Um ônibus, na madrugada. Gigante azul, deslizando lento e calmo. Lembrava, nas formas, antigas geladeiras, da década de cinquenta, arredondado nas pontas. Molhado de chuva, semelhava um caubói, com imenso Ray-ban. Depois de noitada de farra, guiando, embriagado, sua Harley-davidson pela Rota 66. Lentamente foi se encostando a calçada. Parou. O som característico do balão de freio, se esvaziando sibilou noturnamente. A porta se abriu, para um passageiro subir.
Sunemoon, olhar sonolento, mesmo sem dizer nada, se despediu do poste, e da rua escura. Apanhando a mochila embarcou. Solidão, o seguiu, jamais a deixaria para trás. Alguns poucos passageiros dormitavam em suas poltronas. Foi assentar-se, numa, do lado da janela, na quarta fileira. Uma mulher, que acabara de subir passou, no corredor. Uma criança ao colo, e um menino de seus 16 anos a seguia. De onde aparecera aquela mulher? Tinha certeza, não havia ninguém, além dele, na rua. O coletivo, novamente em movimento. Instintivamente afastou a cortina, encontrou vidro negro e frio. O interior do veículo, antes iluminado, voltou ao breu. Monstro de aço engolindo a faixa negra, sob os faróis. Lá encima uma lua raquítica, boiando no piche granulado. Valor nenhum dava ao que acontecia cá embaixo. Cavalos do cão, mariposas, libélulas, camicases noturnos, estouravam seus miolos, nos imensos óculos do trovão azul, comedor de estrada.
O corredor do hospital estava cheio. Macas encostadas nas paredes ocupadas por pacientes nas mais diversas situações. Acidentados, ladeados de pacientes infectados, uma mulher entrando em trabalho de parto, um vaqueiro com o braço quebrado, uma vítima de arma de fogo. Ali, tudo junto. Cenário de guerra, um campo de concentração. Uma moça atirou-se ao chão gritando. Dois enfermeiros tentaram segurá-la. Qualquer um diria que aquilo, não era coisa apenas da área clínica. Uma força descomunal, parecia possuída.
Sunemoon estava no topo da colina. Uma altura considerável. Contemplava o vale que se descortinava ali a baixo, coberto por um verde exuberante. Esfumaçado o topo das montanhas, lá no horizonte. O céu azul, povoado de capuchos de nuvens brancas. Observando ao redor, viu que havia mais pessoas lá, além dele. Jovens conversavam animados, riam alto, enquanto faziam fotos. Um rapaz se aproximou, um gorro vermelho na cabeça cobria-lhe até as orelhas, o cabelo liso e negro, se sobressaía. Olhou para um lado, olhou para o outro, fechando os olhos, se atirou no abismo. Sunemoon, atônito, apenas observava. Ainda deu pra ver o corpo sumindo entre a vegetação.
A serra tinha nome e formato de barriga. Casas rústicas ali foram erguidas. Uma espécie de aldeia indígena, um enorme totem no centro representava os ancestrais da tribo que ali um dia habitara. Nativos vestiam roupas com estampas coloridas, homens e mulheres negras realizavam ritos tribais. Sentados em círculos apreciavam as danças, que eram também golpes de ataque e defesa pessoal. Um cigarro artesanal, feito de palha de milho e ervas aromáticas, sendo compartilhado. Na base do totem oferendas eram colocadas, garrafas de aguardente, vinhos, pratos com farofa, e pequenas caças assadas. O som de agogôs, atabaques e guizos feitos com couros de animais e cipós. Vozes bem ritmadas, e se transportavam em espírito a longínquas ilhas de Madagascar.
Paulaner descobrira que o moço que tentara puxar conversa, se chamava Sunemoon. Disse-lhe, sem o menor receio, que estava em tratamento psiquiátrico e que achava que estar ali não passava de mais uma de suas alucinações. E que tudo aquilo talvez fosse apenas efeito de medicamentos. E que sempre acontecia, logo após tomar as drogas que precisava tomar. Uma pra manter a calma, outra pra relaxar, outra pra dormir, e outra pra não ter pensamentos ruins. E lhe confidenciava: Parece que a única que fizera efeito tinha sido a de dormir. E esperava muito, que tudo aquilo não passasse de sonho.
Sunemoon, viu que seu aparelho móvel de telefonia só 5%, tinha de carga. Aquela lata velha, tamanho gigante, não dispunha de entrada pra cabo de carregador. Se seu telefone celular descarregasse, ficaria sem comunicação com o mundo. Pior, não teria como pagar a passagem. Estaria, completamente, isolado do mundo. Mas, e não era isso o que mais queria? O seu maior propósito, não teria sido alcançado? Não, até chegar ao destino ao qual pretendia. Um lugar ao qual havia sonhado. Certeza tinha, chegaria lá. Saíra de casa sem saber ao certo pra onde ia. O destino, é que iria ao seu encontro.
Sunemoon tocou-a levemente no braço dela dizendo, sinto muito dizer, mas, tudo aqui não apenas parece, mas é muito real. Caminhando foram até uma espécie de mirante, se despojaram de suas mochilas. Resolveram aproveitar a paisagem, que se oferecia. Encontraram, como que meio escondida, uma escadaria que dava acesso ao sopé da montanha. Lá embaixo, um formigueiro humano. Mulheres e crianças com rostos e pele queimados pelo sol, ofereciam lembrancinhas feitas de madeira e pedras encontradas ali mesmo, e que retratavam o local. De mãos dadas empreenderam a descida. Lá embaixo, esperavam encontrar Kleiner.
A médica do plantão tentando organizar aquela aparente desordem explodiu num forte brado. Alguém precisava dizer-lhe que, gritar em meio a uma balbúrdia apenas potencializava o caos. Nada havia de errado ali. De repente, pelos corredores, feito rastro de pólvora, se espalhou a boca miúda que o filho de um rico fazendeiro da região, teria dado entrada naquela unidade, com um objeto estranho, introduzido no ânus. O pai do moço apareceu bêbado, ameaçando todo mundo. A tão desconcertante notícia jamais devia ir, além dos corredores daquele hospital. Alguém iria pagar com a própria vida, caso isso acontecesse. Não sabia ele, que em Tóquio no Japão, os parentes da enfermeira Sakura, já estavam sabendo.
Uma pergunta tinha, a fazer, um ao outro. A respeito dos seus nomes. Sabiam não era nada comum, e a origem? Sunemoon quis explicar primeiro. O seu. era americano, seus bisavós teriam vindo para estas terras em busca de aventura fugindo da 2ª Guerra Mundial. Eram ourives e fundaram aqui uma relojoaria a qual poriam o nome de Sun & Moon. Seus pais quiseram que esse marca jamais sumisse, e deram assim, o nome ao primeiro filho.
Rindo Paulaner, disse, se você for a Alemanha vai me encontrar em todos os bares. É que meu pai é muito fã de cerveja. E quis que sua filha do meio tivesse o nome de uma marca de cerveja, que meus bisavós tanto consumiram em Munique, terra natal dos meus ancestrais.
O celular de Sunemoon descarregara completamente. Sentado na sala de espera do hospital, viu o menino do gorro vermelho entrar, o mesmo que saltara pra morte, no alto da montanha. Vinha caminhando enquanto puxava a rédea do seu cavalo. Sentou ao seu lado, passando a mão na fronte do animal, disse que se chamava Kleinerferd, e que era irmão de Paulaner. Só tinha um pedido a lhe fazer, queria que ele cuidasse bem de sua irmã.
A moça histérica que havia sido medicada a força, agora balbuciava calmamente olhando seu celular. O vaqueiro bêbado que quebrara o braço, numa queda de cavalo, parara de gritar de dor, agora dormia. A parturiente dera a luz uma criança do sexo feminino. Prometeu, ali mesmo, colocaria o nome da filhinha, de Vitória, em homenagem a médica que a assistira. O cara que levara um tiro, estava em coma, induzido. E tudo o que ele mais queria, era saber o que aquele cavalo estava fazendo ali, cheirando suas cobertas, ao lado, do seu leito de hospital.

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