Acariciou o céu, cumprimentou o dia-sol-nuvem-céu-azul.
Chamou de bom, tudo que suas vistas alcançavam. Parecia estar tão de boa. Arriscaria
até desejar um bom dia, a outro ser humano. Afinal muito havia a comemorar.
Comemorava o que mesmo? O fato de estar vivo, respirando, enxergando, pensando,
e com certa lucidez. Escolheria alguém da sua idade. Um senhor, dos seus
setenta, vinha pela calçada, meio trôpego. Estaria ainda sonolento, ou quem
sabe, tivesse sequela de um acidente vascular cerebral. O certo era que havia
vida ali, e estava muito agradecido por isso, independente do que sentia. A
rua, a calçada, o cumprimento ao estranho, que nada respondeu. Para aquele nada
daquilo tinha a menor graça. Poderia ponderar, outro que encontrara com os
mesmos sentimentos seus. Aquilo, porém, o enchera de indignação. Não era nada
animador ser assim, tratado com desprezo, e indiferença. Péssimo jeito de
iniciar o dia. Aquele que vinha, deixou cair um pouco do ódio que tinha, acabou
respingando sobre ele, sentado a praça.
O dia acidificou. Um azedume
brotando áspero da ramagem. As nuvens quedaram, através de frestas purulentas,
gosmentas, asquerosas. As pessoas indo
pro trabalho, pais levando os filhos pra escola. Os automóveis estupidamente
aos gritos, atrasados, um nervosismo uníssono. O sol, sozinho, ele e Deus,
subindo a serra e esquentando as orelhas, a testa e outras extremidades dos
mortais viventes, seus míseros corpos expostos, a céu aberto. Gatos, cachorros
de rua, de tanto usarem as vias públicas pensavam que lhes pertenciam. E acabavam
entrando em conflito com os demais usuários, dos logradouros. E era ainda a
parte da manhã, tão turbulenta, quanto não devia, trazer paz.
As bicicletas pareciam mais
felizes que os ciclistas. Isso porque aqueles pensam. Enquanto que o ferro e a
engrenagem, simplesmente iam. Pensar, era fator preponderante para o deus Fobos
agir. Logo mais seria uma tarde. E que, por mais parecida que fosse, com a
anterior, sempre teria algo de diferente. O gari da semana passada morrera, por
um motociclista atropelado. O vendedor de mungunzá adoeceu, hospitalizado, o
filho faltaria a escola, pra cobrir o trabalho do pai durante aqueles dias. Afinal
o que levava uma pessoa a pensar, o que tanto a motivava? Acordar todos os dias
as seis. Pensar, que dia era aquele? Pouco importava. Certeza tinha que não seria
um sábado, nem tampouco domingo.
A escadaria, do prédio de
apartamentos, o eco das vozes rebatendo nas paredes. Alguém esquecera alguma
coisa. Era sempre assim, a pressa, inimiga dos pequenos objetos. Chaves,
telefones móveis, carteiras de dinheiro, documentos, cartões, bolsas, chapéus,
jornais, cadernetas, agenda, isqueiro, caixa de fósforos, dinheiro pro táxi. O
cheiro de ovos fritos e pão fresquinho. Os óculos, sério ficaram olhando. O
livro aproveitou a brisa, e caiu na gargalhada.
A escadaria, ela odeia bicicletas.
O blazer, esquecera, ia precisar de um. O momento solene exigia. A formatura do
jardim infantil da neta. Os cheiros. Cigarro aceso. Aquele fumante devia estar
há pelo menos uns vinte metros, em algum lugar do terraço. Óculos de grau, um
livro com um dedo marcando uma determinada página. Os olhos vagavam pela
folhagem do pé de... De que mesmo é esse pé? É uma azinheira. Quem falou?
Ninguém, por perto. Estaria ficando louco. Ouviu nitidamente, alguém disse: “É
uma azinheira.” Na próxima reunião do condomínio colocaria como assunto de
pauta: O fumante, as bitucas de cigarro que o cachorro do vizinho engoliu e
quase morreu engasgado. Um atirador de elite, a lente de aproximação procurando
uma vítima.
A rua. O leito da rua, um
rio de metal. Rio de automóveis, bicicletas, carroças, pedestres, cães.
Manter-se na calçada, questão de sobrevivência. Pensar era viver, andar sobreviver.
O que havia pra fazer faria. O candeeiro de pavio virou prioridade. Quanto
custa? Ficaria para o próximo mês. Estourara o orçamento. A queda de energia na
noite passada. O medo de escuro. Desejou ardentemente a chegada da aurora. A
noite, com sua plasticidade de trevas, cercando os nervos por todos os lados.
Sua mente uma ilha solitária de aflição. E se um morcego caísse pelos
cobertores. De onde concebera aquela ideia. Um sonho, um pesadelo.
Morcegos, eles se reproduzem
enormemente. Então, onde estariam os milhares de irmãos daquele que teria
matado no banheiro? A cena do filme “A Múmia”, veio-lhe, e milhares deles
saindo de dentro da boca. Escolheram a parte interna do forro da casa para lhes
servir de morada. Dizem que eles possuem uma espécie de radar para auxiliar no
voo. Pois sua visão é ruim, então recompensam essa deficiência emitindo um som
não captado pelos ouvidos humanos. Acordara em pânico, havia sonhado com um
daqueles vampirinhos voadores mordendo-lhe a jugular. Instintivamente passou a
mão no pescoço. Um gosto de sangue veio-lhe a boca.
Abriu o pão com uma faca,
com certo sadismo, a manteiga passou com sevícia. Feito alguém que se delicia antes
de destruir, um ser vivente. Pelo simples, e puro, prazer de o fazer. Descuidou
na hora de colocar a faca sobre o balcão da pia, e metade do pão foi ao chão. Seguindo
lei, de não sei lá quem. Só sei que caiu pra baixo, foi o da parte untada. Uma
rede de punhos, um facão, um retrato de padre Cícero na moldura cor vinho. O
tédio rindo-lhe na cara. Cuspiu-lhe manteiga na lapela do blazer, que ódio.
Café com pão, engolido com
oração. Pedidos de perdão. Pedidos sujos, de outros novos pecados. O banheiro, as
revistas amareladas, sob o lastro da cama, mulheres despidas, amassadas, achatadas
pelo peso do colchão. A menina negra, o abuso incontido. Rezaria com raiva, com
pressa, com agonia. Pedido de perdão atrasado. Tudo valia, menos o desprezo, o
ódio. Aquela cena, por décadas, ficara guardadinha no lado escuro da alma.
Hibernara pra agora acordar, e vir apoquentar-lhe o espírito de suicida. Só não
consumando o ato, por pura preguiça. Salvo pelo gongo. Na verdade escapara por
um descuido proposital, de leviatã. A buscar água, no chafariz, com um carrinho
de mão. As meninas ficaram olhando pela fresta do portão. O banho de cuia no
oitão de casa. Certeza, que alguém o observava. Excitação, masturbação
exibicionista. A timidez, reflexo de uma cobrança exagerada, ou de um valor
para menos, desprezo com relação aos demais. Uma má avaliação dos pares.
A empregada a porta com um
pano de prato na mão, um lenço na cabeça, o ventre quase exposto, olhando a
rua. O tocador de pífano, o zabumbeiro, o triangulista, a tarde de bandeirolas,
o santinho sorrindo feliz, pelos que, de alma generosa, abriam suas carteiras a
doações. A noite, andando sozinho. O restaurante aberto sem ninguém as mesas. O
porta guardanapo, o paliteiro, o pote de farofa. A lua, de uma noite triste, e voltar
pra casa com uma só certeza, a de um aperto no coração. Nenhum dinheiro no
bolso. A lua, única companhia, amiga solitária. Apareceu-lhe um moleque, um
pretinho. Disse: Oi. Mediu-lhe com os olhos. Tentou adivinhar suas intenções,
quase se animou a pedir um trocado. Ao ver-lhe a cara trancada desistiu.
As bicicletas pareciam mais
tristes que os ciclistas. Isso porque aquelas pensam. E pensar, era fator
fundamental para o deus Cronos agir. A escadaria, o eco das vozes rebatendo nas
paredes. O cheiro de ovos fritos, e pão fresquinho. Uma noite, calma. Calma,
igual uma xícara de café. Aguardaria com paciência a manhã de passarinhos
tagarelas, de céu contemplativo, céu que vigia os viventes, e as reles
tendência aos erros contumazes. Sempre a se desculparem, e odiosamente voltarem
solícitos aos mesmos enganos. Um dia acordaria daquela letargia. Acordaria
alguns dias, as seis, outros as quatro. E sempre com a mesma certeza. Certeza
tinha que não era um sábado, muito menos um domingo. Pois, exclusivamente,
esses dias amanheciam com uma cara diferente. Cara de fim de mundo. E olhava
pro céu esperando um míssil, vindo com sua ogiva destruidora. Pondo um ponto
final a tudo. O armagedon, tão pertubadoramente aguardado.
A escadaria, elas amavam bicicletas.
A gravata, esquecera que ia precisar de uma. O momento solene exigia. A filha,
terminara o curso de radiologista. Os cheiros, misturados, um champanhe sendo
aberto. Adocicado aroma de abacaxi, vindo da cozinha. Devia haver alguém
tomando cerveja ali perto, há pelo menos uns dois metros, em algum lugar do
terraço. Som de pagode. Chapéu Prada, óculos raiban, alguém tentava acender uma
churrasqueira. Os olhos vagavam pela folhagem do pé de...De que mesmo era
aquele pé? Um trapiazeiro. Quem falou isso? Não havia ninguém, ali. Estaria
ficando louco. Ouviu nitidamente, alguém dizendo: “É um pé de trapiá.” Uma
certeza, estaria ficando louco.
A avenida. Uma efusão de
cores, e sentimentos, coisas pra fazer, destinos a serem desencontrados. Vidas
destroçadas, vícios. Rio de sentimentos, energia desnecessariamente gasta. Carcaças
e mais carcaças, de almas rolando rua a baixo. Espíritos fluindo, alguns lentos,
outros rapidamente, descendo e subindo a rua. Manter-se lúcido, questão de
sobrevivência. O que tinha pra fazer faria. A vela de sete dias virada prioridade.
A queda de energia noite passada, apavorante noite. Era um escuro palpável, tão
intenso, como do Egito, e o faraó arrogante, coração de pedra. O medo de
escuro. Desejou ardentemente o amanhecer. A noite, com suas trevas alucinantes,
cercando a mente por todos os lados. A alma, ilha solitária de aflição. E se as
almas penadas dos parentes viessem pedir justiça?
Escorpiões, eles se reproduzem
aos milhares. Haveria milhares de irmãos daquele que havia matado no banheiro?
Imaginou a cena do filme “A Múmia”, milhares deles subindo na cama entrando
pela sua boca, ouvidos, narinas. Dizem que a escorpião mãe carrega os filhotes
no dorso. E, se escassear alimento para a prole, os filhotes devoram a própria mãe.
É da sua natureza. Na lenda da travessia do rio, ele vai preferir picar o
jabuti, mesmo, sendo aquele garantia de travessia segura.
Abriu o pão, passou maionese.
O descuido na hora de retornar a faca sobre o balcão da pia, e metade do pão
foi ao chão. Algo aqui esperado, segundo a lei do capitão ianque Edward Murphy:
a probabilidade, da parte untada cair, para baixo, dependia do peso da maionese
, da altura da queda, e da força gravitacional. Esses fatores aumentavam em
oitenta e um por cento as chances da fatia de pão cair emborcado. O que
realmente se concretizaria, o lado untado caiu para baixo.
Outro ditado popular entrou
na história, vindo lá da infância, caso ninguém estivesse olhando, apanharia. E
lá dentro da cabeça, uma voz diria: “não dê gosto ao cão!”. Alguém teria criado,
sem embasamento científico nenhum, a lei dos cinco segundos, que defende: “até
cinco segundos, tempo de tolerância para se apanhar um alimento que tenha caído
ao chão.” Uma rede de mentiras, não é igual a uma rede de intrigas. Muito menos
uma rede de internet, consegue o que uma rede de punhos, armada debaixo dum
telhado, é capaz de realizar. Um facão embainhado, um retrato de padre Cícero, uma
moldura cor vinho pendurado numa parede de taipa, enrugada.
Café com pão, não rima com
resignação. Pedidos de perdão, emporcalhados de outros pecados. O pequeníssimo furo
na porta do banheiro, produzido exclusivamente para brechar a empregada quando fosse tomar banho. A menina
do longo cabelo negro, de seios volumosos, o abuso. Lembrança que afundara sob
os lençóis. Lavados pelo tempo, voltariam, meio mundo de anos depois, a
assustarem ameaçadores como as fendas do inferno. Parecia reflexo de cobrança de valor para menos, desprezo
com relação aos demais, irmãos.
Uma tarde, uma noite, uma
manhã. O que levava, o que o motivava? Acordar, alguns dias as seis, ou as
quatro. Pensar, que dia seria aquele? Pouco importava. Sabia, não era sábado,
nem domingo. As bicicletas, muito mais felizes que ciclistas. Pensar, era fator
essencial para o deus Eros agir. A escadaria, o eco das vozes rebatendo nas
paredes. Os cheiros, perfume de gardênia. Lacívia.
A empregada, sentada num
banco, roendo as unhas. Pensando em nada. Pele morena, branco dos olhos. O
tocador de pífano, e suas vestes azuis. O chapéu de dançar guerreiro multicor,
a maquete de igrejinha na cabeça. O rosto, borrado de carvão. Lágrimas de suor.
As noites solitárias, andando a esmo. O restaurante aberto, ninguém as mesas. O
paliteiro, o porta-guardanapos, o frasco de azeite de oliva. Uma caravela, e um
pôr-do-sol, no biombo. Altemar Dutra a vitrola, bem ao fundo. A lua, a noite
triste, voltar pra casa. Uma certeza, um aperto no coração.

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