Havia
um quadro que nunca esteve na parede. Dizia uma tragédia e meia. Envolto em
silêncio. No entanto falava tão alto. Tanto quanto qualquer livro. Um homem
morto, caído sobre seu cavalo, também morto. E nem era aquela, a última cena
visível, real. Mais um remédio para ser tomado, chegou. Bem na palma da mão, lúcido,
ladeado de um copo d’água. Trinta segundos, bastaria para a vida virar outra. E
a página da amargura e da angústia ir junto. A paisagem mudaria completamente.
O deserto cintilante, o calor de antes, já não sufocava tanto. As narinas
sanguineamente avermelhadas se dilatavam, e se contraiam compassadamente. A
aflição dantes poderosamente gritante esmaecia. Porém, nada acontecia. Dentro
daquela realidade, a única coisa que chegava, era se: daria para sobreviver?
Livro
de Êxodo. Um Moisés surgiu, ele sempre aparecia - do nada - vindo de um lugar
qualquer. Alegou que não sabia falar direito, que tinha dificuldade de se
comunicar. Mesmo assim aceitou conduzir o rebanho. No entanto, não demorariam a
eles, esquecer os ensinamentos. Bastou afastar-se alguns dias, e construiriam
um bezerro de ouro. Modesto edifício, de salas climatizadas, de longos
corredores, hall movimentado. Naquele inacreditável e mortal lugar. Como uma
ilha, plantada, numa planície, pobre de vegetação, sol, calor, rica de areia e
solidão. Naquele lugar inóspito, de paisagem mesopotâmica. Entre cactos e
vegetação rasteira florescera - rubra rosácea: flor do deserto. A casa de
acolhimento e apoio, para os doentes mentais.
E viu, que tudo era muito bom.
Os
líderes, eles sempre seriam admoestados. Em rebanho, uma turma de alunos, e o
mestre, pegaram a estrada. Era domingo de manhã. De repente, centenas, seguiam
em caravana. Cada turma com seu tutor. E foram parar num museu arqueológico. A
cidade pequena, porém uma maravilha! Esqueletos de capivaras gigantes. Dentições
de enormes mamíferos dentro de cúpulas de vidro. Costelas, fêmures branquinhos,
mãos e unhas, detalhadamente identificadas com os nomes a quem pertencera. A
menina, fora ela que trouxera essa lembrança. Isso explicava tudo, calmamente,
e não se incomodava em repetir.
Livro
de Gênesis. A primeira coisa que lembrava: uma calçada em frente ao grupo escolar
Padre Francisco Correia. Chorava, porque não queria ir pra escola, tinha só
seis anos de idade. Uma bicicleta, quase todo menino um dia sonhou ter uma. Um
corcel 73, só viraria sonho quando chegou aos 30, incitado por um cantor de
rock. Isso quando, já havia dobrado a idade da bicicleta. A primeira garota
pelo qual se sentira atraído, fora nos bancos da escola. Baixinha, cabelos
castanhos, compridos, o rosto redondo, olhos amendoados, pele da cor de panela
de barro. Na aula de latim decorou a frase que a homenagearia numa poesia:
“Puella pulchra”. A menina, mimada por Seu Manuel, professor de português. A
“Menina bonita” se foi, não mais está entre nós. A poesia, essa ainda existe.
A
ditadura militar lhe chegaria, ao ver o irmão mais velho sendo contido pela
polícia, e tendo seus longos cabelos cortados, levados ao vento, em plena rua.
Aquilo foi traumático. Tanto, que chegou aos sessenta, voltando pra casa com o
rosto ardendo em brasa. Coberto de vergonha. Um homem bêbado, se
sentiu incomodado, no meio da rua com as chacotas da meninada. Achou de ir reclamar ao pai. O que lhes
renderia uma tremenda sova. Isso também ficara marcado. Assim como o medo,
estampado nos rostos das pessoas, ao ouvirem falar de Zé Crispim, Zé Gago, e
Valderedo. O jipão da polícia, passando nas ruas, bem devagar, dando o toque de
recolher. Caminhão com pés de maconha, chegando a delegacia, amontoando a erva
no pátio da delegacia, e tacando fogo, queimado, elevando aos céus uma nuvem de
fumaça negra. As tropas federais fazendo treinamento nas caatingas. Galego, um
menino, dentre nós, encontrou várias cascas de fuzil, entre aquelas havia um
projétil não detonado. Achou de colocar no fogo, pra ver o que acontecia, teve
dois dedos estraçalhados.
Livro
de Eclesiastes. Pra tudo há um tempo, debaixo desse mundo de meu Deus. Tempo de
rir, tempo de chorar; tempo de entristecer; e tempo de se alegrar; tempo de
espalhar; e tempo de ajuntar; tempo de esquecer; e tempo de lembrar. Teve um
noite que foi buscar refúgio na ribanceira do rio. A lua lançou seu olhar
triste, mas não era pena, o que sentia, apenas compaixão. Aquela mesma lua
esteve naquele mesma posição. Na noite que velou o pai no caixão, no salão
paroquial. O velório, não foi em casa, porque era véspera do sete de setembro. Na
porta de casa ocorria o cerimonial do desfile cívico, pelo dia da pátria.
Lá
pelo Livro de Reis de sua vida. Foi de certo modo, tempo de boemia. Adquiriu de
um colega de trabalho, do tempo que trabalhou num canteiro de obras como
desenhista técnico, uma vitrola portátil. Depois um rádio portátil. Um violão,
que o pai prometera quebrar na cabeça, isso foi bem antes. Marquinhos de Seu
Breno, teria dito que não era fácil ensinar tocar o instrumento, a um, não
destro. Uma máquina de datilografia ganhou do tio Dorival, serviu para compor
muitos versos, e preencher documentos da previdência social, ganhando alguns
trocados por isso. A motocicleta, de óleo de dois tempos, impregnava com seu
fedor as roupas, o cano de escape alto. Tempo de ir ao baixo meretrício, perder
a virgindade, contrair gonorréia, com uma quase índia cabocla. Teve vergonha ao
ter que procurar o farmacêutico Alberto Agra que lhes indicaria as injeções de
Benzetacil, as mais doloridas do mundo.
Uma
bicicleta Monark, das de adulto. O irmão adquiriu uma, com vendas de saquinhos
de suco congelados, apelidados de sacolé, e “Flau”. Nem precisava sair pelas
ruas, ou ir a beira de campinhos de várzea pra vender. Um pequeno cartaz
escrito com pincel atômico, colado ao lado da porta de casa. A mãe fez um cofre
com uma lata de leite em pó, vazia. Aonde ia colocando os dinheiros das vendas.
Livro
de Números. Minha vó, vendia cocada. Ela colocava os dinheiros embaixo de um
paninho branco que forrava o móvel de nome engraçado, cristaleira. Um dia
percebeu que havia sido roubada. Além de levarem algumas cocadas, levaram o
dinheiro, todo o apurado, que ia debaixo do paninho. Era com aquele dinheiro, que
compraria novos cocos, e açúcar, para o feitio de novas cocadas. O tacho
liberava um cheiro acre doce, que aguçava narinas de toda gente. Por toda a
rua, ia o cheiro de cocada. Foi como recenseador do Ibge, que passou por
situações interessantes:um senhor idoso teve medo de o receber em sua casa, o
homem adoeceu por isso. Agradecido a Deus porque não morreu. Pulou a casa da menina. Não se sentia bem ao ponto de entrevistá-la.
Maldita timidez. Esta outra menina continua, ainda hoje, muito bonita, mesmo
que com mais idade.
Entrar
num automóvel, não é o mesmo que entrar num carro. Muito menos num bonde, ou
ônibus. Os transportes coletivos. Nos carros, neles estamos quase sempre em
estado de alerta. Bom é viajar de ônibus, em especial quando está chovendo.
Olhar as serras lá no horizonte, se imaginar chegando naquelas casinhas
longínquas. Imaginar-se se aproximando e percebendo a reação de surpresa das
pessoas que viviam ali. Teve um momento ruim vivido dentro de um ônibus. Estava
voltando da capital para casa, cansado
resolveu tirar um cochilo. Acordou com um cano de espingarda doze apontado para
a testa. O agente civil, pediu que apresentasse documentos. Não tinha nenhum. Naquela
situação incômoda, vexatória. O agente não contou conversa: deu voz de prisão!
O ônibus seguiu o seu, e o meu destino. Quanto a nós, ficamos detido, na
viatura. Por não estar portando documento. Simplesmente assim: por não poder
comprovar quem realmente éramos. Décadas estávamos distantes do surgimento dos
aparelhos de telefonia móvel.
Evangelho
de São Mateus. Vós sentais, bebeis e comeis, com gente da pior espécie. Ao
largar o trabalho do canteiro de obras de construção de rodovias, no povoado
Mato Burro. Em pleno meio dia de sábado, solzão num céu azulão, envolto por
nuvens cúmulus que brincavam de formar figuras no infinito. O espírito ia
solto, alegre, por viver aquele momento. Dirigiu-se ao boteco, que ficava no
outro lado da estrada. Doido pra tomar umas canas. E assim dar início ao final
de semana que prometia. Inesperadamente chegou ali, um baita dum carrão
vermelho. Chegou com sua voz de trovão, levantando poeira. E o seu, também possante,
proprietário desceu. Desceu como quem desce dum cavalo. Batendo no chão com as
botas, cinto do tipo fivelão, chapéu caubói. Aproximou-se, depois da saudação,
declarou: Rapaz! Gostei de você... Vamos beber, e comemorar esse nosso
encontro. O destino nos colocou no mesmo caminho. E isso precisa, e deve ser
comemorado. Após muita bebida consumida o moço achou de exibir suas armas. Revólveres, pistolas e espingarda. Um guarda
rodoviário que a tudo observava não gostou. Já sabemos no que isso poderia dar.
E deu. Acabara indo a vias de fatos. O saldo: O guarda ferido no pé, e o caubói
valentão na cadeia. Lembrei de como é bonito um canteiro de obras, cada um dos
que estavam ali, realizando seu trabalho, e paulatinamente, modificando, para
sempre, a paisagem. Onde antes havia uma estrada de barro, a faixa negra do
progresso chegara. E sem pedir licença, passou por cima, seguiu em frente.
Livro
da profecia de Daniel. Aqueles bovinos pastando naquelas serras tão íngremes. E
vinha um pensamento meio doido. Se viesse uma ventania arrastaria os bois
lançando-os no ar, e endoidariam pra dentro de um redemoinho que os levarias
pra terra do nunca. Onde existem Peter Pan, capitão Gancho, Sininho e outros
seres que nunca envelheceram, nem nunca morreram. Eles eram para sempre. Quem
nos abasteciam de tamanha criatividade, eram os desenhos que víamos na
televisão: Tom e Jerry, A Pantera Cor-de-rosa, Papa-léguas, a Corrida Maluca, O
gato Manda-chuva, The Flintstones, The Family Jetsons.
Livro
de Levítico. Um lugar utópico, onde as doenças que porventura alguém
contraísse, tinham que ser curadas antes do por do sol. Pois no dia seguinte,
as pessoas já não estariam mais doentes. E nas idas ao rio, cumpriu com as
palavras sagradas, não contraindo comércio sexual com seres que não fossem de
sua espécie. A fêmea do asno serventia de alívio sexual para tantos amigos.
Também havia os que tinham tendências homossexuais, não se furtavam a auxiliar
os amigos. Havia o indígena Carlinhos, que morava próximo ao famoso poço dos
homens, sempre solícito para com os que lhes procurava. As galinhas, os patos e perus, ninguém se
preocupava se precisavam de cuidados veterinários, se suas genéticas era boa
pra reprodução, produção de carne, ou poedeiras. No dia seguintes, já não eram galinhas
do terreiro, mas pavões, faisões, galinhas d’angola.
As
abelhas produziam mel, o dia inteiro. E não havia necessidade de ser
agressivas, matarem um animal, um burro por exemplo. Certa vez um asno coitado,
se encontrava amarrado na porta da sorveteria. O enxame ia passando, e
simplesmente parou e o atacou. Deu dó de ver o pobre quadrúpede sendo ferroado,
até que tentaria safar-se do ataque, porém sem conseguir agonizou. E mais nada
se poder fazer.
Exatamente
naquela esquina que dava para a Companhia Telefônica. Naquele mesmo poste,
outro animal teve sua vida ceifada. Um urubu pousou sobre o poste, ao tentar
alçar voo a ponta da asa, tocou no fio de alta tensão, foi o suficiente para
matá-lo. O tempo passou. E na rua dos porcos, outra tragédia. Um ônibus
desgovernado desceu a ladeira, o motorista não conseguiu frear, o balão vazio.
Acabou matando uma pobre preta que se encontrava na calçada, arrancando-lhe o
braço. Anos se passaram. E um pintor contratado para mudar a cor da fachada da
oficina eletrônica. A mão, que portava a brocha ergueu para a primeira demão de
tinta, um leve descuido, e bateu no fio. O respingo assinou na parede dizendo:
morte!
A
Torre de Siloé. Uma tragédia quase que anunciada. A rua era a de São Pedro, e a
família a de Vicença. Vicença foi comprar pão, na bodega de Seu Carrito. De
volta, passou na mercearia de Seu João Frade. Um estrondo, como um trovão, se
ouviu. Mas o céu estava límpido, o que houvera então? Ao chegar a casa, não
havia mais casa! No lugar, uma flor de horror despetalada. Um cheiro de pólvora
queimada no ar. Seus familiares fabricavam fogos de artifício, a casa inteira
acabara de ir pelos ares. Uma rede do cariri, foi parar na cumeeira, a linha da
casa toda engembrada, com uma perna dependurada, na calçada uma cabeça, noutro
canto um braço. Na sarjeta, no outro lado da rua, um pênis que não serviria
mais a quem um dia pertencera.
Carta
aos Tessalonicenses. Um dia, na cidade de Petrolina escreveu uma carta a sua
mãe. Aconteceu que chegaria primeiro que a carta. Dizia que estava com muita
saudade. E como achou bom e ao mesmo tempo chato, estar de volta. Entendeu que
saudade era coisa boba, saudade fazia as pessoas de bobo. Da cidade de Porto de
Pedras que antigamente se chamava Águas Belas, também enviou carta a mãe, dizia
que sentia saudade, mas não era saudade de endoidar pra ir embora, dava pra
suportar. Desta vez, não chegou primeiro que a carta. Ficaria por lá, oito
anos. Tempo que namorou o mar, cantou para o farol, subiu a montanha, agradeceu
a Deus, fez filhos. E voltou pra casa, feliz, com uma mão na frente e outra
atrás.
Era
uma vez uma vila imaginária. As pessoas eram assim, simplesmente felizes.
Olhavam para o céu e sorriam, e iam. Cada um para suas atividades diárias. E as
pessoas não precisavam votar pra eleger seus governantes. Não necessitavam
disso, todos sabiam exatamente o que precisavam, e deviam fazer, para se
sentirem realizados. Jamais perdiam seus sonos, preocupados com o dia de amanhã,
porque não existia amanhã. Só existia o hoje, o aqui, o agora, o já. Cada dia
em si, era único, primeiro e último. Todo dia, todos nasciam, todo dia, todos
morriam. E ao acordar, as pessoas se cumprimentavam como se nunca tivessem se
conhecido ou já se conhecessem eternamente. Na verdade jamais deixaram de se
conhecer. Acontecia, no entanto, que sempre pertenceram, as suas eternas
famílias. Nunca permitiam que jamais perdessem o vínculo. E tudo isso, nunca
passaria de um sonho.







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