A Procissão [Parte Um] Conto 08/03/2026.


Seu Paulo aparentava cansaço, um dos braços sobre o ombro da esposa, pesava. O outro, segurava a mão do enteado. “Paulo! Por que me persegues?” Absorto em pensamentos, sequer ouvia a multidão, de gente que entoava cânticos e orações. A mente vagava, sobre o último exame de próstata que fizera. Nele, o médico detectara um câncer, em situação bastante preocupante. No entanto, preferiu fazer mais outros exames. Bernardo tinha hematomas nos braços, pescoço e pernas. Ameaçado, e com medo, o menino nada dizia à mãe. E que sofria maus tratos do padrasto. Dali a uma semana, Paulo agonizava em um leito de hospital. Amigos, familiares lamentariam. Como um homem tão bom, respeitador, um exemplo de marido, um bom pai de família. 1ª ESTAÇÃO: JESUS É CONDENADO A MORTE.

Ana Luiza trabalhava na companhia de eletricidade. Cantando com fervor, marchavam: ela, sua mãe Assunção, e Alice, sua filha, de apenas dois anos e meio, que ia ao colo da avó. Era uma turma de cinquenta candidatas, concorreram a apenas duas vagas, Ana foi uma das selecionadas, em teste escrito. Inicialmente, trabalhara de leiturista. Após dois anos de empresa, Ana namorou Roberto, seu chefe. Desse namoro nasceu Alice. Roberto não assumiria ser o pai de Alice. Isso poria fim ao relacionamento. A briga agora era na justiça, para que Roberto assumisse a paternidade. O moço já estaria de relacionamento novo, namorava agora Beatriz, a outra moça selecionada para a segunda vaga de leiturista. 2ª ESTAÇÃO: JESUS CARREGA SUA CRUZ.

Bodó, era o apelido de José Carlos. Bodó era alcoólatra, às vezes assumia, e ia ele mesmo ao A.A. Há poucos dias, beijando seus dedos cinzentos de nicotina, cruzados sobre os lábios ressecados, jurou a esposa Deise, à filha Sofia, e à sua mãe dona Bernadete, que não ia beber durante aquela quaresma. Deise aproveitou a ocasião e exigiu: "-E você irá nos acompanhar nas procissões da Via Sacra." Ele aceitou. O povo cantando, a noite abafada, o calor sufocante, Zé Carlos, a boca seca, o suor frio, o ar não chegava aos pulmões, agonia. O mundo que já estava escuro desapareceu. E desmaiou. 3ª ESTAÇÃO: JESUS CAI PELA PRIMEIRA VEZ.

Melina residia na capital. De férias, em plena quaresma, aproveitara para voltar ao interior. Após cinco anos, voltava à sua terra natal. A cidadezinha onde vivera a infância e parte da juventude. Quando fizera dezoito anos, foi morar com uma tia na capital. Conseguiu se formar como advogada. Todos os seus onze irmãos deixaram a casa paterna. Seguiu cada um, seu caminho, seus destinos. Melina, naquele momento, seguia a procissão. O povo cantando, e seu pensamento era na sua mãe, dona Tereza, ela que há muito ficara viúva. Sozinha, sem ninguém, fora colocada num abrigo de idosos. Melina foi visitá-la. Pediu-lhe a bênção. A mãe, porém, acometida pelo mal de Alzheimer, nem a reconheceu. Os olhos opacos, quase sem vida, olhavam para o nada. 4ª ESTAÇÃO: JESUS ENCONTRA SUA MÃE.

Beto, toda a vida foi um cristão fervoroso. Herança dos pais. As missas do domingo, ele não perdia uma. Salvo, casos excepcionais. Um tipo extrovertido, brincalhão, e festeiro. Curtia o carnaval. Mas, na quarta-feira de Cinzas, todos os anos, declarava:  É o fim das bebedeiras. E, ao longo da quaresma, nada de bebidas. Farras e festas, dentro daqueles quarenta dias, seriam evitadas. Viveria com intensidade todos os rituais da quaresma.  E de modo especial os da semana Santa. Jejuaria, não comeria carne vermelha, nem às quartas e nem às sextas-feiras. Beto era pintor de ambientes. Seria contratado para pintar a casa grande da fazenda de um empresário. Aconteceu que descobriu que um morador e cuidador do gado do patrão, estava muito doente. Chamou um amigo que os levaria ao hospital. Desde então, se encontrava internado, se recuperando. Ali, na via sacra, Beto elevou suas preces a Deus para que curasse o peão. 5ª ESTAÇÃO: O CIRINEU AJUDA JESUS A CARREGAR A CRUZ.

Marcos tinha um apelido engraçado: “Viramundo”. Na juventude, era destemido, só andava de gangues. Era vida louca, muita bebida alcoólica, até maconha curtia nas baladas de finais de semana. Tatuagens, tinha várias por todo o corpo, nos braços, peito, costas. No rosto tinha uma, de uma cobra que contornava o olho esquerdo, passava pela orelha, e descia pelo pescoço. Nunca quis nada com estudos, fez somente o primário. Porém, era muito habilidoso com serviços de mecânica de automóveis. E, por muitos anos, foi disso que sobreviveu. A velhice é, para todos, um dia chega. E pra “Viramundo” também chegou. Alguém se compadeceu, ao encontrá-lo morando na rua. E o levou a um abrigo de idosos. A professora Eunice morava sozinha, nunca casara. Agora mesmo, a educadora acompanhava a via sacra e, em suas orações, pedia a Deus por “Viramundo”. Era ela, a única pessoa, que o visitava quase todos os domingos. Ajudava a cuidar das feridas nos braços e rosto, sequela da tinta das tatuagens. 6ª ESTAÇÃO: VERONICA ENXUGA O ROSTO DE JESUS.

Pedro era motorista de aplicativo. Num passado distante, fora conceituado comerciante do ramo de calçados. Pedro tinha, alguns vícios que o levariam a perder, sem poder ter o convívio, com a esposa e os filhos: Igor, doze anos, e Milena, de seis anos. Pedro, quando bebia, ficava agressivo com Lúcia, sua esposa, professora do jardim infantil, e também com os filhos. Agora mesmo acompanhava a via sacra, sufocava um choro, que tentava a todo custo conter. Lágrimas teimavam em rolar pelo rosto. A esposa e os dois filhos, logo ali a frente, naquela via sacra. Por medida protetiva, ele o pai não podia se aproximar de sua família. Por força da lei, era obrigado a manter distância, das pessoas a quem mais amava. Tudo por conta de malditos vícios. 7ª ESTAÇÃO: JESUS CAI PELA SEGUNDA VEZ.

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