiro que Seu Audálio. Enquanto isso, casa era varrida, camas forradas, louças e roupas lavadas, terreiros e quintal eram limpos, sonos dormidos. Aguardariam pacientemente, até que o esteio da casa, o supridor das necessidades, chegasse. A fome que não podia esperar, esperava.  Na casa onde abundava a carência carnal, carnaval nem se atrevesse a entrar. O frevo, o batuque, o maracatu, os estrondos dos clarins, passavam pela porta, mas nem se animava entrar. Casa de pobre, se conhece de longe.

De repente, um carro enorme, um Cadilac preto, parou à porta da casa de Seu Audálio. O chofer desceu, bateu palmas. Eulália veio ver quem era, em seguida chegou sua mãe. Seu Geraldo, o chofer, trazia um recado do senhor Diocleciano seu patrão, o dono da usina de algodão, proprietário da fazenda Bom Jardim, na qual Seu Audálio, por muitos anos trabalhara. Um convite trazia, para o vaqueiro voltar a trabalhar pra ele. Dona Esmeraldina sorriu por dentro, mas conteve-se ao notar o olhar de cobiça do chofer pra sua filha, insiste mente olhava para os pequenos seios da menina, que agora tinha 14 anos. Falou pro moço que seu marido tinha saído cedo, e até àquela hora, passava de meio-dia, não havia voltado.

A tarde ia. Ia muito além da misericórdia. O sol, deu uma vacilada, e sequestrado foi, por um tufo de nuvens que desde cedo lhe empurrava para os abismos do vale das sombras. E a intenção, todos sabiam, era que a tempestade reinasse, do céu à terra. E ela reinou. A tromba d’água pegou alguns de surpresa. A torrente forte levou confetes, serpentinas, fantasias,  danificou ornamentações dos postes. O bloco “Arrastão”, arrastado ladeira a baixo. Água descia aos rolos, levando com força tudo que encontrava pela frente. Tambores, tamborins, estandartes, alegorias, alegria, cachorros, gente bêbada. Água e folia.

E veio a noite. Uma chuvinha fina, insistentemente, caía sob o calçamento, sob as ruas escuras, do subúrbio. Dava pra ouvir, muito longe, um instrumento metálico, de sopro. Desafinado, notas cortadas. Suspiros últimos, como de um sobrevivente de um naufrágio, que tentava, num último esforço, comemorar o fato de estar vivo. Aqui e acolá, reflexo de lanternas, como se procurasse algo. Alguém, perdera alguma coisa. Sabe-se lá o quê. Um relógio, os sapatos, a chave de casa, a vergonha, a vontade que tinha de brincar carnaval. Muito longe, um murmúrio. No final do quarteirão uma discussão de bêbados. A ambulância passou, lá longe, gemendo a sirene, em direção ao centro da cidade. Um gato, pulou da marquise até o muro, do muro até o contêiner de lixo, e dali, ao chão. Aproximou-se do batente da loja de ferragens. Jazia um homem ali. Vencido pelo cansaço, pelo álcool, pela fome. Palhaço sem graça, mambembe sem troça, espantalho de roça. No primeiro dia de carnaval, no chão largado, dormia. Seu Audálio.