As Cinza do Velho Eon. Conto 11/09/2026.






Uma Máquina. Muitas vezes, uma velha “Maria Fumaça”, conta mais história que o personagem de um romance. Relata de alguém, que ninguém jamais escreveu. E falam de homens que deixaram para trás família, filhos, esposa. A se aventurarem, muito longe de casa. Sem sequer saber se um dia voltariam. A abrirem caminhos a ferro e fogo, mesmos por dentro de rios. Construção de estradas de ferro, estradas de carro. Estradas da vida, de tempos idos. Chegaram a lugares longínquos que jamais pensariam chegar. E se vivos, um dia  sairiam de lá.

O Homem. Nas feições aparentava idade de quem já acabara, pelo menos, uns três daqueles corpos. Assim franzino, desta grossura. Tão tantinho assim que aquilo quando morresse, a terra ia ter muito pouca coisa pra mastigar. Apesar de tudo, o franzinozinho era arrogante, metido a besta, que só. Cabeleira branca, barba e bigode brancos, olhos inquietos. A única coisa que olhava com interesse era a caatinga, o céu, o pôr-do-sol.  A vida do homem era ajeitar coisas do mato, da roça.  Ajeitar uma cerca, tirar um mel dum enxame de abelhas, Curar uma ferida numa vaca, limpar um açude, queimar uma coivara. Rio preto e Rio pardo sua pareia de bois mais querida. De canga, vara de ferrão e facão lá ia, no meio do tempo. Assuntando junto a Deus e Nossa Senhora, entre baforadas de um “braço de Juda”, cigarro picado a faca, enrolado num pedaço quadriculado de palha de milho seca.   

Os chapéus contavam sobre guerras, sobre malas de couro, gastos, mofados, sobre segredos guardados junto com coisas, e cheiros antigos. Ainda moço, enfrentaria noites insones ao voltar aos porões e sofrerem sevícias. E flagelos de tiranos e suas tiranias, de revoltas e revoluções. Olhos tristes lacrimejantes de bombas de gás. Queimaduras e feridas de abertas por cassetete. E de orvalhos que sulcaram feridas nas searas dos seus rostos. Sublimando limo nas pedras e ferrugens nas engrenagens dos trens, que partiam levando amarguras, desilusões. Gente pobre, padecendo de doenças sem cura. Cujas memórias comprometidas pela idade, e tempestuoso cisma de vendaval na alma. Nem bem percebia a violência do tempo, e a brevidade, de século e meio, de segundos. E dali a pouco era pó, varridos da face da terra. E ninguém mais sequer, lembrava de suas existências.

O cachorro. Ficava olhando o mundo, e os modos estranhos com que tratava as criaturas. A  brisa possuía determinado valor. Os cheiros que as narinas conseguiam captar falavam de coisas que aprendera ainda filhote. Dali a muitos quilômetros, Rio pardo agonizava. A seca implacável, o camponês, desumano, preferia perdê-lo para os urubus a ver dependurado por uma pata, pingando sangue no balcão de cimento, na tarimba do mercado, retalhado por ínfimo dinheiro. Uma cobra jibóia deslizando seu ventre frio pelo lastro do mundo, era menos perigoso que o olho do marchante. Um bando de andorinhas se esquivando sobre as copas das árvores teriam sempre mais a ensinar, que cantiga de ninar com intenção de botar medo em gente miúda que demorava a pegar no sono.

Jabuticabas, olhares noturnos, siriguelas, rede gemedeira, coração-da-índia ainda verde, travoso sapoti. Juás apoquentando infames consciências de saguis. Pitiguaris selvagens a bicarem goiabas.  Araras fluíam nuança de plumas, aquecendo os olhos negros com suas cores, dilatando narinas. A seta do dia afiada vencendo a barreira do ar, e do som. O cão, rosnou mostrando os pontudos caninos. Bem de frente pra uma onça, miseravelmente faminta. Desejou nunca estar ali, no meio do aceiro, Gosto de sangue veio-lhe a boca. Pobre Veludo.

As nuvens nunca nascem pelo acúmulo de ideias. A bala que sibila por dentro do ar atmosférico agride tanto e tudo, até alcançar nervos, músculos, tecidos. A morte, e sua mais cruéis particularidades. Em especial, a de ir entrando no ser vivo ainda que não tenha sido chamada. À medida que o sangue se ia esvaindo. O porco-do-mato enlaçado pela Boa contrictor num bailado voluptuoso, excitante, insinuantemente sexual, macabro. A esperança e sua capacidade de nascer à medida que as janelas descerram as trancas. Encerram atrás das portas, versos que nunca foram escritos, nem ninguém jamais declamou. Uma maçã sobre a mesa de forro branco, em toda sua beleza e viscosidade deslumbrantemente desmaiada e desejada. Como os sedosos lábios da virgem. A saudade das coisas que ninguém nunca imaginou, pecados que maculavam as mentes pueris. Traduzia-se em viscosa baba semelhante a de mexilhões. Loucura de colméia de abelhas, mentes atormentadas, impaciência de um vespeiro inquietante.

O branco dos olhos conseguia guardar em suas entranhas. E passaria adiante o lilás, e o amarelo que se insinuava, toda vez que o vermelho carmim vinha com o rosa prosear. Um pilão de socar cuminho, um naco assim de sebo de carneiro capado, pendurado no caibro do alpendre, um bocado assim de semente de abóbora, secando encima dum grajau.  Um recavém a disposição dos grilos, das moscas, dos cupins. Os sinos, estes sabiam perfeitamente dissimular os ventos, as ventanias, as brisas suaves. Sem jamais perderem as estribeiras, nem desembestar feito cavalo desgovernado. Atirando ao solo cavaleiro encolerizado.  As crinas ganhariam campinas indo se misturar a poeira da estrada.

Os familiares, nunca se entenderam. Heranças nunca antes divididas. Moendas que deram tantos lucros, e agora que não mais giravam, não rangiam mais as palhetas. Envelheceram, tanto que criaram lodo nas partes internas. E assim que chegasse o inverno, raposas chocas, fogo-corredor, caipora seriam os habitantes dos charcos. A barragem tomaria tanta água a não suportar mais, tanta. O velho, de tão velho não conseguiria mais sair da cama, gemeria de frio, e sentiria saudade de sua amante. A esposa endureceria o coração, sem mais sentir pena da sua cegueira abandonou-o a sorte. E quando veio a faltar suprimentos. Pra não morrer de fome e sede, bebeu o sangue de um bacurau, que encandeado foi cair-lhe ao pé da cama.

O gato. Já não tinha muito ânimo pra nada. Vivia agora de se lembrar do tempo de jovem. A comida podia passar andando na sua frente – um gabiru  –  não se animava a empreender caçada. O pelo não cumpria mais a função de aplacar o frio. Entristeceu só de lembrar que não brincaria mais correndo atrás das folhas, quando chegasse o outono. No verão reclamaria os telhados avermelhados de quentura boa pra dormir e sonhar. O musgo tomando de conta de tudo, uma tira de couro de veado a cumprir importante função de espantar morcegos. A entrecasca do pé de aroeira. Uma relíquia potente, um chá capaz de curar até tristeza, solidão e de quebra uma constipação.

Se houvesse amanhã, haveria amanhã. E seria para dizer, quão preciosa era a matina. O arvoredo, feito oração de criaturas tementes a Deus. A folhagem, revelando aspecto nunca antes observado pelo olho de um ser não animado. As portas, e o nobilíssimo dom de amadurecer sentimentos. O fluxo de luz que podia trazer paz, aquecendo dentro das veias junto ao sangue. A poeira abaixando, a onça se afastando levando entre as presas, Veludo, morto.

Nos dias de ficar deprimido, aproveitava pra ficar bêbado. Os reflexos comprometidos acabavam causando pequenos acidentes, uma facãozada no dedo polegar. Pucumã de teias de aranha pra aplacar o sangramento. Notou que estava ficando com os pés inchados. O olho direito, operado de catarata, não conseguia enxergar tanto quanto o esquerdo. Por acaso, descobriu a deficiência, no dia do eclipse lunar. Fechou um olho, viu perfeito com o que estava aberto. Fechou, e abriu o outro. Com aquele, não via bem. Uma nuvem embaçava tudo.  Três semanas ficaram  acampados na ribanceira do rio, atalhando o gado pra enchente não levar. Ao voltarem a civilização ficaram sabendo que as milícias haviam passado. Não demoraria, haveria derramamento de sangue. Tropas federais fediam a pólvora, e a cadáveres.

Dona Carmem, fora paixão proibida. A brutalidade do pai teria feito dele, um menino tímido retraído. De poucas conversas. Como foi se apaixonar pela professora, não sabia direito o porquê. Talvez porque fosse a única pessoa que o entendia. O trabalho do campo, cansativo, dia a dia, que sempre o levava a exaustão. Crescera em cima duma montaria. Conhecia as manhas de um por um: jegue, cavalo, égua, mula, mulo. Uma parelha de bois para puxar um arado, era sua especialidade amansar. Pinicar balaios e mais balaios de palma, buscar água no açude pra encher o tanque do banheiro. Quebrar umas espigas de milho seco no aceiro da roça. Moer os grãos no moinho. Colocar pra quarar.

A verdade muitas vezes é muito mais cruel do que se possa imaginar. E doía como ferida feita com lâmina afiada. Tinha medo. Medo de dormir e não acordar, medo de ficar sem respirar, medo de olhar pra lua, medo do olho negro do pato. O olhar do cavalo era perturbador, se lhe olhasse fixamente ficava suando, verdadeiro pavor, sentia calafrios, vontade de sair correndo até se cansar. Vontade de sumir, desaparecer. A raiva era sentimento ruim. Temia que esse sentimento fosse percebido. E acabasse tendo a fama de maricas. De cabra mole. Descontava na cachaça.

As roupas. As que costumava usar quando era menino. Eram simples Camisa de mangas curtas, uma carreira de botões, calção, suspensórios, botinas nos pés. Quando fez treze anos, descobriu o sexo. Curioso, observara galos e galinhas, namorando no meio do terreiro. Ficaria excitado ao ver o cavalo com a égua, o jegue com a jumenta, os cães com as cadelas. Por diversas vezes melou os calções. Naqueles momentos lhes vinha ao pensamento a sua grande paixão, dona Carmem, a professora do primário.

O gato às vezes, nem tinha noção do perigo, que corria. A ideia de ter sete vidas, ia muito além do que o pensamento era capaz de conceber. Achava aquilo bobagem, lenda contada nas calçadas pra entreter meninos. Odiava meninos, eles eram inconsequentes, precisavam ter melhor noção das coisas. E o que significava ter que carregar botijões de água de um açude até a casa. A bela senhora andava como quem desfilava. Senhora dama, cuja pele enrugara, a mocidade deixada para trás, antes mesmo de ficar velha. Criara os filhos dos outros. Filhos dos seus irmãos que partiram em busca de destinos e de ganhar dinheiro. Dona moça, só não dera de mamar aos sobrinhos por não ter leite nas mamas. Improvisava uma mamadeira com farinha láctea. E a tia-mãe os educaria na fé cristã. É pena que Deus não entrava nas pessoas pelas mamadeiras.  

As maritacas, atacavam o amanhecer, o desenrolar e o descer das horas. A retidão da estrada repleta de solidão, e amargor das almas largadas à beira do caminho, sem ter o que fazer. Meninos que deixaram cedo essa vida, presos a um destino de infinitas horas que os relógios nem contavam mais.  Se desdobravam, repetindo a mesma coisa, todo santo dia. Pegava a carroça, nem sabia a quem pertencia. Tomava-a pelos punhos, e ninguém se inventasse de reclamar, pois ia assim mesmo.

Cachorro não fazem amizade com anum. O negro do pelo não se dava com o negro das penas. Voar compreendia o poder de ir até os altos muros da penitenciária. Homens encarcerados gastando suas miseráveis vidas dentro de cubículos mal-cheirosos. Pagariam por décadas seus crimes, que iam de furto de pequenos objetos agrícolas, suínos, ovos, galináceos. Nos dias de visitas procuravam fazer amizade com as moças da igreja, que lhes garantiriam sabonetes, toalhas novas, lâminas de barbear, cigarros, fósforos.

Os aldeões tiravam retratos a porta de casa. Ao lado do barbeiro, e do anão. Uma bruxa que ia passando na hora foi pega, em pleno voo pelo flagrante. O mago a reconheceria, porém nada disse. O chapéu do mago ficou triste, suas cores desbotaram, mas na saiu do lugar onde estava. Começou a murchar, tanto que encolheu sobre si, em poucos instantes ressacou totalmente.

As aves, elas são, espirituosas, e cheias de humor, bastam descobrirem que são aladas, que poderosamente possuem a capacidade de voar, pra desfrutarem abusivamente desse benefício, proporcionado pela natureza. Defecam sobre as cabeças dos pobres andantes aqui de baixo. Se fosse a cólera, a raiva e a ira sentimentos nobre, a grande parte das aves canoras, e de rapina que migraram pras urbes seria dizimada. As que se salvassem seriam devolvidas aos alagadiços, aos mangues. Ali muito bem viveriam, e se alimentariam de pequenos momentos. E velha locomotiva, passaria apitando, bufando tufos de fumaça, levando para a eternidade, as cinzas do velho Eon.








MAKE OFF














 

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