Olhos de Sangue (Eyes Bloody)





Minha mãe se havia sentada à mesa. O dia acordou enfadado. Teve noite atribulada.  Encostado na parede, junto ao relógio escutou, enquanto dizia: hoje é domingo, pé de cachimbo. A xícara de café a fazer afagos nos rostos. Afagos de perfume, de calor do coração, calor humano. Minha mãe disse bem assim: Chame a menina pra tomar café. Que menina? Aquela ali, em pé. De fato, havia uma menina de pé no corredor. Mas somente minha mãe via. Talvez a vida inteira, lá estivera. E ninguém nunca a notara. Somente minha mãe. Talvez, vestisse branco. Os longos cabelos, um pouco desarrumados, desenhavam espáduas ossudas, ganhavam as costas. Sapatilhas gastas. Olhava, como que olhava. Não, claro, um olhar qualquer. Olhava como quem se quer estar. Ser aceita. As mãos escondida às costas. Contorciam-nas, não sei. Leve balançar dos ombros. Os pés, indisfarçadamente irrequietos.

Um homem, de seus oitenta e poucos anos, chegou como quem chega. Puxou uma cadeira, sentou. As pernas afastadas. Pernas de pensar na vida. Fez-se cabisbaixo. A ele minha mãe não via. Trazia coisas de outro mundo, mesmo sem nada ter entre as mãos. Olhava como quem pensava. A cabeça cheia de pensar. Fardos que foram, ao longo dos anos, encurvando-lhe os ombros. E que o acompanharia, pro resto da vida, mesmo depois de ter ido embora. Dedicou-se a um cigarro como quem faz rede de pesca. Como se lesse pensamentos, disse que sabia da história da menina. Ia contar tudo. Alguém, de quem não conseguia lembrar direito, tinha dito que: velhos que viam, o que os outros não viam, próximo estariam de partir. Seis décadas se passara desde então. Próximo, muitas vezes, é palavra camaleônica.  

A menina não era daquela família. A minha mãe sabia disso. O café esfriou na xícara. Friamente olhava, com seu grande olho negro. A menina, com seu olhar triste, de sangue. Era menino, o que morrera com poucos dias de nascido. O pai, quase não foi ao sepultamento. Cinco décadas era muito tempo. A cada lustro, coisas, além de governos, mudavam. As paredes ganhavam tinta nova. O banheiro ganhava pia nova, de um material branco como sapólio. Os azulejos ainda não haviam tornado-se foscos. Um friso com uma lista vermelha no rodapé era moda. Feio, mas moda. Os caibros quadrados, aparelhados, as ripas enxadrezavam dando guarida as telhas, que a tudo assistiram. Ouviram músicas em inglês, nada entenderam, porém marcadas ficaram para sempre. As frestas das telhas desenharam pontos de exclamações gordos na parede contrária. Balões de pensamento de histórias em quadrinhos, engraçados. 

Antes que esquecesse, antes que outras coisas desviassem o foco. Antes que mais embaralhado ficassem as coisas, outra história veio e ficou pairada no ar. O velho teria que esperar. Havia outra história ainda mais instigante pra ser contada. Um caso dos tempos atuais, que muito tinha de medieval. História, mesmo não sendo de trancoso, começava como “Era uma vez...”.

Pois bem, era uma vez, um castelo. Um daqueles castelos que nossa imaginação fica perplexa ao contemplar. Extasiados diante de tanta imponência, em arquitetura e beleza. Bandeiras tremulantes sobre as abóbadas. Os gigantescos portais, perfeição de assentamento de pedras, dos imensos muros de arrimos, fortificação rodeada de jardins. Belíssimas sacadas, ornadas de estátuas de bronze. Delfos, deuses e ninfas flutuavam sobre fontes de águas dançantes. O pomar com suas variedades de plantas de todos os continentes. Como se ali, um congresso de vegetais. Um encontro mundial de plantas, cada uma trouxera em majestade e graça seus dons e virtudes. Cactus em rudeza de deserto discutiam acaloradamente com musgos dos pântanos. Exibiam-se joviais orquídeas do velho mundo. Haveria de haver em algum lugar, quem explicasse por que quando alguém  põe os olhos num castelo, imediatamente sente uma necessidade quase incontrolável de o possuir. Desencadeia no íntimo de cada ser o sentimento de posse. 
   
Seis eram os herdeiros, daquela suntuosidade edificada. Duas meninas, quatro meninos. Vivera infância e adolescência na mais completa paz. Paz que o mundo não conseguia contaminar. Assim como os filhos do Jó bíblico. Cresciam em virtudes, ciências e sabedoria. Disciplinados na fé cristã, no amor ao próximo, na compreensão, na fraternidade, A prosperidade habitava aquele palácio. Três deles, duas meninas e um menino, tiveram pendência às letras, sedentos de saber, do conhecimento. Profundamente mergulharam seus espíritos rumo ao domínio das ciências dos homens. Outros três descobriram que as habilidades, os dons concebidos em suas almas, era o do deus Hermes, do convencimento com as artes do comércio. Possuíam enfim, poder de convencer persuasivamente, com a palavra.

Assim como nas Sagradas Escrituras, dois dos filhos, os mais velhos, decidiram partir. E tomaram do vosso pai a parte que lhes cabia na herança. E nunca mais retornaram ao seio paterno. Muito embora os pais buscassem notícias deles. De longe acompanhavam, e oravam pelos seus destinos. Contraíram matrimônios duradouros e profícuos. Suas esposas foram como o fruto da videira. Encheram suas casas de filhos e progrediram junto a parentela que fundaram, e cresciam em espírito e graça. E mesmo longe continuavam herdeiros de seus pais. Dois meninos e duas meninas. Tudo o que de bom, os pais puderam proporcionar proporcionaram aos filhos que ficaram. Assim viveram e cresceram em prosperidade e bonança.

O céu que cobria aquele palácio, e aquela família, por muito tempo foi um céu de nuvens alvas, de alvura cândida. O firmamento que os cobria era de um Deus justo, santo, fiel. Culminado de um azul impecável, irrepreensível, que proporcionava-lhes belíssimos verões. Os meninos e meninas partiam em fantásticas excursões, rumo a outros condados que lhes oportunizavam esplêndidas façanhas. Magníficas aventuras. Conheceram povos de costumes exóticos, e mesmo rituais estranhos a sua cultura. Povos de diferentes tradições. Muito aprenderam. Bem como compartilharam saberes. Mas isso teria consequências graves. Participariam de cerimônias religiosas que não agradavam seu deus, prostraram-se diante de deuses pagãos. Adoraram outros deuses que não o seu de origem. Prestaram culto a um deus que valorava em extremo o ouro e a prata.

Na entorno daquele maravilhoso castelo, o tempo da bonança foi ficando pra trás. Nuvens negras, do mundo das trevas ameaçadoras pairaram sobre o palácio. Os filhos daquela família passaram, desde então, a tecer um pelo outro ódio, inveja, espírito de rivalidade. Cada um que quisesse ser maior, e melhor que o outro. Como disse Jesus um dia: “Reino que se divide contra si mesmo, tenderá a perecer.” O primeiro que desceu ao sepulcro foi o pai. Depois, além da mãe, outras mulheres tornar-se-iam viúvas. Enfermidades incuráveis feito rastro de pólvora, se alastraram no seio daquela parentela. O castelo tornou-se sombrio e sem vida. Toda madeira, de pórticos, portões, pontes e tablados feridos pelo cupim, o ferro todo corroído pela ferrugem, o bronze mofou, o mármore trincou-se. O salitre feriu as pilastras de sustentação. As estátuas adquiriram aspectos demoníacos. Os jardins visão dantesca. As plantas irremediavelmente envenenaram-se. Ainda assim os filhos desembainharam suas espadas de fel, e procuravam ferir com a língua, uns aos outros, com o único e vil interesse de herdar o lamaçal na qual transformara a única e pobre habitação de sua herança. Assim foi, assim tinha sido.

O velho, iniciou-se a contar sua história. Num tempo, muito lá trás. Disse. Muito antes de ser essa casa erguida. Existia aqui um estábulo. Nele morava uma família. Eu, minha mulher, e essa menina, Cecília, minha filha. Eu cuidava dos cavalos da paróquia de Santa Luzia. Era eu o cuidador dos cavalos do padre Capitulino. Um dia, com muita raiva, por ter perdido meu ganho, em aposta no jogo de baralho. Tomei umas cachaças. Bêbado, fui tratar dos bichos. Daí, maltratei um cavalo. Assustado com a brutalidade o animal avançou contra mim. Chamei Cecília para abrir a porteira, se não ia acabar pisado. Assim que ela abriu a cancela, o cavalo empinou e a pisoteou matando-a. Tomado de mais ódio esfaqueei-o até matá-lo. Assim foi. Assim aconteceu. 


Ilustrado por Aika (6 anos, neta do autor)   

Retrato Mofado



É velho sentar a calçada. À porta de casa a infância, ainda estava lá. Sentada, esperando que um dia os meninos voltassem. Os cotovelos sobre os joelhos, olhando pros pés. Os olhos volviam pras duas mãos de Deus. Os paralelepípedos, com o tempo, acabaram enrugados, envelhecidos, nunca esqueceram um só dia. Pedras que brincaram. Meninos que viraram pedras.

Dona Áurea, na cozinha, eternamente preparando almoço, jantar, um café da manhã. Quando não, um doce de leite, de pelotas. Por certo lá se encontrava, agora mesmo, na lida com quitutes, temperos, a mão na massa. Bom mesmo seria olhar pra trás, e ver novamente aquelas portas abertas. Os quadros nas mesmas paredes. A rede do Ceará com os punhos encontrados nos armadores, esperando os meninos, e voltarem a ranger e ranger, a dar solavancos e balanços. Até estourar alguns cordões.

A casa. Tristemente foi ficando sozinha. As vizinhas, simplesmente foram embora. Em seu lugar surgiram outras. Os anos passando, a rua vai mudando, só aquela casa continuava lá. Solitária, triste, esperando o dia que um dia chegaria. De sua morte, um dia, de ser sepultada um dia. Tantas foram as vezes que pariu seus filhos. Devagar foram saindo, um a um, indo embora, ganharam o mundo. Devagar passaram, um a um, por aquelas portas. Engatinhando, aprendendo a andar e andando, correndo, de velocípede, de bicicleta [inicialmente com as rodinhas de apoio]. Descalços, de chinelos, de sapatos. A gente e a casa éramos como crianças aos pés dos pais.

A escola. Ela cortou o cordão umbilical deles com a casa. A primeira comunhão dando significado à reza. A festa de são João de cada ano, fogos de artifício, ser pastorinho no pastoril. Ser anjo na lapinha viva, de natal. O jogo de bola a perna quebrada. Os dias sem ir à escola, o pai arranjou umas muletas. Parece que vão voltar os tempos das cisternas. Do jeito que vai, com a escassez d’água não vai demorar muito e voltam. O verão anda tão sertão.

Um dente, lá do oitão da boca, começou a doer. Ia alta a madrugada, e o dente a doer. Por que será que dente só dói em hora inconveniente? Todo mundo sabe disso. O dia inteiro tinha pra doer. Deixou justo pra depois da meia-noite. Pra aliviar se pôs a mastigar cravo da Índia. Dava sensação de adormecimento. E a dor dizendo estou aqui. E se botasse pasta de dente. E a dor nem aí. Lembrou duma simpatia: fazer um chá de camomila, embeber um algodão e colocar em cima. E a dor. Tentou [sem sucesso] rezar a Nossa Senhora das Dores. E a dor. Encheu as bochechas com uma mistura de elixir sanativo, um pouco de água e sal. E a dor. Deu murros na parede, mas só conseguiu ferir os nós dos dedos. E a Dor! [agora, latejando no dente, e nos nós dos dedos]. Mordeu até rasgar a fronha do travesseiro. E a dor. Finalmente deu sinal que ia parar. A dor de dente. Pela janela o dia [ardentemente esperado] vinha amanhecendo. Prometera fervorosamente, assim que amanhecesse iria ao dentista. Acordaria o homem do boticão logo cedo. Estava muito cansado pra isso agora. Não doía mais, o cansaço, e a ida ao dentista ficaria pra outro dia.

A paixão pela prima. Deve está escrito no livro dos livros da Paixão de Afrodite e Vênus: A primeira paixão de um homem será pela prima. Não sei se tem fundamento mas o narcisismo pode ser o responsável por isso. Projetamos naquele ser, a nós mesmo. Uma vez que somos tão próximos de sangue, de carne, e de fisionomia. Daí a amamos com todas as nossas forças. Paixão avassaladora. Muito provável que não exista pessoa mais perfeita na face da terra. O cabelo (igual ao seu), castanho, deslumbrante, sedosos, cheirosos, perfumados. Bastaria chegar perto dela, assim por trás. Bastava sentir aquele cabelo roçando no rosto, nos lábios, e quase ia a loucura. Sua mãos eram de seda (iguais as suas) aquela pele, aquela tez, morena (igual a sua), aqueles olhos castanhos (iguais aos seus) aquela boca, que boca sensual, bem desenhada carnuda, voluptuosa. O não, dito tão docemente, que jamais pareceu não, Mas infelizmente foi não.

Quando o irmão mais velho casou, foi morar numa casa de Cohab - conjunto habitacional. Bonito ver as casinhas, todas iguaizinhas, os telhados iguais, as portas iguais, a pintura idem. A rua limpinha de dar gosto. Acho que foi sonho. Um dia viu uma cena pra lá de maluca. Os maridos saindo de suas casas de Cohab, pra ir trabalhar. Todos ao mesmo tempo, trajados de paletó, chapéu de massa, gravata, pasta zero, zero, sete, cidadãos classe média, americano, dos anos quarenta. As mulheres todas idênticas, em blusa e saia godê, de avental branco, cabelo preso em rabo de cavalo. E se despediam com um beijo. A mulher ficava em pé da porta acenava. Mas, o que prevalecia era uma piada contada na roda de amigos do pai, e nunca mais se apagaria, sempre que lembrava do irmão, vinha a anedota. “Casa de Cohab é tão pequena que o cara entra, se deita na cama, a cabeça e os pés ficam do lado de fora.” E imaginava o irmão naquela situação incômoda, engraçadamente desenhado por Caruso numa charge. O pai e os amigos, riam e riam divertidos.

 Os quinze anos. Não existem quinze anos sem festa. Isso, claro, se a aniversariante fosse do sexo feminino. Pros menino, a data passava em brancas nuvens. Era preconceito, resquícios da ditadura, machismo, do tempo do carrancismo. Engraçado, fazia tempo que não ouvia esta palavra... Fosse o que fosse, só sei que virou trauma. Foi desse, não direito a uma festa de aniversário, desde criança, que pegaria a mania de fazer festa de aniversário pra tudo quanto era coisa. Aniversário de tantos anos de conclusão da faculdade, aniversário de um ano de um neto, aniversário de quarenta anos do curso de datilografia. Comemorar [sem beber] um ano sem beber, um ano sem fumar. Um ano, passaria a ser referência para todos os tipos de superações.

 A ovelha e o porco. Não sei qual dos três, mais marcou minha infância, se o porco, a ovelha, ou a gata. Na casa da minha infância, meu pai gostava de gatos. Não de qualquer gato, tinha preferência por gatos malhados. Criou um monte. E dava do seu prato, da sua comida pra eles, por baixo da mesa. Minha mãe não gostava por que sujava o piso da cozinha. Depois que meu pai morreu, uma gata que ele gostava muito também adoeceu, e morreu. Coube a mim, fazer o sepultamento. Lembro que levei o corpo até a ribanceira do rio e deixei lá.  Dentro de uma caixa de papelão. O que lhe ocorreu não sei. O porco, vivia num chiqueiro improvisado atrás de casa, mas um dia ele escapou. Corri, corri atrás. Faltou paciência taquei-lhe uma pedra no meio da testa, caiu no chão ciscando. De medo, corri apanhei-o desmaiado e num esforço enorme levei pra casa. Sujei a roupa e quase apanhei por isso. A ovelha comia caroço de algodão. Achei bonito vê-la comendo. Dei o saco inteiro de caroço. Morreu empanzinada. 
  
Alguém falou que se você encontrar uma foto velha, mofada de família, veja em que parte estaria mofada. No local que estiver bolorento, naquela parte do corpo se vai adoecer. Se for nos olhos, a pessoa vai ficar cego, se for nas mãos, vai ter Parkinson, se nos pés, paralisia, no peito pode morrer do coração, ou ter câncer de pulmão.

Tia Maria morreu. Na sala havia muitos retratos da família. Num deles tia Maria aparecia de pé, trajada num belo vestido estampado. O cabelo negro, longo bem penteado. Olhar sereno. A mancha de mofo no retrato de tia Maria tomava-lhe parte das nádegas. Tia Maria morreu de câncer no reto. Acho que tia Maria nunca queria mesmo era receber a visita da sobrinha. Sobrinha que lhes dava conselhos. Conselhos assim, que se dá a alguém que morre de medo de avião. Vai viajar de avião. E fica sabendo quão perigoso seria andar de avião. 


Ilustrado por pintura [tinta acrílica sobre papel sulfite] de Aika (7 anos) Ela mesma disse que se chamava: "Homenagem a Maria"

A Oração


O Menino
Já ia alta a noite. Hora de se recolher.   Thômas veio, pediu-me a benção. E tinha outro pedido: Vô, o senhor me ajuda a rezar? Ali, de pé, ao meu lado, o menino e o pedido. Comoveu-me ambos. O céu, aquele que estava bem ali em cima, esse que conseguimos ver, cintilou. As estrelas todas, por instante, talvez tenham brilhado mais intensamente. O outro céu, aquele que não vemos, jubilou-se. A cima das nuvens, numa dimensão que não nos é acessível, com seus palácios e cortes celestiais. Em coro festejaram, regozijaram. Os que lá habitavam começaram a conversar alegremente, como se movidos por euforia momentânea. Os que se haviam do outro lado, ao ouvirem o que dissera o menino alegraram-se também mas não demonstraram. Na cozinha, uns anjos encostados na beira do fogo, depois disso espertaram. Passou o sono. Ouviu? O que? Alguém falou: Hosana!

O Homem
O homem veio chegando, olhando devagar, feito uma onça no meio do mato. Avaliando os que estavam lá. A fila, ia de um poste a outro da rua. Rua ensanguentada de sol. Eram oito da matina, parecia meio dia. Cansados de esperar [estavam lá desde as seis] alguns sentaram a calçada. Numa nesga de sombra murcha, tímida, feita das fachadas das casas, toscamente desenhavam figuras no chão ladeirado. Escorregavam lentamente pra junto dos rodapés com preguiça de ser sombra. Havia muitos tipos de mães, e pais de famílias, alguns poucos jovens. Mães de rostos luzidios, seios fartos, ventres volumosos, roupas de estampas coloridas, Homens franzinos, descarnados, descorados, ossudos, suados. Moças de sorrisos falhados, sem os dentes mais importantes. Rapazes esguios, tatuados nos deltas, chinelas de dedo, bermudas taquitel, camisas regata, bonés de time de futebol, cabelo de cortes estilizados. Os destinos de todos, a só tempo, idênticos, diferentes. Fila pra conseguir uma ficha, para atendimento médico no posto de saúde. O homem trazia um guarda chuva, longo, preto, pontudo, enganchado na gola da camisa, que descia pelas costas. Na mão, o cartão nacional de saúde, legitimamente o detinha. Havia no olhar, um quê de aflição. Tinha pressa. Impossível ter que esperar tanto! Não podia se demorar. A esposa, deixara doente, em casa. Sozinha, em cima duma cama. Dos que estavam na fila, um disse: Ave Maria!

A Mulher  
A mulher, aparentava ser mais velha do que era. Trinta e poucos anos. O lenço amarrado na cabeça realçava-lhes os sulcos da testa, as rugas. E disse bem assim: Eu vivo no escuro. Referia-se a escuridão da noite. Solidão que o ventre do mundo sente quando vira as costas pro astro rei. A noite mal caía, acendia o candeeiro. As cores iam tudo dormir. Se enrolavam todinhas debaixo dos lençóis. O gato em cima da pia, lambendo o papeiro de fundo preto, queimado. Aproveitava o resto  - duma papa - a ração da lactante. As sombras, muito mais volumosas que seus donos. Gordas, vorazmente iam engolindo os pedaços de parede de taipa, botando no ventre parca mobília. Uma mesa, uns tamboretes Umas sacas de feijão, outras de milho num canto. Grãos de feijão, caroços de milho, no chão. Para a mulher, dois eram os tipos de escuridão. A escuridão da noite, enquanto o candeeiro tivesse querosene pra queimar, livres estariam dessa. A escuridão das vistas. Meu pai, minha vó paterna morreram cegos. Deve ser triste ficar sem enxergar a luz do mundo. Para sempre o mundo apagado. O manto de Nossa Senhora não mais veria. Agora só na vida eterna. E a escuridão da alma? Não lembrava. Lembrava de Vera de Zefinha, sua prima. Depois que o marido morreu, ficou numa tristeza tão grande que dava pra ver no fundo dos seus olhos sua alma na escuridão. Desse dia em diante,  nada comia, nem água bebia, não falava mais com ninguém. Foi afinando, afinando. Durou só doze dias. A mulher fez o Sinal da Cruz.

O Rapaz
O rádio ligado, a dizer solenes notícias de dias anteriores. Resultado das eleições presidenciais, a extrema direita subira ao poder. O clima altamente quente, a temperatura baixamente temperada, a umidade relativa do ar, relativamente árida. O corpo de um rapaz, com sinais de espancamento, havia sido encontrado a margem da estrada de barro, ao lado de uma moto abandonada. O chefe da polícia fez averiguações. Quem o delegado chamaria pra depor? Talvez intimasse aquele céu esverdeado da cor das folhas da baraúna? Ou quem sabe aquela linda folhagem amarela da craibeira? Aquele azulado céu de domingo, muito provável queira servir de testemunha! Ou àqueles capuchos brancos, de nuvens veranescas. Não há de negar aquele era um céu interruptamente brasileiro. Nos trajes, no trágico acontecimento, no vislumbre das cores. No velório: No primeiro mistério vamos contemplar A Agonia de Jesus no Horto das Oliveiras!

O Negro, a Negra
Negro não é gente! Branco também não. São cores. Tia Maria não conseguia mais engolir os comprimidos inteiro. Era preciso machucar num pires, com uma colher, e fazer uma garapa com um pouco d’água. Só assim conseguia. As filhas deram pra brigar. Será que todos os irmãos do mundo brigam? Em especial quando as mães mais precisam deles? Gilda e Jane na verdade nunca se deram. A gente era que nunca prestara atenção. É desde pequenas que elas são assim. Agora, depois de velhas. A mãe doente deram pra esculhambar uma com a outra. A palavra mais bonita que uma diz com a outra é cachorra. E por aí vai. O carro vencendo a distância. Viajar a noite é perigoso. A estrada. O caminhão que vinha cegava sem cortar a luz. Um cachorro? Ou seria um cassaco? Se atrevendo atravessar a pista. Perigo iminente. Os livros que engoliam feriados prolongados. Engolia paciência. Engolia vistas ruim. Negro não é gente. Negra é a noite. Antes de sair de casa, reze um Pai Nosso.

O Filho
O cigarro aceso parecia não incomodar, mas incomodava. Fazia uma concha com a mão para escondê-lo. A saudade tudo suporta. Barba por fazer, já se acostumara com esse visual desleixado. O cabelo por cortar, o cavanhaque. O descuido com a aparência. E a saúde? Como estaria? Quando se encontravam sempre perguntava as mesmas coisas. Como estava? Chove por lá? E os serviços, sempre aparecem? O carro? Não dera mais problemas? Tinha tempo pra compor? Recebera todas mensagens que lhes enviara? Por que não respondia? Onde ia passar o natal? E ano novo? Uma barata doida invadiu o ar. Se interpor num momento tão solene, entre pai, mãe e filho que a muito não se viam. Pediu pra ser assassinada. O pensamento foi lá pra baixo, rente ao piso esmagado, junto aos restos mortais do pobre inseto fêmea. Talvez tivesse prometido não matar mais nenhum animal? Deve ter algum nome especial tal filosofia, de não matar nenhum ser vivo. Parece que os chineses, que nada matam? Nem uma formiga? Só humanos. Nossa Mãe!

A Oração

Vô? Por que temos que rezar? Lá vinha Thômas com mais uma perguntas desconcertante. Já deitado, coberto até a altura do peito, virado pro outro lado. Nada fácil responder. Nada fácil ser avô. Não fora fácil viver até ali. E ir pra fila de um posto de saúde, às sete da manhã. Não era fácil ter uma filosofia de vida. Lembrou que no umbral da porta, de tia Maria havia uma Nossa Senhora nordestina, uma Sagrada Família barroca, um panfleto avisando que haveria reunião bíblica. Àquela altura já passara. 

É pra gente conversar com Deus, Thômas. Alguns usam essa conversa, e aproveita pra pedir alguma coisa, outros simplesmente agradecem. Thômas? Está me ouvindo? Silêncio. Adormecera. Acho que olhar para o céu, já seria uma oração. Isso parece tão bonito. Meu Deus. Seria assim mesmo?

?...

A Bailarina [The Clock]




Uma menina, de patins, rodopiava na plataforma da estação rodoviária. Não estava lá pra viajar. Se apresentava, tentando ganhar algum trocado. Com bambolês, chapéus, bolas, fazia malabares. A passarela, escaldada de sol daqueles dias, seu palco. Transeuntes, passageiros e ambulantes, sua platéia. O vapor da tarde quente a cortina, o pano de fundo, do seu espetáculo. Devagar, como em câmara lenta, o show circense findo. De baixo do imponente teto de ligas metálicas e fibra de vidro em parábola. Aplausos vinham voando, das asas dos pombos que perfuravam incólumes o crepúsculo.
Em breve o mundo apagaria sua luz, os postes acenderiam as suas. Todos aguardavam aquele momento mágico. Momento exato, em que o dia, nem fica azul intenso, nem escuro negro. Ia devargamente ficando, um pouco lilás, um pouco rosáceo. Quase violáceo, para os lados que o rei se recolhe aos seus aposentos. E depois morrer. Quem mente rouba. A frase caiu de cima de um pé de fícus, morta. Ficou lá ressecada, dobrada sobre si mesma, no chão. Veio o vento e a levou para longe. Muito longe, pra terra onde tudo tornar-se-ia pó, e acabaria caindo no esquecimento.

A mãe que era vó, e também bisavó, pediu a benção. O pai que era vô, e também filho abençoou pediu de volta. O silêncio, em stand by, desligado. O som do mundo, em sua louca sinfonia, psicodélica. Inescrupulosamente, sem limites, a ninguém obedecia. Não respeitava os mais velhos, transgredia barreiras, infringia leis. Nada o impedia de ir onde bem quisesse. Som dos pássaros, das vozes humanas, dos motores dos carros, aceleração, freadas, buzinas, músicas de alto-falantes. Transpunham muros, fachadas, portas, janelas, frestas das telhas, das casas. Nada o intimidava, nem polícia, nem governos esquerdistas disfarçados de direita que pretendesse tomar o poder. A luz vermelha olhando infinitamente. O padre dissera umas verdades, cristalinas, como água, pelas ondas do rádio disse. Na verdade vivia adormecida dentro da gente, aí vinha alguém e acordava. As máquinas cumprindo suas funções em fim, de medir o tempo, minuto a minuto, mensurar a temperatura, obediente a construir palavras a cada teclada, a bombear combustível pro tanque do automóvel, bombear o sangue pro corpo, taxar, registrar, sair, cuspir, fumaça. Uma mentira dita muitas vezes vira verdade. As letrinhas correram ligeiras pelo luminoso out door. Conveniências, tudo era conveniências.

A mãe deitada, toda enrolada no cobertor. Descobriu a cabeça. Perguntou que horas era. Dez. Da noite? Não, da manhã. Suspirou, decepcionada. Misto de incrédula. Queria estar em sua casa. Não gostava da casa dos outros. Mas a senhora está em casa. Não concordava. Minha casa fica longe daqui. E tem paredes de taipa. Minha mãe foi pra roça. Saiu cedo. Tenho medo quando ela demora. Vou-me embora pra minha casa! Só era o que faltava Manuel Bandeira vindo parar dentro do quarto de mamãe. Passárgada agora, era no Pedrão, Casteado era o amigo do rei. Se não o próprio. O Gavião sua insígnia. Batista o primo, amigo de confiança, prometera que iria visitá-la. O Capim com suas próprias leis. Querosene ‘Jacaré’ não queima cheirando a comunismo, farinha de mandioca não tem gosto de bolsa do governo, cassáco não quer dinheiro sujo, gosta mesmo é de galinha. Automóvel é bicho que ronca, tem os pés de borracha, vai devorar estrada. 
     
O menino, humilde, solícito. Acompanhava o desenrolar das coisas. Feito fiel escudeiro, seguia a menina da bicicleta, andando rápido, para não ficar pra trás. Conversava coisas que menino conversa com menina. Todo pabuloso, dizendo que se quisesse um dia, viraria super-herói,  daqueles que voam, e tinha outros super-poderes. Ainda não era hora de contar. Se quisesse teria uma bicicleta. Minha bicicleta vai ter muitas marchas, e pedais pretos, e selim de couro, e guidões cromados, e uma campainha que faz trim-trim. A menina desconversava. Você sabe falar inglês? Nem esperava a resposta emendava, que estava aprendendo xadrez. Estudaria, ela e a prima Luana, música e teatro. Iriam apresentar na escola o auto de natal.

A ordem era pra prender. Os soldados fielmente cumpririam. Naquele fim de mundo, os dizeres da bandeira do Brasil ‘Progresso’ era empresa de ônibus. Já a ‘Ordem’, era mantida na base do cassetete, na botinada de coturno.  Os ‘Praça’ invadiam casas, batiam em pessoas, se não dissesse o que eles queriam ouvir, espancavam. E se dissesse, apanhariam mesmo assim, justamente porque diziam. O cassetete até apelido tinha, “Mané gostoso”. Padre Cícero dizia que haveria um tempo que os homens iam querer ser maior que Deus. Feijão, ia ser engarrafado. As pessoas iam andar na rua falando sozinho. A besta-fera haveria de estar no meio do povo, e ninguém ia se escandalizar com isso. Os sinais levavam a isso.

O filho teve um sonho assim. Estava todos sentados a mesa. Toda a família. O pai, a mãe, os irmãos, almoçavam tranquilamente. O som que se ouvia era dos talheres chocando-se nos pratos de louça, raspando panela. Alguém bateu a porta. Todos se olharam. A visita, talvez, não fosse bem vinda, quem sabe. O irmão mais novo foi ver quem era. Abriu a porta, levantou os olhinhos assustados. Os soldados afastaram-no do caminho. Na cozinha pegou o irmão do meio pelos braços. Aos gritos inutilmente pedia que o deixasse em paz. O pai, impotente, resignado, sem nada poder fazer. Perguntar não adiantava. Foi preso.

O menino, se quer lembrava do quão exímio atirador com estilingue era, e que com maestria subia no pé de fícus, rápido como um foguete escalava o lombo de um jumento. Gostava de brincar com minhocas, besouros, lagartixas, pererecas. E como sabia pescar. Outro dia inventou de empinar uma pipa, uma aventura e tanto. Acabou que ficou presa no alto da craibeira ao lado da cadeia. O muro do cemitério estava destruído, entrava e saía quem quisesse. A mula aproveitou pra comer capim nos cantos das catacumbas, um mendigo abrigara-se na capelinha dum túmulo. Dois anjos encostados nas lápides cochilavam cansados de noites insones. Alguns finados saíram a passear. Um homem de terno preto, chapéu preto, luvas pretas, bigode e óculos pretos, de pele escura, ficou parado só olhando.

O homem negro, trajado com esmero, disse: O capitão chegara ao poder. Ao contrário do que muitos pensam. Choro e ranger de dentes, não será tudo. Os que precisam dizer, nada dirão. Os que precisam ouvir nada ouvirão. Os que precisa ser, nada serão. Os que gostariam de ver, nada verão. Por enquanto tudo é verão. O sol os cegará. Tentarão se aproximar, mas serão repelidos. Água tornar-se-á algo mais caro que combustível dos carros. Alimentos irão desaparecer das prateleiras dos mercados. As mercearias irão pro subterrâneos. E os únicos mantimentos que muitos vão querer e não encontrarão sal, fósforo, e vela, produtos raros. Será criado o imposto do ar que se respira.

Todo esse rodeio pra concluir a história da menina. Foi assim. Certa noite, de um dia qualquer do final da década de oitenta. Uma mulher chegou à estação rodoviária, lá da cidade, do interior do sertão. Trazia consigo uma bolsa, uma mala de rodinhas. E uma menina, dos seus quatro, cinco anos, que dormia em seus braços. Era meia noite e vinte minutos. Quem disse isso foi o relógio redondo, mais parecia uma lua amarelada, pregado na torre da velha banca de revista, fechada. Dez anos se passara desde que fora colocado lá. E sempre a dizer minuto a minuto, hora a hora, sem se cansar, sem falhar, sem adiantar, sem atrasar. A lanchonete fechada, os guichês de compra de passagem idem. As únicas coisas funcionando ali, àquela hora era, o vigilante noturno, o relógio, e um funcionário do correio que aguardava o último ônibus que passaria de madrugada. 
A mulher aproximou-se do rapaz do malote e perguntou: moço você quer essa menina pro senhor? Assustado disse que não. O vigilante, que era casado e não tinha filhos, ouvindo a conversa perguntou incrédulo: a senhora quer dar essa menina? Isso mesmo, vou pra capital, ganhar a vida num bordel. Não tenho como levá-la. Aturdido o vigia pediu-lhe um instante. Correndo foi consultar a esposa, pois morava ali perto. Cansado da carreira que dera chegou dizendo que a patroa aceitava ficar com a menina.

Hoje. É carinhosamente chamada de ‘Bela’ pelos amigos. Isabela tem vinte anos, formada em Educação Física, vive de acrobacia. Na vida, na academia, na rodoviária.

[a dizer minuto a minuto, hora a hora, sem se cansar, sem falhar, sem adiantar, sem atrasar, O relógio continua lá. Agora com 40 anos idade.]  

12h20m.