O nome do dia era manhã. A luz não viera, não viera ainda, a luz. Pássaros invisíveis anunciavam o que estaria pra vir. Uma casa, uma sala de sofá, iluminada por um abajur, a janela Analuz. As trevas, deitada sobre as coisas, dormia. Tudo que se estava da luz afastado, o escuro engolia. A silhueta da serra projetada num denso azul, do céu noturno. Acordar de madrugada fazia Analuz pensar que era outra pessoa. Despertar numa hora não costumeira dava-lhe essa sensação. A imaginar que as preocupações costumeiras nunca lhes pertenceram. Um desprendimento. Como se costumeiras obrigações suas, pertencessem a outra pessoa.
Aquela hora, os pensamentos sobre o que teria pra fazer, parecia não ter nada a ver consigo. Fechou os olhos, um fundo amarelo surgiu, um imenso olho negro ao centro, que mais parecia um caroço de manga. Veio junto a vontade de saborear essa fruta. Tanto, que sentiu o cheiro. O monitor do aparelho deu sinal que a bateria, em breve, descarregaria. Um menino negro, debaixo duma chuva, que acabara de acabar, ia pela rua. Fora só uma nuvem, passageira. O menino tinha um buque de flores, parou, próximo a escadaria do santuário. Olhou lá para o alto. O dia agora, se fazia cinzento, pesado, tristonho, assim como o menino.
Resto de sonho retido na retina, de Analuz. Havia uma casa de taipa, lá dentro ainda era noite. Era um árido lugar. A luz que alumiava as coisas era de um candeeiro. As coisas tremeluziam, sob o luzeiro de cor alaranjada. As personagens preenchiam todo o espaço, de um rústico e curto corredor. Todos se tocavam, de tão próximos. Pareciam participar de um ritual. Os rostos morenos traziam uma serenidade indizível. Um clima de festa e celebração, no ar. Aquilo poderia ser um velório. As pessoas tinham uma necessidade de se tocar. Talvez isso, os tornasse limpos de algum mal, ou compartilhassem algo. Isso, não era assim tão explícito. Uma vara de incenso, que mal se via, ia sendo passada de mão em mão. Os que sentiam o odor entravam em uma espécie de transe, alucinados, sob o efeito da droga liberada da pequena haste, entrava-lhes pelas narinas.
Os olhos pareciam molhados, negros, vítreos, sanguíneos. Não se sabia ao certo se entoavam um cântico. As lembranças não permitiam dizer, se o que lhes vinha aos ouvidos era uma oração, ou um tipo de canção. Um homem trajado de gravata e paletó, chapéu de massa, sapatos impecáveis. Projetou a sua sombra na calçada noturna. Era Ycaro, o coração cheio de ódio, planejava tirar a vida de Paul. Analuz estaria o traindo, com o seu melhor amigo. Vez em quando, apalpava o cabo do revólver que trazia preso ao cinto. Iria a roda de amigos, no lugar de sempre. Enquanto brindavam a vida, ele queria comemorar a morte. Espaço pra harmonia inexistia, caso abundasse contenda. Intrometia-se leviatã na trajetória de vida do casal. Abrindo oportunidade pra um, ou mais, assassinatos. E mataria, pelo vil prazer propiciado pelo ódio.
Os automóveis circulavam na pista de betume, nos dois sentidos. Uma chuva fina de há pouco, e tudo ficara indubitavelmente úmido, molhado. Os carros cobertos de gotículas, e as latarias vermelhas semelhavam morangos. Analuz, tinha um desses frutos boiando dentro de uma taça com gim. Submerso na bebida incolor. Das coisas emanava um brilho incomum. Os negros pneus dos automóveis, incrivelmente novos, alucinadamente giravam com suas faixas brancas. Sequer tocavam a faixa negra do asfalto, simplesmente flutuavam. Apesar de movimento intenso do transito os carros não produziam barulho dos motores. Analuz, nada conseguia ouvir, nada que viesse de lá fora. Nada externo ao seu ser.
O céu um imenso oceano, as águas suspensas se conservavam no firmamento. Uma atmosfera aquática, puramente hidráulica. Pregada lá no alto, poderosamente se mantinha, uma força gravitacional inversa que a mantinha. Assim se mantinha, num balanço incrível, uma calmaria, inaldível, quase inacreditável. O homem de chapéu Panamá, metido a Indiana Jones se embrenhara numa biblioteca de casas. Ruas feito prateleiras enfileiradas. Achava que podia fazer o que quisesse, por mais que fizesse, sairia ileso. Fizesse o que fizesse, da selva de casas de vidro incolúme sairia. Tardiamente descobriria que não seria tão fácil assim. O que faria daria um conto, muito provável daria. Ajuntar fragmentos, pedaços de sonhos, pesadelos, lembranças de episódios vividos, outros inventados, pelos outros, seria o bastante. Misturaria ficção, e realidade. Seria seu álibi. Em meio a tudo isso, um assassinato estava sendo articulado. O do seu melhor amigo.
O santuário, era de concreto armado. A magnífica estrutura não possuía nenhum artifício incomum. Toda a beleza ali contida era obra da arte humana. Não havia diafaneidade, nenhum resquício de algo vindo de outra dimensão, nada que evocasse algo místico, espiritual. Talvez fosse a única coisa real em todo aquele cenário incomum. Analuz, foi se encontrar encima de um barranco, vestida como se fosse, ou tivesse voltando, de uma festa, de um estupendo corpo de baile. O vestido vaporoso deixava suas costas desnuda. Era um vestido longo, de tonalidade rosa, nos detalhes. A maior parte era vermelho púrpura. Havia tirado os calçados. Um cálice com gim num apoio de copo, um longo cigarro branco e fino, com piteira, entre o indicador e o anular da esquerda. Lá em baixo, a margem de um rio calmo, sobre as águas negras embarcações pintadas de branco refletiam uma nesga de luminosidade. Uma tocha fincada no barranco tremia, efemeridade de línguas de fogo. Carnal, carnaval.
Analuz, queria entender o que significava a saudade que sentia. Um homem de meia idade vestido com roupas de árabe, fantasia de carnaval, surgira puxando pelo braço um menino negro, de seus quinze anos. O homem estava bêbado, abaixou suas calças, em seguida, a do menino. E o violentou, ali mesmo. Depois arrastou o garoto para dentro d’água, e o afogou. O rio, Analuz o conhecia. Tomou banho quando criança naquelas águas. Analuz não entendia, presenciava um crime acontecendo bem a sua frente. E, sequer isso lhes causava o menor constrangimento. Sentimento, nenhum brotava do seu coração. O assassino parecia com alguém que ela conhecia. Talvez seu pai, quando era mais novo. Esse comportamento a surpreendia, simplesmente não se reconhecia, na sua ausencia de empatia. Nem um músculo de seu corpo, estremeceu. Ante, ato tão atroz. Ela ali, feito estátua. O gim, o ópio embotara seus sentimentos. Seria aquilo só um sonho, um pesadelo.
A alça do vestido folgou, e um seio seu ficou exposto, a luz. A pele mais alva próximo ao mamilo. A auréola intumescida. O seio da “Liberdade guiando o povo”, feito quadro do pintor francês Eugene Delacroix . O mancebo que a vigiava, a mando do seu marido a tudo via, teve um alumbramento, uma languidez, o invadira. Paul apareceu, do nada apareceu. Tinha ido a uns arbustos aliviar a bexiga. Os amigos o aguardavam a mesa, na calçada do botequim. Nada de importante conversavam, ali. Além do que uma turma de homens entregues a embriaguês poderiam discutir. Certames, campeonatos de futebol, abjeta discussão sobre política, nacional e internacional. Uma briga se concretizaria, iam as vias de fatos. Murros, garrafas quebradas. Alguém acabaria derramando seu sangue naquele chão. Ycaro aproveitaria a ocasião para atirar no amigo traidor. Algo incomum, no entanto aconteceria, um cão de rua ali aparecera, o dono do boteco resolvera o enxotar, tacando-lhe um chute nas definhadas costelas.
Foi assim, que tudo começou, um cão negro surgido da escuridão. O pelo molhado brilhava um brilho azulado. Olhos abaixados pro chão, a procurar comida. Ninguém percebeu, mas eram olhos como duas brasas. Talvez fosse só o reflexo das luzes que causasse essa impressão. Dos dentes saliva viscosa escorria. O dono da taberna fez menção de enxotá-lo. Deu-lhe um chute, que não o atingiu. O animal reagiu instintivamente mordendo a panturrilha do velho, que soltou um urro. Paul que estava na mesa empunhou um machado de cortar lenha. O aço desceu sobre o crânio do cão, se encravou macio entre os seus olhos. Ao penetrar o osso craniano, o animal voou em direção a jugular do seu agressor estraçalhando-lhe o pescoço. O boteco desse dia, melhor dizendo, dessa noite em diante ficou conhecido com o bar do lobisomem. Paul foi pro hospital, e dali pro cemitério. O cão se embrenhou no mato com o machado encravado na testa. Ycaro vingado estava, sem sequer manchar as mãos de sangue.
Pouco a pouco o cenário começou a se modificar. Analuz, os corpos, as paredes, o teto como que explodido em luz. Era impacto bom, tudo, lentamente, passando a emitir feixes de luz. Uma luz serena, incandescente sobre as coisas. De todos os seres emanava luz, de todas as coisas luz. E o que, até então, era noite virou dia. Os automóveis circulavam. A chuva fina cessara, e tudo que estava úmido e frio agora, era sol. Os carros, lataria vermelha, feito cerejas. Um brilho incomum, negros pneus, flutuavam. O movimento intenso, os carros voltaram a produzir o normalíssimo barulho dos motores. O céu era um mar de paz, e de luz.
O nome de tudo que dava pra ver da janela, era dia. A luz que abundava era chamada manhã, lentamente se impondo. O clarão que vinha de detrás das montanhas, devagar avançava. Clarão que afastava os medos. Medo que não deixara Analuz dormir naquela noite. Pássaros saídos dos galhos das árvores em revoada anunciavam um novo dia. Analuz, inesperadamente despertou. Cambaleante andou pela casa, doce penumbra. A sala de sofá, o abajur, a janela. As coisas que a luz agora alcançara, as trevas desengoliu. A serra, embora distante, fazia-lhe companhia. O azul claro, do céu afagava-lhe.
Se imaginou sendo outra pessoa. Pensava nela, como alguém de quem era apenas amiga. Achou interessante pensar que ela, era outra pessoa, outro ser. Alguém a que, naquele instante, poderia aconselhar. Conversar quem sabe ajudar. Um pertencimento, as avessas. Queria entender porque as coisas do dia a dia, que tanto a preocupava, e que na madrugada todos os problemas eram tão potencializados. Bastava amanhecer, e tudo aquilo parecia tão minúsculo.
Fechou os olhos, um fundo azulado surgiu-lhe na retina. Um imenso olho negro ao centro, que mais parecia um topázio. Uma taça de absinto, com gosto de anis. O monitor do aparelho deu sinal que a bateria estava completamente carregada. Um menino negro, se aproximou da escadaria do santuário. Um buquê de flores encostado ao peito. Segurava-o com imenso cuidado. Aquele ramalhete tinha para ele, mais valor que sua própria vida. Uma mulher vestida de branco, o aguardava, no alto da escadaria. O menino, rosto molhado, de lágrimas de chuva. A mulher, apenas o menino a via. Olhar voltado para o alto. O belo rosto resplandecente, sorria.

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