A primeira coisa que lembro, desde que me entendo de gente, o doce embalar de uma cantiga de ninar. Vinda da mais bela voz que jamais esquecera, a da minha mãe. O mais incrível era, que ela se quer abria a boca. O som saía de suas cordas vocais, e chegava-lhes através do corpo, do contato pele, com pele. Som morno, melodioso, acalentador. O tempo, senhor de todas as coisas, aperfeiçoaria os ouvidos. Não demoraria a escutar, e gostar de músicas, tocadas em discos de vinil. Uma imensa radiola, o centro das atenções dentre os móveis da sala.
Há um ditado que diz que, o primeiro prazer de um homem nascido vivo, é sugar. Sugar o leite materno. Semelhante a esse, e tão intenso quanto, é sugar, até a última gota. Sugar, tudo, todos os humores, se possível o sangue, a lágrima, o suor. Potentes forças, igualmente poderosas possuídas ao nascer: uma que nos proporcione os melhores dos confortos, e que atendidas sejam nossas necessidades, as mais prementes, é também a mais destruidora força, e sem hesitar, entrará em ação caso não sejamos atendidos, naquilo que necessitamos.
Causaria forte impressão, ao descobrir que eu, não era só eu. E que sim, era parte integrante de um grupo familiar, de seis viventes. Haveria momentos, que ficariam marcados, para sempre. Cada um tinha uma atividade específica, todos as exerciam: umas mais pesadas, outras mais leves. Trabalho braçal, alguns estudavam, outros limpavam, alguém organizava, e tinha momentos de descontração também. A hora das refeições, essas as que mais marcaram. O café da manhã, um momento família. O almoço, lá em casa, se almoçava em família. Hora do ângelus, se jantava, em família.
As ruas, pareciam mais largas, as casas pareciam mais altas. O vendedor de suspiros, um gigante visto de cá de baixo. Assim se apresentavam as coisas, quando éramos pequenos. As construções de tijolos maciços. Dentro de casa, colocar um quadro na parede, tarefa fácil. O barro aceitava de bom grado um prego. Era como enfiar um palito num bolo. Os varais para além dos quintais. Feito telas panorâmicas de cinema, como um filme que se repetia todas as manhãs, todas as tardes, todos os dias. As mães pretas cuidavam de lavar roupas, passavam as tardes engomando colarinhos e tirando os vincos das calças de tecido.
Os automóveis feios. Besouros gigantes, de ferro. Buzina engraçada, um espirro, um flato descuidado. As nuvens brincavam com as pipas, a grama brincava de meninos. Os calções de jogar bola, os meões esticados nos varais. Pardais, eles nunca envelhecem, pombos arrulhavam e arrulham como se jamais morressem, e nunca promovessem a paz, como se jamais significassem espírito santo. Como se só nos fizessem lembrar, casais enamorados. E velhos que não tem mais o que fazer, depois que se aposentavam. Inconscientemente se preparavam pra morte.
As praças, ilhas de faz-de-conta. Praças, elas odiavam ter que agradar, a quem não quer ser agradado. Somente elas, as crianças queriam estar. Balançar nos balanços, gangorrear na gangorra, escorregar no escorrega. Subir nas árvores, cair quebrar um braço. Encher o gesso de desenhos, e frases, com canetas de várias cores. Sabe o que queria? Queria mesmo, era comprar aquela revista. Aquela, que tinha um desenho de uma máquina fotográfica, como que descascada, porque dava pra ver, como era por dentro. O nome da revista: “Como Funciona”. Era tudo o que queria. Até chegar o novo fascículo. E veio, a que tinha uma pistola 45 milímetro, toda detalhada, fascinante manual do crime. Será que ensinava como se tornar um gângster? Era tudo o que queria...
Passou a tarde toda na beira do rio. É triste, ficar, a tarde inteira, olhando o rio. Melhor escalar uma serra, encontrar o couro de uma cobra, que acabara de trocar de pele. Se deparar com um ninho de urubus, os filhotes regurgitando, dando a impressão que estavam com nojo da presença de gente. Caçar passarinho. Atirar de peteca, ficar com pena do passarinho que matou. A arataca pegou um Zé Neguinho. Triste foi, levar pra casa e o gato comer sem o menor remorso. Quando fez quinze anos, inventou de inventar de colecionar coisas. O que iria colecionar? Álbuns, não. Figurinhas, não. Bolas de gude, não. Tinha que ser algo diferente. Armas! Isso mesmo começaria com canivetes, punhais, adagas. Um dia um amigo, viu suas peças de coleção, pediu emprestado um punhal. Seria só por uma noite. Queria sentir a sensação de como seria dormir, com uma arma debaixo do travesseiro. Naquela noite ao voltar pra casa teria que atravessar uma pequena área de arbustos. Um colega resolveu lhe pregar uma peça, fazer medo. Surpreendido com o susto desferiu vários golpes de punhal. Em estado de choque, se desfez de sua coleção de armas brancas atirou tudo ao rio. Não queria ser cúmplice. O melhor era se desfazer. Era tudo o que, não queria...
A juventude chegou, trazendo pêlos no queixo, no bigode, no púbis. Lençóis borrados de sêmen. Coleção proibida de calendários de bolso, fotos de belas mulheres nuas. Numa madrugada fria de agosto, acordado seria pelo pai, pra ver um cometa. Três da madrugada, o raio do cometa, passaria só às quatro da manhã. Entre sonho e sono, entender onde ficava o planeta Vênus, que era a estrela Dalva, a constelação de Centauro, o Cruzeiro do sul. Dormir, dormir, era tudo o que queria...
O vendedor de cavaco chinês, de algodão doce, o negro com sua bacia de fubá na cabeça. Sentado na cadeira de balanço na varanda. Parecia que a gente estaria entrando no livro de história, indo fazer parte de um quadro do alemão Johann Rugendas. As moças com seus chapéus enormes, suas sombrinhas coloridas. As saias com tantos babados. As bicicletas engraçadas, com faróis que acendiam pela energia gerada em um dínamo, rente ao pneu. Tudo o que mais queria era adquirir aquele estojo de pintura, com cavalete, paleta, jogo de pincéis. Era tudo...
O hino cantado na porta da escola, os colegas todos perfilados. E o menino mais traquino da turma largou uma gia no pelotão das meninas, foi o maior alarido. Era dia da bandeira. O fogueteiro, a bandinha de pífano avisando a quermesse, logo mais a noite no bairro do subúrbio. A imagem da santa dentro de uma caixa de sapato, caprichosamente forrada com um pano alvinho. Já havia aprendido a fumar cigarros de filtros longos, amarelos com piteiras. Já aprendera a tomar vermute, conhaque, e mais raramente licores e uísque. A coleção que tinha no fundo de um baú, era de amostras de bebidas. Pequenas garrafinhas que imitavam as grandes, no rótulo, na tampa, e mesmo no conteúdo.
Possuía várias garrafas de ferro, alumínio, e vidro achatadas para levar no bolso do paletó, quando ia aos bailes. Os irmãos, odiavam-no, por levar aquela vida mundana. Um parasita de família. Sem querer assumir um emprego, um trabalho do qual se sustentasse. Era o que todos mais queriam. E não ficasse apenas esperando que os pais morressem, pra pegar sua parte do espólio.
Os desenhos de quando tinha três anos, por acaso os encontrara. A tabuada que tantas lembranças ruins trazia. O toco de lápis grafite, enfiara uma vez a ponta daquele lápis nas costelas de um colega, com quem brigara. O compasso destroçado, já não conseguia abrir escala; por conta da artrite, da artrose, a régua desreguada, o apontador já cego, a borracha, pele enrugada, o mata borrão praticamente morto. O transferidor transferido, o planisfério aposentado. As folhas que um dia fora brancas, amareladas. Achou um desenho do rosto de uma coleguinha que ele riscara tanto, mas tanto que ficara completamente desfigurada. Havia muita raiva naqueles traços riscados com força. Não se considerava doente. Não achava que fosse psicopata. Contava ao psicólogo que tivera problemas com algumas meninas e que vozes diziam pra ele que elas não prestavam. Sonhava enfiando-lhes agulhas de crochê nos olhos. E ria disso.
A vara de pesca, o anzol, a lata velha cheia de terra úmida com minhocas. O embornal surrado, as botas de couro, as cordas de agave, buchas de lavar pratos, tiradas do mato. A coleção do momento era de folhas de mato. Por acaso, a iniciou. Colocara uma folha de hortelã dentro do livro que lia: “A Queda da Casa de Usher: Edgar Allan Poe”. Dias depois percebeu quão bonita ficara desidratada. E que o cheiro permanecera no livro. Por isso, passaria a colecionar. Não era o que mais queria, mas, fazer o que...
As xícaras de porcelanas, os biscuits, a caixinha de música. Os remédios, o terço de contas escuras. A sua mãe estava na cozinha preparando a janta. As pernas grossas, cheias de varizes. Colecionava agora, retratos de gente morta. Recortava dos jornais, e as guardava, em uma pasta preta. Páginas de filme, o plástico exalava doce perfume. A foto dos irmãos, já morrera todos, ficava passando o dedo indicador sobre seus rostos, como se os acariciasse. No dia do sepultamento, não teve coragem de aproximar-se do caixão de nenhum. Nunca se perdoaria, por isso. Já os perdoara, por não gostarem dele. Gostaria tanto de ter se reconciliado com cada um deles, antes de morrerem. Era tudo o que mais queria.
As saias tão amigas das anáguas. Certa aversão aos ferros de passar, mesmo porque O calor quase infernal, ia tirando pouco a pouco o brilho que tinham. O toucador, o abajur, o cinzeiro, a capa de chuva, o guarda-chuva negro, o porta-óculos, o cachimbo, o cortador de ponta de charuto, o canivete, o pincel de fazer espuma pra fazer a barba, o barbeador de lâmina, a navalha. Todas as coisas possuíam seu valor, e transmitiam uma mensagem, que um dia seria decodificada. Poderia acalmar-lhe, poderia trazer-lhes lágrimas, e na mesma hora, com mesma intensidade, um sorriso, que ia se transformando numa estrondosa gargalhada.
O paletó, que tantos bailes fora, tantos batizados, casamentos, saraus literários, exposições, comícios, julgamentos. As missas solenes, aos funerais de amigos, as reuniões dos clubes de serviço. Aguardava calado, no cabide o dia que iria, em definitivo, ao túmulo com seu mais fiel, e melhor amigo. Colecionava insetos agora. Borboletas, escaravelhos, aranhas. Catalogava-os: nome popular, nome científico, o que comia, se era inofensivo, se era venenoso. Uma aranhazinha, a danada mal cabia na ponta do dedo. No entanto seu veneno era capaz de matar instantaneamente. Um dia, acidentalmente caiu uma, no bule de café sobre a mesa. Todos tomaram daquele café.
Sentado no banco da praça, tristemente olhando, pro nada. Um jovem se aproximou, caderno na mão. Perguntou se o poderia entrevistar. Falou sobre uma história que tinha. Queria opinião. Imaginara a história de um escritor que planejara assassinar os familiares, pra ficar com toda a herança. Enquanto ouvia, ia bolando o plano, e lembrando, de seus pequenos crimes, de infância, juventude, idade adulta.




