A Procissão [Parte 2] Conto 26/03/2026.


 Letícia estava na cama. Não tinha a menor ideia de quanto tempo havia dormido. O corpo parecia não querer obedecer aos impulsos, ou as ordens das sinapses dos neurônios enviadas do cérebro: abrir os olhos - tão pesadas as pálpebras, se recusam atender-lhe. Sentar-se – nem um músculo se movia - Ir até o banheiro - nada. Tentou coisa mais simples, virar de bruços - em vão. Só duas funções, nela, estavam em ação: respiração e batimentos cardíacos. Tentou tirar o braço da posição incômoda que se encontrava. Os braços, nem pareciam lhes pertencer, custava acreditar que eram parte do seu corpo. Mais de uma vez tentara se mover, nada. Esse estado vegetativo nem um pouco a incomodava. Algo inusitado simples assim vivia-o. Um fio de baba, descera-lhe pelo rosto. Fria agora, molhara um pouco o travesseiro. Seria dia, ou já anoitecera? O quarto todo era penumbra.

Um menino árabe sentou-se bem ali, ao seu lado. Tinha, entre as mãos em concha, uma pedra azul turquesa que emitia uma luz encantadora. Teve vontade de pegar naquela pedra. O menino, porém, com um olhar carregado, crispado de angústia, olhava fixamente para ela, sem nada dizer. Seu olhar, de muita tristeza, era como se dissesse, nada daquilo adiantava mais. Pra que possuir algo tão bonito e valioso? Se a guerra havia tirado-lhe o que mais prezava, sua família. Aquele menino seria real, ou parte das alucinações causadas pelos psicotrópicos que ingerira em grande quantidade?

Para onde foram todas as coisas? A sua vida, sua rotina de cada dia. Tudo era inexoravelmente estranho, porém plausivelmente aceitável. O que aquela praia estava fazendo no final da rua? O céu escuro pronunciava tempestade. Aquele céu já o tinha visto outra vez, em outro sonho. E tanto, e tão grande terror lhe causara. Um sonho pavoroso, um tanto apocalíptico. As estrelas caiam do céu sobre as águas do mar. Ao chocar-se com as ondas gigantes, como bolas de fogo, as estrelas provocavam enormes deslocamentos de água, e o mar avançava para a terra. Aquelas ondas tenebrosas, elas, indubitavelmente iriam inundar o continente.

Onde estaria sua irmã naquele momento? Esperava desesperadamente que estivesse num lugar seguro. Num abrigo do governo, construídos exclusivamente para aquelas ocasiões, de uma terceira guerra mundial, ou de uma catástrofe natural. Não saberia explicar, se alguém lhe perguntasse, por que num momento de aflição como aquele lembrava primeiro da irmã mais velha. Dos outros irmãos, e os pais não pensava neles. Por quê?

Do jeito que estava, sem coragem pra se levantar, talvez fosse melhor voltar a dormir e continuar o sonho de onde parara. O leito da rua tinha uma cratera. Aberta por um míssil, que acabara de cair, a terra ainda quente e fumegante liberava cheiro forte de enxofre. Gente morta, destruição. Curiosos vieram ver o estrago provocado pela explosão da ogiva. Lá longe outras explosões, e mais estragos. Alarido, correria, gente chorando, gritos de lamento. As pessoas se atiravam ao chão desesperadas ao verem familiares mortos. Elas vestiam roupas como no oriente médio. Os homens eram morenos e barbudos, usavam turbantes. Estaria em algum povoado do Irã? Estaria no centro de Teerã?

Letícia, achava todo aquele papo de quaresma, e de semana santa um saco. Daquilo só curtia as novidades surgidas na mesa. A principal refeição do dia, no almoço, arroz no coco. Curtiu a beça. Bem que podia, de vez em quando, haver aquelas variações de prato, aquelas iguarias: bacalhoada, feijão com coco, peixe frito. Não somente naquela época do ano. Não entendia. O excesso de vinho, causara-lhe uma dor de cabeça daquelas. Vinho tinto, gelado, o fim da picada. Letícia pretendia abolir bebida alcoólica de sua vida, as ressacas a deixavam-na deprimida. Ficaria só com os psicotrópicos. E os baseados, nas festinhas, e finais de semana.

O pai, não gostava dele, nenhum pouco. Achava-o artificial demais. Não parecia uma pessoa normal. Parecia que atuava. Os seus gestos, comedidos, pareciam ensaiados. A fala empolada, como se quisesse impressionar. Como se quisesse ser lembrado um dia, por aquilo que dizia. Era como se tivesse decorado cada palavra. E se dizia algo de improviso, se recriminava. Como se reconhecesse o erro que acabara de cometer. Será que seu pai fora um filósofo em outras vidas? De certo jamais esqueceria nele o ser excêntrico que era as muitas manias feias que tinha, de querer tirar proveito de tudo. Não admitia, por exemplo, ir olhar um pôr-do-sol, lá no alto da serra tinha que voltar com uma plantinha que serviria pra um chá. Se fizesse uma caminhada pelo quarteirão, tinha que aproveitar pra fazer outra coisa, passar na padaria, no mercado ou na quitanda.  

Na infância odiava-o pelo destrato com sua mãe. Chegava a passar de semana, sem aparecer em casa. Levava vida boêmia, frequentava os cabarés, e era alcoólatra. Aposentara-se por invalidez, por problemas mentais. Sua mãe tanto sofrera na companhia dele. Deixava faltar alimento dentro de casa, até fome a pobre mãe passara. Um único ovo frito, um pouco de arroz e farinha certa vez dividira entre os quatro filhos. Um dia ao vê-la chorando, Letícia ouviu-a dizendo baixinho: -Um dia, ainda me livro dessa praga. Se vier me bater de novo, quando arriar na cama, boto água quente no ouvido desse infeliz.

O pai de Letícia, mesmo quando ficara uma moça, ainda ela o odiava. Achava que, mesmo sendo seu pai, a olhava com olhar de cobiça. Avaliava seu corpo como um homem qualquer, sequioso por sexo. Sem tentar disfarçar, sem o menor pudor observava seus seios, suas nádegas, seu sexo. Ela jamais saía do quarto de baby doll, se ele estivesse em casa. Entendera que tinha um pai psicopata. Entendia que não deviam, nem ela nem a irmã deixarem peças íntimas suas no banheiro. Já o flagrara se masturbando altas horas da noite, assistindo filmes pornôs. O sentimento que tinha dele era um misto de asco, e nojo. Algumas amigas já haviam percebido isso também, e o evitavam.     

Agora mesmo pensava na sua irmã. Imaginava como realmente ela era. Aquela paciência de Jó. Aceitava passivamente os acontecimentos, até mesmos as catástrofes, naturais ou provocadas pelos homens. Como se tudo, que estava pra acontecer já fosse esperado, e que era tudo pra ser daquele jeito mesmo. Peremptoriamente previsível. Olhar de resignação, abraçada aos seus dois filhos Rômulo e Alex, o primeiro de dezesseis, e o outro de sete anos. Ela ajeitava o longo cabelo, de modo tão natural, como se dali a pouco, aquele pesadelo fosse acabar. E sua doce vidinha voltaria ao normal. Pegaria seu laptop e reiniciaria seu trabalho “home Office”. Rômulo na cozinha enchendo um copo de Coca-Cola, tomaria e forçaria um arroto só pra sentir o gás do refrigerante saindo pelas narinas. E fazia sanduíches com pães seda, aberto ao meio, e lá dentro poria, em cada um, uma fatia de fiambre e outra de queijo mussarela.

Aquela ressaca, parecia que ia abrir-lhe a cabeça ao meio. Saiu da cama pra ir ao banheiro vomitar. Só então Letícia percebeu que estava nua. Cambaleou até o vaso sanitário, a visão da louça branca, o forte cheiro de água sanitária, não deu pra segurar o vômito. O jato de vinho tingiu tudo de cor púrpura, lembrava sangue. Lembrava morte, lembrava coisas tristes, lembrava suicídio. Lembrava as lições de moral do pai. A mãe ralhando, porém brigava como quem afagava. Foi pra debaixo do chuveiro. No espelho, um diabo, com cara do Coringa, mesma maquiagem, mesmo sorriso asqueroso, mesmos olhos sanguíneos, rodeados de tinta preta, que se derretia em lágrimas negras.

A flor do deserto, e o deserto. Era noite, a escuridão tinha cheiro de vinho. Uma lua parecida com um pedaço de unha reluzente, boiava no gás negro, noturno, a alguns metros à cima do areal. Parecia que se estendesse a mão conseguiria pegá-la. Não tinha interesse em tê-la. Alguém tocava um piano de calda, acompanhado por um negro escravo, vestido apenas com uma calça de linho branco, que soprava numa gaita uma melodia triste. Teria chegado ao inferno? Não havendo fogo nem demônio, ali. Então presumiu que poderia estar no purgatório.

Percebeu-se deitada num imenso areal. Grãos de areia aderidos ao rosto. Havia areia por todo o corpo seminu, beijado pelo vento leste. O capim, o cheiro adocicado da maconha chegava as suas narinas. Quisera agora somente viessem lembranças boas. Os olhos se abrindo e conseguindo enxergar os pneus da moto do amigo, estacionada a poucos metros. O amigo que Letícia chamava de “Miga” estava sentado na areia, só conseguia ver suas costas nuas. Fumava. A noite calma, já ia alta.

O pai estava na cozinha quando ela passou pro banheiro. O sermão começou, enquanto sua mãe preparava o almoço. Ódio por viver aquele tipo de situação. As coisas, quando fogem do controle parece que tudo vai desabar. Era sempre assim, Letícia achava que não devia satisfação nenhuma da sua vida. Apesar de viver na casa dos pais. A tevê, infelizmente não conseguia entreter seu pensamento de morte. Donald Trump que fosse logo pro inferno. E levasse junto com ele, os Aiatolás todos do oriente médio, que se danassem também a guerra da Ucrânia com Zelensky, com Putin, e todos os líderes comunistas, que fossem todos pro inferno, que eles mesmos haviam criado.

A mãe, chegara do trabalho, naquele instante, reclamava de dores nas articulações, na coluna vertebral, e na região cervical. De tanto fazer exames e consultas, já estava se acostumando a falar igual aos médicos. De remédios, desde os de farmácia, aos chás caseiros, quem ainda entendia era ela. A ladainha do pai, reclamava sobre a única filha, que mesmo adulta e emancipada financeiramente, pois tinha um trabalho de técnica em Enfermagem, ainda assim vivia dentro de casa. Letícia aprendera a filtrar aquele tipo de discurso, olhava pro pai e mentalmente apertava o botão “Mute”. E simplesmente tudo ao seu redor passava a ser só imagem, sem som nenhum. E se acaso ele fazia uma pergunta. Respondia com outra já engatilhada: “-Não entendi.”  

A moça não era batava, era albina mesmo. Imaginou-a se estaria realmente de biquíni? Achou bonito o caminho pros seus pêlos pubianos, a fila de cabelos descoloridos. Ela percebeu seu olhar cobiçoso, mesmo por trás do rayban. Perguntou se tinha isqueiro ou fósforo. Não tinha, nenhum nem outro. Detestou não poder ajudá-la naquele momento. Era pra acender um baseado. Letícia se prontificou a conseguir. Foi até a conveniência comprou um isqueiro, uma lata de Coca-Cola sem açúcar, e uma goma de mascar Trident. Quando voltou a ruiva já havia acendido o baseado, conversava com um homem negro, de cabelo rastafári e longa barba com trancinhas nas pontas. Ficaram em três, se curtindo. Conversas, fumo dividido,  sorrisos.

Letícia havia meses, talvez anos, tentava por fim a sua vida. Não via motivo plausível pra viver aquela vida que vivia. Considerava-a sem sentido, e que não a levaria a objetivo algum. Na sua concepção, por assim dizer, sua vida inutilmente era vivida. O motivo pelo qual ainda não o fizera, eram vários. Em setembro, porque achava que precisava pegar um bronze. Não convinha se tornar uma defunta descorada. Além da palidez natural, cadavérica, que iria adquirir.  Também precisava subir a serra pela milésima vez. Fazer fumaça. Se despedir da amiga natureza, uma das melhores companhias que tivera até agora, à altura dos seus vinte e sete anos. Imaginou-se deitada no caixão, e as amigas comentando, como estava legal, a sua cor de pele, as tatuagens, ainda bem vivas.    

O sino tocando renitente, pessoas cantando, um canto penitente alvoroçava a rua. A frente um mancebo todo de branco erguendo uma cruz preta, envolta numa faixa de pano, também branco. Matracas, canto de lamento, de almas arrependidas, pedidos de perdão, pelos pecados. Letícia não tinha ânimo sequer pra levantar a cabeça. Alguém disse: “-Parece que ela está morta...”. O moço da moto, deu a entender que estava com ela. E que ninguém precisava se preocupar.

Letícia, agora, sentada no banco dos réus, o olhar no nada. Nem parecia estar ali, sendo julgada em uma sessão do tribunal da justiça. A assembléia muda, apenas ouvia, O silêncio quebrado somente pelas falas dos magistrados. A moça era acusada de “crime fútil, com resquício de crueldade”. Por ter tirado cruelmente a vida dos pais. Os corpos, pela polícia, foram encontrados em casa. A mãe, sentada no sofá, lavada em sangue, degolada enquanto assistia televisão. O pai, encontrado no quarto deitado na cama, tinha uma perfuração de bala no pescoço que saía na nuca.

O júri em andamento. A fala agora era da defensora pública, que tentava convencer ao corpo de jurado, a inocência da ré. Letícia havia ligado o modo: “Mute”. Porém, lá no fundo, bem no fundo do seu cérebro, um cântico ecoava. Um, que a multidão de povo entoava, ao passar em sua rua o cortejo quaresmal: “A morrer crucificado. Teu Jesus é condenado/ Por teus crimes pecador, por teus crimes pecador.”  

 


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