A casa era modesta. Os pássaros redefiniam prioridades a cada alvorecer. Os telhados, agradecidos, liberavam flores de orvalho. Janelas semelhavam olhos de bonecas que não conseguiam nunca fechar. Portas que sorriam faceiras às brisas agostinianas. O tempo, ali, nunca, jamais passaria alucinadamente. Feito fita rebobinada como em películas de cinema, ou antigos gravadores. A imensa tela panorâmica chamada, tudo que os olhos viam. Ligada toda vez que, as pálpebras se abriam. E se davam a assistir ao lento pingar das horas, ao gotejamento dos dias.
Era sentar numa daquelas cadeiras de balanço, e, através da janela, apreciar magnífico espetáculo. O sol nascendo, as horas recrudescendo, à tarde envelhecendo, o dia morrendo. O que realmente dava pra ver dali? As folhas do pé de cróton em um bailado, diáfano, caindo lentamente no jardim. A dança das folhas, devagar cobrindo os ladrilhos da passarela. Criando esplêndido tapete, de imensos losangos esverdeados, salpicados de amarelo. Grilos negros escondidos entre a ramagem, friccionando as patas a produzirem repetido cri-cri. A sinfônica harmonia das cigarras, cantando e cantando anunciando a primavera. Mariposas, escaravelhos, a morrerem de velhos, e a viverem, eternamente.
Sob o móvel da sala, poeira acumulada, possibilitando Aika, a filha e neta, a desenhar um coração. Pensativa, ao ponto de sentir pena do cachorro da vizinha. Pobre cão, cujos ancestrais viviam na terra do gelo. Latia e latia tanto, incomodado com o nosso clima. Jamais entenderia o porquê do quão distante estava dos seus parentes, e da sua terra natal. O cantar do galo às dez da manhã. Faria Rubia, a matriarca da tríade, dizer que aquilo era um mau presságio. Algo como, um aviso. E que naquela noite, os pais de família ficassem atentos. Pois, em algum lugar, ali por perto, uma moça iria fugir. Lisa, a filha, parecia distante, o fone de ouvido, a levá-la para muito longe dali. Para um, outro mundo. Caleidoscópico, onde acordes de guitarra se materializavam. A flutuar na fumaça do cigarro. Cigarro fumado meio que escondido, vício aprendido com a mãe, que, embora já soubesse, não aprovava. Nem desaprovava, pois era fumante também. As manhãs de sábado curtia as melodias sabor cafeína, misturado a nicotina. Injetando nas veias doses extras de dopamina. Viajando sobre um skate imaginário, que traziam ternas lembranças que nunca se apagaram, da infância, de menina.
O dia, em sua cordialidade a cumprimentar o sol. A rua, agradecida pela manhã, sorria, ao vendedor de leite, ao moço do carro que vendia ovos, ao padeiro com seu gracioso triciclo. O saco de papel pondo ainda mais cheiro aos pães. O menino sentado na calçada conversava com o gato. Os jardins conversavam com as abelhas e as borboletas. O pé de avenca, sentindo-se sufocado, necessitado de ver o amigo sol escalara o muro. Empurraria o caqueiro com a samambaia, até derrubá-lo, e se arrebentar no chão. Sol bisbilhoteiro, a conversar com todo mundo, até com quem sonolento, ia. Sem fazer conta de sua companhia.
As nuvens, não dariam a dizer que estariam tristes. Até por que isso, era só um ponto de vista. As nuvens, elas desmontavam esquemas armados. O roceiro que vieira pra cidade. Pra ter o que fazer cultivou uma roça de feijão e milho no terreno baldio. Muito provável que o dono do lote, quando viesse o tempo da colheita, iria cobrar sua parte. Da janela, cada uma das três mulheres, notaram e se impressionaram com cada fase do preparo da seara. Aika, achou interessante o rude instrumento, movido a tração animal, que o homem usou para revirar a terra, tornando-a de uma cor marrom escuro. Não se sabe exato quanto tempo se passou. Até que senhora Rubia tivesse um déjà-vu, ao ver a vegetação verdinha, alinhada, enfileirada brotando, no campo. Viu-se menina ainda, na roça do pai. Lisa, não conteve as lágrimas ao ver a chuva molhando o milharal, enquanto um homúnculo vestido de branco, de chapéu de palha, acenava aos céus agradecido. Era só um espantalho.
As coisas desimportantes, e o poder de fazer esquecer pano sujo, balde com água. Flor entediada, fruta magricela, no pé. Pardais precisando ir ao psicólogo. Ventos decepcionados com a falta de chuva. Serras enrugadas, montanhas desesperadas, aflitas de silêncio. E tudo, pelos homens, amplamente desprezado. Córrego indiferente no seu destino gemedor, inconformado com a situação, tremia-se todo. Se esticando, esticar-se-ia até ir chorar junto ao lombo do riacho. O capim verdinho alteava-se escondendo em suas entranhas, sapos, jias, cobras, formigueiros. Agonia dos vivos, que nunca, jamais alcançariam os mortos. E os sepultados amargavam suas falas. Abundância de silêncio, colocando distante dali as falsas atitudes.
A rotina da menina: escola, todo dia, tudo era novo, de novo. Oito planetas, uma galáxia inteira girava em torno de si, e suas ideias. A bolsa escolar pesada de coisas. Seu mundo, cabia ali. Brigara com a melhor amiga. Isso, porém, não tinha a menor importância. Dali alguns dias ririam daquilo. O trabalho que a professora passara, alguns dias levaria para concluir. Com o telefone móvel pedia um pote de sorvete de açaí. O pai, do outro lado da linha, a abençoava e com moeda virtual, chamada Pix, pagava o serviço de delivery. Perguntaria se, estava tudo bem? Tudo certo. Ela diria. Confirmaria que no próximo final de semana estariam juntos. Em mais um piquenique às margens do rio. Era num trecho bastante preservado. Seria bom. Manter contato com a natureza, água límpida, peixinhos, conchinhas, pedrinhas, cachorrinho d’água. Naquela época do ano, valia a pena. Tudo tão verde. O pai alertava: cuidado com as plantas. E lembrava daquele ano, que, sem perceber tocara num pé de urtiga. Ficou toda encalombada.
Lisa, profissão: professora. Rotina super desgastante. Já, quase no limite, de estresse. O dia do aniversário da filha Aika, se aproximando. Orçamento apertado. E mais uma vez não daria pra fazer a festinha, do jeito que ela queria. Apelaria chantageando a mãe, avó da menina, para que bancasse o bolo. Decoração, refrigerantes, doces, petiscos daria um jeito, poria no cartão de crédito. O presente, quem todo ano dava, era o avô paterno. A vida não estava nada fácil. O desgaste emocional, os alunos, a discussão com o diretor, a falta de empatia, entre os colegas de trabalho. As contas se acumulando.
Pela nonagésima vez subiria a serra, só naquele semestre. Fugia da cidade, fugia da família, fugia do emprego, fuga de si mesma. Ainda bem que tinha o amigo Berto para desabafar. Saíam, as sextas-feiras iam a uns barzinhos, curtir música. Lembrar das baladas, de quando ia a show de rock, drinks a base de Gin, morango limão siciliano, e água tônica. Ali os problemas, literalmente, viravam fumaça. No sábado, mesmo de ressaca, era dia de limpar a casa. Dia de fazer uma faxina mental, ouvir Elis Regina, cantando Belchior, a dizer verdades, molhadas, com cerveja “long neck” Beats Sense.
Trabalhos escolares para corrigir, cadernetas para colocar em dia. Intermináveis relatórios de cada turma. O psicólogo, era a tábua de salvação. Só ele, tinha saco suficiente para ouvir, e ouvir, suas frustrações, suas carências, suas loucuras. Tudo dito na terceira pessoa, como se ela fosse, um outro alguém, com quem convivia, e tinha que suportar. E as coisas mais banais que todos nós temos vontade de fazer, dizia. A eterna vontade de matar a mãe. Inclusive, naqueles momentos de raiva quando ela vinha remoer e apontar seus erros, defeitos. Contrariando o que rezava a lei, diria, num rompante de rábula, ao matar a mãe cometeria um homicídio doloso, porém com intensão e vontade de matar.
E, caso isso viesse a se concretizar, fatalmente se transformaria numa Serial killer . Pois a lista dos que tinha vontade de matar, era enorme. E, aqui pra nós, depois de matar a mãe, os demais seriam fichinhas! O diretor, a sua pior inimiga, as aulas, a coordenadora, a semana inteira, a secretária escolar, as horas, as palavras, a fome, a raiva. Matar nunca fizera tanto sentido.
“Viver é melhor que sonhar/ Eu sei que o amor é uma coisa boa/ Mas também sei que qualquer canto/ É menor do que a vida de qualquer pessoa/ Por isso cuidado, meu bem/ Há perigo na esquina.”
Os versos da música, a voz de Elis Regina, ainda mais, a fazer sentido. Os pais nunca entenderiam os filhos. Filhas, mães, neta nunca foram feitas para serem entendidas. Nem para se entenderem. Mais fácil ficarem entediadas, que entendidas. A vida passando, e sua complexidade fazendo-as se afastar delas mesmas. A rotina desgastante da mãe. O emprego, a casa, lembranças do passado. A mãe?... Melhor usar o plural. As mães, sempre se sentindo, as menos compreendidas. Haveria de convir que eram, também, as menos compreensivas.
Valia muito a pena lembrar algumas frases que sempre ouviram, de quando, elas mesmas eram pequenas. E que continuavam valendo até aquela data. Se abusavam da sua autoridade soltava essa: “Você me respeita que eu sou sua mãe!”. Se viesse com história que podia fazer o que quisesse e bem entendesse, tacava essa na cara: “Enquanto morar debaixo do meu teto, vai fazer o que eu mando.”; Se a neta chegasse toda contente, por ter obtido boas notas na escola: “Não fez mais que sua obrigação!”; Se a filha reclamasse do sumiço de algo: “Agora deu. Tudo sou eu nessa casa.”; Caso pedisse a filha pra ir buscar algo, e, por pura preguiça, alegasse não estar encontrando: “Se eu for aí e achar, eu esfrego na tua cara.”; Se estivessem na rua e lhe pedisse, o que quer que fosse, pra ela comprar: “Na volta a gente compra.”; E tinha a clássica: “Um dia você vai ser mãe e vai entender.”
Rubia, Aika, Lisa, nascidas em épocas diferentes, experiências vivenciadas, diferentes, a cada fase das suas vidas. A avó e mãe, Rubia, nascera e fora criada na roça. A urbanidade só entraria na sua vida depois do casamento. Desde cedo, dificuldades enfrentadas, com elas aprendera a dar valor ao trabalho, ao dinheiro ganho com sacrifício, e muito suor do rosto. O pai alcoólatra, a mãe uma penca de filhos. Verdadeira escadinha, do mais novo ao mais velho. Tivera que ajudar a mãe a criar os irmãos mais novos. Desde cedo entendera o que era amor materno. Oportunidade de estudar, de ter uma formatura nunca tivera. O serviço de roça ocupava todo o tempo. Conseguira, com muito esforço, concluir o curso primário. Depois de casada, um trabalho de serviços gerais, numa repartição pública. Assim dera para sobreviver, constituir uma família.
Lisa, de um relacionamento que não deu certo, muito nova ainda, teve Aika. Com a ajuda da mãe criou a filha. Morar com a mãe e a filha, sempre fora grande desafio. Mãe solteira, a filha para criar, dentro da casa da mãe. Mundos e realidades diferentes. Conflitos sempre fariam parte. Rubia, sempre gostou de privacidade. Detestava se alguém mexesse nas suas coisas. E era o que a filha, e a neta mais faziam. Desde roupas, estojos de maquiagem a bijuterias, pegavam emprestado, sem compromisso de devolver. Ficava tiririca, virava uma fera. Era muito de curtir na vitrola, discos de vinil. Músicas dos anos setenta, oitenta. “Astronauta de mármore” dizia: era minha música. No tempo que morava na roça, quando era de tardezinha vinha a pé, para a cidade, assistir a Telenovela: “Roque Santeiro”, na casa da irmã. Gostava da série de tevê: “Chaves”. Na última festa para os avós, promovida pela escola da neta. Amou ter que ir caracterizada com vestes dos anos sessenta.
Lisa, em seu computador portátil, um laptop, conectava um fone de ouvido e ficava curtindo músicas de rock dos anos oitenta e noventa, de quando ainda era moça. Teve um tempo que gostava do seriado de tevê: “Todo Mundo Odeia o Chris”. Apesar de branquela, se identificava com o negrinho. Com certa saudade, lembrava do tempo bom que ia nas baladas, aos bailes funk. Vestia preto pra ir a encontros de roqueiros e motoqueiros. Eles, que não gostavam de serem chamados assim, preferiam: motociclistas. Agora a pouco cantarolava: “Dominique nique nique/ Sempre alegre a cantar/ Alguém que possa amar/ O seu príncipe encantado, seu eterno namorado/ Que não cansa de esperar”. Nem sabia ela, que essa música, era de 1963. O pai, só três anos tinha, quando foi lançada.
Aika, passava horas curtindo desenhos e séries de Mangás, e Cosplay, na tevê. Ainda a pouco assistia a série: “Spy Vs Family”, com seus personagens de cabeçorras, e enormes olhos. Divertindo-se pacas, nas redes sociais, vendo postagens, curtindo o que chamava de “memes”, na internet. Seus heróis? Influenciadores digitais. Os assuntos, os mais aleatórios: tipos de corte de cabelo, maquiagem, receitas caseiras, fast food, entre outros. Perguntada pela avó o que ia querer ser na vida futuramente, respondeu: Ainda não sei. Teria coragem de fazer um monte de tatuagens, assim como a mãe? Não. Ôxe?... O que achava do pai? Resumiu-o em uma palavra: Legal. E da mãe com quem convivia? O dedo polegar hirto, foi a resposta. E sobre ela, a avó? Um sorriso amarelo e cheio de arames, debaixo do nariz, foi resposta. Ficou corada de vergonha, quando, naquela tarde de sessão de Netflix, a avó comentaria que Aika, havia menstruado pela primeira vez. Desconcertada, tentaria quebrar o silêncio que se seguiu, cantarolando a música que vinha do seu aparelho de telefonia móvel: “Agora eu era o herói/ E o meu cavalo só falava inglês/ A noiva do cowboy/ Era você além das outras três."






















