Gênesis : 1966 - 1996 : Êxodo.





Foto Mirante da Ponte do Padre - ano: 1954?


Havia um quadro que nunca esteve na parede. Dizia uma tragédia e meia. Envolto em silêncio. No entanto falava tão alto. Tanto quanto qualquer livro. Um homem morto, caído sobre seu cavalo, também morto. E nem era aquela, a última cena visível, real. Mais um remédio para ser tomado, chegou. Bem na palma da mão, lúcido, ladeado de um copo d’água. Trinta segundos, bastaria para a vida virar outra. E a página da amargura e da angústia ir junto. A paisagem mudaria completamente. O deserto cintilante, o calor de antes, já não sufocava tanto. As narinas sanguineamente avermelhadas se dilatavam, e se contraiam compassadamente. A aflição dantes poderosamente gritante esmaecia. Porém, nada acontecia. Dentro daquela realidade, a única coisa que chegava, era se: daria para sobreviver?

Livro de Êxodo. Um Moisés surgiu, ele sempre aparecia - do nada - vindo de um lugar qualquer. Alegou que não sabia falar direito, que tinha dificuldade de se comunicar. Mesmo assim aceitou conduzir o rebanho. No entanto, não demorariam a eles, esquecer os ensinamentos. Bastou afastar-se alguns dias, e construiriam um bezerro de ouro. Modesto edifício, de salas climatizadas, de longos corredores, hall movimentado. Naquele inacreditável e mortal lugar. Como uma ilha, plantada, numa planície, pobre de vegetação, sol, calor, rica de areia e solidão. Naquele lugar inóspito, de paisagem mesopotâmica. Entre cactos e vegetação rasteira florescera - rubra rosácea: flor do deserto. A casa de acolhimento e apoio, para os doentes mentais.  E viu, que tudo era muito bom.  

Os líderes, eles sempre seriam admoestados. Em rebanho, uma turma de alunos, e o mestre, pegaram a estrada. Era domingo de manhã. De repente, centenas, seguiam em caravana. Cada turma com seu tutor. E foram parar num museu arqueológico. A cidade pequena, porém uma maravilha! Esqueletos de capivaras gigantes. Dentições de enormes mamíferos dentro de cúpulas de vidro. Costelas, fêmures branquinhos, mãos e unhas, detalhadamente identificadas com os nomes a quem pertencera. A menina, fora ela que trouxera essa lembrança. Isso explicava tudo, calmamente, e não se incomodava em repetir.

Livro de Gênesis. A primeira coisa que lembrava: uma calçada em frente ao grupo escolar Padre Francisco Correia. Chorava, porque não queria ir pra escola, tinha só seis anos de idade. Uma bicicleta, quase todo menino um dia sonhou ter uma. Um corcel 73, só viraria sonho quando chegou aos 30, incitado por um cantor de rock. Isso quando, já havia dobrado a idade da bicicleta. A primeira garota pelo qual se sentira atraído, fora nos bancos da escola. Baixinha, cabelos castanhos, compridos, o rosto redondo, olhos amendoados, pele da cor de panela de barro. Na aula de latim decorou a frase que a homenagearia numa poesia: “Puella pulchra”. A menina, mimada por Seu Manuel, professor de português. A “Menina bonita” se foi, não mais está entre nós. A poesia, essa ainda existe.

A ditadura militar lhe chegaria, ao ver o irmão mais velho sendo contido pela polícia, e tendo seus longos cabelos cortados, levados ao vento, em plena rua. Aquilo foi traumático. Tanto, que chegou aos sessenta, voltando pra casa com o rosto ardendo em brasa. Coberto de vergonha. Um homem bêbado, se sentiu incomodado, no meio da rua com as chacotas da meninada. Achou de ir reclamar ao pai. O que lhes renderia uma tremenda sova. Isso também ficara marcado. Assim como o medo, estampado nos rostos das pessoas, ao ouvirem falar de Zé Crispim, Zé Gago, e Valderedo. O jipão da polícia, passando nas ruas, bem devagar, dando o toque de recolher. Caminhão com pés de maconha, chegando a delegacia, amontoando a erva no pátio da delegacia, e tacando fogo, queimado, elevando aos céus uma nuvem de fumaça negra. As tropas federais fazendo treinamento nas caatingas. Galego, um menino, dentre nós, encontrou várias cascas de fuzil, entre aquelas havia um projétil não detonado. Achou de colocar no fogo, pra ver o que acontecia, teve dois dedos estraçalhados.

Livro de Eclesiastes. Pra tudo há um tempo, debaixo desse mundo de meu Deus. Tempo de rir, tempo de chorar; tempo de entristecer; e tempo de se alegrar; tempo de espalhar; e tempo de ajuntar; tempo de esquecer; e tempo de lembrar. Teve um noite que foi buscar refúgio na ribanceira do rio. A lua lançou seu olhar triste, mas não era pena, o que sentia, apenas compaixão. Aquela mesma lua esteve naquele mesma posição. Na noite que velou o pai no caixão, no salão paroquial. O velório, não foi em casa, porque era véspera do sete de setembro. Na porta de casa ocorria o cerimonial do desfile cívico, pelo dia da pátria.

Lá pelo Livro de Reis de sua vida. Foi de certo modo, tempo de boemia. Adquiriu de um colega de trabalho, do tempo que trabalhou num canteiro de obras como desenhista técnico, uma vitrola portátil. Depois um rádio portátil. Um violão, que o pai prometera quebrar na cabeça, isso foi bem antes. Marquinhos de Seu Breno, teria dito que não era fácil ensinar tocar o instrumento, a um, não destro. Uma máquina de datilografia ganhou do tio Dorival, serviu para compor muitos versos, e preencher documentos da previdência social, ganhando alguns trocados por isso. A motocicleta, de óleo de dois tempos, impregnava com seu fedor as roupas, o cano de escape alto. Tempo de ir ao baixo meretrício, perder a virgindade, contrair gonorréia, com uma quase índia cabocla. Teve vergonha ao ter que procurar o farmacêutico Alberto Agra que lhes indicaria as injeções de Benzetacil, as mais doloridas do mundo.

Uma bicicleta Monark, das de adulto. O irmão adquiriu uma, com vendas de saquinhos de suco congelados, apelidados de sacolé, e “Flau”. Nem precisava sair pelas ruas, ou ir a beira de campinhos de várzea pra vender. Um pequeno cartaz escrito com pincel atômico, colado ao lado da porta de casa. A mãe fez um cofre com uma lata de leite em pó, vazia. Aonde ia colocando os dinheiros das vendas.

Livro de Números. Minha vó, vendia cocada. Ela colocava os dinheiros embaixo de um paninho branco que forrava o móvel de nome engraçado, cristaleira. Um dia percebeu que havia sido roubada. Além de levarem algumas cocadas, levaram o dinheiro, todo o apurado, que ia debaixo do paninho. Era com aquele dinheiro, que compraria novos cocos, e açúcar, para o feitio de novas cocadas. O tacho liberava um cheiro acre doce, que aguçava narinas de toda gente. Por toda a rua, ia o cheiro de cocada. Foi como recenseador do Ibge, que passou por situações interessantes:um senhor idoso teve medo de o receber em sua casa, o homem  adoeceu por isso. Agradecido a Deus porque não morreu. Pulou a casa da menina. Não se sentia bem ao ponto de entrevistá-la. Maldita timidez. Esta outra menina continua, ainda hoje, muito bonita, mesmo que com mais idade.

Entrar num automóvel, não é o mesmo que entrar num carro. Muito menos num bonde, ou ônibus. Os transportes coletivos. Nos carros, neles estamos quase sempre em estado de alerta. Bom é viajar de ônibus, em especial quando está chovendo. Olhar as serras lá no horizonte, se imaginar chegando naquelas casinhas longínquas. Imaginar-se se aproximando e percebendo a reação de surpresa das pessoas que viviam ali. Teve um momento ruim vivido dentro de um ônibus. Estava voltando da capital  para casa, cansado resolveu tirar um cochilo. Acordou com um cano de espingarda doze apontado para a testa. O agente civil, pediu que apresentasse documentos. Não tinha nenhum. Naquela situação incômoda, vexatória. O agente não contou conversa: deu voz de prisão! O ônibus seguiu o seu, e o meu destino. Quanto a nós, ficamos detido, na viatura. Por não estar portando documento. Simplesmente assim: por não poder comprovar quem realmente éramos. Décadas estávamos distantes do surgimento dos aparelhos de telefonia móvel.

Evangelho de São Mateus. Vós sentais, bebeis e comeis, com gente da pior espécie. Ao largar o trabalho do canteiro de obras de construção de rodovias, no povoado Mato Burro. Em pleno meio dia de sábado, solzão num céu azulão, envolto por nuvens cúmulus que brincavam de formar figuras no infinito. O espírito ia solto, alegre, por viver aquele momento. Dirigiu-se ao boteco, que ficava no outro lado da estrada. Doido pra tomar umas canas. E assim dar início ao final de semana que prometia. Inesperadamente chegou ali, um baita dum carrão vermelho. Chegou com sua voz de trovão, levantando poeira. E o seu, também possante, proprietário desceu. Desceu como quem desce dum cavalo. Batendo no chão com as botas, cinto do tipo fivelão, chapéu caubói. Aproximou-se, depois da saudação, declarou: Rapaz! Gostei de você... Vamos beber, e comemorar esse nosso encontro. O destino nos colocou no mesmo caminho. E isso precisa, e deve ser comemorado. Após muita bebida consumida o moço achou de exibir suas armas.  Revólveres, pistolas e espingarda. Um guarda rodoviário que a tudo observava não gostou. Já sabemos no que isso poderia dar. E deu. Acabara indo a vias de fatos. O saldo: O guarda ferido no pé, e o caubói valentão na cadeia. Lembrei de como é bonito um canteiro de obras, cada um dos que estavam ali, realizando seu trabalho, e paulatinamente, modificando, para sempre, a paisagem. Onde antes havia uma estrada de barro, a faixa negra do progresso chegara. E sem pedir licença, passou por cima, seguiu em frente.

Livro da profecia de Daniel. Aqueles bovinos pastando naquelas serras tão íngremes. E vinha um pensamento meio doido. Se viesse uma ventania arrastaria os bois lançando-os no ar, e endoidariam pra dentro de um redemoinho que os levarias pra terra do nunca. Onde existem Peter Pan, capitão Gancho, Sininho e outros seres que nunca envelheceram, nem nunca morreram. Eles eram para sempre. Quem nos abasteciam de tamanha criatividade, eram os desenhos que víamos na televisão: Tom e Jerry, A Pantera Cor-de-rosa, Papa-léguas, a Corrida Maluca, O gato Manda-chuva, The Flintstones, The Family Jetsons.

Livro de Levítico. Um lugar utópico, onde as doenças que porventura alguém contraísse, tinham que ser curadas antes do por do sol. Pois no dia seguinte, as pessoas já não estariam mais doentes. E nas idas ao rio, cumpriu com as palavras sagradas, não contraindo comércio sexual com seres que não fossem de sua espécie. A fêmea do asno serventia de alívio sexual para tantos amigos. Também havia os que tinham tendências homossexuais, não se furtavam a auxiliar os amigos. Havia o indígena Carlinhos, que morava próximo ao famoso poço dos homens, sempre solícito para com os que lhes procurava.  As galinhas, os patos e perus, ninguém se preocupava se precisavam de cuidados veterinários, se suas genéticas era boa pra reprodução, produção de carne, ou poedeiras. No dia seguintes, já não eram galinhas do terreiro, mas pavões, faisões, galinhas d’angola.

As abelhas produziam mel, o dia inteiro. E não havia necessidade de ser agressivas, matarem um animal, um burro por exemplo. Certa vez um asno coitado, se encontrava amarrado na porta da sorveteria. O enxame ia passando, e simplesmente parou e o atacou. Deu dó de ver o pobre quadrúpede sendo ferroado, até que tentaria safar-se do ataque, porém sem conseguir agonizou. E mais nada se poder fazer.

Exatamente naquela esquina que dava para a Companhia Telefônica. Naquele mesmo poste, outro animal teve sua vida ceifada. Um urubu pousou sobre o poste, ao tentar alçar voo a ponta da asa, tocou no fio de alta tensão, foi o suficiente para matá-lo. O tempo passou. E na rua dos porcos, outra tragédia. Um ônibus desgovernado desceu a ladeira, o motorista não conseguiu frear, o balão vazio. Acabou matando uma pobre preta que se encontrava na calçada, arrancando-lhe o braço. Anos se passaram. E um pintor contratado para mudar a cor da fachada da oficina eletrônica. A mão, que portava a brocha ergueu para a primeira demão de tinta, um leve descuido, e bateu no fio. O respingo assinou na parede dizendo: morte!

A Torre de Siloé. Uma tragédia quase que anunciada. A rua era a de São Pedro, e a família a de Vicença. Vicença foi comprar pão, na bodega de Seu Carrito. De volta, passou na mercearia de Seu João Frade. Um estrondo, como um trovão, se ouviu. Mas o céu estava límpido, o que houvera então? Ao chegar a casa, não havia mais casa! No lugar, uma flor de horror despetalada. Um cheiro de pólvora queimada no ar. Seus familiares fabricavam fogos de artifício, a casa inteira acabara de ir pelos ares. Uma rede do cariri, foi parar na cumeeira, a linha da casa toda engembrada, com uma perna dependurada, na calçada uma cabeça, noutro canto um braço. Na sarjeta, no outro lado da rua, um pênis que não serviria mais a quem um dia pertencera.

Carta aos Tessalonicenses. Um dia, na cidade de Petrolina escreveu uma carta a sua mãe. Aconteceu que chegaria primeiro que a carta. Dizia que estava com muita saudade. E como achou bom e ao mesmo tempo chato, estar de volta. Entendeu que saudade era coisa boba, saudade fazia as pessoas de bobo. Da cidade de Porto de Pedras que antigamente se chamava Águas Belas, também enviou carta a mãe, dizia que sentia saudade, mas não era saudade de endoidar pra ir embora, dava pra suportar. Desta vez, não chegou primeiro que a carta. Ficaria por lá, oito anos. Tempo que namorou o mar, cantou para o farol, subiu a montanha, agradeceu a Deus, fez filhos. E voltou pra casa, feliz, com uma mão na frente e outra atrás. 

Era uma vez uma vila imaginária. As pessoas eram assim, simplesmente felizes. Olhavam para o céu e sorriam, e iam. Cada um para suas atividades diárias. E as pessoas não precisavam votar pra eleger seus governantes. Não necessitavam disso, todos sabiam exatamente o que precisavam, e deviam fazer, para se sentirem realizados. Jamais perdiam seus sonos, preocupados com o dia de amanhã, porque não existia amanhã. Só existia o hoje, o aqui, o agora, o já. Cada dia em si, era único, primeiro e último. Todo dia, todos nasciam, todo dia, todos morriam. E ao acordar, as pessoas se cumprimentavam como se nunca tivessem se conhecido ou já se conhecessem eternamente. Na verdade jamais deixaram de se conhecer. Acontecia, no entanto, que sempre pertenceram, as suas eternas famílias. Nunca permitiam que jamais perdessem o vínculo. E tudo isso, nunca passaria de um sonho. 









Make Off




Minha neta Sofia fantasiada pelo 
Dia de Ação de Graças. na Escola





Santana do Ipanema - AL. Visão Aérea ou da Torre da Igreja de Senhora Sant'Anna?






Foto tirada num cair de tarde, da porta do Santuário de Senhora Sant'Anna. Numa quinta-feira do mês de outubro de 2026.


MAKE OFF







bike de meu neto THOMAS KAEL


FOTO em Preto e branco da PONTE DO PADRE    EM QUE ANO? 1955?


Fim de Papo...



 

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