Um Par de Oxford Preto e Branco


Na Santana do Ipanema, dos tempos que a travessia do rio se fazia à canoa, chegaria um regimento, advindo da capital do estado. Designado pelo então governador Osman Loureiro de Farias, atendendo ordens expressas do caudilho gaúcho, Getúlio Dorneles Vargas, presidia nossa nação à época. A missão da companhia, combater e expurgar de vez, o cangaço do sertão, tendo a frente o coronel Lucena Maranhão. Se estabeleceriam no pomposo quartel da polícia militar, ao largo do Monumento, defronte, a capela de Nossa Senhora Assunção. 

Por essa época viveu Antonio Francisco Rodrigues Martinho, filho do capitão Fernando Guedes Martinho e Souza, um maceioense que acabaria se tornando santanense. Seis, seria o número de filhos do capitão, todos nascidos em Santana do Ipanema. Dentre os que nasceram varão, Antonio Francisco, acabaria sendo uma exceção, dos que ingressariam no serviço militar. Antes mesmo de findar o ginasial, teria tido uma longa e séria conversa com seu pai, sobre seu futuro. Ao dizer que não tinha interesse de seguir a carreira militar, muito entristecido ficaria o capitão, que almejava futuro brilhante, também pro primogênito, na garbosa infantaria da polícia militar de Alagoas. O capitão tinha muito orgulho de pertencer ao quadro de dedicados homens que defendiam as fronteiras de seu torrão, e de combater o banditismo no estado. Grande admiração tinha, pelo nosso passado histórico, principalmente o legado deixado por dois bravos homens, Marechal Deodoro e Floriano Peixoto. O filho mais novo acabaria, se tornando, seu filho pródigo. Assim como aquele dos evangelhos, pediria ao pai os espólios antecipados, e partiria. E nada o destituiria do pensamento que tinha de ir embora pra Recife, onde continuaria os estudos. Seguiu pra capital pernambucana, pra estudar na escola de comércio, quando retornou a Santana já era homem feito. Carecendo de por a cabeça no lugar, pensar em casamento. Deixar pra trás a vida boêmia, que vivera nos bordéis da Veneza do capibaribe. Quão difícil seria, uma vez boêmio, sempre boêmio. 

Filho de família tradicional, recém formado, bem aquinhoado, e um belo mancebo. Com esses atributos, grande alvoroço nas mocinhas casadoiras, causaria o retorno de Antonio Francisco, a Santana do Ipanema. Ainda sem saber o que queria da vida. Entregar-se-ia primeiramente ao prazer de redescobrir sua terra. Os colegas, os momentos da terna infância que vivera tão intensamente. As idas ao rio Ipanema, as brincadeiras nos arredores. Muitas seriam as noitadas de farras, em louvores pela volta do venturoso Antonio. Tantas e tão efusivas comemorações pelo seu retorno, que incomodado ficaria o capitão, acostumado à sobriedade e a parcimônia. Cobraria um ponto final nos exageros daquele espalhafatoso regresso. 

Era pedir demais. O convívio na grande cidade, acabaria por lapidar na índole daquele rapaz, o gosto pelas coisas prazerosas. Paixões desenfreadas. Apurada sensibilidade, gosto pela arte de bem viver. Dotes que já possuía desde antes, ainda que meio rude. Uma particularidade, os amigos observaram em Antonio, desde que chegara jamais fora visto em trajes corriqueiros. Ainda que tivesse na intimidade do lar, nas frívolas horas de matinê, ou mesmo nas idas ao campinho de futebol. Ainda mais estranheza causaria, vê-lo, a contemplar as convidativas águas do Ipanema, que tantas vezes mergulhara. Sem se animar a livrar-se das vestes de gala, e atirar-se ao rio, como se era de esperar. Trajado em impecável terno de linho, e sapatos Oxford. Detenha-mo-nos nesse ponto, os sapatos de Antonio. Esse acessório do vestuário, era o que mais chamava a atenção nele. Como se lhes imprimisse personalidade nova. Dotando-o de caráter, imputando-lhe certa notoriedade. Descrevamos pois, o ponto crucial, para o qual convergia todos os olhares, de quem fitava Antonio por inteiro: Os sapatos eram, envernizados e pintados em duas tonalidades. Preto na biqueira e calcanheira, e branco no peito do pé onde ficam as amarraduras. Talvez lhes dessem os sapatos, o ar e a graça de um gentleman americano, quiçá de um ator italiano, ou de um cantor de bolero, ou mesmo de um sapateador. Teria Antonio aprendido a sapatear? Para os colegas não passava de um almofadinha. 

Francisco gostava de dançar, promoveu uma festa por sua conta na chácara da família, o sarau culminaria com muita bebedeira e orgias madrugada a dentro. Severa reprimenda receberia do pai por isso. Mas o tempo senhor da razão lhes cobraria responsabilidade, e lhes viria na forma de um casamento. Tomou como esposa a senhorita Francisca Leopoldina de Alcântara e Silva. Filha de rico e influente comerciante de Santana. Dono de uma loja de tecidos, e de vasta extensão de terras e de cabeças de gado bovino, dentro da freguesia sob a égide de Senhora Santana. Empregava-se no comércio de tecidos, duas formosas senhoritas Adélia e Joana. Antonio acabaria seduzindo Adélia, mantendo com ela, um secreto relacionamento amoroso. 

Muitos anos se passariam. Antonio, contando com a idade de cinquenta anos, ficaria órfão. Primeiro a mãe, doente de catarata, cega e acometida de erisipela, veio a falecer. Um ano exato do luto materno, e findou também os dias do velho capitão. Coincidências à parte, teve a maldita febre-de-santo-antonio, catarata e glaucoma, ficando cego, nos últimos anos de vida. A moléstia cutânea causava, em pessoas branca, um escurecimento da pele, nas partes mais afetadas, no caso os membros inferiores. O litígio da herança, causaria certo desentendimentos entre Antonio e os irmãos, coube-lhe por direito, entre outros bens, a chácara da família. Mantivera o romance, já não mais secreto, com Dona Adélia que já lhes dera três filhos, daria guarida a concubina na chácara. Dona Francisca resignada vivia comodamente a função de matriz, esposa de papel passado. Dando a Antonio igual número de filhos que lhes dera a filial. Contando Antonio sessenta janeiros de existência, viu suas vistas darem sinal que os próximos janeiros viveria na escuridão. Antonio ficou cego. Nas tarde quentes de verão, ficava sentado numa preguiçosa na varanda da casa. E quando chegavam seus amigos pra visitá-lo, passava tardes muitos agradáveis, fumava cachimbo e conversando sobre tempos idos. Vaidoso que continuava sendo, mantinha os mesmos trajes dos tempos de moço, os olhos, agora sem vida, encobertos com óculos escuros. Terno, gravata e os Oxford nos pés. 

Antonio conversava com os amigos, muitas histórias contadas pelos pais e avós. E se algum deles, fazia referências aos sapatos, causa de admiração pelo fino trato, dispensado a eles. Contava que o seu avô vivera no tempo da abolição da escravatura. E que um dia lhe falara, sobre um negro. Naquela época escravo não podia usar sapatos! Eram proibidos por lei de usá-los! Somente se adquirissem carta de alforria. O fato antigo trazido ali, era motivo pra gargalhadas entre eles. Contaria que determinado escravo de seu avô, após comprar a própria liberdade, a primeira coisa que providenciou foi a compra de um par de sapatos. Só que incomodaram tanto, nos pés desacostumados com o artefato, que só restou ao pobre negro, possuí-los sem poder calçar. E os ostentava com muito orgulho pendurados ao ombro. Antonio continuaria, a despeito da idade e da cegueira, frequentando a chácara onde vivia Adélia. Tateando com a bengala saia de sua casa no largo do Monumento, e ia até as margens do Ipanema. Fazia a travessia de canoa, e de carro de boi chegava à chácara. Uma vez no alpendre da casa, deitava-se a uma rede. Pedia a Adélia que lhes servisse um café, e que lhes trouxesse brasas pro seu cachimbo. A mulher atendia aos pedidos do velho Antonio, muito embora sem o auxiliar na tarefa de acender-lhe o pitador de fumo. Tentando empreender tal tarefa sozinho, acabava sempre queimando os dedos. E Adélia, ainda que presenciasse a cena, mantinha-se calada, e ria em silêncio da desgraça do homem cego. 

Um dia repicaram tristemente o sino da matriz, anunciando a morte de Antonio. Foi providenciado o funeral. Seus filhos vieram pro seu sepultamento, mesmo os que se encontravam distante vieram. O padre Cirilo teria sido chamado na noite que aconteceu a travessia derradeira de Seu Antonio Francisco, para administrar a extrema unção no enfermo. Os últimos meses de vida, Antonio viveu em cima de uma cama, não queria mais ver amigos, isolou-se do mundo, apenas Adélia cuidava dele. Sua esposa, à muito, que tinha ido pra capital, morar com uma das filhas. E um pedido de Antonio foi atendido, queria ser sepultado trajado no seu impecável terno de linho e gravata e calçado nos seus sapatos Oxford, preto e branco. 

O cemitério Santa Sofia jamais teria visto tanta gente, a acompanhar um féretro de tão importante significado por estas plagas. O túmulo da família fora previamente preparado para receber o esquife. Todas as honras e pompas que o momento exigia, foram dedicados ao velho Antonio, presentes autoridades, que discursaram com eloquência e provocando comoção entre os presentes. Caiu a tarde prenunciando a noite, e todos retornariam pro seus lares. Deixando o campo santo praticamente deserto. Não fosse a presença do coveiro. O negro, Cícero de Jerusa. O afro-descendente ali sozinho, cumpria a tarefa de calafetar com argamassa o postigo que lacrava o túmulo. De repente, foi acometido de repentina lembrança, a curiosidade que todos tinha, pelo mistério do velho Antonio manter os pés, encoberto pelos sapatos por tantos anos. 

Não pensou duas vezes, iniciou-se na tarefa de desmanchar o que já havia feito. Abriu o caixão, e ávido, pôs-se a tirar os sapatos do defunto. Boquiaberto, contemplou um par de pés totalmente pretos, desnudos, os mais pretos que um dia já vira num homem branco. Mais do que os ele próprio possuía. A vergonha da doença fizera com que Antonio escondesse a erisipela dentro do par de Oxford, por toda sua existência. E meses depois, na mais festiva noite, a de São João, no povoado Jorge, um negro desfilava feliz da vida, por entre fogueiras e estouro de rojões, era Cícero de Jerusa. Atraindo a atenção da negrada pro seus pés, calçados num reluzente par de sapatos Oxford preto e branco.

Fabio Campos             


A Maldição

A Maldição É dessas histórias, que não se costuma contar a qualquer um, a qualquer hora, impunemente. Sem correr o risco de ser tachado de mentiroso. Preciso pois, que preparemos o espírito pra contá-la. Bem como, preparado esteja o coração de quem vai escutar. Na verdade a história, de uma garota comum. Eudócia é o nome dessa menina. 

Eudócia  Nasceu no meio de uma família pobre, como é a maioria das famílias, dos roceiros de nosso sertão. Uma menina, como qualquer jovem de hoje em dia. Ajudava nos afazeres domésticos, estudava e sonhava. Nos seus sonhos, um príncipe encantado lhes aparecia, montado em seu cavalo, e a resgatava, levando-a embora daquela vida. Numa geração de treze, era a oitava. Apenas ela, do sexo feminino. Uma ruiva flor de açucena, nascida entre abrolhos e facheiros. 

A Casa de Eudócia  Ficava no sítio Mulungu, à margem da estrada que leva à Camoxinga dos Teodósio. Na altura da localidade chamada Baixio, zona rural de Santana do Ipanema. Um casebre de taipa. Ampliada tempos depois com alvenaria, ficaria ainda mais tosca. Duas caídas dágua, uma terminava em alpendre na frente. A parte detrás, mais antiga, de chão batido, se transformaria na cozinha. Ali, o massapé segurava uma coberta de palhas de coqueiro secas. Ao lado, uma frondosa craibeira. Não sei se fruto da imaginação, mas na hora do por do sol, olhar aquela rude edificação contra o crepúsculo, tinha-se a impressão que uma figura fantasmagórica pairava por sobre aquele sítio. No passado fora a morada dos avós maternos de Eudócia. Num dia muito sombrio, o velho Tomaz cedo acordou, deu de cabo dum machado. E a machadadas mataria Agripina, a esposa que ainda dormia. Em seguida enforcou-se na velha craibeira. Dona Idalina, a mãe de Eudócia, era só uma criança nesse tempo, quando se acordou, encontrou o que já havia se consumado. 

Os Pais de Eudócia  A mãe era uma mulher branca, muito gorda. Foi criada por uma tia solteirona, que fazia quitutes por encomenda. De tanto experimentar e sovar massas, Dona Idalina ganhou braços gordos, seios e ventre volumosos. Cariolano, seu marido, era primo legítimo. Casou por interesse, achando que a prima, herdaria os bens da tia. Quebrou a cara, ela nada herdou. A mãe de Eudócia ficava sôfrega, vermelha e suarenta quando tinha que realizar tarefas que exigia esforço físico, mais do que suportava. Mal dizia, a céus e terra, e a vida que levava. Se lavasse roupas, se acendesse o fogo, se alimentasse as galinhas, mordia a língua e xingava. Como xingava! Se tivesse que tirar água da cisterna, puxada à balde, blasfemava contra o céu. Todo ser a sua volta, vivo ou inanimado, era réu de culpa. Simplesmente por existir e se fazer presente em sua vida. O pai, figura deplorável, trajava camiseta de meia com mangas compridas, encardida, colada aos músculos flácidos, Uma ou duas vezes por ano, talvez mudasse as vestes que mais lhes parecia uma segunda pele. Cariolano, usava um fino bigode, tinha sobrancelhas exageradamente grossas que terminavam unidas. Quando tirava o amarrotado chapéu da cabeça, exibia um cabelo ralo e ensebado. Numa imensa testa, mais alva que o resto do rosto, curtido pelo sol. No canto da boca, de lábios fissurado, inseparável cigarro de fumo, apagado, gosmento. Uma vez, Eudócia ainda menina, ao voltar do riacho, percebeu movimento estranho no aceiro da roça. Por entre arbustos, em surdina foi averiguar e viu, o pai fazendo sexo com a jumenta pretinha, a montaria da família. Nunca contaria isso a ninguém. 

Os Irmãos de Eudócia  Tinham os nomes dos doze apóstolos. Sugestão de compadre Hercílio, o farmacêutico. Todos possuiam, algum tipo de mazela física: Estrábicos, surdos-mudos, lábios leporino, gagos, síndrome de Down. O primogênito ainda engatinhava, e já padecia de poliomielite. Só Eudócia não apresentava defeito visível. Dentre sua irmandade, tinha Felipe. Sempre pensativo, parecia preocupado com alguma coisa. Como se algo grave estivesse na iminência de acontecer. Algo que nem ele mesmo sabia o que era. Fitava os dedos das mãos como se contasse. O semblante serrado, testa franzida. Angustiado. Sempre na iminência de choro. Choro que não saía. A junta médica da previdência social julgou-o mentalmente incapaz. Era aposentado por invalidez. Olhando apenas, ninguém dizia que era. Não fosse aquele ar melancólico. Como se aguardasse a vinda do anjo que iria anunciar o fim do mundo. Gostava muito de lê. E lia a bíblia, o único livro de que dispunha em casa. Felipe, o outro, perguntou a Jesus: 

-Mestre! Quando acontecerá a consumação dos tempos? 

Todos sabem o que lhe respondeu Jesus, “nem aquele, sentado à direita do pai, na Corte Celeste, lhes é dado a conhecer.” E agora, este Felipe, irmão de Eudócia. Estava ali, a refletir a resposta que Jesus lhes havia dado, naquele dia, lá no mar da Galiléia. Não se conformava com tal resposta. Por isso o ar preocupado. Teria que ir ele mesmo, perguntar diretamente a Deus. Sabia, tinha certeza que a ele, o Pai contaria. Na certa não contara ao filho porque, era mestre. Professor costuma falar muito. Ia acabar contando sem querer, a um dos doze. Ele prometeria não contaria pra nenhum de seus doze irmãos. Não era de falar muito, ficaria fácil guardar consigo. Só assim acabava com aquela angústia. 

O Dia da Maldição  Aquele dia fora especialmente preparado para o que ia acontecer. Desde a manhã que chovia, e era chuva arredia. O vento soprava, trovões e relâmpagos riscavam num céu feio, ameaçador. Dona Idalina cedo iniciara seu rosário de lamúrias e imprecações contra os acontecimentos pluviais. São Pedro, de sua boca recebeu condenação. Eudócia não se animou a sair da cama, pra nada. Era uma sexta-feira treze, do mês de agosto. Não foi a escola. Estaria realmente na cama? Dona Idalina, ainda mais furiosa por isso, mal disse por ter tido uma filha mulher. O dia continuava seguindo seu percurso. Concluindo a primeira metade, sem que houvesse trégua do dilúvio. Serviu-se o almoço e Eudócia nada de sair da cama. Estaria morta? Veio a hora do Ângelus, e ao invés de rezar uma Ave-Maria, Dona Idalina pronunciou mais uma, desta feita, a mais horrenda das imprecações, contra a própria filha, exclamou alto: 

-Levanta-te dessa cama satanás! Antes, tivesse eu parido uma porca! 

A chama do candeeiro projetava no teto sombras dantescas. Felipe que se mantivera calado até então. Como se tivesse encarnado o profeta das margens do Jordão, a voz como de trovão, irrompeu dirigindo-se a mãe: 
- Malditos! Hipócritas! Lobos em pele de cordeiro! Vós, vos assemelhais, as raposas do deserto que saem dos seus covis, em busca de suas vítimas e as devoram, feitos loucos, as devorais com a ganância e a baba do demônio. Blasfemas pelo Demo que vos possui, e te faz agir com bestialidade! 

Dito isso, um trovão mais forte estrondou forte. E um raio rasgou o céu enchendo de clarão as trevas. O raio caiu em cheio sobre a craibeira, que prateou-se de faíscas de fogo. A um galho refletido de luz, viu-se surgido o velho Tomaz, pendurado pela corda. E todos na casa ouviram nitidamente ele clamar com voz lúgubre, vinda das profundezas da terra: 

-Vem Eudócia! Tua mãe quer que nos acompanhe! 

Nesse instante, Eudócia que permanecia inerte, sobre os lençóis, sumiu por entre as cobertas. E um vulto escuro na penumbra do quarto, saltou pela janela. Outros raios se sucederam, e alumiaram uma imensa e negra porca, molhada pela chuva, no meio do terreiro. Os grunhidos, característicos do paquiderme passou-se a ouvir. Cada vez com menos intensidade, porque ia se afastando. até desaparecer na escuridão da noite.


Fabio Campos

Páscoa!


Quaresma, as pessoas ficam mais religiosas por essa época. Fazem-se mais penitências, pagam-se promessas. Pensa-se mais em Deus. A igreja Matriz de Senhora Santana fica, com suas portas abertas praticamente o dia inteiro. Os sertanejos, santanenses, têm a oportunidade de recolher-se naquele lugar sagrado, envolvente, místico. E ter um diálogo com o Altíssimo, pois Igrejas são aqui na terra, janelas abertas pra o céu. Canais de sintonia com Deus. Uma fresta de luz para o alto. Do alto da torre da Igreja Matriz de Senhora Santana, século e meio contempla essa paisagem deslumbrante que se descortina a sua frente. 
A Matriz é uma construção imponente. Inspirada nas grandes catedrais bizantinas do século XI e XII. Em estilo gótico. Aspiração a uma representação material da Jerusalém Celeste. A luz dos vitrais no seu interior, oportuniza ao homem admirar um esboço da glória de Deus, ainda aqui na terra, e ter consciência da sua condição de mortal. As paredes do interior da nave vão libertar-se da mera função de apoio, vão se expandir em altura, permitindo a ideia de amplitude, tornando o espaço gracioso e de uma      leveza extraordinária.

Quinta-feira Santa


Logo mais a noite, tudo far-se-ia luz. Repicava o sino. Suspenso no ar, tilintava o turíbulo, nas mãos do coroinha, lançando perfume de incenso no ar. A última ceia de Cristo era revivida na missa do quinto dia maior. Enquanto o padre seguia o rito de banhar os pés dos doze mancebos, cânticos os envolvia. Maria das Graças, sentada na terceira fileira, tão distante do ato litúrgico. Seu pensamento vagando levava-a a Belém. Via sua mãe Clotildes agonizando, semi-inconsciente. Morria, consumida por um câncer de mama, na fase terminal. Tudo que havia de se fazer, tinha sido feito, agora era só esperar a última hora. Os olhos serrados no frio e alvo leito do hospital. Seu pensamento voou ainda mais. Vinte e tantos anos antes. Ela ainda criança, o pai Dilermano, todos os dias, brigas e mais brigas com sua mãe. Chegava a casa bêbado, quebrando tudo que ia encontrando pela frente. Chorava indefesa, angustiada.



A agonia de Jesus no Jardim do Getsemâni. Dali iria entregar-se a cruz. O suor, o sangue, o pedido pra Deus afastar o cálice amargo. Mas que a vontade do pai, prevalecesse sobre a sua. Maria das Graças era só uma criança. Nada entendia. O porquê de seu jardim destruído. Sua mãe tendo que sair às pressas de casa. Levando apenas ela, e alguns pertences. Entraram num ônibus, viajaram muito. Recordava-se que acabou dormindo de tão cansada e com fome. Adormeceu nos braços de sua mãe. Acordou num lugar estranho, demorou a acostumar-se com o ambiente. Tinha medo. Era um quarto de hotel. Sujo e apertado, tinha só uma cama de solteiro, um criado-mudo. Reconheceu os pertences da mãe. Ela a havia largado ali? Onde estaria sua mãe? Desceu da cama. Foi até a porta, estava encostada. Abriu-a. Havia um corredor, ouviu pessoas conversando. Caminhando descalça, chegou a uma espécie de bar. A mãe estava a uma mesa, conversava com um homem. Não era seu pai. Ambos bebiam cerveja, Clotildes fumava. Chegou sem ser percebida. Puxando-a pela blusa, falou: 


-Mãe! Estou com fome... 

Foi parar no colo do estranho. Ganhou afagos, e uma refeição que só lhe ocorrera consumir, em ocasiões especiais, refrigerante e biscoitos. Noutro dia, seu pai chegou naquela pensão. Nova briga entre eles, e Dilermano a resgataria. Levou-a até a casa de vó Guilhermina, contou tudo o que estava acontecendo, e terminou lhe fazendo um pedido:

-Mamãe, a senhora pode ficar com Maria das Graças...é só por uns dias! Até que eu resolva minha situação.

Dias depois, Dilermano foi embora pro Rio. Clotildes, de lá mesmo, na pensão do interior de Pernambuco onde se encontrava, foi embora pra Belém, sua terra natal. Vinte e sete anos havia se passado. Clotilde nunca mais voltaria a Santana do Ipanema. Nem mais veria Maria das Graças. Algumas poucas vezes, enviaria alguns presentes, por ocasião de seu aniversário. Quando completou doze anos, vó Guilhermina, faria uma viagem ao Rio, pra rever seus primos. Levou Maria das Graças, que reviu o pai. Conheceria novos irmãos, pelo lado paterno. Convidada foi pra ficar, mas não quis. Era muito criança, pra decidir-se sozinha. Ademais os laços afetivos da avó-mãe Guilhermina falaram mais alto, voltaria pra Santana. Naquela quinta-feira a notícia que chegava de Belém, sua mãe estava nos últimos instantes de vida, morria em sua agonia. E Maria das Graças viveu o seu caminho da dor. Viveria assim o seu martírio.

Subúrbio do Rio. Era uma outra Quinta-feira, não tão Santa.


O mancebo escreveu uma carta. Nela dizia tudo o que ia fazer. Entrar na escola que um dia estudara e matar. Mataria doze! Simbolicamente, os doze discípulos, os doze alunos do mestre Cristo, também os que um dia, riram dele. Todos que não acreditavam no que ele dizia. Deus que o perdoasse pelo que ia fazer! Dizia na carta. Exatamente as oito e trinta horas da manhã seria a hora fatal, pois a soma dos números, daria igual a onze. Do dia sete de abril, outra vez onze. Como também o ano, tudo pra aludir ao onze de setembro fatídico em solo ianque. Entraria pelo portão principal, levando uma mochila. Quem ia desconfiar de um ex-aluno entrando numa escola, com uma mochila? Convenceu o porteiro, dizendo que ia pegar o histórico escolar. A câmara do circuito interno registrou, o momento exato que ele, de arma em punho, cruzou os corredores. E entrou em uma sala de aula. Ali atirou em oito crianças. Novamente municiou a arma no corredor e entrou na sala oposta, novos disparos e mais crianças mortas. Doze, o saldo de vítimas. Doze mais um! Jesus e seus doze, todos martirizados. Todos tiveram suas vidas tiradas. Deus os receba em sua glória. Nos degraus do corredor, tombaria pelo fuzil do soldado, o anjo mensageiro da morte. Se a câmara não tirasse de foco, daria pra ler o cartaz pregado à cima de sua cabeça: Feliz Páscoa! Um coelho dentuço segurava um ovo colorido. Corredores, lugar de passagem. Lugar de Páscoa.


Fabio Campos

Sanctus Dies Santus


Maximiliano, treze anos tinha. Menino com nome de gente grande. Morava no conjunto habitacional Alto da Boa Vista. Nome bonito, vista bonita. Apelido feio: Favela da tripa. Da sua casa via-se o belo santuário de Nossa Senhora de Guadalupe, o arrojado prédio do Fórum da Justiça Desembargador Hélio Cabral de Vasconcelos. 
Antes, vivera na rua da praia. Sua mãe, ele e mais seis irmãos, numa casinha de taipa. Até que veio a última grande cheia do rio Ipanema, e tiveram que ir praquele cortiço, ao lado da Universidade Estadual. A casa ali era melhor, mesmo assim tinha saudade da antiga morada. Era domingo de ramos, ia o cortejo pelas ruas de Santana do Ipanema. Com folhas de palmeira e galhos de tantas outras plantas, ia o povo, acenando hosanas, perfumo de incenso no passeio. Ramos também na favela, diamba passando de mão em mão, fumo fluindo, aroma da Canabis sativa.

No outro dia, Maximiliano decidiu, não iria à escola Padre Francisco Correia. A professora de religião pedira, pra cada um, comprar, alguns enfeites pra páscoa da escola. Nada havia comprado, não tinha dinheiro. Foi até a banca de Cds e Dvds de seu primo, em frente à matriz de Senhora Santana. Pediu a Tiago, algumas mídias pra vender aos colegas, ganharia comissão. Pedro um de seus amigos compraria, só pra ajudá-lo. O filho do dono de um dos barracos à cabeça da ponte, Recanto da Amizade, era apreciador daquele tipo de diversão. Gostava dos jogos videogames e filmes de Sexo Explícito. Venda garantida. Nas primeiras horas da tarde, Tiago e o primo, desmontaram a banca, desceram pela rua professor Enéas, guardariam os pertences, e de lá tomariam outro destino. Iriam a um lugar chamado de “escondidinho”, lá pra bandas dos curtumes, na beira do Ipanema, próximo a Maniçoba. O que iam fazer: Ouvir músicas, tomar banho nos poços formados no leito do rio, fumar pedras de crack. 

Rio Ipanema de cenário deslumbrante. Ainda que fosse verão. Pequenas nesgas de água, poços aqui e acolá. Espelhos dágua, resplandeciam um magnífico azul. Nuvens alvíssimas, num céu parnasiano cobalto! Bailar de cisnes, ora na água, ora no ar. A imponente colina da microondas ao fundo. Distante o balir de ovelhas. A brisa assobiando, cantava música de fina areia esvoaçando no ar. Tudo ali remetia à distante Jordânia. Não seria aquele o místico e sagrado Monte horebe? Não seriam àquelas águas, reflexos do lago Tiberíades? Maximiliano e Tiago deitados na relva, próximo ao areal, entregues aos sonhos e delírios. Lembravam-se de Verônica, a menina mais desejada de sua sala. Ia pra escola, vestida numa sumaríssima saia. Bastava sentar e aquelas pernas, maliciosamente, prendia a atenção deles. Deixada propositadamente à vista daqueles olhos cobiçosos, uma nesga da gruta do amor, contida na lingerie. A fatia triangular de calcinha creme à mostra. Sob a luz ambiente tornava-se turva, deixando transparecer a nuança dos primeiros pêlos púbicos que recobria como relva, seu sexo pungente. Os meninos vagavam em fantasias com aquela visão. Verônica era irmã de Joãozinho, um menino que tinha fama de afeminado. Tiago fez de tudo pra ficar com ele. Numa daquelas idas ao Ipanema João faria amor com eles, depois de uns tragos num cigarro de maconha, soltou a língua. Disse que beijava sua irmã na boca. Disse que apesar dos dois ficarem muito excitados, fazia aquilo, só pra treinar beijos. Ver quem beijava melhor. Não havia desejo sexual entre os dois. Ela sabia que o irmão gostava de homens. Disse que costumavam assistir a filmes pornôs juntos. Pedro perguntou-lhes, se ela toparia fazer sexo a três, como nas cenas mostradas nos Dvds eróticos que assistiam. Ele respondeu que nunca havia perguntado isso a ela. 

Lembrar-se-iam de uma festa que foram na casa do amigo Manoel, próximo dali, na beira do Panema. Num lugar mais abaixo do “Escondidinho”, após o Bebedouro. Voltariam de tardinha, completamente bêbados. Maximiliano entraria numa roça e atearia fogo num milharal seco. O fogo tomou proporções incontroláveis. Atingiu alguns casebres, e ameaçou incendiar a Escola Municipal Senhora Santana. Magnífico! Que fogaréu. Foi sua maior façanha até então. Precisava se superar. Cometer um crime de maior proporção, seria legal. Talvez assaltar garotas quando voltavam da escola, ou arrombar um mercadinho na calada da noite. Motivo pra isso tinha: Impressionar Verônica! Ela um dia deixara escapar que era fã do traficante carioca Beira-Mar. Diria que quando fosse a Maceió iria fazer uma tatuagem no braço, com as iniciais do comando vermelho. Pronto! Ele já tinha um esboço do plano. Também tinha, muito, muito tempo pra planejar. Bem sabia, quando chegasse a hora, ia precisar estar como estava naquele momento. Anestesiado. Como se em outro mundo. Um mundo surreal, de visões fantasmagóricas, de sons inaudíveis. Onde tudo parecia flutuar. Do jeito que estava naquele momento, uma coisa tinha de sobra: Coragem. 

A noite se avizinhava. O sol, cansado da lida diária, ia se deitando devagar, proporcionando um espetáculo de cores, forjadas por Deus. Reclinado sobre o batente da porta de casa, Maximiliano dormiu. Sonhou um sonho em que beijava Verônica. Quando acordou já era noite. Em casa, apesar de rodeado de tantos, sentiu-se sozinho. 

Maximiliano estava lívido, Visível era, o quanto estava perturbado. Dona Denise, sua professora de religião, ali na sua casa. Uma certeza, aquela visita inesperada, tinha a ver com suas faltas às aulas. Sua mãe ofereceu uma cadeira pra ela sentar. Logo ficaria rodeada de crianças. Umas da casa, outras da vizinhança. Distribuiu entre eles, doces e chocolates. Era domingo de páscoa. Chamou Maximiliano pra conversar na frente de casa, gostara da bela vista proporcionada dali, fazia jus ao nome do Conjunto. Os carros passando na pista, ao longe. Ainda ele não recuperara a fala. Mesmo porque nada tinha a dizer. Era todo ouvidos. 

-Então Maximiliano, por que faltou esses dias a escola?... 

-Não tive como comprar os bombons que a senhora pediu. 

-Mas eu disse que não era obrigatório, só era pra levar se pudesse... Ficou com vergonha por não poder?... 
-Foi. 
-Na quarta-feira foi muito bom. Falamos sobre o significado da páscoa. A maioria pensava que é uma festa só pra consumir chocolate.

-E não é professora? 

-Claro que não. Ovos de chocolate é invenção do comércio pra vender. O começo dessa celebração, está na Bíblia, no velho testamento, livro de Êxodo. Vem de muito tempo esta história. Você Maximiliano, é um dos filhos de Deus! Isso foi sacramentado quando seus pais resolveram lhe batizar. Você era muito pequeno, nem se lembra de ter assumido esse compromisso. Mas foi pelo batismo que você se tornou um cristão. A páscoa é uma festa que celebra a libertação dos primeiros cristãos, que estiveram presos, cativos do Faraó, no Egito. Moisés e Abraão foram os responsáveis pela libertação do povo de Deus. Daquela época vem a festa da páscoa. Comia-se, pães sem fermento, com ervas amargas, e carne de carneiro sem sal. E em pé! Nem podia sentar-se, pode? Nós passamos o filme na escola, pena que você não foi. Perdeu, mas posso emprestar-lhe. Muito tempo depois de tudo isso, Jesus Cristo veio ao mundo, pregou o reino de Deus, mas os fariseus os condenaram a morte. Sabendo antes, de tudo o que ia lhe acontecer, Jesus quis celebrar uma nova páscoa. E na última ceia com os doze apóstolos, disse: “Já não precisamos mais matar um carneiro. Eu sou o cordeiro descido do céu.” E deu-se em forma de pão e vinho aos doze, pois sabia que ia morrer crucificado. Jesus morreu numa cruz por nós, por mim e por você Maximiliano! Viu como você acabou perdendo aulas muito importantes? Por isso fiz questão de vir dá-las hoje a você. Em sua casa... 

-Professora, depois que a senhora contou tudo isso, estou ainda mais envergonhado. Tive pensamentos muito ruins por estes dias. Quando acontece festa como essa da páscoa, que a gente não tem como comprar ovos de chocolate, pras pessoas que a gente gosta muito, nem bacalhau e coco pros de nossa casa fazerem um almoço legal, fico ainda mais revoltado. Vontade de fazer besteira! A gente tem raiva, se revolta. Se acha a pior pessoa do mundo, e pensa em fazer coisas ruins. Já odiei tanto meu pai, por ter deixado, eu, meus irmãos e minha mãe sozinhos. 

-Maximiliano! A história que contei sobre Jesus. Pense, como ele também ficou sozinho. Como se sentiu abandonado, Jesus também sofreu tanto, e era tão pobre! Mas tinha uma missão a cumprir, e foi até o fim. A tristeza, às vezes virá em nossa vida, isso é perfeitamente comum. Jesus também se entristecia, porém nunca ficou revoltado. Quando a revolta lhes vier: Lembre-se dele, olhe pra esse céu que nos cobre agora! Saiba que ele está lhe olhando, lá de cima. E se preocupa com você, com cada um de nós. Já é quase noite, preciso ir. Amanhã lhe aguardo na escola. Pra você, e sua família desejo uma Feliz Páscoa!


Fabio Campos