Uma capela, branquinha, de uma torre só, lateral. Um ícone de São Francisco de Assis no frontispício. A rua, desembestada de calor, abafada de solidão. Nuvens atarefadas d’água, acinzentava, de canto a canto. Vasto céu, cansado de não ter o que fazer, nem mais pra onde ir. Uma salinha exígua ao fundo da igrejinha. A porta, um retângulo negro na vertical, era o que, de cá de fora, se via. Lá dentro, cadeiras dispostas em círculo, algumas ocupadas por jovens, largados, preguiçosos. Nas paredes, cartazes motivacionais. Tinha um que dizia: Deus está aqui neste momento. Talvez, houvesse quem lesse, e dissesse: Bom, muito bom saber. De tal informação.
Monalisa. Cabelo negro. calça jeans customizada, camiseta preta. Uma nossa Senhora no peito. A moça fazia vez de professora. Dava aula de catecismo, a jovens, que não estavam nem aí, para o que ela dizia. De repente, parou. E bem de lá, do fundo do coração, se perguntou: O que mesmo, estava fazendo ali? Aquilo chegou com força. Incômodo, desconcertante. Ponderou não fazer, o menor sentido continuar ali. Resolvida, saiu caminhando pela rua. As pedras, de cada paralelo que pisava, agora faziam todo sentido: dava chão para uma dissidente. Lastro pra uma revolucionária, solitária, sem aparente causa. Sua luta, travava contra si mesma.
O cenário, do nada, se modificou. As casas desapareceram, a estrada desapareceu. O céu era outro, estapafurdiamente azul, camuflado de bolotas brancas de nuvens, e um solzão suspenso no ar, igual rodela de comprimido efervescente, fervilhando o ar escaldante. O relevo, no entanto, continuava o mesmo. Monalisa entendera que, tinha sido tele transportada para outro tempo. Sendo que lá, era o mesmo lugar. Onde antes havia as casas, as ruas, a capela de São Francisco de Assis. Tudo desaparecera, agora só mato.
Os pupilos aproveitaram pra irem pra porta. Teve um que perguntou: Aonde a professora vai? Embora preferisse que não houvesse resposta. E não havia. Nem mesmo Monalisa sabia aonde ia. Sentiu a necessidade de ir, e foi. Precisava sair. No momento, era só o que importava. Ir, sem rumo. Precisava desparecer, refrescar as ideias. Iria, até ficar satisfeita. Até encontrar paz. Nada mais importava. Tudo que queria, dali se afastar. Caminharia, até se cansar. E quando se cansasse, pararia pra descansar.
Monalisa percebeu que tudo o que via a sua frente, não passava de uma propriedade rural. Havia um curral e uma cancela em ruínas. Um casebre de telhado baixo. Naquele espaço, até aonde a vista podia alcançar, dava pra ver quatro personagens: Jonas, João I, João II, Virgulino II, Joãozinho, Justino. Sim, são seis. Depois vai entender. O ar que se havia, tinha cara de ser da década de setenta. A constatação que as cercas de arame farpado, as estacas rústicas, a vegetação abundante, as veredas e estradas de terra batida eram coisas de meio século para trás, não vinha de Monalisa. Não podia ser conclusão sua. Isso, ela não vivera.
Que dia era aquele? Uma melancólica tarde, de um sábado qualquer, do período pascoal, do ano 26, do novo milênio. A que horas resolvera partir? Isso, para aquele momento, parecia algo sem a menor importância. Queria ir, sem pensar em nada. Lembrou dos catequizando, seus alunos. Era um grupo pequeno, uns 20. E naquele dia, só nove, teriam ido para o salão paroquial. Pré adolescentes, entre 12 e 16 anos. Monalisa sentiu as costas os olhares deles enquanto se afastava. Para onde estaria indo? Andou, andou, foi ficando cada vez mais, pequena, pequena... Até desaparecer por trás do lombo da estrada. Sumiu de vista. Da rua, do bairro, da vila, da igrejinha, de São Francisco de Assis.
Jonas, não se trata aqui, do profeta. Aquele de Nínive, que na bíblia foi engolido pela baleia. Muito embora o nosso Jonas, alguma afinidade tem com outra baleia, uma cadela. Parte do que os olhos de Monalisa conseguiam alcançar pertencia a Jonas. Parte daquelas terras era dele. Seu Jonas era fiscal da prefeitura municipal. Era sua, a função de taxar as bancas dos feirantes, aos sábados ia, de tolda em tolda. Do seu talão previamente preenchido, tirava o bilhete com a tarifa pelo uso do espaço público, entregava ao mascate que lhe pagava. Jonas possuía algumas cabeças de gado. E os seus dez filhos homens, se revezavam na função de manejar o pequeno rebanho bovino. Todos os dias, com o auxílio da cachorra baleia, os rapazes, recolhiam o gado que pastava, apartavam os bezerros das vacas leiteiras.
Monalisa resolveu que iria em direção ao pôr-do-sol. Isso mesmo, iria ao encontro do sol. Se um objetivo faltava a sua causa, agora havia uma. A meta era chegar ao sol. E foi. Se fosse esta história descrita na bíblia, diria que era perto da hora nona, a hora que saíra. Assim diria o evangelista João, de Monalisa. Andou, andou, e percebeu que em breve o sol iria se por. Desapareceria o astro-rei no horizonte. Não importava iria naquela direção, mesmo assim.
João I, jamais fora monarca. Na verdade, afinidade nenhuma tinha o moço com a realeza. Nunca gostara muito dos livros, nem de estudos. Seguiu a profissão do pai, ferreiro. João entra aqui na história, porque fora contratado para fazer um portão de ferro para o abrigo dos idosos São Vicente de Paulo. Uma das poucas construções que aparecia naquele cenário, protagonizado por nossa catequista. O abrigo continuava no mesmo lugar de sempre. A moça percebeu que a edificação mudanças significativas, não teria ocorrido do tempo atual para os dias que retrocedera a jovem jesuíta.
Já duas horas de caminhada Monalisa havia caminhado. Sentiu sede. Uma casa de alpendre, logo ali a frente, a margem da estrada, um velho sentado num banco. O cumprimento, e a dúvida: Boa noite! Ou boa tarde? A resposta do preto velho: Louvado seja nosso senhor Jesus Cristo! O pedido de água. Uma quartinha de barro, o líquido friinho, revigorante. O caneco de estanho, azul por fora, escuro por dentro, estrelado de pontinhos branco. Do jeito que estava ficando o céu.
João II, era filho de Seu Arlindo, comerciante, proprietário da lanchonete “A Toca”. João II, e Virgulino II, os únicos que entram nessa história, que não estão no campo de visão de Monalisa. Isso porque o episódio ocorrido entre eles ocorrera além da propriedade do senhor Jonas. Eles se encontravam a porta do Grupo Escolar Padre Francisco Correia, se desentenderam e protagonizaram um briga. João II levou um murro e o olho roxo teve que explicar, em casa. Virgulino II, era menino de rua, seu pai Virgulino I era estivador, trabalhava duro, na carga e descarga de caminhões que chegavam no setor do comércio atacadista, e de armazenamento da vila.
E “minha filha”, está fazendo caminhada? A pergunta pronta, vinda do preto velho. Tantas vezes usada, para outras moças, em ocasiões e hora semelhantes. Estava. Agradecida, revigorada nas forças, e se fez a despedida. O chão as vezes também faz pergunta. E responde ele mesmo aceitando humilde, pisadas, suor e lágrimas. Pássaros cantando, nuvens sumindo no negrume da noite. De repente, Monalisa percebeu uma menina, ao seu lado. Oi? Oi! Pra onde você vai menina? Pra lá. E apontou para adiante, sem que o gesto definisse exatamente o lugar. E você? Também estou indo pra lá. Só então percebeu que a menina falava sem abrir a boca. Tudo o que dizia Monalisa ouvia, a voz, dentro da sua cabeça. A menina acabou se apresentando: Já que você não perguntou. Vou dizer quem sou eu. Eu sou você. Não está me reconhecendo? Realmente não havia percebido. A menina era idêntica a ela, quando tinha sete anos. Do nada, a estrada que iam virou uma loja. Estavam agora, as duas, dentro de uma loja de cosméticos.
Monalisa criança, estava na companhia da mãe. A menina furtivamente pegou um baton que estava sobre o balcão e colocou dentro da bolsa de sua mãe. A moça lembrava perfeitamente daquele dia, vinte anos se passara. Nunca teve coragem de contar ao padre da sua paróquia, aquele pecado, nas confissões que fizera, até então.
Caiu a noite. Breu cá em baixo, céu estrelado, lá em cima, não dava pra enxergar muito, adiante. Pra piorar, veio um vento frio. Nada ruim, que não pudesse piorar: uma chuvinha fina começou a cair. Se passava um carro, clareava a moça, sozinha, na estrada. O relógio da igreja acusou sete badaladas, e se estava ouvindo o sino significava que pouco havia se afastado da vila. Quatro horas de caminhada.
De repente percebeu uma mulher caminhando a sua frente. A sua versão menina havia sumido. Emparelhou com a mulher. Para onde a senhora vai? Estou indo para lá. E acenou, com o queixo, o horizonte, logo adiante. Tudo o que estava a frente era destino. Escuro, desconhecido como naturalmente é, todo destino e todo futuro. Não vá me dizer que você, sou eu no futuro? Afirmou com um aceno de cabeça. Bela senhora de seus quarenta anos. Não se preocupe, no futuro não comestes nenhum crime sério. Mas o companheiro que escolherás para viver, mudará muito, e pra pior, depois da fase de namoro.
Justino, morava naquela tapera que Monalisa tinha visto, no alto do lajedo, caminho pra lagoa dos bodes, além das terras de Seu Jonas. A Barba enorme, as crianças o apelidariam de “Barba azul”, tinham medo de sua cara feia, fechada. Acabariam inventando histórias que misturava fatos reais e fantasia. Criaram uma lenda que em noite de lua cheia, virava lobisomem. Justino se protegia se isolando, o que só aumentava esse lado místico. Preferia a escuridão das madrugadas, pra andar pelas ruas. Um bando de cães, de companhia.
O dia raiou. A caminhada chegava ao ponto em que o cansaço ia minando as forças. E as coisas todas precisavam urgentemente ser resolvidas. As montanhas, lá longe, fumavam, nuvens frias roçando o topo, para os mais velhos que, era sinal que dias como aquele, que traziam o inverno. Um carro esporte, verde e branco, muito bonito parado a alguns mil metros a frente. O capô levantado indicava problemas. Um homem branco, bem afeiçoado, em trajes de executivo, praguejava ao telefone móvel com um pobre coitado, do outro lado da linha. Olhou-o rapidamente, teve certeza, era ele o seu futuro marido. Enquanto falava, ele a observava, num misto de estranheza e familiaridade.
Havia um menino a beira do caminho. O pretinho chamou-a de mãe. Pediu-lhe a benção. Pare com isso, não sou sua mãe! Eu sei que não é. A minha mãe já morreu... É que sinto tanto a falta dela. Posso chamá-la de mãe? Onde você mora, menino? Quando chegar lá, eu lhe mostro. É logo ali a frente. Alguns metros uma santa cruz, uma casinha de oração. Ao lançar um olhar ao interior do oratório gelou o coração de Monalisa. Lá dentro envolto em fitinhas coloridas uma foto do menino com quem falava. Instintivamente buscou-o, o garoto sumira.
Sorriso enigmático. Alguém algum dia, parou pra pensar, o que levaria um ladrão, a planejar, por meses, e até anos, o roubo da pintura de Da Vinci. Chegara porém, o momento tão esperado. A longa caminhada, tudo valera a pena. Acabara toda angústia, todo cansaço. Finalmente, lá estava. A menina não tirava os olhos da parede, vazia. Um espaço onde antes havia, a pintura, Monalisa.
O delegado parou a viatura, manteve o motor ligado. Desceu, contornou o veículo, e perguntou, Aonde a moça estava indo? Respondeu que ia adiante, sem rumo certo. Sobre o peito abraçava um pacote, algo fino, retangular. Impossível, ninguém podia transgredir, de forma tão impactante, a natureza das coisas, assim. Estar indo, a lugar algum? Como podia alguém ir a lugar nenhum? Isso ia de encontro a todo, e qualquer princípio da lei. Pior, incorria numa bruta transgressão. Passível de punição. Infelizmente. Teria que levá-la presa.

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