Caminhos...[Town of the Souls] Conto 20/05/2026.


 

O cemitério ficava no alto da serra. Diante do portal, pra quem ia saindo, o mar enchia os olhos, de sal, de sol, the soul. Olhasse pra o norte, lá estava, proeminente, majestoso, a cerca duns mil metros, o farol, com seus mais de vinte metros de altura. As faixas negras diagonais, dando a impressão que naquele local existia uma barbearia, invisível, de um povo gigante. Para além dos muros, do lado sul, e a oeste, coqueirais. A cidade dos mortos, bastante movimentada, naquela tarde. Pessoas de diversas épocas, passeavam trajando, cada qual, vestes do tempo em que eram vivos.

A oeste, do desfiladeiro soprava um vento, de barro vermelho. Aquela chapada, fendida ao meio parecia que, num tempo distante, um monstro colossal havia passado por lá, e, teria dado imensas abocanhadas no maciço, achando que fosse algo de comer. Aparência, de imensa cocada pé-de-moleque. Mais uma mordida, e, tragicamente, o chalé a beira do precipício teria desaparecido. A poeira dos túmulos, levada às narinas dos ventos, a provocarem pequenos e revoltosos redemoinhos.

Cabelos grudados nos crânios descarnados, diziam medos. Para sempre ficaria nas retinas dos olhos das crianças. Velas que não queimavam dignamente, sobre suas deformidades se retorciam. Um menino passou correndo, pisou em falso, se desequilibrou, caiu. A catacumba deu um estalo estranho, sobre o peso extra. Instintivamente se desvencilhou da mão que tentara ajudá-lo a levantar-se. Menino arredio, pele escura, roupa surrada, boné bufante escondia a carapinha, calças curtas, pés descalços. Eram trajes de pelo menos, dois séculos para trás. Sumiu entre os túmulos.

Havia uma mesa posta, a um canto, repleto de paz e ramagem de flores. Um violinista, que ninguém via, executava a sonata número quatro de Vivaldi. O som do violino envolvia. Amoreira, grama verde, ainda mais vistosa, sob um buquê de formosura. Os talheres em estilo neoclássico, prateados. As taças, ricas em detalhes, ornada de pintura: anjinhos nus, voando num jardim onde um pintor ensaiava sobre a tela, os primeiros traços de sua modelo. Bela madona, comodamente sentada sobre a raiz nodosa de acácia. Uma família composta de mãe, e três filhos. Duas irmãs, e um irmão, chegaram e ocuparam seus lugares. O sol no forro branco, alvíssimo pratos de porcelana, talheres de prata, a governanta em pé, o sol. Não há aqui, a necessidade de dizer seus nomes, afinal, estão todos mortos. A janta foi servida. O assunto, era o pai. Se chegaria a tempo.

O mar, tão belo, avançava pro oceano. A praia separava o elemento terra, do elemento água. A faixa amarela de areia, adiante verde coqueiral. As casinhas descoloridas, enfileirada empurradas pela enseada, enfeitadas de jangadas, compunha a pequena cidadela. O chefe do executivo, e sua comitiva naquele instante se encontrava no campo santo. Aglomeração frívola fazia as honras de inaugurar a estátua, de corpo inteiro, do pai do prefeito, funcionário público exemplar, a sua vida dedicara àquela cidade.

O prefeito era chamado de coronel. Seus ancestrais chegaram ali para trabalhar no campo. Criara seus filhos: um menino, e duas meninas, desde pequeno tendo um propósito para cada um. O menino serviria ao exército, e depois ingressaria na política. As meninas seriam: uma médica e outra professora. Na verdade o menino era menina, disfarçada de menino.

O pai daquelas três crianças sempre quis ter um filho homem. Para sua decepção, a sua esposa, por três gestações seguidas tivera três meninas. O coronel levava as meninas pra roça, fazia com que as três fizessem trabalhos de homem, capinar, preparar o solo pro plantio, arar terra, ir buscar água no açude com o carro de boi. As meninas nunca foram uma festa, nem uma missa aos domingos. Tudo para que não tivessem contato com meninos. O pai permitia ir à cidade somente a filha que se vestia de menino, mantida de cabelos curtos, pra parecer um menino.

Havia um gato. Sim, era um gato branco, bem apoiado, sobre uma catacumba. O olhar fixo no muro, branco. Não fosse pelo rabo, às vezes mexendo, sutilmente na ponta da calda, passaria por uma estatueta. O que estaria observando? Não estava em atitude de caça. O dorso ereto, as orelhas apontando para cima. Aquele bichano observava alguma coisa, o que mesmo? Uma passagem, uma porta lateral no muro do cemitério. O portão aberto estivera o tempo todo ali, e passara quase despercebido. Olhando mais atentamente, via-se uma passarela bem cuidada, e pessoas seguiam para além do portão.

Numa manhã muito triste, chegou por ali, uma família de negros retirantes do alto sertão, fugiam da seca, pra não morrer de fome.  O coronel, para demonstrar sua benevolência, e provar que era um homem de Deus. Propôs uma comercialização com os retirantes, trocaria uma saca de feijão por um menino negro. Os retirantes aceitaram, a troca foi feita. O negrinho tinha dez anos de idade, quando chegou a fazenda do coronel. O plano do fazendeiro, era usar o pretinho para serviço pesado. A intenção era aliviar, o serviço das filhas. Uma ideia macabra, porém, povoava sua cabeça: castraria o pobre diabinho.

Sentada num banco chamado péla-porco, a mãe preta acendeu o cachimbo. Deu boas baforadas enchendo a senzala de fumaça azulada, e cheiro inebriante. Uma caneca de café, ao alcance das mãos nodosas. E contou histórias dos tempos dos seus avós. Uma dessas, falava de um ano difícil, onde rumas de retirantes tiveram que deixar o sertão, fugindo para a zona da mata, se sujeitar a escravidão dos coronéis, no plantio da cana-de-açúcar. Revoltados com a humilhação, o sofrimento, muitos resolveram fugir pro mato, se unir, se organizar, e  saquear as fazendas dos coronéis.

O senhor coronel prefeito, estava na sua sala de descanso, sobre a escrivaninha, um revólver. Óculos no rosto, lia um livro. Uma taça de vinho entre os dedos. O cachimbo, fornilho de ébano, canela de cerejeira, boquilha de prata. Tabaco importado, aromático. O pensamento confuso, mistura de negócios, safra de açúcar, encontro com o governador, viagem a capital, compras, ida ao banco mercantil, visita ao bordel da amiga cafetã, Lusitânia, no cais do porto. Contrataria dois jagunços para matar os negros que tinham feito a desgraça na sua casa grande, junto a sua família. O ódio, era tanto no seu coração, que gotas de sangue vinham aos lábios a misturar-se com vinho. Tanta era, a força que punha nos dentes.

A porta que havia no muro lateral do cemitério dava acesso ao vale. Era uma descida e tanto, uma passarela trabalhada com pedras negras. Nos aclives mais acentuados degraus para amenizar o perigo da descida. Havia também parapeito, nos dois lados. Muitas pessoas estavam descendo. Subindo, ninguém. As pessoas só desciam. Ninguém conversava, nada. 

Lá embaixo, um curso d’água, na verdade um rio vermelho. Na margem, do lado que ficava o cemitério, um canoeiro dentro da sua canoa, segurando um enorme remo, era um velho encapuzado, donde sobressaía sua barba. O velho aguardava as pessoas vindas do cemitério, que desciam pela passarela.

Eram dois negros. Chegaram a casa grande do coronel a pé. As armas que portavam eram duas facas. Um entrou pela cozinha e rendeu a governanta, que dormia num quartinho, anexo à despensa. Amarrou-a e tapou-lhe a boca com um pano. O outro invadiu o quarto da esposa do coronel, e a imobilizou amarrando-a na cama. Os gritos que ecoaram na noite eram das meninas sendo imobilizadas pelos dois saqueadores. As três moças, a esposa do coronel e a governanta, foram todas estupradas. Os negros eram sádicos, insaciáveis, violentos, havia muitos dias sem comer, nem fazer sexo. A bebida contribuiu para que dessem vazão aos seus instintos mais insanos. Os integrantes da casa imobilizados, os negros foram pra cozinha, estavam famintos, preferiram vinho do porto, uísque, e cachaça da adega.

O negrinho criado do fazendeiro, dormia no celeiro, a alguns metros da casa grande. Acordou com os gritos das meninas. Tomado de coragem, tendo muito cuidado pra não ser visto, foi até uma das janelas da casa grande. Pelo lado de fora, e protegido pela escuridão, viu as atrocidades que seus irmãos de sangue praticaram contra aquelas indefesas criaturas. Os negros, reviraram a sala do coronel, encontraram jóias, dinheiro, dobrões de ouro. Engolidos pela escuridão, se foram.

Já seis dias haviam se passado do ocorrido. O coronel se embrenhara na mata, seguindo os rastros dos dois saqueadores. Finalmente foi os encontrar numa gruta, num lugar cheio de cavernas na base duma serra, era um charco de lodo, havia uma cachoeira. Por um dia inteiro, o coronel os observou, de um local seguro. Analisou friamente como executaria sua vingança. Esperou o cair da noite, para por em prática seu plano. Os negros beberam cachaça a noite toda. Ao perceber que haviam caído no sono o coronel se aproximou. Pegou-os de surpresa, rendeu-os apontando seu revólver.

Amarrou-os e deu início a um interrogatório. Para cada confissão, uma punição. Arrancou-lhes todos dentes, cortou-lhes a língua, arrancou as unhas. Os gritos de dor eram abafados com um tufo de pano na boca. Arrancou-lhes os olhos. Por fim arrancou-lhes o sexo.  Enfiando-lhes na boca, com bolas e tudo.  

O coronel acendeu seu cachimbo. Ateou fogo aquele grotesco acampamento, visão dos infernos. Calmamente com seu cavalo, foi se afastando dali. No alforje dos negros, duas bananas de dinamite. A explosão foi ouvida a quilômetros de distância. O dia já ia amanhecendo, jandaias se espantaram, saguis saltaram nos altos galhos, a onça pintada parou, piscou pensativa.

Lá iam os três: o coronel, e os dois negros transpondo a porta lateral, da cidade dos mortos, tranquilamente desciam pela passarela. De um salto, o gato branco alcançou o chão, e se foi. O barqueiro de Hades inquiriu: -Trouxeram moedas?

 

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