O Crime de Tagor Fashall (1ª Parte)

 Na rua que um dia existiu, meninos brincavam. Corriam em suas bicicletas. Na praça brincavam, e pressa não tinha. O céu de nuvens chuvosas, dizendo cinza, e vinham. O que do alto estava prometido pra vir, decerto viria. E, os sonhos todos dos homens. Muitos deles, jamais se concretizariam. Debaixo do calçamento das ruas, nos recônditos dos becos escuros. Alegrias que um dia alguém sonhou, se escondiam. Brincadeiras de crianças, que bem fundo o mundo sepultou. Muito abaixo dos paralelepípedos jaziam. Lá aonde as cigarras dormiam seus sonos letárgicos, a esperarem a outra estação, e só então cantariam. 

A Taberna ficava de esquina. Pelo menos dois séculos de distância separava a aldeia, dos meninos das bicicletas. O balcão de madeira escura. Com o tempo daquele jeito, ainda mais escura se fazia. A faca e o queijo branco no prato. Uma taça de vinho tinto, não deixava dúvida, tudo estava lá. O candelabro pendido do teto. Um par de olhos verdes conseguia sentir aquele cheiro. O estampido da rolha ao ser tirada do gargalo tinha solene importância. Pulmões inalando, cérebro incendiando, com a chegada do líquido de cor púrpura ao estômago. Na primeira porta que dá pra rua, o homem com vestes de alguém que viera das arábias, se havia. Um turbante escondia a cabeleira, valorizando ainda mais o vasto bigode. Uma adaga na faixa de pano da cintura. Tagor Fashall tinha um cavalo chamado Pompadour. Havia deixado com um cuidador, no estaleiro do cais do porto. Olhava fixo. Fosse o que fosse, olhava fixo. Aquele era olhar, de quem procurava. A aldeia de Étole Chavalier amanhecera com um habitante vivo, a menos. O pai de Émile Passion o ferreiro da aldeia, tinha sido morto. Uma semana antes Morion Lucindo recebera a visita de seu sobrinho Rafael Bertrand, que teria ido buscar um elmo, a muito encomendado. Conversaram sobre uma herança de família.  O jovem com o tio confabulou sobre os papéis de um lote de terras pertencente a seus pais já falecidos. Porem não teve resposta a contento. O tio apenas lhe contou uma história, na verdade, uma fábula. O rapaz teria ido embora, e no outro dia o ferreiro estava morto. A presença de Tagor na aldeia por ser estrangeiro, levantou suspeita. Ainda mais era provável que tivesse estado na estribaria de Morion Lucindo.


A fábula que o velho ferrageiro contou foi esta: “Meu querido sobrinho, de longe tenho acompanhado a vida que tu tens levado desde nascido até agora. Muito triste fiquei ao saber que ao adquirir a juventude abandonastes a vida do campo, em que vivia com seus pais, e teus outros dois irmãos. Fostes habitar um principado onde o luxo, as posses e a riqueza acima dos valores morais sempre foram colocados. Ali nunca o valor que um homem realmente tem, nunca se dera. Ainda mais se somente virtudes tivesse por posse. O que tenho a dizer-te sobre as terras pertencentes a teu pai, é o que um nômade árabe certo dia contou-me bem aqui sentado nesse banco, disse-me: Um velho lavrador tinha três filhos. Após ficar gravemente enfermo e sentindo que iria morrer, chamou os dois filhos que nunca o abandonara a cabeceira de sua cama, assim lhes falou: -Meus queridos filhos, sinto a morte rondando os meus dias. Teu irmão vaidoso que um dia partiu, nunca voltou. Jamais mandou notícia alguma, nem sei do seu paradeiro. Quero dizer que toda fortuna que possuo e que deixarei por herança a ser repartida em parte iguais, são estas terras, que herdei dos meus pais, e que, espero continuem a cultivá-las. Quando vocês eram pequenos, de muito longe, veio a mim, um mago que atendia pelo nome de Tagor Fashall disse-me que com essas terras teve um sonho. No seu sonho via,  a dois pés de profundidade, em algum lugar que não soube determinar onde, havia um tesouro enterrado. Desde então pus-me a procurar. Não tive a sorte de encontrá-lo, porem espero que vocês continuem cultivando-as, porque o tesouro é encantado. E poderá surgir num lugar onde eu mesmo já devo até ter cavado, sem lograr êxito.” 

Tagor Fashall queria muito entender porque o fato de olhar pra aquela senhora da sombrinha causava-lhe certa comoção. Talvez  muito lhe trouxesse, fortes recordações. Sentia que isso lhes vinha. Aquela mulher de vestido longo, passeando na praça. Um penteado suntuoso que lembrava Pompadur. Debaixo duma sobrinha branca de belos bordados, tão graciosa. Enquanto ia o calendário, andando pelo menos dois séculos para trás. E aquela tarde que até então parecia desarmada de graça, vindo a moça da sombrinha, mudou tudo. Três meninos iam andando de bicicleta. Joana Antonieta nascera menina pobre, num bairro afastado da cidade, perto da igreja de Santo Eustáquio. Vivia-se uma das maiores crise de recessão, os governos indo a banca rota. Quebrados não viam outra saída a não ser aumentarem os impostos. Os campos rurais enfrentavam uma de suas maiores crises climáticas, e com isso o desabastecimento. Senhora Luiza Madalena, mãe de Antonieta viuvara. Pra não morrer de fome, fugira do campo, indo viver de bicos na periferia da cidade. A língua da rua falava de sua modesta casa, virada em casa de prostituição. Muitos homens, alguns influentes, outros nem tanto, estariam ligados ao seu nome. O estilo de vida da madame não condizia com a presença duma criança carecendo de ser criada e educada nos princípios da fé cristã. E Joana Antonieta foi mandada para um ambiente mais saudável. Foi enviada para um Internato das Irmãs Ursulinas, a pouco mais de seis quilômetros da capital, tida e conhecida como “Terra das Águas”. 


A menina por toda sua infância permaneceu lá. Devido a doenças a que tivera na primeira infância. Por nunca ser amamentada, sua saúde inspirava cuidados. Quando completou quinze anos teve uma pneumonia que quase lhe tirou a vida. Passou seis semanas de cama. Quando se recuperou, por direito, foi visitar sua mãe. Surpreendida ao ver em que havia se transformado sua pequena Antonieta. Uma moça de muito encanto, de beleza incomum, comparada as moças de sua época. O olhar sagaz, de quem entendia a vida, de quem já sofrera. Alguém de coragem, e ambição. De não se deixar abater com qualquer derrota, e inteligente o suficiente pra não se deixar enganar facilmente. Alguém que entendia e encarava o mundo como algo imprevisível, e perigoso. 


Três meninos de bonés bufante, em sóbrias bicicletas negras, pedalavam na praça. Sobre selins de couro, suplantados em molas. Enormes guidões niquelados, abruptamente arqueados, pneumáticos de aros enormes. Tagor Fashall noutra dimensão buscava uma propriedade pertencente a seu tio, na verdade, uma ilha. Estivera na vila para adquirir mantimento, conversar com pessoas, quem sabe fazer amizades. Joane Antonieta sentia sobre si o olhar daquele homem, e indo graciosamente ia. O intendente deu ordem a um guarda que levou intimação para que o árabe imediatamente comparecesse à cadeia pública. Depois de interrogatório acabou preso, acusado de suspeito de matar o ferreiro. Fashall até entendia que o fato de ser estrangeiro, ainda que só estivesse estado na estrebaria do ferreiro num remoto passado, colocava-o na condição de suspeito. Não achava justo, no entanto, ser acusado de matar um homem a quem jamais vira no dia do assassinato, além do que, motivo algum teria para cometer tal crime. Acontece que Rafael Bertrand teve a ideia dum álibi perfeito, ao perceber o quanto o forasteiro tinha de semelhança física com ele, algumas pessoas viram quando entrou na estrebaria. Horas depois, o ferreiro fora encontrado morto. Émile Passion a filha do ferreiro foi chamada para depor, e no seu depoimento confirmou que seu pai tinha, no dia do sinistro, recebido a visita de um rapaz com as características daquele homem. Tudo estava levando para a incriminação do árabe.



Eis que chegou o dia de seu julgamento. Em praça pública ocorriam julgamentos, e em caso de condenação, execução na mesma hora, por enforcamento. Nesse dia compareceram o juiz da comarca, o sacerdote, e o intendente. O algoz com sua carapuça. E os meninos brincavam alheios aquele acontecimento, mesmo porque nem estavam àquela época. Joane Antonieta pediu a palavra. Inquiriu ao juiz se ele olhando para a praça conseguia ver três meninos de vestes engraçadas, andando em suas geringonças de ferro. Como resposta ouviu uma negativa. Acontece que Antonieta sabia que o juiz, assim como todo o público ali presente, estavam todos tendo uma visão. O magistrado mantinha um caso, com a mulher do intendente. Os meninos mesmos certa vez, viram quando o juiz entrara pela janela do jardim na calada da noite. Sua sacada era guarnecida por um parreiral. E Joane questionou ao magistrado: -Àqueles meninos a quem o meritíssimo doutor juiz de Direito, diz não estar enxergando. Podem eles serem acusados de roubar uvas do parreiral do jardim do intendente? Se alguém não tiver visto tal crime ser cometido?  Todos os presentes ficaram admirados do que viam e ouviam. O juiz entendeu que acabava de cair numa cilada. E não viu alternativa outra a não ser inocentar Tagor Fashall.

Fabio Campos 26 de maio de 2015 (Continua, na próxima semana...)

Fênix Telúricas



Três meninas se haviam na praça da igrejinha. Amanda, Jéssica e Veridiana.  A um só tempo falavam, falas de meninas tenras. Do alto dos poucos mais de dois lustros de vida confabulavam. De como umas as outras, achavam que estavam ficando, feias, deformadas. E que logo, logo, de tanto caírem-lhes os cabelos ficariam carecas. Do ódio às espinhas, que mesmo sem terem sido chamadas se lhes vinham. Dos esmaltes da mamãe que roídos descascavam. Do devotado amor ao chocolate. E de meninos chatos que só queriam saber de futebol. Tudo que emitisse algum reflexo, às suas voltas, acabava de algum modo virando espelho. E o que mais entendiam era que todas as coisas do mundo deviam render graças as suas existências. 

"Eu fui no Itororó
Beber água e não achei
Achei bela morena que no Itororó deixei"

Amanda tinha medo de borboletas. Melhor dizendo, verdadeira fobia a todo e qualquer inseto alado. Outro dia, quer dizer, outra noite, em que faltou energia elétrica, quase provocou um incêndio em casa. Atraída pela luz duma vela, uma bela duma mariposa, Betularia Negra enfiou-se quarto à dentro. Foi um deus-nos-acuda. Ficou tudo revirado, lençol e colchão chamuscado, e o cheiro de pano queimado permaneceu por um bom tempo. Tinha mania de colecionar coisas, chaveiros, grampos de cabelo, fitinhas de pulso. No último aniversário ganhara um par de pantufas que imitava o rosto duma tartaruga, o que já rendera bela discussão com Jéssica que teimava que era o rosto dum sapo. Num diário escrevia coisas, que a ninguém mais além dela própria era capaz de revelar. De como queria que seu quarto tivesse uma janela enorme, que desse pra ver a rua. E quando viesse o inverno pudesse ver as nuvens despencando do céu. E como queria correr na chuva, só de calcinha. De como às vezes desejaria ser um daqueles meninos pobres, que ficavam o dia todo na rua, e quando chovia como naquele maio, ficavam brincando na sarjeta. Acompanhando a fantástica viajem de seus barquinhos de papel, vencendo o aguaceiro até a boca de lobo no fim da ladeira. E doidos desembocavam no rio, dando adeus a seus donos. Pra debaixo das bicas corriam, a receberem o forte jato que lhes feriam a cabeça, quase a despi-los dos seus trapos. Ficava pensando quem cuidaria deles depois dali. Quem lhes enxugariam os corpinhos magros. Quem lhes envolveriam em lençóis, e lhes serviriam biscoito e uma xícara de leite quentinho. E já bastante fatigados numa cama conciliariam o sono e sonhariam sonhos onde podiam voar sobre um mar bonito. Rumo ao horizonte, voariam a encontrar Peter Pan, na terra do nunca. Suas mães a beira do fogo de certo cantariam cantigas antigas, que falava de bois da cara preta, de pavão em cima do telhado, de ir à Espanha. Enquanto o bule fumegante deitaria um líquido aromático, numa xícara branquinha de dar dó.  

“Fui à Espanha buscar meu Chapéu
Azul e branco da cor daquele Céu
Olha palma, palma, palma. Olha pé, pé, pé
Olha roda, roda, roda caranguejo Peixe é.”  

Ana Jéssica gostava mesmo de ouvir música de rock’n roll. De ouvir coisas do passado, de fotos antigas. Influência do pai, que era fã dos Beatles, tinha uma guitarra e uma réplica duma Halley Davison. Nos finais de semana, ia a encontros de motoqueiros muito, muito longe, e nunca a levava. Sempre deixada na chácara do tio Armando, ou no sítio de vô Rosalvo e vó Isabel. Preferia a guarda dos avós, ali os abusos eram mais tolerados. Sempre voltava de lá com uma  relíquia, tirada dum velho baú de maçaranduba, enlaçado por dois cintos de couro curtido e ensebado. Da última vez ganhou um broche dourado pertencente ao seu bisavô, condecorado por ocasião do cesquicentenário da independência em Brasília. Trazia as efígies, dum lado Bento Gonçalves do outro Anita Garibaldi. Com muito orgulho exibiria entre os colegas da escola, a honra ao mérito do pai de seu avô coronel Idelbrando Costa Rêgo que havia lutado na revolução Farroupilha. De tardinha dava sempre um jeito de assaltar a dispensa, com direito a rapadura batida, mel de mandaçaia, frutas cristalizadas. E tinham os passeios a cavalo quase sempre sem hora pra acabar. Dentre as três meninas, era ela a que mais se preocupava com a aparência. Ainda mais por ser rechonchuda. Brigava com a balança, com os meninos que lhe apelidavam, e com as roupas que iam cada vez mais ficando apertadas. Esse incômodo compensava sendo ainda mais extravagante. Caprichava na maquiagem, no uso de bolsas, colares, pulseiras, cílios postiços e penteados estrambólicos. Gostava do jeito escrachado de Elis Regina. Outro dia, ao sair da escola se inventou de passear na garupa da lambreta de seu primo Plínio, em plena rua acabaram caindo os dois. O que lhes renderia um braço quebrado uma perna luxada. Duas semanas encima duma cama, sem sair de casa. Vieram visitá-la os primos, tias, e a turma da escola. Todos assinariam os nomes no cano de gesso.

“Passarás passarás um delas a de ficar
Se não for a da frente a de ser a de detrás
De detrás de detrás
Tenho dois filhos pequeninos
Não posso mais demorar, demorar, demorar”

Veridiana queria ser guerrilheira das tropas Somozista na Nicarágua. Um dia ainda conheceria aquele mundo mostrado na revista National Geographic. Desbravaria sertões, florestas. Escalaria montanhas, encontraria uma cachoeira, ou quem sabe uma caverna, nunca dantes visitada pela civilização, a qual daria seu nome. Apaixonada por tudo que lembrava natureza. A irmã mais velha Suzy Morgana sua fonte de inspiração era bióloga. Imitava-a nos modos de vestir e pentear-se. Até nos trejeitos das mãos, da entonação da voz. Vez outra levava uns sopapos, por pegar, sem autorização, coisas emprestado, sutiãs, batons, perfumes, aos quais jamais devolvia. Pela fresta da fechadura da porta, contígua a sala de estar, gostava de espionar o namoro da irmã. No espelho do toucador borrava todo de baton a ensaiar beijos que um dia daria no namorado que um dia teria. Várias vezes viu os namorados trocando carícias viu quando fumavam escondido, e abanavam a fumaça pra rua. Enchiam a boca de chicletes se percebiam que vinha alguém. As guimbas enfiavam na caqueira de samambaias e avencas. Veridiana guardaria ainda um trunfo que usaria para chantagear a irmã, ao vê-la livrar-se dum monte de comprimidos anticoncepcional, enterrando-os no estrume dum pé de Crote. Dias depois sua mãe, elogiava de como vistosa e revigorada estava a planta.

“Minha gatinha parda
Com certeza que sumiu
Onde está minha gatinha
Você, sabe? Você sabe? Você viu?”
  
Três meninas, sentadas nas poltronas de veludo azul, do salão paroquial. Encostadas umas nas outras cochilavam. A noite, haviam passado em claro. No velório do vô Rosalvo. Porque tivera que morrer justo na semana dos ensaios das apresentações, pelo dia das mães na escola. Amanda e Veridiana viram Jéssica chorando voltar do banheiro. Buscou o colo da mãe. Pensaram que era ainda comoção pelo avô, na verdade naquela manhã, foi pro banheiro menina e voltou moça. As mãos alvas de sua mãe seguravam um buquê de flores, os dedos longos as unhas pareciam pétalas afagaram o cabelo da menina-moça. Arqueou a boca que dali a pouco beijaria o rosto gélido do pai. Boca com gosto de café requentado. Boca de toda manhãzinha mastigar pão de queijo, antes de levar Jéssica a escola. Boca de gritar que meio dia não era hora de tomar sorvete, pois não teria fome pro almoço. Boca de rezar Aves-Marias apressadas para a filha e pras amigas da sua filha. Nunca conseguindo terminar, vindo morrer as últimas palavras nos lábios, quando já estava deitada. Antes de dormir Veridiana olhava fixo pra bailarina de porcelana sobre o criado mudo, sob a luz do abajur. Jéssica abraçada a seu gatinho de pelúcia se sentia tão mais protegida. Amanda deitada, ainda de olhos aberto, olhava através de sua imensa janela imaginária, e via um céu de maio. Repleto de nuvens carregadas, dali a pouco ia chover. E no meio da praça três meninos, andando de bicicleta.

Fabio Campos 18 de maio de 2015   

O Roxinol e a Cotovia



Três pés de coqueiros lá longe. Meio caminho andado do horizonte. Um cachorro beirando a estrada, vindo. Um cavalo comendo capim, tão próximo, dava pra ouvir a respiração. “-Vô, cavalo é menino ou menina?” “-Este de cá é menino. Aquele é menina.” Um homem de chapéu de palha uma corda na mão. Alto, esguio, de tudo se apossou, da estrada, da história, do cavalo que comia. 


No alto do morro um castelo todo branco, abrigava sonhos. A entrada ficava do outro lado. De cá dava somente pra ver as janelinhas, que olhavam. Um caminho velho de terra, tão antiga, chegava chorar de tristeza. Outro homem triste de longa barba e olhos de por medo. A muito tempo vinha, e ia. Já perdera a conta das vezes que vinha e ia. Uma vida inteira indo e vindo. Uma morte inteira, indo e vindo. Onde estaria Justino? Também um dia tornara-se dono daquela estrada, sendo parte da história daquele bairro afastado. Ninguém mais entre os viventes sabia disso. Muito tempo se passara. Meu Deus, e Firmino? Onde estaria? Os novos moradores jamais buscaram conhecer o que havia ocorrido, no passado. Sabiam apenas que Firmino era pai de Maria de Lourdes, que tinha vitiligo. Era mãe de André, Andreia e Melissa que não tinham a doença. Noutro dia dois moleques acuaram Firmino no ermo da estrada, e roubaram-lhe os pertences, uma velha carteira de couro, um canivete do cabo de madrepérola, de tanta estima. Carteira e documentos, jogados à beira da estrada. Noutro dia a neta Andreia encontraria. O canivete nunca mais. Tinha ido ao banco sacar o dinheiro mensal da aposentadoria. Venceram-se as contas de água e luz. Nada pode dar no mercado. 

Meu Deus que mês difícil de varar!  Na rua dos homens, viera um que estava embriagado. Era sábado e vinha da feira, nada nas mãos. Ficou parado no meio da rua. Feito estátua balançando, preste a desabar, gesticulava. Ao vento dizia. Conversava, a um interlocutor invisível, inexistente para quem apreciava. Na verdade um velho amigo. O vigilante noturno em plena tarde apareceu, na porta da casa do irmão. Chegou numa motocicleta vermelho cromada. Afrontou o azul do céu, de nuvens brancas sucumbidas por outras cinzas, túrgidas de água. A casa do irmão também vigilante. Havia sido morto num outro dia de sábado. Era noite, e vigiava o posto de gasolina. Recebeu dois tiros pelas costas. O sangue no calçamento da cor da luz da ambulância, ainda que muda gritava em vermelho. Nem tudo que estava lá era mentira. E se fosse, seria uma mentira diferente. Assim disse Thomas.


Pelo menos três crimes haviam ocorrido naquele mesmo lugar. O vigilante noturno, o dono do posto de gasolina, um motorista de carro de aluguel. Infelizmente, nenhum dos três jamais fora justiçado. Na época, a lua ensanguentada disse lágrimas. Ficou querendo se esconder atrás dumas poucas manchas escuras, quando viu que não tinha jeito, se obrigou a assumir toda formosura. E vieram outras tardes. O homem da motocicleta ficou na varanda da casa do irmão, esperando que aparecesse alguém pra conversar. Toda tarde ia lá. Desde quando ainda estava nesse mundo. Continuou indo depois do ocorrido. Queixo apoiado nos braços cruzados sobre o balaústre da casinha singela, esmeradamente pintada de verde. O próprio dono a pintara.  Casa de uma única janela, como nos contos de conto de fadas. Pra varrer a poeira e as folhas secas trazidas pelo vento, aparecia a cunhada. Lenço amarrado na cabeça. Com a vassoura tangeu ciscos, e o espírito. 


E tinha a louca. A mulher que perdera a lucidez. Em idade avançada à sensatez perdera. Alguns diziam que eram males de família, outros que estaria possuída. Na verdade talvez se sentisse perseguida, odiada, injustiçada. Por todos e por tudo, era nisso onde residia o incomum. Imprecações contra todos ditadas ao vento. O próprio vento inimigo mortal se tornaria. Tratamento a base de psicotrópicos, pouco adiantaria. Ao contrário piorara até. As cenas do rio, com muita nitidez viriam, não sendo nada bom rever. O rio havia se tornado ameaça. A filha do rio ameaça ainda mais forte se tornara. Eliminá-los tarefa nada fácil. A mãe, pobre mãe, sofria sem nada poder fazer, a não ser morrer. O que pra os lunáticos estaria de bom tamanho. Os irmãos se vivos estivessem jamais podiam admitir aquilo. Nada, nem ninguém jamais poderia ser empecilho na vida de quem quer que fosse. Ninguém precisava morrer pra que todos fossem felizes. Que outros planos não revelados totalmente, ainda mais escusos haveriam por trás de tudo aquilo? Naqueles outros planos talvez não se admitisse retrocesso. Voltar a viver na casa paterna era retrocesso. O mundo crudelíssimo carecendo o tempo todo de significados plausíveis. Viver infelizmente era algo que necessitava de significados. Com mil diabos! Nada fazia sentido naquele momento! Deus devia ser um cara de muito péssimo humor. Era o que pensava naquele instante. Primeiro fazia as pessoas avançarem, depois tinham que recuar. Depois de tantos avanços! Voltar séculos de suas miseráveis vidas. Perder vida em torno de um alguém que evidentemente não mais fazia o menor sentido. Preciosíssimos momentos infelizmente perdidos. 


O anjo negro sempre presente. Não aparecia, ninguém via, mas estava lá. Aconselhando sempre pro mal, como se fosse pro bem. E os dias molhados tanta falta fazia. O outro avô de Thomas chamava-se Tomaz. Todo dia ia pra roça, um homem pacato, feliz pela vida que sempre vivera. Realizado pelo que construíra. Filhos, roça, a barbearia, a gaita no cair da tarde. Um cigarro pitado depois das refeições. O que mais poderia almejar. A outra vó, na sua altivez nunca se escusava de dizer o que não lhe agradava. Sempre sublinhava: “-Pra mim, isso não se cria.” Também “-Não vejo graça nisso.” Tantas vezes ouvira dizê-las. Não concordava com o jogo de baralho de todas as noites que vô Tomaz inventava. Mais ainda nos finais de semana. Sempre na casa das meninas. Vindas das bandas de Pernambuco. Na língua da rua tão faladas coitadas. Final de rua, donde a lua sorridente, no começo da noite vinha.  Alta madrugada retornava a casa. 

Por outro lado, não concordava ele com o compadre, que toda noite pra cozinha da comadre ia, prosear até altas horas. Pouco se importando com a ausência do compadre. Naturalmente discutiriam a respeito. No calor da discussão foi chamado de idiota. Questionou que ninguém merecia de tal nome ser chamado. A própria bíblia condenava. Quando isso acontecia ia dormir numa camarinha de vara, coberta com um tecido de linho que pegara seu cheiro. Outro ia deitar ali pra sentir sua presença. Depois de muitos anos passados, vindo. Ditados que nunca mais ouvira repetir: “-Meu Deus do céu, quem morre deixa o chapéu.” E realmente deixou. De massa, e era preto. Todo domingo ia pra missa. As enormes pilastras laterais da nave central, coalhadas ficavam de chapéus. Todos já se foram. Os chapéus ficaram.


A Cotovia. A avó que Thomas jamais conhecera todas as manhãs lhes vinha. Do mesmo jeito que ia pra roça, na estrada que era dela. Estrada que ia construindo todo dia. Cantando cantiga de lembrar passado. No limiar de cada manhã vinha. Ainda Thomas se preparava pra ir pra escola. E lhes vinha a Cotovia. Através da janela Thomas via a ave cantando, sobre um dos fios de telefone cantando. Juliana lhe dando banho, perfumando, penteando-lhe o cabelo, colocando-lhe a farda. Ao descer as escadas do apartamento dizia: “-Mãe aquela passarinha gosta muito de mim.” Juliana concordava “-Está bem Thomas ele gosta.” “-Não é ele mãe é ela! É um passarinho menina!”


O Rouxinol. O avô que Thomas nunca conhecera, embora todas as noites lhe viessem. Na antiga fotografia jubilada, que pena alguns daqueles se tornaram maus. Do mesmo jeito que ia, no meio da rua dos homens vinha. Pra casa de jogo das meninas, vindas das bandas de Pernambuco. E punha a cantar seu canto que ia até a janela do seu quarto. E era um canto que desejava que ele fosse muito feliz. Não era pra ser um canto triste, mas acabava sendo. Três pés de coqueiros que de noite dava pra ver só a silhueta. Estavam lá ornando o imenso jardim da universidade. Até vir o raiar do dia e o canto da cotovia permaneceria lá.


Fabio Campos, 11 de maio de 2015.    

A Coruja e o Condor



As coisas todas do mundo revolveram a maio de 1976. Em recordações viera quase tudo daquele tempo. Ainda que já houvesse Deus concedido às cores as coisas todas. Relembrar o passado, mecanicamente, só se podia em preto e branco.  Apenas a natureza, e os olhos, conseguiam perceber tudo como realmente era. Sonhar, as noivas podiam. Inclusive com buquês de flores, de rosas vermelhas que levariam consigo. Talvez com os dias contados estivesse o tão esperado dia de casar. Feijão e milho na roça, se acordando. Debaixo do sol, se espreguiçando. Se preparando pra abençoada colheita. Aos trabalhadores, o primeiro dia daquele mês dedicado garantindo-lhes o sábado de descanso. Também os negros, no décimo terceiro dia, uma quinta-feira, outra vez eram libertos. As mães, no domingo, ganhariam presentes. O calendário sorria. A folhinha do coração de Jesus falaria de sabiás, de beija-flores, de bem-ti-vis, da Santíssima Virgem e a aparição de Fátima. Dúvida não havia, era maio. Mesmo que tudo estivesse em preto e branco, era maio de 76.


“Ao ver passar no céu as andorinhas
Eu sinto saudade do meu bem
Que talvez me espera
E também desespera”



A manhãzinha vinha que vinha, rodeada de mato. Permeada de veredas, e estrada, enquanto aguardava o sol, que ao chegar tudo expondo a se esquentar. Bem devagarinho afastaria o terral, e o céu noturno. Fazendo ir-se embora negro frio, da cor de escuro. Tonico era apenas um menino, ao pé da estrada. Se tivesse no que pensar pensaria num céu azul e branco, da cor de sua farda. E no seu céu particular poria um pomar, uma jaqueira, pião, estilingue, passarinho voando pro mato, açude com água por cima. E o campinho da propriedade de Seu Doroteu, onde mais tarde se encontraria com os amigos, jogaria bola. Roncando na estrada de barro, a camioneta de Seu Antônio vinha que era vindo. Do sítio pra Vila todo dia, ia e vinha. Mansamente desencostando-se da estaca Tonico esticava o braço. Solícito o automóvel parava. A carona de todos os dias, na ida pra escola rural do Sítio Santo Amaro, de manhã. Manhãs de estudo. Mais tarde, tarde de trabalho os campos lhe aguardavam.  Se olhasse pra casa de Rute, encontraria Seu Irineu sentado no alpendre, olhando com olhar de quem pensa, bem lá no ponto exato onde o mundo aqui do chão, se encontrava com as nuvens lá do céu. E o canto de estalo do pintassilgo, ia que ia longe. Vadiando pelo oitão da tapera, indo amarelar o gomoso cheiro do fruto da carambola, admoestados pelas melipondias. Aquela altura Seu Irineu já havia trazido água pros cochos do curral. Água sofrida, água chorada, água de canto, de carro de boi cantador. Benfazeja colhida dos tanques do lajedo chamados de caldeirões. Cedo ainda ia o dia, e tudo já estava quente pegando fogo. O gado, cabisbaixo mansamente catando verde verdinho mato, relva de maio. A menina na janela, da casinha velha encostada ao pé do lajedo, era Elisabete. Olhava o que já estava enfastiada de ver, céu bonito, mato, roça e serra. Farta daquela voz fazia de conta que não ouvia dona Gersina lá na cozinha. Falando do que as meninas de sua época brincavam antigamente. A dizer que seu pai costumava, ir lá no mato, tirava uns galhos de catingueira. E fazia móveis pra ela brincar, cadeirinhas, mesinha, uma caminha. Os pratinhos, os talheres e a chaleira, de barro de louça. Esses ela mesma fazia. A boneca uma calunga de pano. E sempre ao cair da tarde, depois de lavado os pratos, estendida as roupas no varal e varrida a casa. Com as amigas, ia pra debaixo duma baraúna, brincar de boneca. Hoje em dia o que pensam essas meninas, em namorar e se formar nas escolas da cidade.


“Passarás passarás/ uma delas há de ficar
Se não for a da frente/ há de ser a de detrás
De detrás, de detrás.
Tenho meus filhos pequeninos/ não posso mais demorar
Demorar, demorar”


E o que parecia normal, já não o era tanto assim. Talvez maio já não fosse mais. O estado de guerra vivido no Vietnã em nada, ou quase nada interferia para os que viviam no sertão. Em nada influindo para que se tornasse nem mais, nem menos triste. Continuava a mesma vida, entre os de cá, ou ao menos uma perspicaz tentativa pela permanência do que havia. Enquanto isso o agricultor pensava: “-Quem será que inventou a ‘tá’ Festa do Feijão?” E lá do outro lado do mundo a OPEP, a OLP de Yasser Arafat, o estado islâmico de Aiatollah Khomeini, longe estavam de por fim a crise no Oriente Médio. E o sertão ainda era o mesmo, silencioso, macambúzio. De que modo coisas outras que ocorriam mundo a fora poderia nos afetar? Explicar isso era tarefa para o professor lá na sala de aula. Papa Pio VI, semblante sereno no jornal estampado, de lá da janela do Vaticano pedindo paz ao mundo! Na cozinha dona Boninha, com um lenço amarrado na cabeça, a beira do fogo, punha vigília ao bule que dali a pouco  liquidamente verteria seu conteúdo negro no oco branquinho duma xícara em cima da mesa, forrada com forro de xadrez e franja verde esmeradamente bordada. A porção Gaseificada da infusão indo, a excitar narinas e cérebros, evocar outros desejos. E dona Quitéria, irmã de dona Boninha escutava o rádio de móvel. E mesmo sem olhar pro louro atrepado no poleiro perguntava: “-Tu sabe o que é bomba atômica “meu” louro?” Esticando e encolhendo o pescoço várias vezes, o papagaio respondia: “-Avé, Avé, Avé Maria!” E os meninos instigavam “meu” louro a dizer a reza inteirinha e sorriam dele. Depois corriam lá pro terreiro a brincar. E pediam pra Seu Severino destampar o enorme tacho de fazer sabão, fervendo, fumegante. E queriam saber por que de vez em quando era destampado e mexido com uma enorme colher de pau, que mais parecia um remo. Dona Berenice a vizinha chegava trazendo massa puba e nostalgia. E dizia que não lhe perguntassem por que, mas toda vez que comia tapioca com coco bem quentinha, se lembrava do presidente Jango, de sua morte inesperada. E repartia a dúvida: Como teria sido o enterro? Certeza que teria sido muito bonito.  Dona Quitéria emendaria que a ela, era o cuscuz amarelinho, cheirando no cuscuzeiro que lembrava-lhe Juscelino Kubstchek. Ó tão trágico acidente que lhe tirara a vida! Teria sido um atentado? Quem porventura desejaria ver morto um homem tão bom? O acender o cachimbo lembrava a Seu Severino, Getúlio Vargas. E jamais esqueceria que durante o estado novo mandara queimar sacas e mais sacas de café, somente pro “pretinho abençoado”, das mesas do povo brasileiro, subisse de preço.

“Como poderei viver/ como poderei viver
Como pode um peixe vivo/ viver fora d’água fria
Como poderei viver/ como poderei viver
Sem a sua sem a sua/ sem a sua companhia"


Dona Tereza a mãe de Tonico dizia em tom de seriedade que aqueles meninos não tinham ideia do valor que era abrir a torneira e ver a água jorrando da mangueira no capim verdinho do jardim. E o sol brincado com as gotas flutuantes daria de fazer um arco-íris particular pros netos de Seu Libônio. Algumas vezes era vista chorando realizando o simples gesto de lavar as mãos. Seu Fernando já morrera, na verdade todas as pessoas daquele maio já morreram. Ainda que vivessem eram outras pessoas agora. Com outros pensamentos, valorando outras coisas que nem existiam mais naquele maio. Bom seria se tivessem vivido o suficiente pra dizer como era. Quem sabe onde estaria o ator daquele velho filme, tão jovem na trama? Já envelhecido em 76. Os filhos se envolveram com drogas, casaram e agora eram avós. Usara tanta LSD porque na Califórnia era liberado até 1977. O vô de Tonico Seu Guilherme, era de maio. No seu aniversário gostava de tomar um bom uísque ouvindo Elvis, e fazia o Long Play repetir várias vezes a música “It’s Now or Never”. Ao cair da tarde, Tonico e Elizabete no domingo iam à matinê. O filme estava tão sem graça que acabaria adormecendo. Depois iam tomar sorvete na sorveteria Maringá.  Punha um pouco de guaraná no creme e ficava olhando a taça quase com a sublimação transbordar. Cadeiras e mesas de fórmica com madeira e ferro, o piso num mosaico estampado formado figuras geométricas, na propaganda de Coca-Cola a garotinha loira sorria um sorriso americanamente efusivo.

“It’s now or never
Come hold me tight
Kiss me my Darling
Be mine tonight
Tomorrow will be too late,
It’s now or never
My love won’t wait”


Era uma vez uma coruja, e um condor. Não simples aves, como já as concebemos. Muito menos protagonistas de fábula de Cristian Hansen. A coruja de que falamos veio vindo sorrateira pousar sobre a bandeira dos “Iluminados”. Uma ordem fundada em Baviera, no dia primeiro de maio de 1776. Isso aconteceu na famosa noite de Santa Valburga. Um grupo de jovens de idade semelhante a de Tonico e Elisabete, inflamados por um ideal revolucionário, pretenderam mostrar ao mundo que pela força duma ideologia poderiam mudar o destino da humanidade. Dois séculos depois tal sociedade secreta aportou no Brasil. Nestas paragens seria representado pela figura doutro pássaro, o Condor. As asas do tempo recrudesceram. Jango, J.K. e Carlos Lacerda, três ferrenhos oposicionista ao regime militar, em menos de um ano intrigantemente morreriam de forma trágica. Sendo o último, justo no mês de maio. Em 21 de maio de 1977, para ser mais exato.



Fabio Campos  05 de maio de 2015