A moça negra, tranças rastafári. Olhos de mel, deliciosamente amendoados. Aquele sorriso insinuado entre os lábios desgastava-a, tornava-a irritante. Sentada a mesa, na sala do silêncio, lia Imaginou-se criminoso matando-a. A cor de pele, a luminosidade. Olhá-la assim, naquela tarde, no horário em que o anjo do tédio vinha-o aborrecer. Nervosamente passava as mãos nos cabelos, tanto, que quase feria com a ponta dos dedos, o couro cabeludo. Os olhos, coçava-os, tão insistentemente, ao ponto de ficarem vermelhos. Não ajudava muito, sentir o ódio que sentia. A alma, de tão cansada, deitara-se por cima dumas caixas de livros, que nem haviam sido abertas. Desmaiara, com o cheiro forte da tinta de impressão, e do polietileno das fitas das amarrações.
Acordou com o gato lhe olhando. Naquelas ocasiões, ele sempre lhe aparecia. Terrível gato preto, de olhos ligeiramente esverdeados. Olhava-o como se lesse os pensamentos. Dava a entender que via além. E via, os sinistros prestes a ocorrer. Morcegos enormes saíam voando de dentro de “O Corvo”, de Poe. Isso criava um clima, um tanto trevoso. Cheiro de cinza, e incenso que irritava as narinas. Iniciou-se a fazer planos. Da infância, trazia alguns traumas, mamara até os seis anos de idade. Agarrava-se na saia da mãe a pedir um chupinho. Além de não lhe dar, a mama, irritada, a mãe lhe batia. Certa vez, foi o padrasto que lhe bateu. E o fez com tanta raiva, que, dada a violência, acabaria se borrando nas calças. Aquela moça, se a matasse, o que faria com o corpo? Alta e esbelta, pernas longilíneas. Bumbum arrebitado, dentro de uma surrada calça jeans. Tudo nela, dizia, o que era ser uma mulher, bonita, e negra. Calculou mentalmente a sua altura, comparou com o espaço que havia no interior da estante. Imaginou-a, Ísis a deusa egípcia da magia, e fertilidade, morta, dentro de um sarcófago. Levada ali por Osíris, deus dos mortos. Teria que embalsamá-la. No laboratório de química, encontraria, tudo o que precisava.
Ainda continuava com fome. Fome de ver gente morta. Isso, sempre o levava a lugares que possibilitasse atender seus maníacos impulsos, necrotério, hospital, cemitério. Passaria no memorial dos velórios. Sempre havia ali, um defunto sendo velado. Gente morta, quanto mais anônima melhor. Desconhecidas, tanto, que quase ninguém iam vê-las nas últimas horas, em cima da terra. Uma senhora, que muito vivera. Só deixara completar oitenta e nove, morrera. Belo presente de aniversário. Seus olhos, de que cor seria? Assim fechados, não dava pra ver. Aguardaria, quando estivesse só, ele e a morta, abriria uma pálpebra.
Lembrou do coveiro, sentiu raiva, do homem que friamente enterrava os outros. Podia ser que não se achasse, mas parecia querer ser o dono da verdade. Tantos anos na labuta de enterrar gente, que se acostumara com a morte. Ódio, ao desprezo pela dor alheia. Considerava-o um ser, ignóbil, execrável. E precisado de uma lição. Tomou para si, a obrigação de mostrar-lhe quanto sofriam, pessoas que perdiam parentes. Mostraria ao enterrador de corpos, que tinha ele que ser mais humano. Que tal sentir como era ser enterrado? Lá estava, quase que totalmente dentro do buraco que cavava. Sozinho, tirava o barro vermelho de dentro da cova. Aproximou-se, com toda força, na nuca, uma única paulada. Ao invés de um, dois sepultamentos, naquela tarde.
A noite, e o poder que possui de escurecer coisas que brilham, de dia, e revelar, coisas odiosamente perversas vindas do submundo. O bar, todo tipo se encontra ali. Um, que aparentava ter emprego, família e preocupações. Deliberadamente se embriagava a uma mesa. Dentro do peito, prisioneira as angústias, donde saía, e a acariciar-lhe o espírito, frívola euforia. Lembranças de um tempo bom, onde falava alto a jovialidade. Tempo em que moto ainda era chamada de motocicleta, guidon, era guidão. Capacete cromado, cabelo ao vento, garota na garupa. Agora, só restara cachorros pulguentos que comiam restos que deixava cair da mesa. E se lhes fosse tirado, aquilo que lhes faria falta, como reagiria? Passava da meia noite, quando um guarda noturno encontrou num beco, o corpo inerte, a jugular aberta, cães lambiam o sangue, e comiam pedaços de carne do pescoço. Testemunhas diriam a polícia que viram aquele homem no bar.
No alto do portal anunciava: Lar São Domingos. Um abrigo para idoso, todo cercado de árvores e muros altos. A paz reinava naquele lugar, por entre o arvoredo, passarelas bem cuidadas, casulos ornados de imagens que representavam a via sacra. Ali o que se ouvia era pássaros a pipilar, se via flores nos canteiros e bancos, se sentia o frescor de uma fonte. Quem dera fosse da juventude, e aqueles velhinhos ávidos a buscarem de beber da água rejuvenescedora. Foi visitar o pai, por conta de um aneurisma, há anos paraplégico. Pediu a benção, não havia resposta. Ficaria a falar-lhe, sozinho. Responder-lhe, o pai não conseguia. Fez-lhe uma pergunta desconcertante. Pai o senhor não queria morrer? Achava, honestamente, que sim. Afinal, aquilo não era vida que alguém, quisesse viver. Uma daquelas árvores lá fora tinha mais vida que seu pai naquele leito. Uma lágrima, do olho verteu pelos sucos que os anos cavara em seu rosto. Mesmo diante, da pena que sentia, o sufocou com um travesseiro. Traçou uma cruz na testa do corpo inanimado.
A noite, chegou trazendo um vento frio, vagou pela cidade. Lembranças boas vieram-lhe, do tempo em que saía pra farra com amigos. Um litro de bebida destilada compartilhado, um violão abundantemente castigado, a provocar alegria. O calor dos cigarros acesos, das gargalhadas, tresloucados, brindes a tudo que configurasse vida. Tudo se transformara, o que mais amava agora era a morte. Um sorriso doentio, crispado no rosto. Um mendigo, dormia na marquise de um armazém. Incomodava-lhe a cena. Via-se na obrigação, de tirar aquela pobre criatura do sofrimento que vivia. Pelo simples fato de assim viver, teria que morrer. Pra cometer as atrocidades recorria a algo muito ruim que lhe tivesse ocorrido no passado. Recordou da infância, de um dia que levou uma sova, de uma turma de meninos maus, que lhe pegaram na volta da escola, tiraram suas figurinhas mais especiais, tiraram-lhes o pião e as bolinhas de gude. Bateram-lhe, e por fim, urinaram sobre ele. Nunca, jamais esqueceria aquele dia. E quando, aquele menino que lhe urinara foi morto por um exame de abelhas, que inexplicavelmente entrara no seu quarto, fez questão de ir ao seu sepultamento. Levou-lhe flores brancas. O mendigo mataria, tendo no coração a alegria, de quem faz uma grande caridade a um pobre. Como se outorgaram o direito e o poder de dar liberdade a uma alma aprisionada por uma vida de sofrimento.
O bordel já ia fechar as portas. Ao aproximar-se a prostituta pediu-lhe uma garrafa de vodca, para com as comemorar, o aniversário. Lembrou de uma noite antiga, em que, nem passava de um rapaz, estudante do colegial em escola noturna, ao voltar a casa, passara naquele cabaré. Letreiros em Neon avisava: Handevus The Suarez. As músicas explodiam nas caixas acústicas, contavam histórias de traições, de vinganças, e de amores bandidos. Os homens influentes da cidade frequentavam aqueles ambientes, porém ocupavam lugares estratégicos, para não serem vistos, ou se preservarem das ciladas dos inimigos. Naquele pedido ótima oportunidade de proporcionar uma noite de prazer, diferente das que vivera até então. Chamou-a, a sair pela cidade, a curtirem pela madrugada. E, encerrariam a noitada dando um ao outro, tudo o que de melhor pudessem dar. Assim o fariam. Seria, pra ambos, mais que uma noite de prazer. Ao passarem pela ponte desafiou-a a andar sobre o balaústre. Desafio feito, desafio aceito. Ajudou-a, a subir. E o empurrão para o nada. Um corpo caía para o abraço da morte.
O apartamento era pequeno. Uma gravura de um quadro famoso de Rembrandt “A Ronda Noturna”. Do sofá apreciava aquela cópia da pintura, se imaginava personagem da época fazendo companhia aqueles homens, pensando como eles pensavam. Ligou para uma pizzaria. O rapaz da entrega se dispôs atendê-lo. Exigia que levasse com a máxima urgência, o pedido solicitado. Ódio aos entregadores de alimento rápido. A loucura que cometiam para realizarem as entregas. Punham em risco a própria vida, e a das outras pessoas. Passou-lhe o endereço, o rapaz teria que sair da cidade. Adiantou-se, e se pôs a bolar diabólico plano. Por uma estrada vicinal, ao passar em alta velocidade, por um arame farpado esticado, e o entregador foi encontrar a morte.
De volta a biblioteca. Nos livros, somente neles podia confiar. No Atlas geográfico viajava, a tantos lugares distantes. A bíblia, demasiadamente séria, para ser lida. Certa vez, o livro do apocalipse, quase o consumira. Prometeu nunca mais lê-lo. Dentre os evangelhos gostava da narrativa de São Mateus, por ele, alta consideração. Outro que gostava João Batista, este lhes dizia verdades. Assim como disse a Herodes, porém, como ocorria com o monarca, o erro lhe fascinava. Isso, o emocionava, tanto, e tão, que facilmente tinha os olhos vermelho-sangue.


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