Imagem obtida da ponte do Riacho Camoxinga . Ao fundo Serrote do Gonçalo.
Uma casa rústica, uma beira do cais. Um alpendre, um ser havia de ser. Um ser haveria de estar àquela cadeira de balanço. Uma bela mulher. Um ser haveria de estar, naquela rede, um belo rapaz. Ambos, sentindo o sabor do vento que vinha do mar. Também naquela cena, uma caneca de cerveja. Caneca branca, de louça, louçã. Perdendo frieza, ganhando calor, sobre um tamborete. A rua, de pedras largas, devagarmente afundando, ficando toda desigual. A se ver tão triste, ainda mais triste que antes do padecer do sol. A empatia da rua, o humor da praia, a depender de que lado batia à salina. Na casa dos passarinhos, gaiolas no jardim, tudo tão educadamente falante. Dizedores de coisas, que acabavam virando cousas. E Deus via que tudo, tudo era muito bom. Melhor era, não pensar em mais nada.
Tudo ali, nunca mais seria igual,
ao carnaval do ano passado. Ainda que aparentemente parecesse. Não era. Jamais
seria. Mesmo, no exato momento em que a orquestra ia passando. Poderia passar,
o tempo que fosse. Nunca, jamais esqueceria, daqueles dias. O sol pendurando suas
asas, pra aquelas bandas do mundo. A lavar a calçada de dona Dulce, banhando de
ouro o portão, o muro branquinho. Ricamente quente de arrancar fogo. E paixão. A
banda de pífano endoidecendo o entardecer, rabiscado bandeirolas brincalhonas.
A meninada, enquanto existisse mundo existiria meninos, e meninada. Eles viravam as coisas
às avessas. Esfregavam as cores nos olhos das meninas-moças, com tanta força, a
deixarem o baton e o rouge desgovernadamente borrados. Feito beijo a força. Beijo
roubado, sabor de pecado. Gosto de milho assado.
A garrafa de café, não
participava da conversa. Taciturna, livre de qualquer opinião. Muito embora precisasse,
em algum momento, tomar partido. O papagaio, de todas as tardes aproveitava pra
refletir, se valia a pena, compenetradamente se intrometer. Mesmo sem ser
chamado. O dia, de longe, opinava sobre
panos estendidos que não dera tempo enxugar. Pois se esqueceram deles, veio a
chuva e molhou. O sol, desde cedo, frio, acabrunhado, sem quentura.
Auspiciosamente cálido no agir. O colóquio a que estamos no referindo era algo
muito simples: Uma casa de praia, um casal enamorado, talvez em lua-de-mel. Um
menino e um camelo que esperavam, sabe lá Deus o que.
Um anjo perdido, cansado de
procurar seu protegido sentou-se, bem na ponta da calçada alta. Ficou ali balançando
as pernas. A auréola dizendo, sim, sim. A borda do manto, dizendo... vem, vem...
a ninguém. A mão direita fechada, em
punho, sobre a coxa. A esquerda aberta, exibia um anel dourado no anular, como
se acenasse pro mar. Anjo negro. A pior coisa para um anjo, era ficar sem ter o
que fazer. Porque sempre aparecia alguém pra criticar, pra dar opinião. Se não
estiver fazendo nada, um conselho, fique fazendo de conta que está
ocupado. Faça igual aos poetas, que tão bem disfarçam, fazendo de conta que
estão pintando flores, quando na verdade elas já estavam pintadas. E Exalavam
perfume sobre os terríveis pensamentos dos que planejam a morte de alguém. O
menino que olhava pro alto mar, parecia que sabia disso. Menino e mar, efeméride
esquálida, fortemente fatal.
Segundo mistério, o gato gordo e
branco com as íris dos olhos fechadas. Incomodado com a luminosidade diurna. Era muito
provável que pensasse nuns óculos, do tipo gatinha, que vira numa revista.
Precisava de um daqueles. Telhado preguiçoso, coragem pra nada, criando
musgo nas extremidades. A calha tocada de oxidação, bem ali, onde a maresia e as águas
da chuva faziam curva. Um enorme tigre de Bengala surgiu sobre as nuvens.
Tinha tudo pra meter medo na gente, mas ninguém se animou a mexer um dedo. A boca do
bichano fez, Oh! Só isso. E não conseguiu mais, por a língua pra dentro. E ficou
assim desse jeito. Assim, assim mesmo. E os que viram, passava de cem mil. Contando
os viventes, os descorados e os colorificados. O vestido de cetim sabiamente
deslizou sobre a pele e perfeitamente foi cair languido no sofá, e do sofá devagarzinho escorregou pro chão. Joe Dassin, na vitrola, insistentemente
orando: “E se você não existisse? Eu te inventaria.”
O camelo, considerado pelos
beduínos o animal, dentre os que tinham casco bipartido, o mais adaptado àquela
região, de clima desértico. Mas, o que fazia mesmo ali? Tão distante da sua
paisagem mediterrânea. Olhava o mar, só isso. E tão tranquilamente como quem
mascava chiclete. Se fosse realmente chiclete, seria sabor capim. Enormes
cílios como se fossem postiços. Babando, ruminando, e nem aí pra tudo isso.
Imitava em gestos e na aparência o jovem, que também aguardava um acontecimento
iminente. Este, realmente mascava chiclete. A goma de mascar de hortelã, já
perdera o sabor, de tão mastigado. Os olhos, ora pra casa de alpendre, ora no
alto mar. Olhos, boca, queixo e pescoço, só o que movia. Enquanto que as ondas iam e vinham, regurgitando uma espuma cor de
caramelo. O céu, a praia, o menino, as nuvens, os pelicanos, as fezes dos
albatrozes, os peixes do fundo do mar que nunca foram pescados, tudo ali
aguardava. E se aguardavam devia ser algo extremamente importante que estaria
para acontecer. Algo do tipo, um velho e um burro com dois caçuás, um contendo enormes palmas de bananas verdes, outro contendo peixes, recém pescados do
mar. Mas ninguém, nem Deus, sabia exatamente o que estava pra acontecer, algo que
talvez nem acontecesse. E isso, era motivo suficiente para martelar qualquer
cabeça, prestes a implodir.
Terceiro mistério. A roupa
alvinha do marinheiro, tão em combinação com o branco das penas dos albatrozes,
encimados nos dormentes e nos travessões das embarcações atracadas. As nuvens
confabulavam, qual o sentido daquilo tudo, que a tarde oferecia. E pior, sem nada
a pedir em troca. Um barrete de madeira alvo, cheio de fezes de albatrozes,
incrustadas. Assim ficava, de certo modo, difícil de viver. De um lado, só mar
que as almas vivas se cansaram de ver. E quando bem distantes estivessem, pensariam:
que saudade sentimos agora, do mar. E pensar, que tantos anos vivera, tendo ele
bem ali, ao alcance das mãos, dos olhos, da alma. Já os desobrigados de viver
ficavam contemplando dia e noite. Esses não se cansavam. E acabava fazendo as
coisas valerem a pena. O salgado do sal, o salgado do suor, do pescador, o
salgado das lágrimas, das mães que perderam seus filhos, para o mar, para o
mundo.
Primeiro mistério. O canivete, o
cachimbo, a vara de pescar, com molinete prateado, prateando, o
entardecer. O sol, severamente gasto de tanto uso. Cansado, se deitara, indubitavelmente
exausto, por cima das redes de pesca, severamente. Ressequidamente, ressacado de
maré, e de peixes. Aroma de crustáceo. Uma garrafa de rum, uma gaita de boca
sublinhando, alucinantemente o pernoite, quase doentiamente. A luneta, desocupada do
serviço de olhar, e de trazer até a praia o que estava lá no alto mar, dormia.
O menino que continuava esperando, ao sentir um vento frio açanhando-lhe o
cabelo, esfriando os dedos e a ponta do nariz. Isso levaria a ponderar que, àquela era hora de retornar a casa. Só então, percebera que não existia, não
naquele plano. Aquele menino nunca estivera lá. Pelo menos não, na época em que estamos
falando. Devia ser mais um, dos que havia esquecido, de subir.
O dia, a dizer coisas que lhes
pertencia. Homem velho indo ao mercado do peixe. Todo homem velho, da beira mar,
ia ao mercado do peixe. Menino, e sua bicicleta amarela, de aro empenado,
corrente folgada, daqui pra ali saltando do encaixe, dos dentes da coroa. Fatalmente
sujaria as mãos e a roupa, de graxa, ao tentar reengatar a engrenagem. Mulher
de avental estampado, com flores enormes, sujas de sangue de peixe, exalando
perfume de mar, os dedos turgidos de tanto sumo de limão cristalino. Toda
mulher da beira mar sabia cantar, como quem tratava peixe. Toda mulher da beira
mar criava menino pro mar. Toda mulher criava filhos como quem sevava
caranguejo guaiamum. Alimentando-os à
base de coco ralado, alface e farinha de milho pré-cozida.
O céu limpo, quase desanuviado, No
entanto, uma nuvem morena trouxe vendaval, desaguou sobre o casebre. Obrigando
o papagaio procurar melhor abrigo. O menino com sua bicicleta se amparou na
marquise da biblioteca. A bela senhora da casa dos livros se apressou a fechar as
janelas. O balde cor de piche foi parar debaixo da pingueira. O pano na soleira
da porta, pra reter a água que tentaria, e fatalmente entraria pelas frestas.
O florista, depois da chuva,
passou derramando suave odor de suas flores pela praia. Aproveitando a nesga de
amor flutuante no ar, displicentemente, largado pela transpiração do casal
enamorado. Eles haviam saído da casa de alpendre, a passear. Calçados nas mãos, iam pela beira, da beira do mar. Tão cheios de vigor, inflamando de ternura o ar. Salgados, leves de pensar em nada, só queriam sentir o que estavam sentindo
naquele momento. A esperarem que fosse para sempre. Iam pela faixa que as ondas
invadiam e recuavam, mas que deixavam pra trás espumas. Feito um lábio
molhado. Incrustado de ouriços, estrelas-do-mar, caramujos, unhas-de-velho,
águas-vivas. Tudo tão aturdidamente rico, de felicidade. Uma conchinha alvinha
foi parar na estante de casa, era uma forma de guardar tudo aquilo, fisicamente
vivo.
O homem, virara poeta, escrevia, com
seus olhos, versos que iam soltos pelo vento. Só os mais pesados acabaram
caindo na areia. E logo, devorados eram pelas ondas mais atrevidas. O pintor
decidira reter na sua tela, o sol, que Deus tinha acabado de fazer, ainda
quentinho, recém saído de suas divinas mãos. Ele, na sua infinita bondade, jamais esperaria pra ver o que a tela, fraca, humana, cheia de pecados e
defeitos revelaria. A moça, sem perceber, deixou cair do cabelo, a flor. Oportunista,
o homem em sua infinda maledicência a raptou. Nem preciso dizer, que ele a
deflorou. Devorou-a, com sofreguidão.
Ela, se entregou, não oferecera a menor resistência. Jamais. Aquilo era mais forte que suas forças. A taça de vinho derramada, de areia, molhada. Toda manchada,
marcada de batom, vermelho sangue.
O homem, a sua ínfima cozinha, a preparar um fruto do mar. Na parede o capitão dos mares, era ele. Em seu
traje azul fechado, com três faixas brancas nos punhos e os galardões a
ombreira. O porta-retrato na cômoda, a fotografia de uma mulher, de seus trinta
e poucos anos, sorridente. Parecia feliz.
Na vitrola, um disco, reluzentemente negro, alucinadamente rodopiando.
“E si tu n’existais pás/ Dis-moi pourquoi j’existerais?/ Pour trainer
dans um monde sans toi/ Sans espoir Et sans regret/ Et si tu n’existais
pás/ J’essayerai d’inventer l’amour/
Comme um peintre qui voit sous sés doigts/ Naitre lês couleurs Du jour/ Et qui
n’em revient pás.




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